quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Crianças

Estou a dever um post sobre a Paz, mas, se há tema que me incomoda e que vi abordado de uma forma negativa, verdadeira e sofredora, não me posso deixar ficar calado, porque acho que todo o ser humano é bom no seu âmago, apesar de haver duras e crueis excepções.

Falo do post da calamity, muito bem escrito, senão mesmo chocante. Não posso, no entanto, deixar de pensar que, quem fez mal a estas crianças, já foi criança e por isso inocente e bom.



Uma criança não deveria sofrer. Nunca! Como não deveria sofrer um adulto. Mas nos dias que correm, e já abordei este assunto em posts passados, somos inundados com notícias de crianças que sofrem. Parece-nos então que o mundo anda para trás, que é um retrocesso da nossa sociedade. Eu, e quem quiser pode discordar, não estou de acordo. Acho que hoje sabemos mais porque os meios são mais globais e porque as crianças estão mais expostas e por isso não podem ser escondidas em casa quando algo corre mal.

Trabalhei de perto com muitas destas crianças. Dei, durante muitos anos, aulas de música a crianças numa escola de música ligada à Igreja Católica, onde os que podiam pagavam 300 escudos por trimestre e os que não podiam, não pagavam. O dinheiro não era utilizado para pagar aos professores, ou dar lucro à escola, que gastava bem mais do que recebia em livros para os alunos, instrumentos orff e flautas para os que não as podiam comprar – é que apesar de todos os erros e ideias retrógradas que ainda persistem nesta instituição, a Igreja Católica tem um papel social que substitui de longe o Estado porque dá conforto, comida, educação e saúde aos mais esquecidos até pelo Estado. É que eu não sou daqueles que só aponta o dedo ao que está mal mas reconheço o que está bem, mas estou a fugir ao que queria contar.

Há mais de dez anos, conheci a minha primeira turma. Crianças de sete anos. Comecei a preencher as fichas e a perguntar os nomes dos pais. Quando chegou a vez da E. respondeu-me: “não sei, não deviam gostar de mim porque fugiram quando eu nasci e entregaram-me a uma senhora velhinha” – e dito com uma simplicidade... que eu quase não sabia o que responder e me queria enterrar num buraco. De facto a E. tinha sido abandonada pelos pais, dos quais não sei absolutamente nada e vivia numa “ilha” escondida numa das freguesias mais chiques do Porto, com um senhora velhinha numa casa sem saneamento ou luz, e que vivia das esmolas da Confraria de São Vicente de Paulo.

A E. tinha um comportamento impossível, hiperactiva, chama-la-iam nos dia que correm. Eu chamar-lhe-ia falta de auto-estima, de medo de não ser querida e de ser abandonada uma segunda vez. Era castigada constantemente devido ao seu mau comportamento, mas só uma vez referi o mau comportamento nas avaliações que mandei para casa, e não porque a senhora aquem a E. chama avó lhe tenha feito alguma coisa, mas pela criança que entrou em depressão porque pensava que a avó também a iria abandonar porque ela se portava mal. Mudei a minha forma de educar esta criança, inteligente, sensível e com um défice de carinho assustador apesar do imenso amor que avó nutria por ela. Era rígido com ela, mas dava-lhe muitas responsabilidades, ... A E. que se achava burra, feia, má, detestada, começou a fazer solos nas audições e porque mostrava interesse nela, aplicava-se e estudava e desenvolvia-se de uma forma brilhante. Este entusiasmo cresceu e abrangeu a escola, onde a E. se destacava. No entanto nem tudo foi fácil. Tive discussões absurdas com outro professor na escola que a queria expulsar pelo comportamento. Eu defendi-a com unhas e dentes porque não se pode abandonar uma criança só porque não se consegue educá-la, como nunca o fez a avó.

Mas havia outras E. nas minhas classes, apesar de ter sido esta a que mais me marcou, talvez porque ainda saiba o que é feito dela e saiba que ela tem um carinho muito grande por mim. Havia o C. que ficava na tasca do pai no meio de bêbedos até as duas da manhã para ir às aulas na manhã do dia seguinte; a M. com uma mãe maníaco-depressiva porque tinha sido abandonada pelo marido; ou os dois irmãos, cuja mãe eu admirava, porque contra todas as pressões da família se separou do marido que lhe batia e batia nas crianças.

Mas hoje, cada vez que vou ao Porto ver um dos concertos da irmã Meloa (que também foi professora deles) lá estão. Quando não vou perguntam por mim; quando vou, correm até a mim com um sorriso de orelha a orelha – homens e mulheres, crescidos, todos na faculdade, a E. bolseira em medicina, ainda me chamam “Setôr” e eu brinco com eles como sempre brinquei, trato-os como adultos como sempre fiz, mando as minhas bocas e saio dali feliz, porque quando conheci estas crianças não lhes via futuro algum.
E é um dos momentos em que me sinto realizado, e em que sinto umas saudades enormes do tempo em que ensinava. Porque afinal estas crianças foram deixando de sofrer porque a nossa sociedade assim o permitiu e de certeza não causarão sofrimento um dia que sejam pais.

