sábado, 27 de outubro de 2007

O John

Há algumas coisas que me aborrecem. Mas que me aborrecem até ao limite.

Há uns meses conheci o John*. O John é seropositivo há vinte anos e perdeu o parceiro para a mesma doença. Está internado num hospital Londrino e pertence a um grupo de estudo de doentes em fase terminal.


O John tem o aspecto que imaginamos de um doente de SIDA. Nos seus quase sessenta anos, pareceria ter noventa, não fosse o brilho dos olhos. Mas o rosto encovado, a falta de cabelo e pelo, os tumores pelo corpo bem como a lipodistrofia, e uma magreza assustadora, não nos deixa esquecer que o John está mal e não estará muito tempo. É um homem inteligente e culto, com um sentido de humor e uma ironia excepcionais.


Ri-se da vida e da doença. Infelizmente, é um dos raros casos em que os tratamentos não actuam. Cada vez que surge um novo tratamento, muda e melhora durante uns seis meses, mas logo o virus ganha resistência ao medicamento e neste momento não há tratamento no mercado que lhe valha.

Como o hospital é ao lado de minha casa, e porque eu tenho que fazer uns controlos de sangue regularmente, cada vez que vou ao hospital, visito o John. Já não tem pais e passa o dia sozinho. Barafusta e tal porque diz que o quero matar porque levo virus comigo, quando até a propria água que o John bebe é fervida para evitar qualquer infecção. Mas logo fala, fala, conta-me a vida dele, as experiências, a frustação...

Finalmente esta semana percebi o porquê da frustação. Ao falar com o médico que segue o caso do John, apercebi-me que as coisas não estão fáceis. Há medicamentos em fase experimental, inibidores de fusão, e o bem recente “splicing” (não sei qual o nome em Português).

Estes tratamentos não estão aprovados nem podem ser administrados porque não são conhecidos todos os efeitos secundários, no entanto sabe-se que não matam em dois dias. No entanto o John, apoiado pelo médico, queria experimentá-los, mas não pode... estes tratamentos podem aumentar seriamente o nível de gordura no sangue e levar a sérios problemas cardíacos...

Agora expliquem-me uma coisa, se um deles impede que o virus se funda com as células doentes e o outro impede que o virus se multiplique, garantir-se-ia que a doença do John parasse exactamente onde está, OK, com mais colesterol e tal, e outros efeitos que o podem matar daqui a cinco ou seis anos, ou nunca, porque não se conhecem; mas porque o podem fazer, não podem ser administrados, e o John continua a tomar os seus trinta comprimidos diários e à espera que um dia que o vá visitar leve comigo um viruseco qualquer que o mate.
Não deveria ele poder escolher? Bolas, é muito diferente dizer a alguém que morre amanhã, ou que pode morrer daqui a cinco ou seis anos, ou talvez mais,...

Mas claro, os novos medicamentos demoram sempre três anos ou mais a ser aprovados, exactamente o mesmo tempos que demoram as patentes dos existentes a expirar, e por isso a ser aprovada a produção de genéricos.

Entendo perfeitamente que a Indústria Farmacêutica precise de dinheiro para pagar as suas investigações, que haja patentes, e compreendo que a falsificação de medicamentos na China e na Índia, estejam a retirar parte destes fundos fundamentais para o desenvolvimento de novos tratamentos para qualquer doença, mas bolas,... onde entram aqui os direitos do Homem, a Justiça Social?

Queremos mais escândalos como foi não lançarem os inibidores da protease até os stocks de AZT terem diminuído para níveis economicamente aceitáveis?

Podem chamar-me simplista, mas porque carga de água gastam os governos das grandes potências em armas e afins, promovem guerras aqui e acolá para estimular a economia e não dão este dinheiro à investigação para as doenças que matam todos os dias? Ou à prevenção?

Se é por motivos económicos, que se lembrem que doentes inválidos também ocupam camas de hospitais, gastam em cuidados paliativos e não produzem... e esta gente curada, ou activa, será menos um custo e mais um proveito.

Para mim é mais uma pessoa.

Por isso John, vou fazer o que me pediste, tu e o teu médico. Vou aventurar-me nesta cidade a dar alguma formação e conforto aos mais vulneráveis e aos doentes.


Fiquei muito contente em saber o conforto que te dou e a alegria que sentes quando me vês entrar. Sei que sou um risco para ti, mas vale a pena arriscar, seja por um tratamento do corpo ou por um tratamento da alma.
*nome fictício

15 comentários:

Anónimo disse...

Acho que fazes bem em dar formação e conforto a todos os que precisam,acho que tens vocação para isso,e muito mais relacionado com a matéria,por vezes,o ser humano espera por pessoas assim,para partirem em paz,porque viver como o john,já não é viver,ser cobaia,deve ser das piores coisas,principalmente quando as drogas não fazem completamente nada,já tive dias terriveis internada no hospital,e a vontade era morrer,tal é o sofrimento,desligamos do mundo,de tudo que nos rodeia,porque a dor fisica é o pior que nos pode acontecer,e juntamente com o estado mental,com dias e noites sem dormir,a morte é aquilo que mais queremos,para quê alongar esse tempo .Beijos da FIFI

Melões Melodia disse...

