terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Alzheimer

Hoje vi um anúncio publicitário português que apesar de publicitar uma agencia contra a violencia contra as crianças, me fez recordar um texto que escrevi sobre a minha avó e que aqui transcrevo:

“Quem é? É a avó! Não, não é a avó! ...não a reconheço naquela sombra humana, matéria orgânica viva em mente morta.
Olha e não vê, ou, quem sabe, talvez veja, mas esqueceu-se de como se transmitem as emoções.
E ali segue, dia após dia, sentada, resignada, triste... não tem razão, não sabe sequer o que se passa, quem está, quem é, o que diz, o que ouve, o que quer... mas um olhar mais atento vê um desalento enorme.
Olha o chão resignada, sentada, com as mãos sobre as pernas, olhar perdido, triste, culpado... culpado porque está num mundo que já não é o dela, que esqueceu, que não reconhece;
E ali está, dia e noite, enquanto se cumprem as funções vitais até que se esgote o último sopro de energia e a deixem partir para a sua nova realidade... Sim, porque a avó vive em dois mundos, o dos vivos e o dos mortos.
Tem um corpo, um coração que bate, uns pulmões que respiram, um estômago que digere, mas foi-lhe prematuramente negado o dar amor e carinho, o acariciar, sentir-se amada e acariciada.
A sua alma já partiu, partiu juntamente com a do avô e deixou três filhos órfãos que não vêem porque não querem ver.
Vão chorar, sofrer, quando o corpo da avó partir. Eu não! Vou chorar? Sofrer? Talvez. Mas por simpatia com a dor da minha mãe e dos meus tios. Mas vou estar feliz pela avó, que, finalmente, terá a paz que merece, e não mais terei que ver o seu olhar triste, perdido, sofrido.

A minha mãe diz-me por vezes “nunca vais ver a avó!” não respondo, que respeito a minha mãe, a sua dor, porque ao ver aquele resto de ser humano, aquele corpo, que a alma já partiu, apetece-me dizer “quem é? É a avó! Não, não é a avó, a avó morreu com o avô. Pela sua bondade e entrega, pelo seu amor incondicional, foi-lhe dado o direito de acompanhar o avô na sua última viagem, apesar do tempo ainda não ter chegado para o corpo. E esta avó que partiu, é a que conta histórias, canta, faz doces e dá mimos. É a minha avó que eu amo e que quero reter como imagem de amor, fortaleza e exemplo.”
Paris, 17/11/2006”

2 comentários:

chiqui disse...

Olha meloes...

entendo-te muito, muito bem. muito mais do que desejaria.
Fizestes-me ficar com a lagrima ao canto do olho.

1 bjo

Meloes Melodia disse...

Chiqui - Obrigado pelo teu comentario, mas sempre pensei assim e nao me envergonho da minha decisao.