A mãe nunca quis ter animais. Estranho para quem sempre viveu ou cresceu rodeada deles. O avô sempre teve cães, alguns gatos, galinhas, perús, porcos, vacas, cabras, rolas, coelhos, pombos, patos,... sei lá, tantos que me perco.
De todos há um que ficou na história da família. Um perdigueiro que defendia a casa e era feroz, excelente na caça e amigo da família. Nunca o conheci. Ouvi as histórias desse brilhante cão que deu o nome a todos os outros que se seguiram.
Como disse, o Brilhante, assim se chamava, era ferocíssimo. Quando a mãe nasceu não podia entrar em casa. Um dia estava a avó na cozinha a preparar o almoço e o avô na biblioteca a trabalhar, a mãe chora no andar de cima. Subitamente cala-se. Os avós largam tudo porque haviam sentido que o Brilhante tinha entrado e subido. Chegando ao quarto onde estava o berço da mãe deparam-se com uma cena digna de fotografia. O Brilhante, com as patas dianteiras em cima do berço, balançava-o, olhava para a mãe que se ria. Desde então criou-se um laço estreito entre o cão feroz e a mãe. Os tios nasceram e o cão brincava com eles. Ainda hoje falam das famosas escondidinhas em que o Brilhante era imbatível. O Brilhante envelheceu, ficou cego, e o avô decidiu que chegava levando o cão para o descanso merecido. A mãe, ao chegar a casa e não vendo o Brilhante, soube de imediato o que se tinha passado. Disse que não queria mais animais, que não gostava de cães.
Anos mais tarde eu e a mana, que éramos recebidos, cada vez que visitávamos os avós, com correrias infernais pelos Brilhantes que fomos conhecendo, pedíamos insistentemente um cão. A mãe dizia, Não! Não temos casa para um cão e não gosto de cães.
Um dia de temporal desfeito o pai entra em casa com uma cadela, coleira vermelha e olhar vivaço, pequena ainda, disse que a tinha encontrado para convencer a mãe, mas a cadela vinha seca e limpa apesar do temporal que caía sobre a cidade.
Fez o teatro todo, anúncios nos jornais e nas lojas da vizinhança, logicamente o dono nunca apareceu e a mãe não teve coragem de dar a cadela. A minha irmã baptizou-a, um nome horrível, mas as crianças têm disto.
A mãe nunca se deixou afeiçoar à D.. Dizia ao pai, encontraste-a, tomas tu conta dela!. Ao contrário do Brilhante, a D. era meiga com toda a gente, tinha um único objectivo. Lamber as orelhas dos desconhecidos que apareciam lá em casa. Quando tocavam à campaínha fincava as patas no terraço como que a ganhar forças, e quando a visita entrava, corria veloz através da sala até à entrada e atirava-se ao pescoço numa tentativa de lamber as orelhas do desconhecido e para grande susto da visita.
A D. não ladrava, nunca a ouvi ladrar, parecia que falava. Articulava sons estranho que não consigo descrever em diferentes tons dependendo do que nos queria pedir. Entendia muitas palavras: banho, casota, rua, passear, comidita, menina feia,... quando ouvia o barulho das chaves ou via alguém vestir o casaco, aparecia com a trela na boca, quando se dizia o nome de algum de nós, ia ter com a pessoa.
Era irrequieta, fazia muitas asneiras. Não tendo permissão para entrar nos quartos, satisfazia-se desfazendo as camas, depois lá vinha ela a rastejar pela sala, pensava que assim passava despercebida.
Numa noite de S. João umas quantas sardinhas ficaram por assar. O meu pai deixou-as dentro de uma bacia azul em cima do tanque. A D. não chegaria ali. Noite passada, entrando em casa, restos de sardinha por todo o lado, uma cadela lambuzada depois de um festim de dezenas de sardinhas cruas e um cheiro que tardou um par de dias a desaparecer.
Como o Brilhante, também a D. envelheceu, cheia de tumores nas maminhas, já perto do fim, fazia punções diárias para tirar todo o líquido que a deformava e fazia sofrer. Nesta fase, após tantos anos, a mãe afeiçoou-se à D.. Começou a dar-lhe mimos, muitos, festas, FESTAS, a mãe que também dizia que o pêlo dos animais lhe fazia impressão. Até ao dia em que a irmã levou a D. a mais uma punção e ali mesmo, segundo o conselho do veterinário, disse: Já chega!
Entrou em casa sem a D. e meteu-se no quarto. A mãe, que dizia que não se chora por animais, pôs o jantar na mesa com os olhos vermelhos e inchados e durante dois anos não falou na D. nem no Brilhante.
Hoje continua a dizer Não quero cães, não gosto de animais e não temos casa para isso.
O pai contenta-se com peixes, bicos-de-lacre, canários, uma arara, duas tartarugas e o grilo comprado anualmente na feira da festa da Sra da Lapa, mas nada de mamíferos, afinal é a mãe quem usa as calças e o pai continua a ser a criança que quer ter um cão.
Imagino que esta história não vos interesse muito mas hoje lembrei-me dos animais que fizeram parte da minha vida e sorri ao lembrar-me das alegrias que me deram. E tenho pena, muita mesmo, de não ter vida que me permita acolher um.