quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Feliz 2008!

Hoje é, provavelmente, a última vez que escrevo aqui algo este ano. Amanhã chega a cara metade com quem espero passar uma semana excelente.
O balanço do ano que agora termina é muito positivo, como fui dando a conhecer neste meu primeiro ano de "bloguices". Foi bom conhecer gente nova, matar os meus fantasmas, voltar a fazer o que mais gosto. Acima de tudo, reencontrei-me quando enterrei os meus fantasmas e comecei a ajudar os outros. Posso afirmar que 2007 foi um dos melhores anos da minha vida e todos vós fizestes parte dele.
2008 será um ano de mudança, um ano de novos projectos. Mas a vida é isto mesmo, mudar. Não é nas águas estagnadas que se encontra a vida.
Por isso, e com a base e confiança que 2007 me deu, parto para 2008 de braços abertos.
E é com estes braços bem abertos e um sorriso bem rasgado que vos desejo um ano de 2008 melhor e muito feliz.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Natal


Há cerca de dois mil anos nasceu um menino que veio mudar o mundo.

Podemos acreditar ou não neste menino que nasceu.

Este menino revolucionou o mundo de então, fez frente aos poderes instituídos e pôs em causa, com as suas ideias e ensinamentos, a ordem então estabelecida que se definia na diferença de classes.

Como já Malaquias havia dito : "Mas quem poderá suportar o dia da sua vinda, resistir quando Ele aparecer? Porque Ele é como o fogo fundidor."

E é neste mistério, abraçado por crentes e não crentes, que nos unimos neste fogo fundidor.

É através desta bela história milenar, que ainda hoje nos lembramos de falar com amigos esquecidos, que recordamos os amigos idos, que temos uma palavra e um gesto para aqueles que a vida espezinhou.

Acredito que hoje se celebra o milagre da vida e que o Natal não é, nem pode ser todos os dias porque a vida não é banal.

Jesus, sendo Ele filho de Deus ou não, tendo sido concebido e gerado numa virgem ou não, foi esse fogo fundidor como o disse Malaquias.

Para mim foi um Homem bom, que eu admiro profundamente e que me serve de exemplo. Divino ou humano, Divino e humano, não me interessa.

Faz-me sorrir, acreditar no que é bom.

Perdi uma avó este ano, perdi um amigo e hoje sinto a falta deles, mas não estou triste porque hoje é Natal e recordo com muita ternura os Natais na quinta e os doces da avó.

E por muito ruído que haja, todo o consumismo do mundo moderno, sentar-me-ei à mesa com a família e recordaremos as histórias dos que já não estão.

Olho então para o presépio. Vejo este menino pobre, recém nascido que veio mudar o mundo para melhor. Vejo este fogo que nos funde nesta noite, em que as diferenças se atenuam e as dificuldades se vencem como disse Isaías: "Os vales serão elevados, montes e colinas serão abaixados, os cumes aplanados e as escarpas niveladas."

Respeito quem acredita no menino Deus. Respeito quem não acredita. Eu mesmo, não sei bem onde me situo.

Acredito que hoje, nesta vigília do Natal, o fogo deste menino ainda nos une e nos torna melhores porque tendemos a esquecer os momentos difíceis e a desculpar os que nos magoaram.

Porque hoje celebro a vida, a tua, a dos que estão comigo, a dos que não estão, a dos que já estiveram, e, acima de tudo, se me permites, a minha.

Por isso aqui vos deixo os meus votos de um Santo Natal, e, mesmo podendo ser banal, desejo-vos saúde, paz e amor.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

O concerto e as Cangalheiras

Quinta-feira tive o meu primeiro concerto desta época festiva. Pensei não ter corrido muito bem. No fim do concerto as vozes do coro estavam cansadas, havendo passagens que sairam longe daquilo que eu desejaria. No entanto, a opinião dos presentes, incluindo amigos honestos e despretensiosos, foi que o concerto correu bastante bem, o que me deixou muito feliz.

Claro, logo pensei no que já há muito penso. Nos estranhos vícios de quem estuda e analisa música. De facto, acredito que, normalmente, não são os músicos os que mais disfrutam com um concerto. O seu ouvido educado, sensibilizado para a mais pequena desafinação e diferentes técnicas, leva-os a ouvir os concertos de uma forma demasiado cítica e buscando os erros. Focam-se demasiado no tocar música deixando de lado o ser capaz de fazer música, pois a técnica não aceita erros mas poder-se-á tornar numa música fria sem emoção como um robot que vi há coisa de duas semanas no noticiário da BBC a tocar Pompa e Circunstância de Elgar em violino sem um único erro, mas extremamente chato.

Isto para dizer que acho que se fez música, boa música e que as pessoas sairam felizes e revigoradas.

Sexta-feira, pela manhã bem cedo, parti rumo à capital onde não ia com tempo há um bom par de anos. Visitar colegas de longa data, jantar com os velhos colegas do estaminé, seguido de docas e Lux, numa noite que acabou às sete da manhã.

Os meus planos para sábado foram ligeiramente alterados. Tinha pensado comprar determinadas coisas para as Cangalheiras do Apocalipse, mas os planos sairam-me furados devido a ter acordado tarde e a não ter grande disposição para andar às compras na normal confusão que antecede o Natal. Sendo assim, o meu lado preguiçoso levou-me até ao Ritz, onde, sem confusões, comprei umas belíssimas caixas de chocolates porque nunca gostei de dar o que não gosto de receber, ou seja, porque acho que devo oferecer o que realmente gosto.

Regressei ao hotel para uma sesta e onde às vinte horas a minha amiga Famosa me foi buscar para ir conhecer outras duas cangalheiras, num jantar já há muito programado.

Claro, a minha amiga Famosa, devido a não saber segurar na mangueira, fez com que, pelo caminho, levasse um banho de gasóleo. Chegados ao restaurante, sentámo-nos à espera da Letrada e da Excomungada (que chegaram por ordem inversa), dado que a Emigra, infelizmente, não pôde comparecer.

As minhas expectativas sairam completamente acertadas e o jantar correu lindamente, perfeito diria eu, não fosse o sujeito que martelava num piano o mais variadíssimo repertório, com fabulosas variações que tornavam as famosas melodias irreconhecíveis. Gostei imenso dos presentes trocados, fiquei pasmado com as qualidades do Excomungado, e muito curioso com o livro oferecido pela Letrada.

Mais tarde, ainda pensando neste belo jantar, dei a mão à palmatória, eu que pensava que a blogosfera não serviria para conhecer pessoas. Ali à mesa estavam sentadas quatro pessoas, todas muito diferentes umas das outras, que dificilmente se viriam e conhecer, não fosse este estranho mundo dos blogues (excepção feita à Famosa, amiga de longa data).

A Letrada, fruto de uma vida social intensa, não deixa a conversa esmorecer e tem sempre alguma história divertida a contar. A Excomungada, atenta e extremamente perspicaz, mais ouvinte que contadora de histórias, mas sempre com comentários pertinentes no momento certo. A Famosa, natural conversadora, sem problemas em abrir o coração e expôr alegrias e tristezas, corajosa e olhando sempre em frente...
E as três tão diferentes, tão simpáticas e interessantes tornaram o jantar muito agradável, que as horas foram voando até bem depois da uma da manhã.

No dia seguinte, a amiga Famosa, foi-me buscar ao hotel, oferencendo-me almoço e lanche, enquanto eu me deliciava com a Maria Albertina até ao meu ataque de alergia.

Cheguei ao comboio e dormi até Coimbra para me preparar para mais uma semana de ensaios e concertos.

Para trás ficou um fim de semana interessante em que pus cara a quem até então só conhecia através deste mundo estranho que nos une através da rede.

E não fiquei desapontado.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Concerto


E ao fim de quase dois anos, terei outra vez à minha frente um pequeno ensemble a interpretar peças desde Pedro de Cristo até Carrapatoso no meu querido Porto.


E assim vale a pena todo o trabalho e falta de horas de sono desta semana.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Respeito e censura


Se há coisas que aprendi com o tempo, foi a não deixar-me chatear com o que não merece.

E há algumas histórias que se não fossem para chorar, me fariam rir. Quer dizer, ainda fazem...

Acho fabuloso a facilidade com que as pessoas falam umas das outras sem se conhecerem. Fazem juízos de valor e julgam com uma facilidade, mostrando factos tirados daqui e dali, mas sem terem, realmente, estudado o que comentam, e mostrando uma superficialidade nos seus comentários que me assusta. Porque acima da liberdade de expressão, está, para mim, o direito ao respeito e à dignidade, dignidade essa que é o lema do meu canto, justificando por si só a minha gestão do espaço.

Há quem não concorde com a minha opinião. Muito bem, se fundamentado. Vejo um mundo com os olhos selectivos, onde quero exaltar o que há de bom. A vida assim mo ensinou e deu-me muito por acreditar. Terei ficado um romântico? Sim,... posso até ter uma visão romântica do mundo, apesar de me achar bastante analítico (uma crítica que me fazem muito regularmente). Há pessoas que me chegam a chamar cerebral. Não sei porque será. Talvez uma defesa que usei muitos anos para esconder as emoções e não sofrer que terá deixado algumas sequelas.

Amo o meu país, amo a minha língua tal e qual ela é, respeito a minha integridade e não fujo aos meus princípios.

Sempre fui educado com respeito e fui respeitado em casa. E é esse respeito que devo a toda a gente que me rodeia. Quem não me respeita, merece ainda o meu respeito mas não merece o meu tempo.

Seja Português ou não, fale a língua de Camões, de Pessoa, de Saramago, de Amado ou de Mia Couto, de Pepetela ou Arménio Vieira, ou fale outra qualquer língua, merece igual respeito.


Não respeito é insultos gratuitos, nem tenho que conviver com opiniões das quais discordo. E por gostar de educação, de sensibilidade, de bom senso e acima de tudo de argumentos construtivos, por tolerar diferenças culturais e acima de tudo, por defender a diversidade, não posso tolerar, num espaço que é meu, discussões absurdas em que a razão não aparece e se exponenciam divergências. E antes de qualquer censura, censurada por outros, dei a minha explicação aos visados. Uns agradeceram, outros entenderam e isso basta-me.


Posso até viver longe do meu país, mas sei o que nele se passa. Leio os jornais portugueses, mas também os outros, e por, felizmente, ter vivido em Madrid e viver em Londres, onde impera o mau jornalismo, aprendi a separar o trigo do joio.


Quanto ao meu país, como já o disse, tenho uma visão isenta, de quem vê o que se diz cá dentro e o que se diz lá fora. E venho cá todos os meses.


E apesar da muita estupidez que se vê por aí, continuo a acreditar nas suas gentes, na sua cultura e na sua abertura. Sem manipulações da imprensa sensacionalista e sem o pessimismo generalizado dos demais. Acredito que temos que gastar as nossas energias onde relamente vale a pena. Aos demais, que sejam felizes.


Serei romântico? Creio que não.


Sou unicamente fiel aos meus princípios.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Natal Feliz!



Lembram-se de quando vos disse que há muito não sinto o Natal como quando era criança? Pois não sei porquê, este ano estou feliz porque é Natal.

