segunda-feira, 4 de junho de 2007

Música

Do gr. mousiké, «relativo às musas», pelo lat. musìca-, «música; poesia»
s.f.
1. arte de combinar harmoniosamente vários sons, frequentemente de acordo com regras definidas; 2. qualquer composição musical; 3. concerto vocal ou instrumental; 4. conjunto de sons agradáveis; harmonia; 5. cadência; ritmo;


dedicado a todos os que partiram antes do tempo

Os músicos entram na sala onde reina o ruído. Sentam-se e logo começam a afinar os instrumentos num caos que busca a forma.
Silêncio absoluto.
Começa a obra. Serena, perfeita, criando um rendilhado de harmonia sem muito que contar.
Logo, um oboé melancólico lança a sua mensagem. Uma melodia simples, suspensa no ar, entram as outras madeiras, repetindo a melodia em diferentes tons e com subtis matizes. O tema desenvolve-se, cresce, muda os ritmos. Junta-se-lhe o grupo das cordas. Num crescendo louco e quasi agitato, até que irrompem os metais e a percussão, num tutti, um plenissimo, fortissimo, em que a subtil melodia do oboé nada mais é do que o apontamento longínquo da simplicidade que originou a histeria que enche a sala. Todos vibram e há uma necessidade enorme de repetir as emoções descritas.

E vem a fuga, o tema repete-se descoordenado pelos diferentes naipes, com sons diferentes e ligeiras variações, já longe, mas evocando o tema inicial. Esta espiral não se aguenta muito tempo e começa o contra-tema seguido da desconstrução do tema original, em ritmos compostos e sincopados, com intervalos imperfeitos e acima de tudo com cromatismos em que a dissonância passou a ser a regra. O crescendo não para, torna-se insustentável e, com uma explosão da percussão, detem-se subitamente e só o eco se ouve na sala, com a respiração suspensa dos ouvintes.

E logo, no meio deste eco, lá longe, o oboé retoma o seu tema perfeito, mas desfalecendo até se perder. O mesmo se passa com as flautas, os fagotes e os clarinetes. Numa raiva surda, os metais entram na luta, mas em vez de se evaporarem no ar, o seu tema já corrompido pelas suas limitações, acaba bruscamente como um grito que clama perdão. Ficam as cordas, que ornamentam o tema no seu virtuosismo fácil que busca a fácil emoção dos presentes. Mas estes ainda se lembram das madeiras e dos metais que partiram antes do fim da música. Uns desfaleceram, os outros explodiram. Mas todos antes do fim. Queríamos voltar a ouvi-los, mas já só há o eco na sala e as cordas que desenvolvem o tema, tornando a necessidade de ouvir o original, do doce e triste oboé, ainda mais presente.


***


Um dia o meu professor de improvisação disse-me que a música é o Homem. Enquanto a primeira tem ritmo, harmonia e melodia, já o segundo tem corpo, inteligência e emoção.Para mim a música é tudo isto e muito mais. É a arte por excelência, mas a mais falível. Não é preciso ir até a ela porque ela vem até a nós. Invade-nos os sentidos. Não é como uma arte plástica que temos que olhar. Não é literatura que temos que ler. Basta-nos entrar numa sala com música e já esta nos invade, quer gostemos, quer não. Assim é a vida. Mas ao mesmo tempo, ao contrário das outras artes é a mais mutável. Há a ideia original de quem a escreveu, a interpretação de quem a dirige, o expressão de quem a executa e a percepção de quem a escuta. Por isso a música, mais do que o Homem, é a vida onde infelizmente muito fica por contar.

5 comentários:

Pitucha disse...

Linguagem universal, não é? Notas da alma, não é?
Haverá alguém qu efique indiferente à música?
Beijos

calamity jane disse...

Fiquei sem palavras. Arrepiada... Até agora, o mais belo post q li no teu estaminé...

Melões Melodia disse...

Pitucha - Notas da alma, sem mais.
Beijos

Calamity - Obrigado. Sabes que a musica, de tudo o que ha, e o que mais me preenche, quer seja a ouvir, executar, dirigir ou compor. Consegue realmente preencher-me na totalidade.
Beijos

caditonuno disse...

nao sabia que também havia aulas de improvisaçao!

o que o pessoal inventa!

Melões Melodia disse...

Caditonuno - claro que sim, alias, tecnicas de improvisacao. e isto ja foi ha uns 12-14 anos, por isso nao e de agora.

Tentei comentar o teu ultimo post mas nao pude. E logo eu, que tinha mandado umas bocas as natas Ken (as preferidas da barbie) e a agua de Gingko Biloba
Abraco