domingo, 12 de agosto de 2007

Os dados estão lançados

Há tanta coisa que vos quero contar… e sei que se não o fizer num só post, não o voltarei a fazer… isto, porque muitas vezes penso em coisas que vos quero dar a conhecer e logo depois, com o passar do tempo, outras aparecem, e o que deveria ser escrito não fica senão no meu pensamento.

Vamos lá ver como me saio… e se me faço entender.

Sexta feira - 12.00
Numa tentativa de unir a equipa, e depois das minhas severas críticas da semana passada, o meu chefe anda a fazer um enorme esforço para transformer a equipa num grupo de companheiros e não de estranhos que quase não se falam.
Para isso marcou uma partida de Crown Green Bowling em Finsbury Square. Confesso que não estava muito entusiamado com a ideia, mas lá fui. Os pares foram sorteados e eu tive que defrontar o meu chefe, que é bife, num jogo de bifes, em plena capital da Bifalândia.
Estranhamente ganhei. Uma extraordinária vitória de 21-7, e não, ele não me deixou ganhar, que é ingês e, por isso, extremamente competitivo.
Depois de tudo isto, lá fomos almoçar e tomar uns copos. Criou-se um ambiente descontraido… e vi a equipa mais relaxada do que alguma vez havia visto.
Se os objectivos do chefe serão atingidos? Duvido, dou-lhe o benefício da dúvido e aplaudo o empenho e a atitude.

Sexta feira - 17.00
Fui ao ginásio.
É verdade, o Melões, que já não fazia exercício há mais de cinco anos, inscreveu-se num ginásio, que por acaso é o mesmo onde está a Cila. Tinha encontro marcado para fazer um programa. Claro está, depois do Bowling no parque e de três copitos de vinho, o Melões não estava no seu melhor. Na entrevista, a "personal trainer" que me estava a avaliar, perguntou-me o que esperava do ginásio e quais eram os meus objectivos.
O meu objectivo é só um. Cuidar da saúde. Ainda sou dos que acreditam em “Mente sã em corpo são” e quando já vimos o nosso corpo exposto a algumas coisas, achamos que não o devemos ignorar. Temos que o cuidar.
Diz-me ela… então há que deixar alguns maus hábitos, como beber… ups, afinal os três copitos de vinho ainda se notavam, e mal se começa o ginásio, ganhar fama de etilizado, não me parece muito correcto.

Sexta feira - 21.00
Um colega comprou casa e fez uma festa de inauguração. Lá fui eu. Não conhecia quase ninguém e queria sair cedo, pois sábado tinha algo muito importante para fazer.
Copo puxa copo, conversa puxa conversa, e vem o tema "Gay" à baila.
Não sei porquê, este tema parece estar na ordem do dia. Parece que toda a gente tem que provar que está bem com o assunto. Faz-me acreditar que ainda há muita discriminação ainda que seja pela positiva. Nos tempos que correm tem que se ter um amigo gay.
Não estava muito envolvido na conversa, mas sempre de ouvido afiado.
Ouço então alguém a dizer - isso não é normal. É anti natural!

Saltou-me a tampa. Ainda por cima vindo de alguém com alguma formação e com apenas 23 anos. Uma jovem jornalista que vive em Brighton – a cidade gay por excelência na Bifalândia.
Apesar de só lhe querer dar um chapo bem dado, perguntei-lhe calmamente o que era ser normal… não soube responder.
Perguntei se ser normal é acordar todos os dias de madrugada, preparar o pequeno almoço dos filhos, levá-los à escola, ir trabalhar, ir buscá-los à escola, chegar a casa, fazer o jantar, deitar os filhos, e completamente exausto ir para a cama, para ter um dia seguinte exactamente igual… poupar uns cobres para ir passar férias a uma praia cheia de turistas, esturricar ao sol, all inclusive, voltar de férias, ver os anos passar e aquando da reforma, estar sentado a ver televisão ou enfiado num asilo. Sim, porque se é isto ser normal, então prefiro não o ser.
Ser normal é amar, ser amado, seguir as normas e a rotina quando estritamente necessário e fugir delas sempre que possível. É fazer o que nos dá prazer, com quem nos dá prazer, e dar o mesmo prazer aos outros, através do amor, da arte, da partilha de ideias,
Ser normal é estar bem consigo, com os outros, e fazer com que os outros estejam bem.
Ninguém respondeu ao meu discurso – todos se calaram para o ouvir – quando o terminei havia o silêncio…
Mudámos de assunto e quando dei conta eram duas da manhã e escapei-me até a casa.

