sábado, 7 de julho de 2007

Segredos

Há uns meses atrás comecei a rubrica do “O Longo Inverno”. Muito tempo se passou em que não disse nada, como se este assunto estivesse esquecido. Nunca esteve, e se só agora falo dele abertamente, é porque só agora se fecharam as feridas e acho que tenho que partilhar a minha história, como a via na altura, para que se possa compreender, sem piedades, aquilo pelo que muita gente passa.

Hoje lembrei-me da minha reacção sobre o contar ou o manter em segredo, ao ler um livro de alguém que padeceu do mesmo mal. Infelizmente partiu, mas revi-me, página a página, no que escreveu.

Lembrei-me precisamente deste texto que vos deixo:

"Senti chegar a morte no espelho, no meu olhar reflectido no espelho, muito antes dela ter tomado verdadeiramente posição. Será que eu atirava essa morte através do meu olhar aos olhos dos outros?

Não a tinha confessado a todos. Como tantos outros, gostaria de ter tido a força, o orgulho louco, também a generosidade, de não contar a ninguém, para deixar viver as amizades livres como o ar e indiferentes e eternas. Mas, o que fazer quando estamos esgotados e a doença chega mesmo a ameaçar a amizade?

Há aqueles a quem disse; aqueles a quem não queria dizer mas a quem sentia o longo silêncio de mentiras afastá-los horrivelmente de mim e que se não agarrasse imediatamente a sinuosidade da verdade, tornar-se-ia, instantaneamente, demasiado tarde, assim que lhes disse para continuar fiel; fiquei a dever a verdade a outros e parecia-me que nesse instante perdi toda a liberdade e total controlo sobre a minha enfermidade; e finalmente, disse-o à velha senhora, porque ela, por ser velha, nada temia, ela, que tinha noventa e seis anos e por isso me igualava no seu potencial de vida, e porque a sua memória o tomaria por irreal ou o apagaria imediatamente.

E aos que nada disse, será que o viam nos meus olhos? Cada vez me aborrecia mais com os que não sabiam. Tinha a impressão de não ter nada a contar aos que sabiam, tudo se tornava nulo e se desmoronava, sem valor e sem sabor, tudo ao redor desta novela, que a amizade havia transformado no nosso dia a dia e onde a minha rejeição me abandonava.

Confessar aos meus pais seria expor-me ao mundo inteiro, ser gozado por todos os miseráveis da Terra, deixar-me ser espezinhado por toda a merda abjecta.

O meu principal problema era morrer ao abrigo dos olhos dos meus pais."

17 comentários:

Teresa disse...

Li com toda a atenção os três posts de O Longo Inverno (Now is the winter of our discontent made glorious summer by this son of York), tentando perceber... mas sem querer devassar.

A verdade é que sei muito pouco, quase nada de ti. Sei só que sou e quero ser solidária, sejam quais forem as dores passadas e presentes.

Um beijo.

When the night has been too lonely
and the road has been too long
and you think that love is only
for the lucky and the strong
Just remember in the Winter
far beneath the bitter snows
lies the seed that with the sun's love
in the Spring
becomes the rose.

(Bette Midler, The Rose

Vou mandar-te por mail.

AEnima disse...

Meu querido,

Eu sou da opiniao de que as pessoas se apercebem. Mas eu tambem posso ver muita coisa e nao digo nada, a nao ser que a pessoa tome a iniciativa de falar. Se ela nao quer falar, e' porque se sente melhor assim.

Acredito que os teus pais nao sofreriam mais ou menos por saberem. Mas alertava-os para um mundo desconhecido. Criavam sensibilidade para algo que nunca imaginariam poder vir a ter.

Nao sei como podes pensar que serias gozado. Brinca-se com muita coisa, mas ha coisas que nao lembra ao pior sadico de gozar.

Fico feliz saber que as feridas estao a sarar.

Beijinhos mil

Diabba disse...

Mas o longo Inverno acabou... espero que o caminho agora seja cheio de cheiros novos a flores e terra molhada e relva acabada de cortar!

beijo d'enxofre

Sim, às vezes contar um segredo é quase como arrancar a sangue frio um bocado da alma!

Rubrica Brasil disse...

