sábado, 6 de outubro de 2007

HIV & Me

Esta semana fui surpreendido por um documentário que passou na BBC2 chamado HIV & Me.
A BBC provou conseguir, ainda, produzir programas de excepção. Fiquei agarrado ao televisor, chocado mas não surpreendido com o documentário e espero ansiosamente pela segunda parte na próxima terça-feira.

O documentário, dividido em duas partes (uma sobre comportamentos face ao HIV e outra sobre o que é viver com o virus) é apresentado por Stephen Fry, um homossexual que viu muitos dos seus amigos morrer nos anos 80.

No programa, Fry examina as taxas de infecção e, terrificado pelo que descobre, pergunta como é que nos deixamos chegar à complacência sobre os perigos desta infecção apesar dos avisos das décadas de 80 e 90.

A sua viagem é uma viagem pessoal em que nos conta como viu os seus amigos morrer e encontra um ex-companheiro que está quase cego devido à infecção. Quando a doença foi descoberta, lembra-se do terror que assolou a comunidade gay e de esta ser considerada então uma sentença de morte. Ainda assim, hoje a doença é percebida como uma condição crónica, chegando mesmo a ter conhecido um rapaz que teve sexo numa noite com cinco homens infectados propositadamente para ter “the gift”.

Como um terço dos infectados desconhecem o seu estado no Reino Unido, e com o número de infecções a aumentar, principalmente entre heterossexuais, Fry sente-se obrigado a mostrar que o problema é presente e que a batalha contra o virus está longe de ser ganha. Fala com uma avó seropositiva, uma adolescente de dezasseis anos que o é desde que nasceu e um casal seropositivo que deu à luz uma menina livre da infecção.

Descobrimos realidades assustadoras: de jovens neste país que não tomam precauções; de países como a África do Sul onde o governo diz que a relação entre HIV e Sida não está provada e por isso não se dá medicação a seropositivos; de como no Zimbabwe as mulheres são infectadas e não podem sequer pedir ao marido que use preservativo; de como na Austrália e Nova Zelândia está proibida a entrada a seropositivos e; de como no Reino Unido, os que dão a cara são ainda insultados.

Acima de tudo, o que me surpreendeu no programa foi a clareza com que se falou de tudo, o não haver julgamentos ou ensinamentos morais. Não ser um programa para assustar ou acenar com um manifesto. Não explorar sentimentos fáceis.

Graças à sua inteligência e sensibilidade, Fry espalha a mensagem com um toque que poucos podem igualar.

Agora que nos mostrou os comportamentos face à infecção, espero pela segunda parte em que nos mostra o que é viver com ela (apesar de ele não a ter), e espero que um dia este tipo de documentários passe onde merece estar, nos canais de maior audiência, para não deixar esquecer que este virus anda por aqui e que apesar de controlado, de não mostrar as faces que nos mostrava nos anos 80, ainda mata, mas que acima de tudo, é muito fácil de evitar.

25 comentários:

Afrika disse...

Ainda vivemos nas penumbra.. rodeados de preconceitos. A memoria do ser humano e' curta e infelizmente ainda nao ha a formacao suficiente a nivel individual e pessoal pra erradicar este tipo de comportamento...
Nao depende so, da informação a nível dos media, mas sim na formação a nível familiar e escolar, onde se torna mais fácil mudar atitudes e comportamentos.

Achamos que e' sempre responsabilidade dos outros... quando a final e' de todos!
Bjks

amigona avó e a neta princesa disse...

Não vi a primeira parte, vou tentar ver a segunda...penso que ainda há muito desconhecimento e muita ignorância! Seriabem mais fácil informar e FORMAR! Beijo amigo...

Diabba disse...

Não vi o documentário, mas sei do que falas, um amigo meu morreu há uns anos, foi duro de ver, foi duro ver todos a afastarem-se, foi duro ver o pai dele desinfectar-se com alcool sp que tinha que entrar no quarto (desinfectar-se à saida), foi duro vê-lo morrer com alucinações diabólicas.

Foi bom tê-lo conhecido, foi bom tê-lo acalmado com um simples beijo na testa, é bom recordá-lo!