Sábado – 09.00
Tinha medo deste dia, tanto medo, que não o partilhei com ninguém, nem sequer com a Cila (que me vai matar por nada ter dito) que se tinha oferecido para acompanhar-me.
Entrei no Hospital com medo mas contente e excitado. Uma sensação doce. Todos me trataram com muito carinho.
Às nove entrei no bloco e começaram com os procedimentos que já conhecia. Deitaram-me em posição fetal, começaram o procedimento.
Tinha mais medo do que da primeira vez, há uns anos atrás. Sabia com o que contava, mas fi-lo com um sorriso nos lábios e pedindo interiormente, a quem estivesse ao meu lado e me ouvisse para fazer tudo isto valer a pena. Desta vez chorei, mas não pela dor, que dor já eu conheço bem e aprendi a suportar. Emocionei-me.
Lembrei-me da primeira vez que fiz exame semelhante. De ter desistido, perdido as esperanças. Agora era diferente. Dava uma parte de mim onde esperanças tinham sido depositadas. Quis guardar esta emoção só para mim. Era o meu momento.
Passei o resto do dia e da noite deitado com a cabeça abaixo do nível do corpo para evitar as terríveis cefaleias de que bem me lembrava e que eram o que realmente me assutava.
Estive assim, sem me mexer, com uma palha enfiada na boca a beber toda a água que podia, mas sem me mexer. Sem ir à casa de banho, sem comer, a tentar dormir. Até adormecer...

Domingo - 9.00
Acordei com a sensação do dever cumprido. Estou cansado, mas as cefaleias não me visitaram. Como se alguém me tivesse oferecido a isenção deste efeito secundário por me ter oferecido para fazer aquilo que muitos outros recusaram.
E agora estou aqui, em casa, cansado… olho-me ao espelho e sinto-me extremamente feliz. Não posso evitar chorar quando vejo o meu percurso até este dia. Não sei a quem devo agradecer.
Sinto-me cheio, feliz, feliz como não me sentia há muito tempo. O que fiz pode ser uma gota, mas é de gotas que é feito o oceano.
Agora que os dados estão lançados outra vez, é confiar, acreditar, que neste pedacinho de mim, está uma parte da chave para tornar este mundo mais feliz.

Obrigado!

15 comentários:

Diabba disse...

(mirando e remirando)

Tu és um melão diferente... normal, mas diferente!

beijos d'enxofre

Anónimo disse...

Não posso responder a uma coisa que não sei visto ocultares a tua verdadeira doença,depois de ler várias vezes essa escrita de enigmas,chego à conclusão que tinhas uma doença em que tu foste a cobaia para a cura,será?Espero que sim,e se assim for na realidade és mesmo um melão muito maduro(é por isso que choras)e muito guerreiro.Quanto às cefaleias a mim também me dão e a seguir vejo várias imagens e tudo a rodar também tenho que me deitar e nem posso mexer uma pestana senão vomito,isto é terrivel,já fiz exames ao ouvido interno e estava tudo bem,a última vez foram dois dias nem comia,ando a tomar aspirina 100 e melhorei.Conclusão:Problemas de circulação.Falando de ti,és mesmo muito forte fazeres tudo sózinho e ainda feliz,pessoas assim vivem felizes sózinhas para sempre,eu cá sou uma medricas quando estou só principalmente de noite,nem consigo dormir,admiro todos aqueles que vivem longe e sós.Muita saúde que na vida é o principal porque o resto todos conseguimos.Beijinhos da FIFI com desejos que tudo te corra como desejas que bem mereces

Anónimo disse...

N�o sei o que se passa para o coment�rio sa�r assim.FIFI

Melões Melodia disse...

Diabba - Serei mesmo? O normal e mesmo sermos diferentes, senao seriamos todos clones uns dos outros.
Beijos

FIFI - A doenca aqui nao e o importante. O importante e o acto. Tenho que confessar que me sinto orgulhoso de nao me ter acobardado e de ter dado uma parte da minha medula para investigacao. E apesar de viver sozinho e estar longe dos que quero, ter o privilegio de poder fazer uma coisinha tao pequena como esta, torna a vida mais suportavel e muito mais alegre.
Realmente, o que me faz feliz e oferecer, o que seja, nem que seja um bocadinho de esperanca a quem nem sequer sabe que ando por aqui.
Beijos

Anónimo disse...

Assim já compreendo tudo, e acho que tens mesmo é que sentires orgulhoso do acto,eu não sei se seria capaz,apesar de querer sempre ajudar toda a gente.Beijinhos e muita força para continuares essa luta,que eu cá ando na minha,Xis da FIFI

Ck in UK disse...

ja te disse q da proxima te parto as pernas.