Não sei se foi por ter cá os pais Melões, e ter passeado com eles pelas ruas de Londres debaixo de temporais de frio, chuva e vento, ou se foi por ter ido com eles até a Somerset House e ter patinado no gelo com o pai Melão, ou se foi por ter ido a Covent Garden com os papás e la ter bebido um Mulled Wine acompanhado the Mince pies (ou municipais como o pai Melão bem lhes chama). Pode até ter sido passear por Oxford St, Bond St e Regent St no sábado sem carros em que um milhão de pessoas desceu ao West End enquanto se ouviam as mais famosas Christmas Carols pelos mais diversos grupos, às portas dos grandes armazéns da cidade.

Também pode ter sido pelas festas de Natal. A do estaminé, em que ganhei um perú que canta o “Jingle Bells”, ou a do Hospital com os meus meninos. Ou os concertos de Natal, aqui e ali. Ou mesmo preparar os concertos de Natal para a próxima semana no meu adorado Porto, e estudar as partituras e maravilhar-me com as pérolas dos cancioneiros portugueses.

Outra razão poderá ser a possível ida da Cara Metade para Portugal, onde recebeu uma excelente oferta de trabalho e que vem fazer com que os planos, aqueles que tinham ido pelo cano, ganhem ainda mais força; ou saber que amanhão vou até ao Meloal onde passarei quase um mês com família e amigos, e onde os jantares, almoços, cafés e copos, se amontoam e ocupam a minha agenda...

Não sei se será por isto, ou porque simplesmente ando feliz, feliz comigo e feliz com o mundo.

Feliz porque acredito que não há más pessoas. Feliz porque este ano conheci exemplos de bravura. Feliz porque me atirei a projectos que há muito queria fazer.

Feliz porque vejo os meus meninos de sorriso rasgado.
Feliz porque vejo um olhar de orgulho e despreocupado e uma alegria imensa nos meus pais.

Acima de tudo, feliz porque não esperei pelo Natal para fazer as coisas que queria, e em resposta ele deixou-me sentir a magia.

Feliz porque sou eu, porque estou aqui e porque recebi muito mais do que o que dei.

Feliz porque o guerreiro nasceu de novo. Feliz porque é o meu Natal!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Assim vai o meloal

Quando olho para o meu país não sei se ria ou se chore. Gosto do meu país e pensava gostar das suas gentes.
Individualmente, continuo a achar que somos o povo dos brandos costumes, tolerantes e hospitaleiros.
Mas socialmente, o país desilude-me e envergonha-me.
Desilude-me o pessimismo e saudosismo. O dizer mal e viver de memórias do passado.
Só que estas memórias são selectivas e curtas porque hoje se vive melhor do que há vinte anos.

Cada dia me irrita mais ler jornais portugueses. E um morto aqui, outro ali, uma bomba que explode.
A criminalidade aumenta e a culpa é do Brasileiro.

Ainda estou para descobrir de onde vem este novo ódio dos Portugueses pelos Brasileiros.
É um ódio estranho, dado que metade dos Portugueses já foram passar férias ao Brasil e apoiaram a selecção brasileira nos mundiais de futebol, quando portugal já estava fora de jogo.

Sei que há comentadores do outro lado do Atlântico que deixaram de comentar neste canto por abusos tão somente porque são brasileiros.

Mas se há coisa que não admito em nenhum lado é intolerância, muito menos neste blog. Intolerância alimentada pela imprensa de TVIs, Portugal Diários e afins e por uma ignorância de bradar aos céus.

Sim, porque quando um crime é cometido por um Português, não se refere a nacionalidade. Mas se é um Brasileiro, logo se dirá que “um Brasileiro matou, roubou,...”
Provavelmente se um Português roubou, nem terá direito a ocupar um lugar nos jornais.

E quando olho para os jornais ingleses, faço pesquisas na internet, verifico que Portugal ainda é considerado um dos últimos paraísos na terra, com muito baixa criminalidade, mesmo comparando com países desenvolvidos com os quais nos gostamos de comparar. Estranhamente, no último relatório da União Europeia sobre a criminalidade, os Portugueses são os que têm mais medo, mas os que têm a mais baixa taxa de criminalidade!

Se há crimes em Portugal? Claro que há. Se estes aumentaram? Claro que sim, e é preciso pôr travão. Mas não é necessário arranjar um bode expiatório no Brasileiro que atravessou o Atlântico em busca de um mundo melhor porque a maioria dos crimes são cometidos por Portugueses.

Porque o Português é ladrão sem o reconhecer. Rouba o país quando compra imitições de marcas, quando pede sem factura para não pagar o IVA, quando mente na declaração da renda, rouba tanto, que se rouba o direito de ter um orçamento digno para fazer as reformas que o país necessita e tornar o país ainda melhor naquilo que até hoje soube fazer:
Acolher sem medos e sem rancores. Receber de braços abertos e sorrir para o mundo.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Quase um ano!... e planos pelo cano!

Ontem a Cara-Metade-Mais-Que-Tudo notificou-me que tem que ir para as Canárias por tempo indeterminado, até encontrar um novo director para um resort, já que a directora actual se demitiu.
Quem não ficou muito contente com a ideia foi o Melões porque:
- as Canárias estão a mais de quatro horas de vôo de Londres;
- não há vôos diários;
- são umas ilhas que até podem ter sido bonitas, mas hoje estão sobre-exploradas;
- não é um destino onde o Melões possa ir em negócios;
- não é um destino onde o Melões possa ir por um fim de semana.

Enfim, quando pensava que as coisas se começavam a encaixar, mais uma contrariedade, e o que se estava a começar a planear fica adiado por mais uns meses, até a que se encontre um director para o resort das Canárias!

A Cara-Metade-Mais-Que-Tudo não gostou muito da reacção do Melões porque cá o Melões não tem sangue de barata e disse talvez o que não devia. Mas ver planos a ir pelo cano, adiar ainda mais o que se quer resolver, deixa-me a rosnar baixinho e a morder quem quer que se aproxime.

A Cara-Metade-Mais-Que-Tudo lá telefonou hoje umas dez vezes para ver se já não mordo tanto e para assegurar que será no máximo seis meses, mas pode ser duas ou três semanas. Mas claro está, o Melões ouve seis meses e sai mais uma ferradela telefónica!

Agora, condenado a ir passar o fim de ano às Canárias, no meio de nórdicos e britânicos pé de chinelo!

Felizmente hoje chegam os papás e Sábado é o aniversário do pai Melão (e do primeiro post deste blog).

Foi um ano curioso em que o blog ganhou vida própria e se tornou num dos grandes companheiros do Melões.

Como os papás estarão por cá, não penso escrever nada nesse dia, de qualquer forma aqui fica o apontamento de que não me esqueci de quando escrevi o meu primeiro post que transcrevo aqui porque após um ano continua a ter o mesmo significado:

"Nao é que goste muito destes sentimentalismos, ou mesmo de viver o passado e recordar memórias.
Mas hoje o Melões não pode esquecer 2 acontecimentos que marcam a sua vida.
- o aniversário do pai;
- o dia internacional da luta contra a sida.

Se o primeiro me deixa feliz, mais feliz me deixa o segundo, porque, a cada dia que passa, acredito que estamos cada vez mais próximos do fim...
Houve alturas em que sofria neste dia... eram demasiadas notícias negras, fatalistas, números trágicos e fotos sensacionalistas em todos os jornais da terrinha...
Talvez continuem as notícias sobre a peste, o fim do mundo, a calamidade, mas vejo as coisas de outra forma e não é concerteza por pena que me vou deixar abalar.

Acho que sou forte para levar tareias e não são noticias deste género que me vão deitar abaixo, nunca... sobrevivi a notícias piores, talvez mais pessoais e sinceramente a minha mensagem neste dia é desejar muitas felicidades para:
- o meu pai - porque é o seu aniversário;
- todos aqueles que convivem com o HIV - porque é possivel "seguir adelante" e de certeza que é muito mais dificil viver com uma Cara Metade chata a moer o juizo todos os dias.

E a música vai soando, instrumentos entrando e saindo de cena até à apoteose final"

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O Báltico

Se pudesse multiplicava o tempo. Fazia os dias com quarenta e oito horas.
Estive uns dias fora, a voar de Londres para Vilnius, de Vilnius para Tallinn, de Tallinn para Riga, de Riga para Tallinn, de Tallinn para Riga (não é repetição, foi mesmo assim) e de Riga para Londres.

Tentar acomodar passeios pelas capitais do Báltico entre reuniões.
Descobrir que o Grande Palace Hotel em Riga não tinha água.
Quase perder o nariz nas temperaturas que lutavam para chegar a zero.
Lidar com gente que não fala nenhum dos idiomas que sei falar.
Recusar serviços de "acompanhamento” oferecidos na rua – e em relação a estes conto uma história.
- Um sujeito em Riga vê-me chegar ao hotel e pergunta-me de onde sou. Português, respondo. Ao que o sujeito me atira a seguinte frase tal como a transcrevo: “- Quer uma mulher boa para f*der esta noite?”
Lidar com dias curtos e quase sem luz.
Deliciar-me com a boa cozinha do Báltico, os doces e os queijos!
Maravilhar-me com a arquitectura destes países, com as cidades medievais totalmente reconstruídas e cheias de vida, que me trazem a amarga recordação de como o nosso país falhou ao limpar e fazer renascer o centro do meu amado Porto quando recebeu os fundos de coesão da União Europeia.
Ouvir nas rádios dos táxis músicas esquecidas e levadas pelo tempo como o “Tema de Lara” do “Dr Jivago” ou o tema de “Song of Love”.

Mas muito ficou por fazer:
- ir a S. Petersburgo e Helsínquia;
- ver um concerto no fabuloso teatro de Riga;
- jantar no Fellini em Riga;
- subir á Torre do Old City Hall em Tallinn;
- visitar Jurmala;
- percorrer as recuperadas muralhas de Vilnius;...

E com tanta coisa, relatórios por fazer, trabalho de uma semana acumulado, visita dos papás dentro de uns dias, publicar um research, o meu canto e os que aqui vêm não recebem a atenção que merecem.

Quanto ao Báltico, espero lá regressar um dia e ter tempo para o que ficou a fazer – e claro, no Verão.

Por agora resta-me aliviar a carga de trabalho para vos visitar e pôr os meus papéis em dia.

sábado, 17 de novembro de 2007

O Guerreiro declara Paz!


Sei que ainda estamos em Novembro e faltam precisamente quarenta e quatro dias para o fim do ano.

Sei como é arriscado fazer balanços de anos por terminar, mas esta noite, dei por mim a fazer o balanço do último ano e senti-me em Paz.

Em paz comigo e com o mundo.

Foi um ano cheio de emoções. Histórias bonitas e menos bonitas. Houve nascimentos e mortes, a grande boda e momentos difíceis.

Acima de tudo, não faltou trabalho, muito que ainda segue. Sim, continuo afogado em trabalho, e no fim deste ano, não sei se Canto de Cisne, aparece por todos os lados.

- No estaminé, condenado a desaparecer, o trabalho cresce, bem como as responsabilidades, um ano a viajar, a organizar conferências aqui e ali, a opinar.
- Na música, os convites, convites para compôr, para dirigir, para cantar…
- No hospital, os novos grupos de trabalho, os doentes em fase terminal, as crianças esquecidas.
- A Cara Metade Mais Que Tudo com novos projectos, aqui e ali que começam a tomar forma…
…e uma vida dividida entre Londres, Madrid e Porto.