Beijos

PS: como é que alguém quer, deliberadamente, ter "the gift"???

geocrusoe disse...

Um dos temas mais preocupantes da sociedade moderna e, parecendo que não, é um tabu ainda. Vi a notícia do aparecimento da sida na década de 80, vi o rótulo que se colocou nos homossexuais e toxicodependente e os preconceitos que crescerem com isso. Mas o que mais me chocou foi ver gente, com responsabilidade na sociedade mundial, deixar que a epidemia se alastrasse por ser uma forma de "limpeza étnica" de grupos de gente que não interessava existir. Olhar a doença como um intervenção divina para castigar pecadores específicos, uma versão moderna e preconceituosa da história bíblica de sodoma e gomorra. Isto que aconteceu, em pleno final do século XX e no pós revolução sexual, foi um dos motivos da disseminação da doença para muitos outros e foi o alastramento que obrigou a olhar a doença como uma ameaça à humanidade, mas já era tarde! Pergunto-me ainda hoje, se a doença fosse limitada aos grupos de risco iniciais, será que muitos dos hoje fazem campanhas não estariam do outro lado da barricada para se ignorar a doença? O HIV e a sida servem de reflexão sobre a sociedade em que vivemos.

Anónimo disse...

O alcool e a droga são meios simples dos maiores contagios mundiais,pois que quando alguém nesse estado pratica sexo,não sei,mas, acho que a amnésia é tanta que nem se lembram de na hora H usar o preservativo,assim como a troca de seringas,felizmente que ainda não vi de perto,mas acho que são pessoas iguais a todos nós que precisam de carinho,amor,e uma dedicação total da humanidade,pois que todos erramos e quase sempre nos perdoam.Tenho pensado muito em praticar voluntariado,e como tenho muito amor para dar acho que essa seria a minha escolha,estes seres recebem todo o amor porque a exclusão faz deles uns seres sem vida, quando por vezes ainda podem ter muito para nos ensinar.A ti Melão um beijinho e parabéns por escolheres sempre temas que nos levam a pensar em coisas que por vezes a maioria foge,porque pensam que isso nunca lhes vai acontecer.Isto ainda tem a outra parte dos povos que vivem longe da civilização,mas amanhã pode ser que escreva mais qualquer coisa,hoje já tenho a minha dose vim de um funeral de um primo,e estas mortes súbitas, também nos fazem pensar na vida, e rever aquilo que podemos fazer pelos outros.Mais um beijinho FIFI

Melões Melodia disse...

Afrika - sinceramente nao sei do que depende... falta de informacao nao e, e esta gente parece ter formacao. Nao entendo.
Beijos

Amigona - o problema e que eu acho que a informacao chega, ha e um defice de nao sei que que leva as pessoas a tomarem cada vez mais uma atitude negligente. Afinal uma serie de adolescentes, com educacao, que abordam o assunto nas escolas, sao os que estao a ser mais afectados pela nova vaga de infeccoes neste pais. Nao entendo.
Beijinho grande.

Melões Melodia disse...

Diabba - tambem e uma realidade que conheco, que vi e vivi bem perto. Agora, como e que pode alguem quere ser infectado? Ter "the gift" parece ser cool neste pais para os jovens homossexuais (que tem algum desequilibrio). Porra, com tantas doencas que podemos apanhar e nao controlar, porque nao nos defendemos das demais? Esta gente onde e que meteu o cerebro?
Nao sabem o que vimos...
Beijos

Melões Melodia disse...

Geocrusoe - concordo contigo que se a doenca nao se tivesse espalhado a todos os grupos e se nao houvesse vitimas mediaticas, a luta nao seria tao feroz. Mas o tabu e o estigma ainda existe. Afinal, as pessoas que deram a cara neste programa tem sido insultadas bem como num questionario se verificou que neste pais 70% das pessoas nao pensariam dar nunca dinheiro para a luta contra a sida. E isto diz tudo.
Um abraco.