20 comentários:

calamity jane disse...

Obrigada, querido Melão. Por me teres feito sorrir e arrepiar no bom sentido. Eu sei que muito do mal que se sente e se vê já existia antes e só parece maior porque hoje se vê mais. E sei também que as crianças que referi têm nomes e por isso conhecemos os casos delas, quando muitas outras morrem e sofrem anónimas no mundo inteiro. E ninguém fala nelas porque nem sequer tiveram "a sorte" de sofrer e morrer em Portugal, ou de terem sido loiras e bonitas, ou de terem quem lute por elas e saiba como chegar aos noticiários. Mas revolta-me que tenhamos chegado a este grau de "desenvolvimento" e que elas continuem a morrer e a sofrer às mãos dos loucos, dos maus - que existem, mesmo que o sejam porque um dia foram eles as vítimas - ou da porra do sistema. Ou a matar outras como se vê com frequência crescente aí nesse país onde tu te encontras.E nós a ver.
Obrigada, querido Melão. Também fico muito orgulhosa pela tua E. Iluminou o meu dia, acredita.

Melões Melodia disse...

Calamity - fico contente, mas acho que tanta informacao e a grande responsavel pelo pessimismo que se vive no nosso pais. OK a informacao, mas tanto pormenor e escusado.
E depois as historias bonitas nao vem em lado nenhum...
Beijos

Diabba disse...

As almas teimam em só ver o lado negro da vida, só é notícia a desgraça, raramente existe uma noticia que nos ilumine por dentro.

Eu tento, sempre, ver o lado positivo das coisas, mesmo quando parece que não há nenhum.

(não digas a ng estas coisas, é publico que eu sou do mal, negra como os carvões!) hehehehehe

beijos d'enxofre

A E. morava numa ilha numa zona bem? eu tb morei numa ilha... Boavista.

Anónimo disse...

Depois de ler tudo isto,descobri que afinal não sou só eu que vivo em panico constante,quando a minha filha se desloca para o estrangeiro,medo de ela se perder apesar de ser grandinha,não são só as crianças que sofrem,infelizmente estamos todos em perigo constante,apenas que as crianças não se sabem defender como os adultos,acho que o mundo vai voltar novamente aos bárbaros.Estas coisas já são antigas,mas,mesmo muito antigas,só que agora as pessoas têm mais informação,e por vezes aumentada,para o panico ser maior.A máquina deste mundo é o dinheiro ,por ele fazem tudo (droga,raptos de crianças e adultos,uns para a prostituição, outros para lhes tirarem orgãos para venda e por ai fora,até os velhinhos não escapam,raptados para andarem a pedir nos sinais),este mundo é realmente dessa mafia que não se rala em f.. os outros para atingir os seus fins,dinheiro e depravação.Que tenham sempre sorte vocês meus jovens cheios de sonhos e vida,de nunca serem desviados dos vossos caminhos,e que dêm aos vossos filhos desde tenra idade a informação necessária para saberem distinguir o bem do mal e alguns truques que a minha mãe apesar de ´ser noutra época me deu para me desviar de pessoas mal entencionadas que por um acaso até foram bastantes,è bom termos medo,assin ficamos mais espertos para enfrentar esses malvados, e este mundo de terror.Que todas as crianças sejam abencoadas,e lutemos por um mundo melhor,e a ti Melão eu tenho quase a certeza que darias um bom missionário.e o mundo ficava mais feliz e musical,porque deixas-te a tua outra vida?Dinheiro não é tudo,dar amor e felicidade aos outros é bem melhor.Beijnhos da FIFI Obrigada

Carlota disse...

Bravíssimo, Melões! Se ao menos toda a gente fosse pelo menos um bocadinho como tu...
Beijola.

amigona avó e a neta princesa disse...

Ao ler-te não sei se sorria ou se deixe a lágrima correr livremente...acredites ou não ela está a descer a minha face...porque me dói (mesmo!) a violência contra tudo o que está indefeso: crianças, idosos, animais...passa pela greentea e verás (outra)violência...não consigo aceitar...e por muito que tente não consigo compreender...o ser humano (?)no seu pior...
um beijo amigo...porque gosto muito de te ler aqui,porque acho que deves ser um ser fantástico, porque tenho a sorte de seres meu amigo! Bem-hajas...

125_azul disse...

Se ao menos houvesse um Melão no coração de todos os Homens grandes... Beijinhos, ser especial.

Melões Melodia disse...