Mas, acima de tudo, reconhecimento… reconhecimento não só traduzido em promoção, aumento e bonus, mas também em distinção.

Um reconhecimento público, no estaminé, pelo trabalho feito, pelo apoio dado aos mais novos, pelo trabalho social.
E esta gente, normalmente tão parca em palavras, excedeu-se nos comentários que me puseram aquele brilho nos olhos.
Pareciam as palavras de uma mãe que não vê os defeitos dos filhos. Senti-me querido por todos, e nunca, mas nunca, fiz o meu trabalho para isto. Mas porque gosto de fazer bem, e porque creio profundamente que se não ajudar os outros a melhorar no seu trabalho, não me ajudo a mim.

Pode realmente ser o Canto do Cisne, porque não sei o que o futuro me guarda, mas este ano, depois de passar uma noite sem dormir a reflectir na vida, foi o ano em que olhei para trás e disse:


“Guerreiro, esta Guerra já não é a tua. Venceste finalmente a tua guerra pessoal, e os medos, ansiedades do passado já não estão!
Guerreiro, começaste esta luta como um perdedor, mas finalmente venceste!”

E a pergunta – porquê eu o afortunado? – que me fui pondo durante estes anos, deixou de fazer sentido - Qual o meu papel? – e não há resposta.
A resposta foi olhar à volta e vêr que o mundo que me rodeia é belo, e sou feliz, tenho amigos, tenho amor e tenho a consciência tranquila do dever cumprido. E acima de tudo, apesar de nunca esquecido, tenho o meu “Longo Inverno” passado.

Sim, é Primavera!

E a quem quer que me tenha dado uma segunda oportunidade, aos que caminharam comigo lado a lado até aqui, aos que me fizeram acordar, aos que lutaram comigo, muito obrigado.

Quanto ao Guerreiro, continuará a sua luta, já não com os fantasmas do passado, não consigo, mas lutará por aqueles que precisam porque um dia precisou, e não há nada pior do que ingratidão.

Mas hoje o Guerreiro está em paz!

terça-feira, 13 de novembro de 2007

A Cara Metade Mais Que Tudo

Um bar de um hotel em Madrid. Escuro lá fora. Dentro o glamour e gente bonita.

Era o fim de uma vida em Madrid. Sabia-o porque nesse dia tinha assinado um contrato de trabalho em Paris para onde iria no novo ano que já espreitava.

Os olhares tímidos já se tinham cruzado aqui e além, mas sem grande importância. Só uma curiosidade de quem, há muito, se proibira sentir.

Primeiro vem a irmã. Ignoro a conversa porque não quero dar-me a oportunidade.

Mais umas voltas, mais uns olhares.

Regressa a irmã e pergunta se depois do cocktail não quero ir dar uma volta. Estou com gente – digo eu – devemos ir ali.

E quando chego, lá estão.

Ainda me lembro da camisola vermelha, do sorriso e da conversa longa até as seis da manhã, já numa discoteca de Madrid. E Paris dali a mês e meio.

Não acreditava em nada daquilo. Quando saímos, dissemos – Até amanhã.

No dia seguinte só pensava nessa noite, no café. Não sabia se ia estar ou não. Nunca se sabe. Queria muito que não mas desejava que sim. Havia algo que começava a mudar lentamente. Uma curiosidade cada vez maior.

E naquele café de Madrid tocámos as mãos pela primeira vez. A conversa fluiu até fechar o café. Continuou do lado de fora. Mais tarde veio o silêncio. Ficámos ali a olhar um para o outro numa praça deserta de Madrid. Digo outra vez – Até amanhã.

E, de repente, de um olhar num bar de hotel, de um café em Madrid, e apesar de Paris ali ao lado, passo a passo, se foi construindo o que, então, não procurava.

Mas o calendário marca hoje três anos sobre esse primeiro olhar, e ao lembrar-me desses primeiros dias, fico, na cara, com “la sonreísa tonta de los enamorados”.

domingo, 11 de novembro de 2007

Crianças



Ontem fui conhecer um novo grupo de trabalho.

Primeiro lançaram-me um olhar a medo. Depois foram-se aproximando. Ao fim da tarde riam, puxavam-me a camisola e escondiam-se. Atiravam-se sem medo e faziam-me cócegas.

São crianças. E talvez porque sejam crianças, mantêm o olhar vivaço e o sorriso de quem acredita que tem uma vida pela frente.

Mesmo sabendo que não é assim, consegui esquecer-me do estado delas e passei uma tarde de brincadeira e alegria numa enfermaria pediátrica de infecto-contagiosas.

Estranhamente, saí de lá revigorado e não esgotado, como havia imaginado.

E estas crianças que levam tareia da vida ensinaram-me tanto… não se queixam, não se choram…

…mas se há duas coisas que não combinam são crianças e doença.
PS – se alguém conhecer textos ou livros sobre voluntariado ou como lidar com crianças doentes e em fase terminal, por favor deixe sugestão – ou na caixa de comentários ou na caixa de correio electrónico – Obrigado.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Saudade

Há dias em que sinto falta do meu canto e em que poderia passar horas a olhar para a velha aldeia metrópole, cidade ao abandono, quando o abandono são feridas, feridas que não queremos ver e por onde se esvai o sangue que a fez grande um dia.


sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Todos os Santos




Finalmente chega sexta-feira e com este dia chega um fim de semana de descanso. Não há atrasos nos vôos. Aterro em Londres meia-hora antes do previsto. A caminho de casa decido passar pelo hospital.

Não está, já não está desde ontem.

Ao perder o contacto com o mundo com duas semanas de trabalho, falhei em apoiar quem contava comigo.

Não estou triste porque morreu, porque me preparei para isso, porque o sabia, porque ele o queria. Mas estou revoltado e irritado. Revoltado com o mundo que o esqueceu e abandonou e irritado pelo cansaço que não ajuda.

Estou zangado comigo porque o deixei morrer sozinho, mesmo quando soube que perguntou por mim.
Ironicamente, morreu no dia em que o mundo Cristão celebra Todos os Santos, os proclamados e os outros – Irónico, sendo ele um dos que são proclamados pecadores.

Não sei se foi bom ou mau, se fez sofrer ou deu felicidade.
Sei simplesmente que falhei comigo e falhei com ele.



Sei que morreu por amar e por amar, morreu.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Outra vez o tempo

Enquanto os Portugueses em geral estão de papo para o ar, a gozar um feriado ou uma ponte bem merecida, eu aqui sigo na minha labuta diária.

Já não sei o que é descansar há duas semanas – sem fins de semana, sem horas de sono, este tempo tem sido complicado.

Liga-me a Cila para mandar vir e desabafar por causa da quantidade de trabalho e leva com o meu relambório, que quando o trabalho aperta parece que ando sob o efeito de speeds; mas isto de estar no estaminé das 7h às 2h tem muito que se lhe diga. Claro, primeiro umas olheiras até ao chão, e depois um humor, que o melhor é não falarem comigo, senão vai resposta torta.

Mas o pior de tudo é a falta de tempo, sem tempo para falar com a Cara Metade, despachar os Papás, não responder aos emails ou comentar posts, nem sequer mostrar o meu apreço pela nossa nova Sprofetora da Blogosfera.

Acima de tudo, não tenho ido ver o John que ontem perguntou por mim e que está mal. Vá lá, o médico disse que o John não chegava a Novembro, mas já cá estamos, e ele connosco.

Para terminar a semana em beleza, amanhã acordar outra vez com as galinhas, ir para o aeroporto, daí para Amesterdão, reunião, comboio para Bruxelas, reunião e regresso a Londres.

Tudo em nome so sacrossanto trabalho que me põe comida na mesa e me paga a renda, mas há já duas semanas que não me deixa estar com amigos, telefornar-lhes ou responder-lhes aos comentários e e-mails como bem merecem.

No meio disto tudo, além da nossa nova Doutora, que por si só é uma excelente notícia, recebi um convite para dirigir uns concertos em Portugal já em Dezembro. Vamos lá ver se consigo um tempinho, porque se tiver que continuar a passar os fins de semana a ter que ir ao rectângulo por razões de trabalho, mas o trabalho for a música, então, podem ter a certeza que o trabalho em excesso não me deixará de mau feitio ou a responder torto e morder quem quer que se aproxime.

Tenho que conseguir este tempo porque tenho saudades de fazer música a sério.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Livros

A Amigona lançou-me este desafio.
Não lhe vejo grande interesse (ao desafio), apesar de me despertar curiosidade. Gosto de saber o que as pessoas lêem, apesar de uma frase fora do contexto, pouco dizer do livro ou do autor.

Por acaso, ontem uma colega do estaminé devolveu-me um livro que lhe tinha emprestado há mais de um ano. Está aqui ao meu lado. Chama-se The Music of Chance e é de um dos meus autores preferidos da actualidade – Paul Auster.

Tenho que escrever aqui a quinta frase completa da página 161 que reza assim:
“What difference would it make if he had still been alive?”
Frase curta, directa e sem a magia dos livros de Auster.

O livro é bastante bom, recomendo-o.

Deveria passar o desafio a cinco pessoas – fica aqui o desafio a todos os que, ou porque quiseram ou por um mero acaso, vieram aqui cair.

sábado, 27 de outubro de 2007

O John

Há algumas coisas que me aborrecem. Mas que me aborrecem até ao limite.

Há uns meses conheci o John*. O John é seropositivo há vinte anos e perdeu o parceiro para a mesma doença. Está internado num hospital Londrino e pertence a um grupo de estudo de doentes em fase terminal.


O John tem o aspecto que imaginamos de um doente de SIDA. Nos seus quase sessenta anos, pareceria ter noventa, não fosse o brilho dos olhos. Mas o rosto encovado, a falta de cabelo e pelo, os tumores pelo corpo bem como a lipodistrofia, e uma magreza assustadora, não nos deixa esquecer que o John está mal e não estará muito tempo. É um homem inteligente e culto, com um sentido de humor e uma ironia excepcionais.


Ri-se da vida e da doença. Infelizmente, é um dos raros casos em que os tratamentos não actuam. Cada vez que surge um novo tratamento, muda e melhora durante uns seis meses, mas logo o virus ganha resistência ao medicamento e neste momento não há tratamento no mercado que lhe valha.

Como o hospital é ao lado de minha casa, e porque eu tenho que fazer uns controlos de sangue regularmente, cada vez que vou ao hospital, visito o John. Já não tem pais e passa o dia sozinho. Barafusta e tal porque diz que o quero matar porque levo virus comigo, quando até a propria água que o John bebe é fervida para evitar qualquer infecção. Mas logo fala, fala, conta-me a vida dele, as experiências, a frustação...

Finalmente esta semana percebi o porquê da frustação. Ao falar com o médico que segue o caso do John, apercebi-me que as coisas não estão fáceis. Há medicamentos em fase experimental, inibidores de fusão, e o bem recente “splicing” (não sei qual o nome em Português).

