sábado, 19 de maio de 2007

A Rosa

Isto de ser Português tem muito que se lhe diga…

Desde que o Sebastião decidiu expandir o império através de conquistas e não de descobertas e morreu em África, que desenvolvemos este Sebastianismo em que vivemos constantemente no passado.

Dou comigo, constantemente, a recordar.

Hoje lembrei-me da Rosa.

Nos meus tempos de estudante, estudava num café manhoso da baixa do Porto. Na ruela uns metros acima do café havia sempre muitas mulheres. Também havia a mercearia da esquina com as caixas da fruta na rua e os bacalhaus pendurados.

Descia eu para o café para mais uma tarde de estudo, e uma das mulheres que ali trabalhava me pede dinheiro para comer. Disse que não e segui caminho. Ao entrar no café olho para trás e vejo a mulher a comer ameixas podres que o merceeiro tinha atirado ao chão dos caixotes de fruta.

Entrei e sentei-me a estudar, mas não podia. Levantei-me, saí, lutei contra os meus preconceitos e fui falar com aquela mulher. Quis lá saber que alguém me visse e dissesse que o Melões ia às putas.

Disse-lhe que estava a estudar no café e que se quisesse podia ir lá que eu lhe oferecia o que quer que ela quisesse para comer.

Passado uns minutos a mulher entra e para minha surpresa, senta-se na minha mesa. Não me sentia confortável com ela ali, mas também não tive coragem de a mandar para outra mesa. Aquele café costumava ser frequentado por muitos amigos do Melões. Que iriam dizer ou pensar?

Pediu uma tosta mista e um galão. Começou a contar-me a sua vida.

Chamava-se Rosa, estava a juntar dinheiro para ir a Lisboa, onde estava o marido e os dois filhos, depois de pagas umas dívidas que tinha no Porto. Infelizmente gastava quase tudo na heroína. Falou, desabafou, chorou e eu chorei com ela.

Nessa tarde não estudei como tinha planeado, mas aprendi muito e venci preconceitos que não sonhava ter. A Rosa fez-me sentir bem comigo, esquecer a minha depressão e os meus problemas, os meus medos e anseios, fez-me deixar de ter pena de mim e não me deixou ter pena dela.

Desejei-lhe boa sorte.

Passados uns anos, regressando de Lisboa, vejo a Rosa a vender lenços de papel na estação de Campanhã.

Estava feia, suja, sem dentes, magra e com um ar muito doente.
Olhou para mim, ter-me-á reconhecido.
Olhou para o chão.
Eu, desvio-me e sigo o meu caminho.

Hoje pergunto-me se esta mulher está viva. Creio que não. Mas tenho pena de não lhe ter devolvido uma palavra e um sorriso, mas na altura parecia-me tão difícil…

Afinal os preconceitos ainda estavam ali!

4 comentários:

Diabba disse...

A Rosa já tinha perdido tudo, restava-lhe a vergonha de continuar na mesma vida e não conseguir sair.

Olha, eu nunca tomei nenhuma droga "dura", fumei uns charritos em tempos que já lá vão, mas tenho a certeza que nunca mais conseguiria sair duma ratoeira dessas, dizem que a ressaca (fisica/mental) é algo de indescritível.

Eu não te vou dizer que fizeste bem ou mal, em Campanhã, provavelmente eu teria feito o mesmo!

beijo d'enxofre

Melões Melodia disse...

Diabbinha, sabes que ainda hoje, porventura faria o mesmo e nao me culpo por isso. Mas, e voltando a velha historia dos preconceitos, por muito que digamos, todos temos os nossos.
O que e engracado e que passado uns 10 anos desde que a conheci, ainda me lembro dela, e da conversa a mesa de um cafe. E nesse dia senti-me bem comigo.

beijos

chiqui disse...

Ha momentos assim Meloes, em que um pequeno passo da nossa parte se torna num momento inesquecivel, as vezes numa licao de vida. Concordo contigo, todos temos preconceitos que as vezes sao dificeis de vencer. Mas naquele dia, quando decidistes voltar atras, falar com a Rosa, sendo adolescente (fase por si so tao preconceituosa), vencestes a batalha. Pelo menos naquele dia. E por muitos outros, pois ainda hoje recordas esta historia.
Obrigada por a partilhares.
bjos

Melões Melodia disse...

Chiqui - E uma historia como muitas porque passei, mas sabes, as vezes penso que com a idade perdemos uns preconceitos e ganhamos outros. Naquele dia em que falei com a Rosa, tive orgulho em mim. Esse orgulho bacoco era tambem fruto do preconceito. Falei com alguem e ajudei alguem que para mim era pior do que eu. Uma atitude paternalista de que nao tenho nada de que me orgulhar.
Beijos