Atravessei o Atlântico.
Cá estou, vi a porta abrindo e o encontrei livre deste peso guardado.
Vê-se depois um indelével cicatriz.
Agora é respirar profundamente e ver o sol que aquece seus dias.
Baci e abbracci

Melões Melodia disse...

Teresa, passei uma ma’ fase da minha vida, quase dez anos, em que todos os aspectos para mim importantes corriam mal. Foi uma entrada na idade adulta dura e sem esperancas. Estava num caminho com uma unica saida, assim me era garantido por todos, que nao e’ a saída que queremos, principalmente quando deveriamos ter toda a vida a’ nossa frente. Estranhamente, foi tambem uma fase muito criativa e de sucessos profissionais (que eu chegava a desdenhar). Durante estes anos, parecia feliz e forte, brincava com o assunto ou ignorava-o, mas quando estava so’, nao to posso nem descrever. Felizmente abri os olhos a tempo, deixei de ser egoista, tratei-me e, para espanto de muitos, curei-me. Mas estas coisas criam-nos uma armadura a volta do peito, da qual e dificil separar-mo-nos. E sim, sei que ali debaixo esta’ a semente pronta a nascer livre porque o Inverno finalmente passou.
Beijos

Melões Melodia disse...

Aenima – Ja’ falamos tanto deste assunto, mas sabes, quando contei, aos amigos que contei, deixei-os surpreendidos e disseram que nuncal lhes haveria passado pela ideia. Continuava a ter o meu mau feitio, a mandar as bocas ironicas e causticas, a rir e a fazer rir, a velha historia do palhaco. Numa fase final, claro que se notava. Se estava muito mais magro, a perder cabelo, com chagas, a ver muito mal e febres assutadoramente altas, as pessoas notavam, mas mesmo ai continuava a fazer a minha vida normal. O trabalho, os meus ensaios, os meus concertos, afogado em pastilhas para baixar a temperatura e apaziguar as dores. Foi quando me levei a um tal extremo que nao sei, ainda hoje como o meu corpo aguentou tao mal trato. Basicamente nao dormia. Tentava chegar a casa quando todos dormiam e saia quando todos ainda dormiam, Assim nao me viam, nem ao meu estado. Nao aguentava ver o olhar de desespero da minha mae, era neste olhar que eu via o mundo gozar-me, sofreu por mim, mas nunca me perguntou nada porque ou nao queria saber ou saberia que nada conseguiria arrancar de mim. Quando fui “de ferias” para me tratar so me disse, aproveita as ferias para descansares e recuperares que estas com um aspecto esgotado. Voltei diferente, melhor, que meses mais tarde se confirmaria como curado. Nesse momento queria um abraco do meu pai ou o colo da minha mae. Nao os tive. Nao lhes dizer foi uma opcao, provavelmente errada, talvez certa, nao sei. Mas nao imaginava este desfecho, como nao queria bver o mundo rir-se de mim atraves da impotencia e desespero dos que mais me amam, os meus pais.
Beijos

Melões Melodia disse...

Diabba – acabou, felizmente, e trouxe depois dele uma doce primavera que espero que seja bastante mais longa do que o inverno, mas as vezes ainda tenho a necessidade de limpar estas nuvens que ficaram, e desabafar, e poder dar conforto a alguem que possa precisar do que eu entao precisava e nao tinha, porque me enterrei nesta camada de segredos. Apesar de tudo, e de estes textos nao o mostrarem muito, sou uma pessoa feliz, bem disposta e que nunca se queixa. Com tao pouco desabafo, descobri este canto como um sitio onde o faco com relativa facilidade.
Beijos

Melões Melodia disse...

Rubrica Brasil - A cicatriz e grande mas nao a quero apagar. Foi uma bela licao de vida, pos-me no meu sitio e tirou-me toda a presuncao tipica dos adolescentes. Aprendi, principalmente a nao me chatear com nada, nao vale a pena. Fez-me pensar muito e acreditar no que e bom e no que e belo... estranhamente antes do fim do Inverno. E sim, o sol veio aquecer os meus dias, com cada esperanca renascida, no meu futuro, no meu amor, em mim.
Beijos

Actriz Principal disse...

Por vezes, quando te leio, sinto que estás a expurgar os males, a exorcizar o passado.
Desde que estejas bem...