Meloes disse...

FIFI - claro que o farias. Ha situacoes em que fazemos o que ate entao julgavamos impensavel. So quem esta nelas e que sabe.
Forca para ti.
Beijos

Cilinha - Va la, ja so sao as pernas outra vez.

Avelã disse...

caramba, gosto de ti.

Melões Melodia disse...

Avela - Fico contente que tenhas gostado
Beijos

Rubrica Brasil disse...

Sempre me surpreende!
Beijocas brazucas.

geocrusoe disse...

Bem após uma semana de muita farra, alguma cultura e trabalho aborrecido. Eis que vejo que, entretanto, outros passaram por receios e batalhas anti-discriminação, enfim... a vida continuou ao meu lado com dores, tristezas e receios, mas também com a sensação de resistência, alegria e esperança. Folgo em saber que alguém para salvar outro ou ajudar a ciência se entrega, mesmo com medos, a actos de coragem e é verdade quando vemos os nossos amigos precisarem que os nossos medos sejam vencidos, até doar parte da medula fazemos, pena que no meu caso o final não foi feliz para quem eu admirava. Parabéns músico guerreiro.

AEnima disse...

Por acaso tambem estranho a malta referir-se ao facto de ter "muitos amigos gays" para por o ar nao discriminatorio. Da-me a sensacao, que pelo facto de identificar esses amigos como gays estao a perpetuar o conceito da diferenca. O problema das minorias (raciais, sexuais, etc etc) muitas vezes e' identificarem-se como uma minoria. Fica logo o "Nos" separado do "Eles, os outros, os normais".

Quando ao exame... isso parece ser uma LP. Ja tinha ouvido dizer que sao fodidinhas de se fazer sim. Meloes, espero que descubram depressa depressa o motivo para os casos especiais e que descubram depressa depressa como fazer toda a gente especial assim para terminarem de uma vez por todas com essa peste horrivel. Obrigado nos todos, a ti, por aceitares ajudar tanto.

chiqui disse...

De facto a descriminacao positiva (positiva onde??) e muuuito bonita. Descriminacao assim mesmo. So que bonita... Nem sei que te diga.
Quanto ao teu acto de ti nao poderia esperar mais nada que nao fossem actos de coragem, valentia e generosidade.
beijos, ohhhh guerreiro ;))

Ms D. disse...

Tem graça falares no assunto da discriminação, há uns tempos, quando falava sobre uns amigos gay, ouvi alguém exclamar:
-Tens amigos gay??!! A minha amiga XX gostava imenso de ter um!
Fiquei de boca aberta! Não estava a acreditar no que tinha acabado de ouvir! Alguém quer ter um amigo gay como quem quer ter um acessório!! Apeteceu-me esbofetear a XX, que nem sequer conheço, por ser uma atrasada mental e a amiga por ter uma amiga daquelas. Isso para mim é descriminação da pior espécie.

Quanto ao sábado, parabéns pela atitude altruísta e pela "madureza" de um melão bem doce que cada dia gosto mais.
:)

Melões Melodia disse...

Rubrica brasil - ha coisas que temos que fazer se queremos estar em paz connosco.
beijos

Geocrusoe - espero que tenhas aproveitado bem a semana de farra - de resto, e preferivel o medo por umas horas do que viver o resto da vida a pensar que nao se tentou.
Abraco

Aenima - a discriminacao esta sempre ali. porque quando alguem fala de um amigo gay diz, tenho um amigo gay - porque? Costumo dizer - tenho um amigo hetero? Nao entendo.
O exame foi uma LP, a segunda, nao e agradavel. E o que e. Como deves imaginar ja fiz muitos exames a muita coisa e este e sem duvida o pior, mas nada que nao se suporte. Agora mais uns tres meses pelo menos ate as primeira conclusoes preliminares do que encontram por ali. Fingers crossed.

Chiqui - tenho a certeza que a maioria das pessoas com quem me dou fariam a mesma coisa. nao faze-lo seria ser extremamente egoista, defeito que nao suporto, principalmente quando falamos de coisas serias. Conheco um sujeito que se negou - nunca mais consegui olha-lo na cara.
Quanto a discriminacao, e sempre discriminacao. nada a acrescentar.

Ms. D - a mim estas atitudes dao-me ca uma febre... porque e que as pessoas tem que provar que estao bem com tudo ou com todos? O problemae que querem um amigo gay, nao para provar aos outros que nao discriminam, mas para provar a si mesmos.
Quanto ao sabado, esta tudo dito. nao e acto altruista - e o unico possivel.
beijos