Estes tratamentos não estão aprovados nem podem ser administrados porque não são conhecidos todos os efeitos secundários, no entanto sabe-se que não matam em dois dias. No entanto o John, apoiado pelo médico, queria experimentá-los, mas não pode... estes tratamentos podem aumentar seriamente o nível de gordura no sangue e levar a sérios problemas cardíacos...

Agora expliquem-me uma coisa, se um deles impede que o virus se funda com as células doentes e o outro impede que o virus se multiplique, garantir-se-ia que a doença do John parasse exactamente onde está, OK, com mais colesterol e tal, e outros efeitos que o podem matar daqui a cinco ou seis anos, ou nunca, porque não se conhecem; mas porque o podem fazer, não podem ser administrados, e o John continua a tomar os seus trinta comprimidos diários e à espera que um dia que o vá visitar leve comigo um viruseco qualquer que o mate.
Não deveria ele poder escolher? Bolas, é muito diferente dizer a alguém que morre amanhã, ou que pode morrer daqui a cinco ou seis anos, ou talvez mais,...

Mas claro, os novos medicamentos demoram sempre três anos ou mais a ser aprovados, exactamente o mesmo tempos que demoram as patentes dos existentes a expirar, e por isso a ser aprovada a produção de genéricos.

Entendo perfeitamente que a Indústria Farmacêutica precise de dinheiro para pagar as suas investigações, que haja patentes, e compreendo que a falsificação de medicamentos na China e na Índia, estejam a retirar parte destes fundos fundamentais para o desenvolvimento de novos tratamentos para qualquer doença, mas bolas,... onde entram aqui os direitos do Homem, a Justiça Social?

Queremos mais escândalos como foi não lançarem os inibidores da protease até os stocks de AZT terem diminuído para níveis economicamente aceitáveis?

Podem chamar-me simplista, mas porque carga de água gastam os governos das grandes potências em armas e afins, promovem guerras aqui e acolá para estimular a economia e não dão este dinheiro à investigação para as doenças que matam todos os dias? Ou à prevenção?

Se é por motivos económicos, que se lembrem que doentes inválidos também ocupam camas de hospitais, gastam em cuidados paliativos e não produzem... e esta gente curada, ou activa, será menos um custo e mais um proveito.

Para mim é mais uma pessoa.

Por isso John, vou fazer o que me pediste, tu e o teu médico. Vou aventurar-me nesta cidade a dar alguma formação e conforto aos mais vulneráveis e aos doentes.


Fiquei muito contente em saber o conforto que te dou e a alegria que sentes quando me vês entrar. Sei que sou um risco para ti, mas vale a pena arriscar, seja por um tratamento do corpo ou por um tratamento da alma.
*nome fictício

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

A Cara Metade, Madrid e a Mochila

Uma vez mais quero falar de tantas coisas que passaram estes dias que não sei como fazer ou se terei algum sucesso.

No fim de semana passado esteve aqui a Cara Metade Mais Que Tudo. Foi um excelente fim de semana. Muito frio, mas aquele sol baixo de Outono que dá uma côr especial a tudo o que nos rodeia. Foi um fim de semana de muitas conversas. Falou-se dos amigos e do futuro.

Cilinha, estiveste muito presente nas nossas conversas, pelo teu avô, pela tua gata, pelo teu casamento, por ti. E a Cara Metade fica-me com aqueles olhos brilhantes de criança que bem conheces postos em mim e sinto que sofre contigo. Queria estar contigo, não pôde. Fica para a próxima.

Passeamos no parque, vimos veados, demos de comer aos esquilos, aos patos, aos cisnes, aproveitámos os fins de semana ao máximo. Apesar de tudo nunca programamos o que quer que seja porque gostamos que seja o tempo e a vontade do momento a ditar os acontecimentos.

O futuro foi uma constante nas nossas conversas. Estamos cansados desta vida, aqui, ali e acolá e em lado nenhum. A Cara Metade está desesperada por unir os trapinhos. Di-lo todos os dias e a toda a hora. Eu também quero, mas... ...porque há sempre um “mas”... ou muitos “mas”...

e mais uma vez, a Cilinha está sempre presente para me lembrar dos “mas”. Além dos “mas” normais, enquanto a trabalhos e carreiras, há os outros. Há por um lado a minha enorme independência, o gostar de estar só; como há conversas pendentes, muitas, com muita gente e um segredo do passado, que de acordo com a Cila tenho de contar. E apesar de ser um segredo com um fim bonito, tem um lado muito negro, que se o consigo expôr neste canto, ainda me é difícil de falar dele abertamente com quem quer que seja, porque não gosto de chorar em frente das pessoas, mas porque não consigo manter-me a pessoa calma, racional e fria, que muitos me consideram quando abordo o “longo inverno”.

Depois do fim de semana fui a Madrid. No mesmo vôo ia uma pessoa que conhece o meu segredo de um ponto ao outro porque o estuda. Sabe provavelmente mais da minha vida do que qualquer outro. Imagino que se tivesse um psicólogo ou psiquiatra, não lhe contaria metade, mas a este, pelo nobre trabalho que faz, conto tudo. Tive medo que ao sair do aeroporto desse de caras com a Cara Metade e se descaisse com o “longo Inverno”, mas não. No entanto, cada vez se torna mais claro que temos que partilhar tudo, não só as coisas boas, mas também as más.

A razão da minha ida a Madrid foi a visita a um cliente que ia apresentar o seu plano estratégico para os próximos três anos. Claro, aproveitei para tratar de outros assuntos mais pessoais e olhar pelo futuro. Mesmo sem Sol, dei-me conta do quanto gosto de Madrid e que me facilmentevejo a viver por lá.

Mas como não podia deixar de ser, a viagem terminou com mais uma de muitas aventuras de aeroporto.

O cliente deu a toda a gente que assistia ao evento uma mochila térmica. Lá a meti como pude dentro da mala e segui até ao “security control”. Param-me. Ora bolas, mas que raio é que se passa agora, tenho a pasta de dentes, o desodorizante e a espuma de barbear num saquinho de plastico à parte, e dentro da mala vai uma camisa e uma muda de roupa interior (já usadas). Olho para o monitor e vejo que a minha mala acusa, facas, garfos, un canivete e um saca-rolhas!

Pois, o idiota do cliente ofereceu uma mochila térmica para pic-nic. Lá dentro havia dois pratos, dois copos, saleiro e pimenteiro, uma tábua de cozinha, talheres para duas pessoas, um saca rolhas e um canivete. Mas vinha tudo tão bem embrulhadinho que nem me passou pela cabeça que pudesse vir tanta arma branca lá dentro.
Eu bem que dizia: esta mochila deve ser feita de chumbo que pesa... deve ser porque é térmica.

Digo eu embaraçado: Ah sabe, es que ha sido un regalo de un cliente y no sabía lo que había dentro.
e diz-me a senhora: Pues, pero usted debria saber que no puede traer cosas que no sabe que son.
E respondo eu: Tiene toda la razón, se puede quedar con los cubiertos, la navaja y el saca-corchos, que además tengo cubiertos en casa.
Ela chama um policía que lhe diz: quédese con el saca-corchos, pero déjelo pasar con los cubiertos y la navaja. Al final, si se va a un restaurante dentro de la terminal, también puede coger unos cubiertos.


E depois o polícia olha para mim e diz-me: Joder, que ya eres el tercero con la puta mochila esa!

E lá fiz eu um vôo Madrid Londres com duas facas e um canivete na bagagem de mão.

Viva a segurança dos aeroportos!

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Perfeição

Sinto-me sempre assim. Insatisfeito, como se algo me faltasse, como se me tivessem tirado um pedaço sem o qual me sinto incompleto. Não sei dizer se esta sensação é de vazio, ou se pelo contrário, de uma pressão enorme dentro do peito do que se foi acumulando ao longo dos anos e não consegue sair.

Neste sentimento que mistura nostalgia com dor e ansiedade, não me deixo iludir ou surpreender.
Quase não me recordo dos tempos em que era genuinamente feliz, inocentemente feliz. Lembro-me sim, de desde muito cedo, à hora de dormir, ter uma necessidade enorme de rasgar o peito, abrir o esterno e separar as costelas, como se por esse espaço criado no corpo se pudesse esvair o que me consome a alma.

Porque deixei eu de acreditar tão cedo? Deixei-me crer que pouca coisa tem importância acabando por tirar importância ao que a tem. Privei-me de me sentir realizado e satisfeito porque tudo me parece pouco.

Então, fui pelo mundo fora à procura do que não encontro, seis países em que vivi e sempre a mesma insatisfação.

Sempre quis ser perfeito no que faço. Sempre, desde que nasci.
Não falei até muito tarde, mas quando comecei a falar, era capaz de dizer frases inteiras para espanto de muitos. Mas porque sei que não o sou, deixei a frustação crescer em mim.

Consegui algum alívio na música.

O aperto do meu peito diminui cada vez que canto e canto como se não houvesse amanhã. Não me deixo levar pela perfeição, mas empenho-me até ao limite, e faço deste meu canto um escape de sentimentos guardados e escondidos.
É assim que conto a minha vida. É aqui que vejo como estou errado ao tentar ser perfeito, porque ao entregar-me ao canto de corpo e alma me liberto, mesmo sem ser perfeito. A minha energia vai comigo, não tenho medo de falhar. E sou brutalmente recompensado. Muitas vezes vi salas de espectáculos, auditórios e Igrejas com gente que chorava as minhas lágrimas, estas corriam então pelos olhos dos outros, alimentando-me o vácuo ou esvaziando a congestão do meu peito.

Hoje, quando passo pelas ruas de Londres com as iluminações de Natal, as mesmas do ano passado, as mesmas do ano anterior, sinto o ar frio na cara, sou assaltado por uma ansiedade crescente: Quero viver Natal que vivia no passado, quero o meu Natal de criança.
Onde deixei eu ficar a inocência que um dia me fez levar o menino Jesus do Presépio para a minha cama porque estava frio? Acreditava que não havia problemas na família ou no mundo, ficava feliz ao subir o monte com o avô para recolher o musgo para o presépio e cortar um ramo de um pinheiro que logo era enfeitado na quinta por toda a família. Não dormia, excitado pelo ambiente de Natal, a música, as luzes, os doces, os presentes, chegava mesmo a esquecer-me que nos era vedado ver televisão. E não era importante porque tudo era perfeito.

Quero tanto, mas tanto, voltar a sentir como em criança...

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Os três pilares


Portugal escandaliza-se com os aumentos dos acessores da câmara de Lisboa, dos políticos, dos médicos do serviço público…
Podem bater-me, insultar-me, o que bem entenderem.
Neste nosso Portugalinho, já há muito que hipotecámos o futuro, e agora vêem-se os resultados, porque não apostámos em três classes que cairam em descrédito apesar das funções vitais que assumem na sociedade em que vivemos e em qualquer sociedade, qualquer que seja o regime político.

O que eu quero dizer é que enquanto os salários dos políticos, professores e profissionais da saúde (função pública) forem a miséria que são, sim, digo miséria, não teremos pessoas capazes de dirigir, educar e cuidar este país.