Beijo

Melões Melodia disse...

Actriz - e isso mesmo. estou bem, estou optimo, feliz, contente se calhar e por isso que ando com forcas para deitar ca para fora tudo isto. Limpar-me, exorcizar o passado como muito bem o dizes. Estavas la e viste e sabes como calava tudo. Agora nao o tenho que fazer.
Beijos

Kalinka disse...

Estive cá esta manhã, li-te e fiquei preocupada e com um sentimento angustiante, pelo sofrimento; mas, agora voltei...leio-te neste comentário e dizes que estás optimo, feliz...
Vou-me embora com um sorriso nos lábios.
Continua feliz e bem, é o que te desejo.

Melões Melodia disse...

Kalinka - Obrigado pela visita. Nao queria assustar ninguem, desculpa se o fiz. Sao velhas historias do passado que se curam agora. Sim, sou feliz, optimista por natureza, embora nao pareca nestes comentarios. Vou ter que escrever algo a ilucidar as pessoas que se assustam com estes meus posts.
Beijos

Ck in UK disse...

ainda hoje discutimos isto ao almoco....

Melões Melodia disse...

Cila - confirma la a esta gente que nao tem que se preocupar comigo. Que tenho mau feitio e certo, mas fora isso ate sou um gaijo bem disposto.
Hmmm - nao sei se foi bem isto que discutimos, esta relacionado, mas nao foi isto.

Anónimo disse...

Na vida devemos viver um dia de cada vez,sempre com intensidade,mas,sem exageros,por vezes o nosso corpo e a nossa mente ficam doentes porque com a euforia o nosso corpo não aguenta tudo o que a nossa mente quer que ele execute,é terrivel desde tenra idade que acho e tenho quase a certeza que tenho depressões só que nessa altura ninguém sabia o que era,a mim dava-me para não ter fome era mesmo muito magra e agora tenho alguns problemas de saúde devido a todas essas maleitas e as depressões nunca mais me largaram apenas tenho subrevivido com a Homeopatia.Tudo é depressão a alegria,a tristeza,e é realmente como dizes é preciso acreditar para ultapassar.Da última vez fiquei de rastos,estava no topo e não podia parar(decoração em grande escala em hotelaria,não tinha tempo nem para dormir,não tinha empregados apenas colaboradores independentes e muito bons),mas, tinha muita responsabilidade,depois de tudo executado com sucesso,fiquei completamente de rastos,quase não conhecia as pessoas e ninguém da família dava por isso,então depois de me tratar sempre sózinha,resolvi nunca mais trabalhar,mudei de cidade,anulei todos os números de telefone e hoje acho que estou no bom caminho,pois quem ganha muito gasta muito e não tem nunca a paz de espirito dos pobres.Acreditar é mesmo o caminho,mas apenas acreditar em nós já que os outros nunca poderam imaginar tudo aquilo por que passamos nesta vida.Trabalhar o necessário sem materialismos e boa alimentação é tudo que a humanidade precisa para ser feliz.Um beijo da FIFI e desculpa tanta poesia

Tuxa disse...

Os nossos pais sao sempre o nosso ultimo reduto de dignidade, de amor... e o risco de o perder faz-nos "afastar" aqueles que mais nos querem e amam, quando tenho a certeza que tal nao aconteceria. Se calhar magoamos mais quando tentamos proteger, mas nao temos como deixar de agir dessa forma.
As nuvens passaram, o sol brilha agora. Exorcisados os demonios, deixa os anjos acompanharem-te no teu caminho... bjs

Melões Melodia disse...

FIFI - sabes, as nossas preocupacoes e depressoes passam porque acreditamos, e acreditamos porque, e chamem-me romantico, damos amor, damos, sem esperar nada em troca. Entao a vida presenteia-nos com a paz de espirito que sempre buscamos.
beijos

Tuxa - nunca acreditei que os meus pais se afastassem. nao os podia fazer deixar de viver as suas vidas para que vivessem a minha. Talvez nao sabia que, para os pais, a vida de um filho e talvez a propria vida. Uma das tristezas que levo dentro e que ao pensar que evitava o seu sofrimento, lhes dei um ainda maior, porque "nao podiam" falar do que se passava. A minha pena foi nao poder partilhar com eles a minha alegria.
Beijos