domingo, 17 de junho de 2007

Os Olvidados


Há uns anos atrás, no meu terceiro ano do curso de órgão, chega-me às mãos uma pequena peça de um compositor até então para mim desconhecido. Começo a estudar a obra e desfaço-me. Um tipo Passacaglia, com um tema simples no pedal que só muda de tonalidade. Mas a harmonia… arrancou-me imediatamente lágrimas dos olhos. Toquei-a até à exaustão e até hoje não me canso de a tocar. Tanto é que decidi levá-la a concerto no meu exame final. Pequena, tecnicamente fácil mas bela.

Fiquei obcecado pelo compositor. Um génio no seu tempo, que após a sua morte caiu no olvido.

Muitas poderão ter sido as razões:
- dedicava-se quase exclusivamente à música sacra numa altura em que as revoluções politico-socias pós revolução francesa e os ideais nacionalistas e republicanos tomavam lugar;
- uma linguagem simples na tradição de Leipzig Bach e da música antiga, seguindo formas antigas, apesar das harmonias da época;
- Teve uma vida sem muito que contar, sem grandes dramas que ajudam a criar o mito.
Comecei uma exploração da sua obra, extensa e bela – foi difícil na altura. Comprei todas as partituras que encontrava. Em 96, na Alemanha, encontrei três CDs com obras suas e trouxe-os comigo.


Não conheço outro compositor que domine tão bem a voz humana. As suas obras corais, de longe as melhores da sua obra, são de nos deixar perdidos a flutuar por novos mundos. São obras quentes, quase sempre serenas, com umas linhas naturais, orgânicas - a antítese do que se fazia na altura.

Ainda me lembro quando ouvi pela primeira vez o seu "Abendlied" Op69,3 - Ah... A abertura, o primeiro compasso, I-III graus, Tão simples e tão perfeito, sem cadências o que faz do pequeno motete uma obra única do início ao fim... e a letra... fica connosco porque cai a noite e o dia termina. Lembro-me de propor este motete para o funeral de um amigo - metade do coro calou-se pela emoção - tão simples e tão profundo.


A sua missa “a capella” para dois coros, o hino op35 para coro feminino harpa e órgão, os seus requiems e stabat maters… não merecia a sorte que o destino lhe pregou.

Chama-se Josef Gabriel Rheinberger e felizmente renasce.

Como ele haverá muitos, quando, por exemplo, se sabe que há quilómetros de partituras na torre do tombo de obras inéditas e ninguém sabe o que lá está. Não há dinheiro para as recuperar, mas não há vontade de deixar os alunos dos nossos cursos superiors de música recuperarem esta música como parte da sua formação.


Quantos ainda esperam ser resgatados do olvido?

6 comentários:

Teresa disse...

Deixaste-me muito curiosa!

Não lhe conheço absolutamente nada! E não tenho sequer a certeza de alguma vez ter tropeçado no nome dele.

Já andei a espreitar na Amazon o que haveria dele (e o meu carrinho sempre a engordar).

Algum trecho que me possas mandar por mail? Agradecia-te imenso. O endereço é gotaderantanplan@gmail.com.

Beijos.

Melões Melodia disse...

Teresa - que rapidez, ainda estou a corrigir o meu texto e tu ja comentas - que isto de nao ter portugues no meu word tem muito que se lhe diga - corrige-me as palavras para as coisas mais estranhas. Vou ver o que consigo encontrar, mas ja ha bastante coisa. Agora mesmo, vou tentar encontrar um CD com as melhores obras corais que o meu de tao velhinho e tocado ja nao funciona.

Tenta isto: http://www.youtube.com/watch?v=6jc-qosF-Xk&mode=related&search= nao consegui ouvir porque estou com um problema nas colunas mas os kingsingers costumam ser bons.

beijos

Afgane disse...

Não conhecia este espaço mas falando de música abre-me desde já o apetite. Não conheço o compositor de que fala, mas vou dar uma olhada. Obrigado pela sua explicação no blog da Teresa mas como lá escrevi sou um simples músico de rock e blues, toda a minha formação musical nasce dessas correntes, o resto tenho aprendido com o tempo. Mas música é música seja qual o género ou formato. Uma coisa aprendi: em todos os estilos músicais haverá pelo menos uma música de que tenho a certeza irei gostar.
Um abraço

Melões Melodia disse...

Afgane - Benvindo. Este espaco nao e so de musica, e mais do que me vai passando pela cabeca. Mas estou totalmente de acordo consigo quando diz que musica e musica e em todos os estilos e correntes ha musica boa e ma.
Um abraco.

125_azul disse...

O teu texto sobre preconceitos é dos mais belos e coerentes que já li. Comoves-me sempre que venho aqui. Tens toda a razão e segue assim,a acreditar que fazes a diferença com a tua postura equilibrada. Um dia seremos todos pessoas melhores e mais capazes de te merecer...
Vou seguir os teus links para conhecer este senhor alemão.
Beijinhos, grata pelos miminhos, boa semana

Melões Melodia disse...

Azulinha - que bom, estas de volta. Obrigado pelos teus comentarios, que acho que vao sendo mais merecidos uns dias do que outros, mas enfim. De resto, nada e uma questao de merecer, mas de ser.
Beijinhos