Quem quer ser político nos dias de hoje? Talvez alguns jovens idealistas, mas estas utopias morrem com a idade, e quando se pesam os prós e os contras, quem em perfeita consciência quer ocupar um lugar em que se está na mira de todos, numa classe desrespeitada e a receber muito menos do que em qualquer instituição privada? Só quem tem ganância de poder e uma inteligência razoável para enganar meia dúzia de tolos.
Haverá um ou outro que o faz por convicção, mas acredito que estes casos são raros. Os verdadeiros dirigentes, os que sabem governar, ou estão fora do país, ou dirigem empresas de sucesso, com sucesso e ganhando no mínimo dez vezes mais.

Quem que ser professor nos dias de hoje? A classe está desmotivada, é desrespeitada, anos de regalias e manifestações e greves por dá cá aquela palha levaram ao descrédito da classe. Uma vez mais os salários são uma miséria e não há sequer segurança do posto de trabalho. Pior se passa nas Universidades em que os catedráticos se colam às suas cátedras não dando espaço às reformas necessárias, também estes, na sua maioria reduzidos a professores mediocres porque se fossem bons, estariam no sector privado a ganhar bem mais e a não prejudicar os que relamente gostam de ensinar. Ao valorar realmente esta classe, teríamos pessoas com valor para fazer as mudanças necessárias, a criar uma sociedade que evolui, com conhecimente e produtividade. Uma sociedade actualizada, que produziria mais, aumentando o rendimento do país e a qualidade do ensino, entrando num ciclo virtuoso. Em relação a todos os outros professores, anos de negligência no ensino superior, fraca remuneração e inexistente actualização, levaram a um défice de conhecimente e a uma desmotivação sem precedentes. Quem sofre é o país e os novos e os futuros professores, que não têm colocação porque o país está de rastos principalmente porque descurou esta peça fundamental. Uma vez mais, fora meia dúzia de sonhadores, os que podiam mudar tudo isto fogem do país a sete pés porque o Ensino está desacreditado e mal pago.

Quem que exercer na saúde pública? Uma vez mais, a luta dos poderes é constante e os salários miseráveis. Quem pode, abre o seu consultório onde cobra cem vezes mais, deixando para os hospitais públicos os inexperientes, os maus, e os que, mais uma vez, gostam do poleiro, hipotecando assim a saúde do nosso país.

E tudo porque se dá pouco ou nenhum valor a estas três funções que são o pilar de uma economia saudável.
Por não o reconhecermos, vivemos num país sem educação, sem saúde e sem rumo.

sábado, 13 de outubro de 2007

Tempo de Mudança


Nunca fui de me deixar vencer pela vida e sempre tentei ver o lado positivo das coisas. Assim sendo, a vida foi-me levando por caminhos pouco planeados mas bem sucedidos.

Vezes houve em que me senti esgotado pelas lutas e em que me apeteceu desistir. Agora não. Não quero perder tempo a lamentar ou discutir o que não tem solução. Não me posso dar ao luxo de perder tempo com o que não interessa.

A minha vida vai mudar, sabia-o há uns meses e agora tenho a confirmação. Posso deixar a vida levar-me onde bem quer, ou posso aproveitar a oportunidade para mudar.
Com o fim deste projecto, posso ficar sentado à espera do seguinte. Formar nova equipa, criar novos padrões de trabalho, deixar-me ir sem ter muito que dar ao futuro que se me vai abrindo à frente.

Mas tenho pensado muito estes dias. E se aproveito esta fase para mudar? Porque é que em vez de deixar que a vida me guie, tomo eu as rédeas e sigo pelo caminho que quero?

Estes dias estive num "off-site", um "team building event", que me pareceu a coisa mais absurda deste mundo. Primeiro porque a equipa não existirá dentro de uns meses, e segundo porque este “team building” deve ser um esforço constante das pessoas que trabalham juntas.

Não é por ir navegar um dia e passar outro dia em desportos motorizados que me vou tornar mais colega dos meus colegas. Isso poder-se-ia fazer no almoço ou café diário, nas horas livres que dispomos. Infelizmente neste país, todos se recusam a tirar a máscara nesses momentos e continuam com as mesmas atitudes de auto-promoção.
Um exemplo de tudo isto é que ainda hoje mantenho contacto com os meus colegas/amigos do estaminé em Portugal ou Espanha, mas todos os que foram abandonando o estaminé neste país, desapareceram no vento e nada sei do que é feito deles.

Assim sendo, além de achar todo o evento um gasto desnecessário e uma palhaçada, tive tempo para pensar e reflectir no que aí vem.

Porque é que não aproveito esta oportunidade para mudar outra vez? Fazer as trouxas, pegar na mala de cartão e partir, quem sabe, para Madrid, para estar com quem quero?

Gostei de lá viver, tenho lá amigos, estou mais perto de casa e tenho lá a Cara Metade Mais Que Tudo.

E quanto mais penso, mais vontade tenho.

Afinal, o meu comboio segue em frente mas há muitos apeadeiros pelo caminho. E em vez de esperar pela estação terminal, é tentar sair no apeadeiro certo.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Fim de uma etapa

Há semanas assim:
- chegamos ao estaminé e os nossos assistentes têm uma prenda de agradecimento pelo nosso trabalho e paciência;
- vemos o projecto pelo qual lutámos e trabalhámos durante oito anos, desaparecer sem que nada possamos fazer e assistimos serenos à desintegração da casa que fez de nós trabalhadores respeitados, nos formou e ocupou dois terços da nossa vida.

Tenho pena, afinal sempre acreditei no projecto a que me dediquei nos últimos oito anos.

sábado, 6 de outubro de 2007

HIV & Me

Esta semana fui surpreendido por um documentário que passou na BBC2 chamado HIV & Me.
A BBC provou conseguir, ainda, produzir programas de excepção. Fiquei agarrado ao televisor, chocado mas não surpreendido com o documentário e espero ansiosamente pela segunda parte na próxima terça-feira.

O documentário, dividido em duas partes (uma sobre comportamentos face ao HIV e outra sobre o que é viver com o virus) é apresentado por Stephen Fry, um homossexual que viu muitos dos seus amigos morrer nos anos 80.

No programa, Fry examina as taxas de infecção e, terrificado pelo que descobre, pergunta como é que nos deixamos chegar à complacência sobre os perigos desta infecção apesar dos avisos das décadas de 80 e 90.

A sua viagem é uma viagem pessoal em que nos conta como viu os seus amigos morrer e encontra um ex-companheiro que está quase cego devido à infecção. Quando a doença foi descoberta, lembra-se do terror que assolou a comunidade gay e de esta ser considerada então uma sentença de morte. Ainda assim, hoje a doença é percebida como uma condição crónica, chegando mesmo a ter conhecido um rapaz que teve sexo numa noite com cinco homens infectados propositadamente para ter “the gift”.

Como um terço dos infectados desconhecem o seu estado no Reino Unido, e com o número de infecções a aumentar, principalmente entre heterossexuais, Fry sente-se obrigado a mostrar que o problema é presente e que a batalha contra o virus está longe de ser ganha. Fala com uma avó seropositiva, uma adolescente de dezasseis anos que o é desde que nasceu e um casal seropositivo que deu à luz uma menina livre da infecção.

Descobrimos realidades assustadoras: de jovens neste país que não tomam precauções; de países como a África do Sul onde o governo diz que a relação entre HIV e Sida não está provada e por isso não se dá medicação a seropositivos; de como no Zimbabwe as mulheres são infectadas e não podem sequer pedir ao marido que use preservativo; de como na Austrália e Nova Zelândia está proibida a entrada a seropositivos e; de como no Reino Unido, os que dão a cara são ainda insultados.

Acima de tudo, o que me surpreendeu no programa foi a clareza com que se falou de tudo, o não haver julgamentos ou ensinamentos morais. Não ser um programa para assustar ou acenar com um manifesto. Não explorar sentimentos fáceis.

Graças à sua inteligência e sensibilidade, Fry espalha a mensagem com um toque que poucos podem igualar.

Agora que nos mostrou os comportamentos face à infecção, espero pela segunda parte em que nos mostra o que é viver com ela (apesar de ele não a ter), e espero que um dia este tipo de documentários passe onde merece estar, nos canais de maior audiência, para não deixar esquecer que este virus anda por aqui e que apesar de controlado, de não mostrar as faces que nos mostrava nos anos 80, ainda mata, mas que acima de tudo, é muito fácil de evitar.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

A Mulher e a Igualdade

Há já algum tempo que pensei neste assunto e queria muito escrever sobre ele, mas, como é um tema delicado, a maioria das pessoas que comentam este canto são mulheres, bem como os meus melhores amigos são mulheres, quis pensar bem antes de abrir uma guerra aberta com as senhoras com quem me dou.

Todos sabemos que a cultura judaico-cristã, bem como quase todas as outras sociedades, apagou o papel da mulher, revertendo-a ao papel de mãe e mulher, apesar de tal processo ter começado bem antes quando o homem era caçador e a mulher governava a casa e cuidava dos filhos. Esta divisão foi natural devido às diferenças físicas entre homem e mulher e deu à mulher o importantíssimo papel de educar os futuros homens e mulheres, bem como de governar. Desta forma a mulher tinha, já desde tempos muito remotos, as armas para triunfar sobre os homens porque os educava bem como governava a sua casa e os seus haveres enquanto estes buscavam comida.


Não sou antropólogo e, por isso, não sei porque falhou a mulher nos inícios da História. Talvez a dependência da comida, do trabalho de equipa dos homens para construir casas ou caçar, aliados à sua inferior força física, levou o homem a dominar a mulher.

Com o desenvolvimento das civilizações, este domínio foi crescendo levando a extremos como a irradicação da mulher da vida activa das sociedades. As religiões ajudaram, apesar de, por não poderem extinguir o papel da mulher da vida, criaram figuras mulher e mãe quase tão divinas como os próprios Deuses, como a Virgem, a eterna e consoladora mãe que embala, acolhe e refugia, intercedendo pelas almas junto do Justo Juiz.

Com os seus direitos negados, a mulher começou a lutar, primeiro para trabalhar, depois para votar, mais tarde para dirigir e finalmente para ter justa e igual recompensa. Esta luta brutal e que se arrasta através dos séculos, deixou-nos exemplos de bravura e inteligência da mulher.

A mulher de sucesso tornou-se um marco e exemplo para todas as outras mulheres, e porque para se distinguirem numa sociedade que ainda as discrimina, só as mulheres acima da média triunfam (que me desculpem as outras).


No entanto, esta luta de poder, igual à dos homens ou de qualquer outro animal que habita nesta terra, criou perversões tais como acabar, num grupo significativo de mulheres, com as características de bondade e sensibilidade (maternidade) que até então definia mulher.

Pior ainda, demonstrou ao mundo que as mulheres conseguem ser tão más como os homens e atacam-se umas às outras para obter os seus objectivos. Afinal, a luta por esta igualdade mostrou-nos uma mulher com os mesmos defeitos dos homens mas exponenciados porque, como referi acima, para se distinguirem num mundo de homens, têm que ser melhores no que fazem, mesmo que seja fazer guerra.

E isto é claramente demonstrado pelas mulheres que me rodeiam, que, amores à parte, têm na sua lista de pessoas que as magoaram ou trairam, mulheres. Porque isto nada mais é do que a luta da sobrevivência das espécies e dos genes.