FiFi - sim, ha gente que apanha por actos de negligencia, mas ha muitos outros casos que nao sao assim. Duas das mulheres foram infectadas pelos maridos que davam umas facadinhas fora de casa, a adolescente ganhou o virus da mae e um homem apanhou da namorada que sabia que estava infectada mas tinha medo de lhe dizer para nao o perder. Ha muita gente "normal" que vive assim. Passam ao nosso lado e nem sequer imaginamos. Depois ha os esquecidos de que tu bem falas a quem devemos estender a mao porque outros a tiraram. Porque as vezes um carinho faz mais do que uma fortuna e quando nao vemos nada diante de nos, entao e esse carinho que se quer. E poder da-lo e bem melhor do que ter que recebe-lo.
Sinto muito pelo teu primo, mas deixa que esse sentimento se transforme em algo positivo, porque deixamos esmorecer os sentimentos e depois acomodamo-nos sem fazer nada do que planeamos.
Um beijinho

geocrusoe disse...

70%!!! verdade? Mesmo hoje em pleno século XXI e depois do HIV se ter tornado uma pandemia? Acredito que seja verdade, só que de tão chocado que fiquei nem consigo comentar.Uma coisa é deixar-se dominar pelo receio e não querer conviver com infectados, pode-se achar preconceituoso mas o medo é mau conselheiro (o pai que se desinfectava), outra coisa é nem apoiar quem ajuda!

Melões Melodia disse...

geocrusoe - infelizmente este foi o valor apresentado no programa, tambem me chocou. Como a percepcao e que a infeccao e evitavel, a maioria considera que so a tem quem a merece. Chocante numa sociedade supostamente esclarecida.
Abraco

Ck in UK disse...

oh palhaco, ja me tinhas ligado a visar pra eu ver, nao achas?

em relacao a isso, sabias que a geracao de hoje ja nao da tanta importancia a proteccao, e o problema e tal que nao so inglaterra tem das taxas mais elvadas de gravidezes infantis (meninas de 12 anos e afins), mas tb que ha um surto de sifilis em Londres ha ja uns anos? Achas isto normal, sifilis?

Mulheres que apanharam claemedia (nome em portugues???) e que nao podem ter filhos, dessas eu conheco algumas.

Mas nao te esquecas ja, de muita gente que a gente conhece e nos e proxima, e q acha q so acontece aos outros. e que cuidado nao e preciso ter, "porque eu sei com quem ando"...

quanto a africa, nem me pronuncio....

na terca la vejo a segunda parte

Melões Melodia disse...

Cila - Espero que seja tao boa como a primeira - isenta e informativa - acredito que a primeira, falando de comportamentos seja mais educativa, mas a segunda pode ser mais dura porque vai mostrar o que realmente e a doenca e o que e viver com ela.
A ver vamos... mas esta gente e acefala, so pode.
e essa do eu sei com quem ando e muito bonita... se se visse na cara, mas nao se ve!
Beijos

Carlota disse...

É verdade, a BBC continua a ser a televisão da excelência para este tipo de programas.
A ver se me lembro de ver essa segunda parte de que falas na terça-feira!...

Melões Melodia disse...

Carlota - a BBC, infelizmente ja produz muita porcaria e reality shows. Tem e uma politica muito selectiva nos programas que vende.
Felizmente ainda faz programas de excepcao que se veem na BBC2 que nao se vendeu ao reality show da BBC1, e este em especial, achei muito bem conseguido.
Se puderes ver...
beijos

125_azul disse...

Espero ver o segundo. E espero que algum canal português o compre, mas não tenho grandes esperanças. Aqui é mais o Carlos Cruz a ser convidado novamente para apresentar um programa em horário nobre, ou a Floribela ou outra porcaria de cortar os pulsos...
Para compensar, a Comissão Nacional de Luta Contra a SIDA ensaiou uma campanha de prevenção decente, pela primeira vez, este ano. Por enquanto, só os dirigentes da ONG's que trabalham na área foram chamados a opinar, veremos se a censura deixa passar, porque é realmente boa.
Beijinhos

Melões Melodia disse...

Azul - estou bastante desactualizado do que se passa por ai. Sei quem e o Carlos Cruz, mas a outra, nem ideia. mas olha que aqui tambem nao e melhor. As vezes la encontramos uma perola, mas so as vezes.
Onde e que posso saber mais sobre a campanha da comissao nacional de Luta contra a SIDA?
Beijos

Rm disse...