Diabba - e eu estudava na Boavista, perto de muitas ilhas... hmmm... sera que nos cruzamos algum dia?
E mantenho o teu segredo, mas so porque estou de acordo.
Beijos

FiFi - Continuo a achar que nao vivemos num mundo de terror. sim, o dinheiro e o poder manda, como mandou no passado. que foram as "gloriosas" descobertas dos Portugueses? Ou a reconquista Crista? A expulsao dos mouros e mais tarde dos templarios senao uma busca desenfreada de poder e dinheiro? Esta na natureza animal esta busca de poder, de controlar um territorio, garante a continuidade da especie e na nossa especie este vem com o dinheiro. O unico problema e que a inteligencia perverte o jogo. Por outro lado o fascinio humano pelo que e morbido leva a que aberracoes estejam na ordem do dia, mas ha muito mais gente a fazer o bem do que o mal. Infelizmente (ou felizmente porque assim se pode lutar para evita-lo) o mal ve-se mais.
Quanto a musica, nao a deixei totalmente. Nao podia, e porque mudei, e uma longa historia. Algum dia postarei sobre isso.

Beijos

Melões Melodia disse...

Carlota - Carlota, obrigado. Mas todos podemos ser um bocadinho assim... e so deixar a preguica e comodidade de lado... e depois sao as alegrias que vem com isto
Beijos

Amigona - Tambem nao aceito a violencia e escrevi este post porque o da calamity me magoou muito. Estas sao as historias que ficam por contar, as que tem final feliz, e felizmente sao tantas... infelizmente nao sao todas nem acredito que virao a ser, mas cada uma que pudermos evitar e uma grande vitoria.
Um beijinho

Azulinha - obrigado - nunca fui muito bom com este tipo de comentarios mas sabem-me bem. E que este lado da minha vida sempre o levei muito fechado em mim... bom se calhar todos
Beijocas

Diabba disse...

Andaste no Clara? No D. Manuel? No Carolina?

heheheh beijo d'enxofre

PS: eu sei que o D. Manuel tem outro nome, mas não me lembro de qual, sempre o tratei assim...

AEnima disse...

Claro!!! Todas as mulheres com nome comecado por E sao umas grandes gajas... nao tinha duvidas que ela haveria de vencer no fim da historia... pronto.. tou toda orgulhosa, que queres?

Luci Lacey disse...

Uma graca seu blog e bem diferente.

Tenha uma boa semana.

Abracos

Melões Melodia disse...

Diabba - pois andaste perto. nao andei em nenhuma dessas tres, e tenho que dizer que o Clara ja estava um bocadinho longe. Ja o Carolina ou o Rodrigues de Freitas (ex D. Manuel), ficavam ali pertinho.
Beijos

Aenima - e tend que estar afinal a E. e tao E. como...
Mulheres de garra, cheira-me
beijos

Lucy - Obrigado pela visita e comentario.
abracos

caditonuno disse...

gostei imenso do post. sao estas crianças, hoje adultos, que fazem de nós homens e mulheres com valores autênticos e puros, pessoas íntegras e que sabem o que a vida pode custar.

nos casos que relataste vê-se que na altura vinham de meios difíceis e que, se nao conseguissem um dia sair desse marasmo, acabariam por ser iguais as pais.

hoje, passados 5 ou 6 anos do 1º ano de ensino, pergunto-me o que terá acontecido a este ou a aquele aluno que eu tive. muitos serão mais uns anónimos neste mundo, mas outros, ainda que poucos, conseguirao fazer a diferença e sairao desta vidinha que cada vez mais as pessoas levam...

Afrika disse...

Lágrimas cairam me... por que eu também de certa forma senti na pele o que "estas" crianças... as vezes chegava a casa com a alma feita pedaços. Mas, não pude fazer muito por eles... trabalhei com uma turma na Madalena (Gaia), onde tinha 3 crianças em situações complicadas e pouco pude fazer com eles... não tive colocação no segundo ano! Mas, pensei durante muito tempo em eles e sempre que um tema destes e' abordado, penso neles...

Melões Melodia disse...

caditonuno - e tenho a certeza que hoje me percebes exactamente nesse ponto. A grande vantagem de ensinar e essa, e formar gente e nao ensinar so o que vem nos programas, mas substituir os pais, quando necessario, na formacao de adultos. E fica sempre a questao: o que sera feito de... e de...
e quando sabemos que a vida sorriu a pelo menos um, a satisfacao e gigante.
Abraco

Melões Melodia disse...

afrika - bem-vinda. e muito triste quando sofremos pelas criancas dos outros e nao podemos fazer nada. E uma frustracao enorme, mas outras virao que tambem precisam de nos por isso nao nos podemos ir abaixo porque ha muitas por ai que precisam de nos. A nos so nos resta lutar.
beijos

Pitucha disse...

Fossem muitos mais como tu e haveria muito menos crianças de sorriso triste!
Parabéns.
Beijos

Melões Melodia disse...

Pitucha - Obrigado.
Beijos

Mari disse...

Adorei seu blog! Encontrei por acaso e gostei muito. Parabéns!