Assim sendo, não acredito que a mulher seja melhor do que o homem (ou vice-versa). Mas acredito honestamente que a repressão leva a grupos fortes onde as pessoas para vencer, têm que superar o grupo governante.

Assim, na minha opinião, no dia em que a mulher esteja em pé de igualdade com o homem, esta poderá finalmente relaxar, e apesar de se tornar naquilo que sempre abominou, porque como não tem que lutar se tornará tão relaxada e preguiçosa como um homem, poderá recuperar a honestidade, a bondade e sensibilidade.

Ou como disse num comentário aqui, no dia em que as mulheres tenham os mesmos direitos que os homens e não sejam reprimidas em relação a eles, deixarão de ser melhores do que eles porque não têm nada a provar. Deixar-se-ão cair na mesma preguiça, incompetência e estupidez. Outros grupos se seguirão, pois lutam pela igualdade (tais como gays e lésbicas, minorias étnicas...) mas estarão condenados ao mesmo, até que mais não restará do que um grupo de gente muito homogénea na sua incompetência e estupidez.

Mas, acima de tudo, um grupo de gente mais feliz porque o sobreviver dará lugar ao viver, e de novo, se poderá deixar sentir.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Crianças

Estou a dever um post sobre a Paz, mas, se há tema que me incomoda e que vi abordado de uma forma negativa, verdadeira e sofredora, não me posso deixar ficar calado, porque acho que todo o ser humano é bom no seu âmago, apesar de haver duras e crueis excepções.

Falo do post da calamity, muito bem escrito, senão mesmo chocante. Não posso, no entanto, deixar de pensar que, quem fez mal a estas crianças, já foi criança e por isso inocente e bom.



Uma criança não deveria sofrer. Nunca! Como não deveria sofrer um adulto. Mas nos dias que correm, e já abordei este assunto em posts passados, somos inundados com notícias de crianças que sofrem. Parece-nos então que o mundo anda para trás, que é um retrocesso da nossa sociedade. Eu, e quem quiser pode discordar, não estou de acordo. Acho que hoje sabemos mais porque os meios são mais globais e porque as crianças estão mais expostas e por isso não podem ser escondidas em casa quando algo corre mal.

Trabalhei de perto com muitas destas crianças. Dei, durante muitos anos, aulas de música a crianças numa escola de música ligada à Igreja Católica, onde os que podiam pagavam 300 escudos por trimestre e os que não podiam, não pagavam. O dinheiro não era utilizado para pagar aos professores, ou dar lucro à escola, que gastava bem mais do que recebia em livros para os alunos, instrumentos orff e flautas para os que não as podiam comprar – é que apesar de todos os erros e ideias retrógradas que ainda persistem nesta instituição, a Igreja Católica tem um papel social que substitui de longe o Estado porque dá conforto, comida, educação e saúde aos mais esquecidos até pelo Estado. É que eu não sou daqueles que só aponta o dedo ao que está mal mas reconheço o que está bem, mas estou a fugir ao que queria contar.

Há mais de dez anos, conheci a minha primeira turma. Crianças de sete anos. Comecei a preencher as fichas e a perguntar os nomes dos pais. Quando chegou a vez da E. respondeu-me: “não sei, não deviam gostar de mim porque fugiram quando eu nasci e entregaram-me a uma senhora velhinha” – e dito com uma simplicidade... que eu quase não sabia o que responder e me queria enterrar num buraco. De facto a E. tinha sido abandonada pelos pais, dos quais não sei absolutamente nada e vivia numa “ilha” escondida numa das freguesias mais chiques do Porto, com um senhora velhinha numa casa sem saneamento ou luz, e que vivia das esmolas da Confraria de São Vicente de Paulo.

A E. tinha um comportamento impossível, hiperactiva, chama-la-iam nos dia que correm. Eu chamar-lhe-ia falta de auto-estima, de medo de não ser querida e de ser abandonada uma segunda vez. Era castigada constantemente devido ao seu mau comportamento, mas só uma vez referi o mau comportamento nas avaliações que mandei para casa, e não porque a senhora aquem a E. chama avó lhe tenha feito alguma coisa, mas pela criança que entrou em depressão porque pensava que a avó também a iria abandonar porque ela se portava mal. Mudei a minha forma de educar esta criança, inteligente, sensível e com um défice de carinho assustador apesar do imenso amor que avó nutria por ela. Era rígido com ela, mas dava-lhe muitas responsabilidades, ... A E. que se achava burra, feia, má, detestada, começou a fazer solos nas audições e porque mostrava interesse nela, aplicava-se e estudava e desenvolvia-se de uma forma brilhante. Este entusiasmo cresceu e abrangeu a escola, onde a E. se destacava. No entanto nem tudo foi fácil. Tive discussões absurdas com outro professor na escola que a queria expulsar pelo comportamento. Eu defendi-a com unhas e dentes porque não se pode abandonar uma criança só porque não se consegue educá-la, como nunca o fez a avó.

Mas havia outras E. nas minhas classes, apesar de ter sido esta a que mais me marcou, talvez porque ainda saiba o que é feito dela e saiba que ela tem um carinho muito grande por mim. Havia o C. que ficava na tasca do pai no meio de bêbedos até as duas da manhã para ir às aulas na manhã do dia seguinte; a M. com uma mãe maníaco-depressiva porque tinha sido abandonada pelo marido; ou os dois irmãos, cuja mãe eu admirava, porque contra todas as pressões da família se separou do marido que lhe batia e batia nas crianças.

Mas hoje, cada vez que vou ao Porto ver um dos concertos da irmã Meloa (que também foi professora deles) lá estão. Quando não vou perguntam por mim; quando vou, correm até a mim com um sorriso de orelha a orelha – homens e mulheres, crescidos, todos na faculdade, a E. bolseira em medicina, ainda me chamam “Setôr” e eu brinco com eles como sempre brinquei, trato-os como adultos como sempre fiz, mando as minhas bocas e saio dali feliz, porque quando conheci estas crianças não lhes via futuro algum.
E é um dos momentos em que me sinto realizado, e em que sinto umas saudades enormes do tempo em que ensinava. Porque afinal estas crianças foram deixando de sofrer porque a nossa sociedade assim o permitiu e de certeza não causarão sofrimento um dia que sejam pais.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Estou de volta


Londres recebeu-me fria, cinzenta, húmida… nesta manhã ventosa, chovia torrencialmente e estava frio...
O metro cheio, sem espaço, com gente e sem alma.
As ruas, onde sobra gente, não vivem ou são vividas, pois na pressa que cada um leva, na pressa de chegar não sei onde e na pressa de lá sair, ninguém vê, ninguém ouve, ninguém sente.

E assim se passa o regresso à grande cidade da gente que não vive.

Longe vão os tempos das longas caminhadas na praia, de avistar uma baleia, de subir ao Monte e descer no carrinho, das cascatas e passeios pela montanha, da talassoterapia e massagens, do bolo do caco e do peixe espada, das grutas vulcânicas e dos concertos em pequenas igrejas, do bolo de chocolate do café do museu e da antiga estrada da costa norte entre São Vicente e Porto Moniz.

E de passear por estas ilhas do nosso belo Portugal com a Cara Metade Mais Que Tudo, descobrindo cantos de encanto, flores raras, ribeiros limpos e selvagens, picos agrestes, praias de pedra negra ou da mais fina areia branca com águas cristalinas, turquesa e serenas.

E a Cara Metade Mais Que Tudo rendida aos encantos deste canto, à simpatia das suas gentes, à simplicidade e qualidade da sua gastronomia, num esforço logrado em falar a língua de Camões.

E com estas recordações do que ainda era o dia de ontem, enfrento a arrogante e grande cidade, atirando-a para trás das costas, tentando ver o que tem de belo, com uma paz de alma, um corpo descansado e uma mente liberta que me preparam para atacar a pilha de papéis que se amontoou na minha mesa e enfrentar um novo ano que começa.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Porque hoje é sexta…

...e porque a próxima segunda-feira é um grande dia!

...e porque a cara metade está à minha espera,
...e porque ainda é Verão,
...e porque já toda a gente regressou de férias,
...e porque passei um ano inteiro a trabalhar...

...vou-me embora por uns dias.




Estarei de volta lá para o fim do mês!

Divirtam-se!!!

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Porque nem todos os dias são iguais

… e porque hoje é Setembro
Começa um novo ciclo, os frutos apodrecem e deixam cair à terra a semente, as uvas são colhidas para o novo vinho e as ruas enchem-se de gente.

Os recreios das escolas enchem-se com os ruídos únicos das crianças felizes por reverem os seu amigos e o movimento volta às ruas da cidade.

As matas ficam douradas e vermelhas, cor da riqueza e do amor; e o ar, que se torna mais leve e fresco, traz consigo a chuva que vai alimentar os rios e os campos.

À noite é preciso ir buscar o casaco guardado há uns meses, que cheira a limpo e aconchega, enquanto ao fim da tarde, o Sol brilha mais baixo alimentando as cores de um tom especial.

É Setembro! O mês das coisas boas, da nova vida.

É o meu mês!

E hoje é o dia, o dia em que no caos da grande cidade, olhei para trás e disse, Olha-me em frente, rapaz, senão tropeças e cais.

E eu olhei, e porque ouvi coisas bonitas, cheias de esperança, vi um novo ciclo de vida a abrir-se diante de mim e de vós e o meu coração encheu-se.

Assim, só quero cantar, gritar pelos quatro cantos desta Terra redonda, que a vida é tão simples, tão bela…

… e como com pequenos gestos nos podemos encher desta nova alegria que também quero partilhar convosco.


E tudo isto num dia em que me disseram que fico sem pio mais dez dias e não há forma de me mover na grande cidade; mas também o dia em que só quis ver que estou quase a fazer mais um ano, vou de férias com a cara metade, e, acima de tudo, o dia em que eu, finalmente, deixei de sentir-me culpado pelas grandes e boas surpresas da vida, porque não são só minhas e trazem a alegria e o brilho aos olhos daqueles que estão comigo nesta luta de guerreiro.

Só podia ser Setembro!

sábado, 1 de setembro de 2007

Nada!

Sei que há muitos de vocês que não se sentem confortáveis com esta rubrica do longo Inverno.
Eu, no entanto, sinto que esta é a hora de expurgar o meu passado, as minhas dores.
Estando em casa a remexer nos meus papéis encontrei um texto que escrevi há dez anos. Deixei-o pousado na minha secretária e os meus pais viram-no e leram-no.
Quando cheguei a casa, estavam os dois com os olhos inchados e o meu pai começou a chorar. A minha mãe só me pergunta se estou bem, enquanto o meu pai depois de um longo silêncio me diz: "Amamos-te muito faças o que faças, sejas o que sejas. Para nós tu és tudo."
Hoje, quando reli o texto, apercebi-me da imensa dor que levavam dentro e que sabiam que de mim não arrancariam uma palavra pois eu fechava-me no quarto com as minhas músicas e os meus escritos.
Hoje peço-lhes desculpa e deixo aqui o texto como que a dizer – já senti assim, mas, graças a vocês, hoje nem sequer assim penso.
Mas aqui o deixo porque não deixou de ser uma fase difícil e importante da minha vida. E porque um dia me senti assim.