Alo!!! Meloes

consegues ver a campanha de Portugal
http://www.sida.pt/

Realmente é supreendente o teu comentario do que passou na BBC2.
pena não se ver em Portugal!

Nos Estado Unidos eles não chamam Gift mas Roleta Russa!!!! Vão tendo sexo com positivos ate ficarem Mesmo POSITIVOS!!!

Numa última reunião do GAT, uma organizaçõa de seropositivos em Portugal, soube que
em Africa é dado ás mulheres um antiRetroviral, para levarem e tomarem uns momemtos antes do parto, para não infectarem o futuro filho!!
Mas o raio dos homens, ROUBAM o comprimido a mulher e tomam!!!!!

enfim, alem de ser em africa os homens não ajudam que os seus filhos sejam positivos! é a lei da sobrevivencia!!!


Até introduzi esta noticia no meu BLOG

Parabens!!!

Abraços

Melões Melodia disse...

RM - pois vou ver a campanha onde indicas.
Tenho pena que nao chegue ai a BBC2, vale a pena. Ja contarei como foi a segunda parte.
E esta a vontade para publicares o que quiseres. Eu sempre que veja alguma coisa de novo, di-lo-ei.
Abraco.

125_azul disse...

Ia dar-te a indicação, mas o amigo acima foi mais rápido. Gostaste? Beijinhos

Melões Melodia disse...

azulinha - gostei sim senhora. mas porque e que achas que a censura nao deixa passar? Nao vejo mal nenhum na campanha.
beijos

Diabba disse...

20€ por um bilhete de cinema?? fucka-se!! não brincam por aí, não!

oh moço, vim só comunicar que, agora, quero "flores".

beijo d'enxofre

Melões Melodia disse...

Diabba - 20 so nos mais caros ali por leicester sq em noite de estreia mas os 14/15, desses nao te safas.

que? nao percebi
beijos

Rm disse...

5 Razões para não usar persevativo

http://www.youtube.com/watch?v=-Uy0dTN7Prk

AEnima disse...

Ja ca tinha estado antes... mas ando tao ocupada que sabia que nao ia ter tempo de escrever a resposta que tu mereces.

QUando ao documentario da Sida, acho bem que se fale de como e' viver com a doenca. Geralmente, as pessoas com a doenca em paises desenvolvidos nao a mostram abertamente. Sofre-se em privado e o publico nao a ve presente.

Onde se ve a Sida presente? Em Africa, um continente longe demais para nos alterar as percepcoes do dia a dia. Pensa-se "na europa, felizmente, nao ha sofrimento assim, e os casos sao raros". As pessoas nao sabem do que se passa na realidade delas.

Eh preciso mostrar que o problema esta connosco. Que nao se falar dele e' tabu. Todos conhecem o que eh passar por Quimoterapia, porque o cancro e' uma doenca fatal nao tabu. Ninguem sabe o que e' passar a vida doente... um espirro transformar-se numa pneumonia. Ninguem sabe o que e' conviver com os efeitos dos medicamentos. Todos os infectados tem uma vida paralela 'a sua faceta publica. Nos paises pobres, nao podem esconder, e a realidade esta ao olhos de todos.

Gostava de ver esse documentario.

Sobre as mulheres, tambem ja li e nao respondi porque andei mesmo sem tempinho nenhum. Ainda ca voltarei para comentar esse.

Mil beijinhos.

Melões Melodia disse...

RM - ja vi e gostei muito.
Abraco

Aenima - Espero pelos teus comentarios. a segunda parte do documentario foi bastante boa tambem. Talvez um pouco chocante para quem nao conhece a realidade da doenca. Tua ja a viste de perto por isso podes imaginar. E e como dizes, e uma doenca de vidas duplas, muitos segredos que levam a muito pouco apoio. Por exemplo, para fazer o programa, Stephen Fry teve muita dificuldade em encontrar quem quisesse dar a cara. Num hospital com 4500 doentes, nao encontrou 1 que quisesse falar! mas tambem te deixa perceber porque.
Beijos