FiFi - pois o John nao se importava nada de ser cobaia - apesar do estado em que esta tem uma vontade de viver e esta disposto a tudo. Desta vez nao se safara e sabe disso, mas esta decidido a lutar ate ao final.
Beijos

Gata Verde disse...

Já que não há muito a fazer a nivel médico,resta-lhe o teu conforto...és muito humana,continua assim.

Um beijo para o John.

Melões Melodia disse...

Gata - e seguir em frente com um sorriso.
Beijos

Ck in UK disse...

Nao deveria ele poder escolher? - claro q sim!

onde esta a justica social? nowhere to be seen nestas questoes, ja sabes. A doenca nao mata a todos igualmente, nestas coisas o dinheiro faz muita diferenca


porque carga de agua nao gastanm os governos dinheiro nisto - porque nao ha ameaca de bombas atomicas, porque nao ha petroleo, e porque nao ha pior cego que aquele q nao quer ver.

Melões Melodia disse...

Cila, infelizmente nao ha muito a fazer. Fui ve-lo ontem e esta muito pior. Nao deve chegar ao fim da semana. Vou tentar ir la hoje outra vez, se conseguir sair a horas decentes.
beijos

125_azul disse...

Querido, acabei de te escrever um mail imenso a dizer como me orgulho de ti e fazendo referência ao que aconteceu num determinado post teu e quando carreguei no "enviar" recebi um aviso que tinha ocorrido um erro, conta não encontrada e o mail tinha desaparecido. Se tiveres outro contacto que não te importes de fornecer, ou se eu puder mandar para o mail da Cila, diz-me, gostava muito de te dizer tudo o que tentei dizer no outro. Quanto ao que vais fazer a partir de agora, se precisares de literatura a respeito, sou formado à muito tempo nessa área e oriento muitos grupos de educação pelos pares, estou ao teu dispor. Muitos beijinhos

Melões Melodia disse...

Azulinha - Muito estranho. Vou enviar-te um email, assim ja ficas com o meu.
Beijos

calamity jane disse...

Lembras-te de um post meu que te magoou? Lembras-te? Pois agora, foda-se, a magoada sou eu. E nem te peço desculpa por vir aqui mandar caralhadas para o teu blog. que merda de mundo, que merda de mundo! E nós que compactuamos com isto. Ainda ontem dizia: não sei se não preferia ir para o meio da selva onde não há televisão nem jornais nem internet que é para não saber que a "humanidade" andou séculos a "progredir" para isto. Para que a merda do lucro a curto prazo seja sempre mais importante que a próxima geração, que a continuidade da vida neste planeta. Agora já mudei de assunto, claro. Falo do que se anda a fazer de conta que se faz pelo ambiente e´não passa tudo de uma gigantesca tanga. Como nesse caso. A cura da SIDA já foi descoberta há décadas. O motor sem gasolina também. porquê, mas porque continuamos a aceitar que nos atirem areia para os olhos???

Melões Melodia disse...

Calamity - compreendo perfeitamente a tua frustracao. Nao e maior do que a minha que vejo isto de perto ha ja algum tempo. E conheco um medico que pensa exactamente como tu. Que diz que a cura existe. eu sinceramente nao acredito. Seria o escandalo do seculo, mas que se burocratiza demasiado a aprovacao de novos tratamentos por motivos economicos, disso nao ha duvida.

Um beijinho

Mocho Falante disse...

Daqui tiro o meu chapéu a este EXCELENTE post. Não é de todo um tema fácil nem tem um total consenso, mas estou contigo na tua opinião, na tua forma de ver a situação

abraços

Rm disse...

tratamento da alma!!!!

é disso que todos nos precisamos!

adorei o teu texto!!!

ABRÇOS

Rui

amigona avó e a neta princesa disse...

Que te posso dizer,que não saibas já?
A tua atitude revela o ser humano que és e - está tudo dito!!!

Deixei-te um desafio...
Beijo...

Pitucha disse...

Já aqui tinhas provado, por outros actos contados em post, que eras um ser excepcional. Agora comprovaste-o. Muito me honra estar na lista das tuas comentadoras.
Beijos

Melões Melodia disse...

Mocho - o tema de facto nao e falado e ainda e muito envergonhado e acima de tudo polemico. Mas pelo que vejo somos muitos a pensar assim.
Abraco

RM - Entao nao e? Obrigado.
Abraco

Amigona - Obrigado, nao posso dizer mais nada.
Beijos
PS - responderei ao teu desafio

Pitucha - Por quem sois... Obrigado
A casa e tua.
Beijos