"E o Sol, escarnecendo de mim, brilha lá fora.

Não percebe a agonia, a dor, daquele que tudo tem e nada possui, daquele que ama acima da compreensão dos homens.

Brilha, tornando a dor mais forte, mais aguda.

Porquê assim? Porquê ser incompreendido por todos os que amo? Para quê viver assim na dor, na angústia, no desejo de deixar escurecer o Sol, da vinda das eternas trevas, Valerá a pena?

Que vim eu aqui fazer? Já estive tão perto de não ter aqui vindo, qual será o fim pelo qual terei lutado, qual o grandioso fim que não me fez desistir, já que desistir é sempre mais fácil?

Quem me dera sabê-lo.

Eu, que devido à minha condição humana não poderei nunca vir a ser feliz, porque terei lutado?

Para fazer felizes os outros? – seria nobre, mas sendo infeliz, pobre de espírito, não poderei alcançar tão alto e nobre desígnio.

Afinal que faço aqui? Sofro, choro, sobrevivo, arrasto-me já morto e velho, apesar de o meu corpo contar vinte anos apenas.


Mas estou triste, velho, incapaz de me levantar. Caí na mais profunda dor e no mais agudo desespero que me dilaceram a alma e ma esmagam e espremem.

E nesse espremer, nada vejo por mim realizado de bom. Vinte anos de vitórias e uma vida de Derrota.

Teriam sido vitórias?

Por vezes convenço-me de que me fizeram acreditar que eram vitórias, que eu era alguém que poderia ainda vir a ser feliz.

Mas fazendo a retrospectiva vejo o nada. Uma vida que me construiu para os outros mas que me fez para mim o nada. Só construiu uma ânsia de não sei quê, um sentimento de vazio e perda; uma construção balofa, sem alicerce, sem interior, só fachada.

E é nesse vazio que não me suporto, mas porque não conseguirei eu enchê-lo?

Se calhar nem eu me conheço, descubro-me agora e o que vejo é nada, um monte de imagens criadas, belas sem dúvida, mas que não são absolutamente nada, Nada!! E logo eu… que me fizeram julgar ser tudo… Sou Dor! Tristeza! Amargura! Nada!!!

Sou um ser feito para estar só, chorar a vida inteira à espera que o Sol deixe de brilhar e se pouse.

Como é confortável para mim a ideia do anoitecer, do anoitecer para sempre, do apagar eterno.

E o nada passa a ser nada. E quando o Sol tornar a brilhar já não escarnece de mim pois o nada em nada se tornou, mas num nada sem imagem, sem fachada, realmente o verdadeiro nada. A forma mais bela de se estar, de se ser.

Entretanto Espero, Choro e Sofro!"
Melões, 28 de Fevereiro de 1997

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Hoje estou doente

Hoje estou doente.

Depois de me sentir estranho desde segunda-feira, saio mais cedo, chego a casa e o termómetro nos quarenta.
Não me lembrava de ter febres tão altas há uns bons anos, mas é uma coisa que sei suportar bem e creio que já andam por estes valores há uns bons dois dias.

Como sou gajo, e apesar de um historial complicado, ainda não me decidi ir ao médico nem meter uma pastilhinha na boca. Claro, ao comer kiwis e morangos e ao beber um litro de sumo de laranja, porque acho que a vitamina C tem um papel fundamental, os intestinos deram de si, assim que tive que sair do estaminé e vir para casa.
Decidi que amanhã também não vou trabalhar. Não tenho que me matar pelos outros. Chega de maltratar o meu corpinho e há que por-me fino porque o músico guerreiro ainda tem muito porque lutar.

Mas o que me pôs verdadeiramente doente foram duas notícias que li e que não posso aceitar. São notícias que não passam nos telejornais e só olhares mais atentos as descobrem porque fechamos os olhos ao que realmente vai mal no mundo.

OK, há a Carolina Salgado ou a noite do Porto que afinal é perigosa. Perigosa? Não. Perigosa é a nossa atitude perante os verdadeiros flagelos do mundo. E hoje falo-vos de um muito em particular, do qual muito se fala, mas não como deve ser – SIDA.


Pelos vistos uma larga quantidade de preservativos enviados para a África do Sul têm problemas devido à sua fraca resistência.Vinte milhões de preservativos foram postos em quarentena, colocando em risco a vida de milhares de pessoas num país já de si flagelado pela doença.


Pergunto-me eu, porque é que andamos a brincar com a humanidade e com a saúde das pessoas? Porque é que os preservativos que se distribuem na Europa, mesmo gratuitamente, são resistentes? Sim, porque aqui, no meu médico posso escolher preservativos de todos os tamanhos, formas e sabores sem ter que pagar o que quer que seja. Preservativos, lubrificantes, pílulas para quem não pode mas também para quem pode pagar.

Por essas e por outras é que eu nunca trouxe um kit para casa, e se quero preservativos compro-os, porque há quem não os possa comprar e não posso hipotecar o futuro de quem quer que seja ou ter alguma responsabilidade em que se enviem preservativos de fraca qualidade para países onde as pessoas não podem pagar, porque não podem pagar.

Já na Papua Nova Guiné, famílias com doentes de sida em fase terminal, enterram-nos vivos devido aos custos e esperança nula na recuperação destes doentes e porque estes já não podem olhar por si. E sim, porque neste país ainda há gente que não sabe como é que a doença se transmite ou se previne, porque remoto e pouco lucrativo, não cai nos olhos da cultura ocidental.


É por esta falta de vontade política e de valores morais da nossa cultura ocidental, em que temos tudo por garantido, que deveríamos pensar duas vezes antes de nos queixarmos das taxas moderadoras, comparticipação nos medicamentos, preservativos grátis,… porque os podemos pagar, como podemos pagar as nossas férias ou umas jantaradas com os amigos. Mas não, achamo-nos no direito que temos direito a tudo grátis.

Esquecemo-nos que quando aceitamos estas ajudas, estamos a diminuir o bolo das ajudas para os que realmente necessitam, porque estes sim, não podem pagar.

E apesar dos meus quarenta graus, da tosse insuportável e das dores da cabeça, são estas as razões porque estou realmente doente.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Bloguices

Às vezes pergunto-me porque é que as pessoas têm blogues, porque se dão a conhecer, se é que se dão a conhecer, de uma forma pública e exposta, em vez de partilharem estas ideias ou sentimentos com os amigos à mesa do café.

Muitos são diários, daqueles à moda antiga que todas as meninas tinham, em que escreviam os seus amores e desamores, as aventuras e desventuras, tornados públicos.
Há os blogues daqueles que querem ser o que não são e por isso criam um personagem perfeito, belo, tolerante, frontal, activo ou lutador
… é que nisto de não dar a cara, qual exercício de psicologia, se pode entender muita coisa.
Também os há daqueles que mostram o que realmente são, quando levam uma vida totalmente diferente e onde se desafogam dos pecados desta vida
Há os sociais, os científicos, de opinião e temáticos.
Há os da arte, porque a arte só serve alguns, quando, no fundo somos todos arte.
Há os que querem ser um livro
Há os que vendem sexo, os que dão sexo, os que só falam de sexo como há os que falam de crenças, religiões, que vendem ou dão a salvação.

Há os politicamente incorrectos e os incorrectos que defendem perversões ou desvios, como a racismo ou a homofobia,
Há, no entanto, os que os defendem com unhas e dentes.

Também há os da cara destapada, de gente só ou famosa, de gente triste ou feliz, que só quer gritar ao mundo: “Estou aqui!” ou porque o mundo os esquece, ou porque os trata mal, ou ainda porque realmente estão aqui e querem somente partilhar…

Mas quando revejo tudo isto, não sei onde cai o meu.

Não acredito, no entanto, que um blog é mais uma ferramenta que nos afasta das pessoas reais e nos torna socialmente isolados.

E fico feliz quando vejo comentários no que vou escrevendo porque partilho o meu mundo com ainda mais gente, ou simplesmente, tenho opiniões isentas de qualquer ruído externo.

E se metade do que leio é mentira, também será metade do que ouço.


Depois de ler este texto, parece-me desarticulado, sem continuidade, em que as ideias não se desenvolvem, mas foi assim que o senti, e que o escrevi ao correr da pena

sábado, 25 de agosto de 2007

Emoções

Devia ter dois corações, ou três, ou quatro…
...para poder lidar com todas as emoções que me assaltam quando menos espero.

Basta uma palavra, um olhar atento, uma leitura e o meu coração torna-se tão pequeno que de tão cheio o sinto vazio.

Acordei bem disposto, finalmente está Sol e calor. Falei com quem amo.

Passei a manhã a passear no parque e a dar amendoins aos esquilos, enquanto disfrutava dos raros raios de Sol.

Lembrei-me de vir aqui e li vidas de outras gentes que não conheço, com as quais a minha relação não passa de um esporádico comentário aqui e ali.

E de repente, no meio de nada, vejo uma mãe que sofre, um filho que sofre…

E lembro-me que nós, filhos, somos autistas, porque no sofrimento daquela mãe, vejo o sofrimento de muitas mães, vejo o sofrimento da minha mãe… porque negamos a mão que nos estendem, o carinho que nos dão…

O filho náufrago deixa de saber onde está o seu Porto de Abrigo, não vê a luz do farol que indica os perigos, não ouve a sirene nos intensos nevoeiros da vida, porque navega à deriva, e nada mais vê do que a vaga que se levanta diante de si…

O meu coração fica tolhido e os olhos perdidos fixam o monitor sem ver…

Amiga, as tempestades passam, podem tardar mas temos que acreditar que passam… Tu és o farol, o Porto de Abrigo, …
Só tens que continuar a iluminar e a indicar o caminho, até que um dia, em que haja uma acalmia e as vagas diminuam, e o nevoeiro se dissipe numa ligeira bruma, a tua luz vai continuar a indicar o caminho.

Por agora, com o coração pequenino, olho pela janela e vejo o Sol depois deste longo Inverno que foi Agosto e não posso deixar de sorrir.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Do Cambodja à Sibéria

Apesar de ter programado chegar a casa às 16.30 na sexta-feira passada, com a bela história do passaporte, os atrasos de vôos e afins, cheguei a casa a umas belíssimas 23.00.

Lá tinha eu os Pais Melões à espera.
Fomos para casa onde nos esperava um lauto jantar (só para os três) e um bolito com as velas – isto porque o Melões tinha dito à Mãe Meloa no dia do seu aniversário que era inconcebível que não se cantasse o “Parabéns”ou não se soprasse às velas.
Assim sendo, foi tarde mas foi...
Devido à hora tardia do repasto não me acerquei a casa de outro amigo que cumpria anos nesse dia e me tinha convidado para passar por sua casa. Mas mãe é mãe.

Depois de uma larga noite a pôr a conversa em dia, e uma manhã bem dormida o Melões levanta-se no Sábado directamente para a mesa para comer umas espetadas mistas grelhadas pelo Pai Melões que se auto-intitula experto em grelhados. É que isto, no Verão, há que aproveitar o tempo, o terraço e o grelhador.

Café com a Mãe Meloa, voltinha higiénica do costume, ajudar a Mãe Meloa com uns problemitas informáticos, lanche na cervejaria ao lado de casa com os Pais Melões (só o Melões, afiambrou-se a uma Sapateira Recheada) e toca a ir a casa de outra amiga cujo aniversário era no dia seguinte.

