sexta-feira, 23 de março de 2007

A avó

A avó partiu…
Não foi surpresa ou choque… não foi amargura ou tristeza...
Foi uma paz, uma paz profunda como se por um momento se tivesse atingido o equilíbrio que todos parecemos buscar. Senti-me calmo, bem e acompanhado.

Recordei os bons momentos de férias na quinta, do pão cozido no forno de lenha, da marmelada e das compotas, das canções e das histórias (quem me vai contar agora a história do macaco do rabo cortado?), dos jogos à noite sentados ao serão a olhar para a bela paisagem do Douro.

A avó teve uma vida difícil mas foi sempre feliz, sempre sorria e sempre cantava e era belíssima, quer por fora como por dentro... ainda hoje, quando vejo a sua fotografia na quinta, penso como pode haver alguém tão belo na família... não é que sejamos feios, longe disso.

Apesar de tudo a vida da avó foi de entrega e luta. Entregou tudo que por fim entregou a razão.

Entregou-se a um amor proibido, ao estudante boémio que vinha fazer serenatas debaixo da ponte a altas horas da noite. Custou-lhe, numa primeira fase, a relação com a rígida directora da escola que também era mãe.
Entregou-se ao irmão mais novo de quem era madrinha e a quem cuidou e educou e que morreu aos dez anos no dia do seu casamento.
Entregou-se aos filhos com amor e desprendimento, vivia para eles, e mais tarde para os netos.
Entregou-se a este neto que aqui escreve (e à minha mãe) que nasceu com 1,2kg com menos de menos de 7 meses e cuja vida perigou durante os dois primeiros anos de vida.
Entregou-se a todos os velhinhos da família e fez da quinta um lar geriátrico, cuidando por ordem da mãe, do pai, da sogra e do sogro para seguir-se de imediato numa doença terrível o meu avô, o seu grande amor pelo qual lutou e viveu.
Durante mais de quinze anos a avó cuidou de cinco doentes, sem nunca se queixar ou perder o sorriso e o carinho.

Afinal a avó não só concentrava tamanha beleza, mas era o exemplo máximo do amor, mas desgastou-se e assim que morreu o meu avô, perdeu a razão e morreu vivendo desde 94.

Ah, avó. Tenho saudades tuas, mas estas saudades levo-as comigo há já treze anos.

E espero, como tu, poder lutar pelo que quero e viver com quem quero, como quero e para os outros e saber entregar-me como tu.

Vou ter saudades das coisas triviais do dia a dia na quinta... mas a lição de vida que me deste foi a melhor que tive e espero respeitá-la e vivê-la o melhor que possa.

És a pessoa mais feliz que conheço e tudo porque tinhas e fazias uma família feliz apesar das enormes dificuldades.

Obrigado avó por fazeres de mim um lutador e por estares sempre ao meu lado.

A ti devo tudo.
Um beijo

5 comentários:

AEnima disse...

oh melao... as avos sao todas tao lindas nao sao? Todos temos umas assim como a tua, penso eu...e os avos tambem... ai que saudades dos meus... a minha quase nos 93 e ele nos 92... Um beijinho.

Actriz Principal disse...

Cumpriu o seu objectivo aqui e agora estará com certeza muito melhor.
É bom ter deixado saudades.

Força!

Beijo enorme com muito carinho, tenho saudades tuas, gostava de falar contigo.

Meloes Melodia disse...

Obrigado! Eu estou bem, se nao parecece mal ate diia que estou feliz... o que nao impede de ter saudades.

Actriz - Se fores ao Porto na Pascoa, vamos tomar um cafe e por a conversa em dia. Vou na quarta e regresso terca.

Actriz Principal disse...

Meu querido, vou para Sul na Páscoa, e não sei quando irei ao Porto. A novidade é que terei poiso em Madrid brevemente. Também é um cenário, certo?

Beijo!

Ck in UK disse...

a do morreu vivendo e uma maniera muito bonita de descrever a situacao. Ja falamos tanto disto,nao foi?
fica com essas memorias todas, porque apesar de ela ja ter ido, ainda vais sorrir muito com o que te lembras dela.