Claro, isto de misturar caipirinhas, mojitos e afins tem muito que se lhe diga e até há quem não se lembre como foi parar ao Bela Cruz. No fim da noite, três resistentes tentaram a sua sorte no Indústria. Infelizmente estava fechado e, por isso, casa.

Domingo ao almoço voltámos aos grelhados. Bacalhau assado na brasa com um puré de bacalhau e canela, receita de família, normalmente comido ao almoço em véspera de Natal. Ahhh... que saudades das receitas da Avó! Infelizmente o estômago e o fígado não estavam à altura e lá comi como podia.

Acaba o repasto e decido fazer o check-in online. Introduzo os dados e nada, outra vez e nada, e mais nada.
Ligo para o check-in telefónico e dizem-me:
“-O seu vôo foi cancelado porque falhou ao seu vôo Londres Porto.”
“-E se não vim, então como é que quero regressar a Londres?”
“-Ligue para a central de reservas e veja se conseguem localizar o seu vôo”
(...)

Lá consegui marcar o vôo novamente e fazer o check-in online. Café, volta higiénica, bagagem de mão para evitar problemas com a greve e pés ao caminho de Pedras Rubras.
Entro, compro as “famosíssimas” trufas de vinho do porto que o pessoal do estaminé crê ser a maior iguaria do Porto (e das quais eu nunca tinha ouvido falar) e sento-me ao lado da porta de embarque.

Olho para o lado e vejo uma amiga que ia exactamente no mesmo vôo. Quando olho para o cartão de embarque dela reparo que tinha o mesmo lugar que me estava assignado. Vamos até ao balcão para resolver o embróglio e diz-me o senhor:
“ - Senhor Melões, pedimos muita desculpa pelo incoveniente mas vamos ter que fazer-lhe um up-grade para business” Isto, e mais as dez mil milhas que me deram pelos inconvenientes de cancelarem a reserva e haver atrasos nos vôos.

Provavelmente devia perder o passaporte mais vezes.

Mas quando desço do avião, reparo que se tinham enganado no destino. Depois de mais hora e meia de atraso, em vez de fazer Porto Londres, fiz Cambodja Sibéria. Essa é que é essa.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Viagem ao Cambodja

Hoje vou até à terrinha!
Principal razão – festejar, ainda que com atraso, o aniversário da Mãe Meloa.
Vôo comprado ontem por uma pipa de massa para hoje às 13.55 de Gatwick

9.00a.m. – despertador toca
10.30a.m. – banhinho tomado, mala feita, bilhete e passaporte confirmados e metidos ao bolso, apanhar o táxi para o Gatwick Express.
11.00a.m. - chegada à estação depois de 30min num taxi numa viagem que costuma demorar 10min. Accordingly, o preço da corrida também foi o triplo.
11.15a.m. – comboio sai da estação em direcção ao aeroporto. Começa uma viagem de 30minutos sem paragens.
11.20a.m. – O Melões lembra-se de verificar o bilhete e o passaporte.
11.21a.m. – Pânico
11.22a.m. – Pânico
11.23a.m. – PÂNICO GENERALIZADO – Melões não encontra o passaporte e não pode sair do comboio.
11.24a.m. – Melões liga à Mãe Meloa a dizer que não sabe do passaporte, que não tem o BI consigo, só o BI Espanhol que não tem o nome completo e por isso não serve para viajar – Mãe Meloa entra em Pânico!
11.26a.m. – Melões liga à cara metade mais que tudo, insulta meio mundo e outro meio, diz que deitou fora uma fortuna porque não consegue chegar ao aeroporto, voltar atrás, ir a casa buscar o passaporte (que se lembrava de ter metido no bolso do casaco), regressar ao aeroporto a tempo do check-in. Chamada cai.
11.45a.m. – chegada ao aeroporto, correr ao balcão da TAP, explicar a situação, mudar o vôo para as 19.05 de Heathrow, pagar mais uma fortuna porque só havia lugar em Business.
12.05p.m. – Gatwick Express para a estação em central London.
12.35p.m – Táxi para casa – só demorou 10 min.
12.45p.m. – entrar em casa, sem saber o que havia passado com o passaporte, que tinha metido no bolso do casaco

E ali estava ele – no chão, na entrada, o FDP, cabrão, que me custou a brincadeira uma fortuna, que podia ir até ao Cambodja com a fortuna desta viagem de fim de semana.




Bom – o melhor é estar caladinho que o dia ainda não acabou e ainda tenho a viagem por fazer.

domingo, 12 de agosto de 2007

Os dados estão lançados

Há tanta coisa que vos quero contar… e sei que se não o fizer num só post, não o voltarei a fazer… isto, porque muitas vezes penso em coisas que vos quero dar a conhecer e logo depois, com o passar do tempo, outras aparecem, e o que deveria ser escrito não fica senão no meu pensamento.

Vamos lá ver como me saio… e se me faço entender.

Sexta feira - 12.00
Numa tentativa de unir a equipa, e depois das minhas severas críticas da semana passada, o meu chefe anda a fazer um enorme esforço para transformer a equipa num grupo de companheiros e não de estranhos que quase não se falam.
Para isso marcou uma partida de Crown Green Bowling em Finsbury Square. Confesso que não estava muito entusiamado com a ideia, mas lá fui. Os pares foram sorteados e eu tive que defrontar o meu chefe, que é bife, num jogo de bifes, em plena capital da Bifalândia.
Estranhamente ganhei. Uma extraordinária vitória de 21-7, e não, ele não me deixou ganhar, que é ingês e, por isso, extremamente competitivo.
Depois de tudo isto, lá fomos almoçar e tomar uns copos. Criou-se um ambiente descontraido… e vi a equipa mais relaxada do que alguma vez havia visto.
Se os objectivos do chefe serão atingidos? Duvido, dou-lhe o benefício da dúvido e aplaudo o empenho e a atitude.

Sexta feira - 17.00
Fui ao ginásio.
É verdade, o Melões, que já não fazia exercício há mais de cinco anos, inscreveu-se num ginásio, que por acaso é o mesmo onde está a Cila. Tinha encontro marcado para fazer um programa. Claro está, depois do Bowling no parque e de três copitos de vinho, o Melões não estava no seu melhor. Na entrevista, a "personal trainer" que me estava a avaliar, perguntou-me o que esperava do ginásio e quais eram os meus objectivos.
O meu objectivo é só um. Cuidar da saúde. Ainda sou dos que acreditam em “Mente sã em corpo são” e quando já vimos o nosso corpo exposto a algumas coisas, achamos que não o devemos ignorar. Temos que o cuidar.
Diz-me ela… então há que deixar alguns maus hábitos, como beber… ups, afinal os três copitos de vinho ainda se notavam, e mal se começa o ginásio, ganhar fama de etilizado, não me parece muito correcto.

Sexta feira - 21.00
Um colega comprou casa e fez uma festa de inauguração. Lá fui eu. Não conhecia quase ninguém e queria sair cedo, pois sábado tinha algo muito importante para fazer.
Copo puxa copo, conversa puxa conversa, e vem o tema "Gay" à baila.
Não sei porquê, este tema parece estar na ordem do dia. Parece que toda a gente tem que provar que está bem com o assunto. Faz-me acreditar que ainda há muita discriminação ainda que seja pela positiva. Nos tempos que correm tem que se ter um amigo gay.
Não estava muito envolvido na conversa, mas sempre de ouvido afiado.
Ouço então alguém a dizer - isso não é normal. É anti natural!

Saltou-me a tampa. Ainda por cima vindo de alguém com alguma formação e com apenas 23 anos. Uma jovem jornalista que vive em Brighton – a cidade gay por excelência na Bifalândia.
Apesar de só lhe querer dar um chapo bem dado, perguntei-lhe calmamente o que era ser normal… não soube responder.
Perguntei se ser normal é acordar todos os dias de madrugada, preparar o pequeno almoço dos filhos, levá-los à escola, ir trabalhar, ir buscá-los à escola, chegar a casa, fazer o jantar, deitar os filhos, e completamente exausto ir para a cama, para ter um dia seguinte exactamente igual… poupar uns cobres para ir passar férias a uma praia cheia de turistas, esturricar ao sol, all inclusive, voltar de férias, ver os anos passar e aquando da reforma, estar sentado a ver televisão ou enfiado num asilo. Sim, porque se é isto ser normal, então prefiro não o ser.
Ser normal é amar, ser amado, seguir as normas e a rotina quando estritamente necessário e fugir delas sempre que possível. É fazer o que nos dá prazer, com quem nos dá prazer, e dar o mesmo prazer aos outros, através do amor, da arte, da partilha de ideias,
Ser normal é estar bem consigo, com os outros, e fazer com que os outros estejam bem.
Ninguém respondeu ao meu discurso – todos se calaram para o ouvir – quando o terminei havia o silêncio…
Mudámos de assunto e quando dei conta eram duas da manhã e escapei-me até a casa.

Sábado – 09.00
Tinha medo deste dia, tanto medo, que não o partilhei com ninguém, nem sequer com a Cila (que me vai matar por nada ter dito) que se tinha oferecido para acompanhar-me.
Entrei no Hospital com medo mas contente e excitado. Uma sensação doce. Todos me trataram com muito carinho.
Às nove entrei no bloco e começaram com os procedimentos que já conhecia. Deitaram-me em posição fetal, começaram o procedimento.
Tinha mais medo do que da primeira vez, há uns anos atrás. Sabia com o que contava, mas fi-lo com um sorriso nos lábios e pedindo interiormente, a quem estivesse ao meu lado e me ouvisse para fazer tudo isto valer a pena. Desta vez chorei, mas não pela dor, que dor já eu conheço bem e aprendi a suportar. Emocionei-me.
Lembrei-me da primeira vez que fiz exame semelhante. De ter desistido, perdido as esperanças. Agora era diferente. Dava uma parte de mim onde esperanças tinham sido depositadas. Quis guardar esta emoção só para mim. Era o meu momento.
Passei o resto do dia e da noite deitado com a cabeça abaixo do nível do corpo para evitar as terríveis cefaleias de que bem me lembrava e que eram o que realmente me assutava.
Estive assim, sem me mexer, com uma palha enfiada na boca a beber toda a água que podia, mas sem me mexer. Sem ir à casa de banho, sem comer, a tentar dormir. Até adormecer...

Domingo - 9.00
Acordei com a sensação do dever cumprido. Estou cansado, mas as cefaleias não me visitaram. Como se alguém me tivesse oferecido a isenção deste efeito secundário por me ter oferecido para fazer aquilo que muitos outros recusaram.
E agora estou aqui, em casa, cansado… olho-me ao espelho e sinto-me extremamente feliz. Não posso evitar chorar quando vejo o meu percurso até este dia. Não sei a quem devo agradecer.
Sinto-me cheio, feliz, feliz como não me sentia há muito tempo. O que fiz pode ser uma gota, mas é de gotas que é feito o oceano.
Agora que os dados estão lançados outra vez, é confiar, acreditar, que neste pedacinho de mim, está uma parte da chave para tornar este mundo mais feliz.

Obrigado!