sábado, 30 de junho de 2007

Gostos

Já cá não dizia nada há bastante tempo e as reclamações não se fizeram esperar. Fico contente por saber que há alguém à espera que diga alguma coisa, apesar de dizer baboseiras a maior parte do tempo. Entre muitas coisas, falta de tema não tem sido o motivo do meu curto mas sentido silêncio:
1 - Estive fora – primeiro Monte Carlo e depois Porto
2 - O trabalho aperta – hoje, Sábado, estive metido no estaminé até agora;
3 - Falta de motivação para o que quer que seja – não sei se é do tempo, do cansaço, do desencanto,... Mas muitas coisas se passaram das quais gostaria de falar.

Tentarei ser breve.


Monte Carlo - Gostei e não gostei.
Gostei do relativo descanso, do sol e do calor, de dar um mergulho na praia e comer bom peixe à beira mar.

Não gostei da presunção dos que frequentam, das conversas fúteis sobre make-up e designers que se ouvia nas mesas do lado, de estar metido numa sala a ouvir como é que se pode ganhar dinheiro com os países do leste Europeu, dos atrasos inconcebíveis nos vôos e de uma cidade onde os táxis rareiam (tempo médio de espero em época alta é de 40 minutos)

São João no PortoGostei e Gostei
Gostei de estar com os amigos a comer sardinhas nas fontaínhas e de tomar copos com outros amigos.
Gostei da sardinhada em casa dos pais, com família que não via há muito tempo e a quem quero muito e de me rir a bandeiras despregadas com a minha tia avó e a sua malícia subtil e inteligente.
Gostei de ver o fogo na ribeira e sentir o cheiro dos alhos e da cidreira.
Gostei de levar marretadas na cabeça e ouvir música pimba nos bailaricos de Miragaia.
Gostei de passear no meu Porto sábado à tarde, olhá-lo com amor, ver as esplanadas cheias, entrar na Lello, tomar um café no Guarani, calcorrear a zona histórica, cheia de vida, e pensar que podia ser assim todos os dias, com gente, e sentir os olhos humedecerem-se por ver a minha cidade como deveria ser sempre – viva e activa!

De regresso a Londres – Não gostei, fiquei indiferente, gostei
Não gostei do tempo chuvoso e das ameaças de bomba.
Não gostei de levanter-me cedo para ir para o estaminé.
Não gostei de dar conta que não vejo a minha cara metade há muito tempo e de sentir umas saudades apertadas.

Fiquei indiferente aos elogios do chefe e de mais umas quantas pessoas do estaminé
Fiquei indiferente à promoção e a duas ofertas de trabalho externas e uma interna
Fiquei indiferente às longas horas de trabalho, ao cansaço…

Gostei de saber que a Cila está de volta e de saber que os amigos estão felizes.
Gostei de saber que tenho data marcada para fazer o que já deveria ter sido feito há muito tempo.
Gostei de saber que há esperanças depositadas em mim.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Vou ali e já venho!


E como manda o trabalho, nos próximos dias podem encontrar-me por aqui!

domingo, 17 de junho de 2007

Os Olvidados


Há uns anos atrás, no meu terceiro ano do curso de órgão, chega-me às mãos uma pequena peça de um compositor até então para mim desconhecido. Começo a estudar a obra e desfaço-me. Um tipo Passacaglia, com um tema simples no pedal que só muda de tonalidade. Mas a harmonia… arrancou-me imediatamente lágrimas dos olhos. Toquei-a até à exaustão e até hoje não me canso de a tocar. Tanto é que decidi levá-la a concerto no meu exame final. Pequena, tecnicamente fácil mas bela.

Fiquei obcecado pelo compositor. Um génio no seu tempo, que após a sua morte caiu no olvido.

Muitas poderão ter sido as razões:
- dedicava-se quase exclusivamente à música sacra numa altura em que as revoluções politico-socias pós revolução francesa e os ideais nacionalistas e republicanos tomavam lugar;
- uma linguagem simples na tradição de Leipzig Bach e da música antiga, seguindo formas antigas, apesar das harmonias da época;
- Teve uma vida sem muito que contar, sem grandes dramas que ajudam a criar o mito.
Comecei uma exploração da sua obra, extensa e bela – foi difícil na altura. Comprei todas as partituras que encontrava. Em 96, na Alemanha, encontrei três CDs com obras suas e trouxe-os comigo.


Não conheço outro compositor que domine tão bem a voz humana. As suas obras corais, de longe as melhores da sua obra, são de nos deixar perdidos a flutuar por novos mundos. São obras quentes, quase sempre serenas, com umas linhas naturais, orgânicas - a antítese do que se fazia na altura.

Ainda me lembro quando ouvi pela primeira vez o seu "Abendlied" Op69,3 - Ah... A abertura, o primeiro compasso, I-III graus, Tão simples e tão perfeito, sem cadências o que faz do pequeno motete uma obra única do início ao fim... e a letra... fica connosco porque cai a noite e o dia termina. Lembro-me de propor este motete para o funeral de um amigo - metade do coro calou-se pela emoção - tão simples e tão profundo.


A sua missa “a capella” para dois coros, o hino op35 para coro feminino harpa e órgão, os seus requiems e stabat maters… não merecia a sorte que o destino lhe pregou.

Chama-se Josef Gabriel Rheinberger e felizmente renasce.

Como ele haverá muitos, quando, por exemplo, se sabe que há quilómetros de partituras na torre do tombo de obras inéditas e ninguém sabe o que lá está. Não há dinheiro para as recuperar, mas não há vontade de deixar os alunos dos nossos cursos superiors de música recuperarem esta música como parte da sua formação.


Quantos ainda esperam ser resgatados do olvido?

sábado, 16 de junho de 2007

Desinformação

“Enquanto uma árvore cai com estrondo, milhares nascem em silêncio”

Ouvi esta frase há muitos anos (ou li-a, não sei) e disseram-me que é um provérbio chinês.
Gostei dela e ainda a recordo.
Todos os dias quando leio os jornais, leio as notícias, ouço opiniões, não deixo que esta frase me saia da cabeça.

Vivemos num mundo de “desinformação” em que tudo o que recebemos é filtrado e enviesado para o lado do mal.
A sociedade moderna é mais triste, mais deprimida sem motivo para tal. O mundo não está pior do que há 60 anos e os nossos avós eram bem mais felizes do que nós. Gostavam das coisas simples mas não tinham metade do conforto que há nos dias de hoje.

Sabemos demais, apesar de nunca ser demais saber, mas temos que saber os dois lados.
Se sabemos que há mais uma doença, temos que saber que nesse dia se salvaram outras tantas pessoas de uma até então incurável. Mataram um homem aqui, mas médicos, amigos, familiares salvaram milhares no mesmo dia. Maltrataram uma criança, mas milhares receberam mimos e carinhos até de estranhos.

Onde estão os sucessos diários da nossa sociedade? Quem fala deles? Não os há? Impossível. Impossível porque todos temos os nossos pequenos sucessos, que em conjunto fazem um grande, enorme sucesso. Afinal, e não me chamem ingénuo, acho que o amor (“caritas”) é ainda o valor que prevalece nos tempos modernos, apesar de nos tentarem negá-lo.

Os portugueses que se queixam da crise enquanto almoçam na tasca ao lado do trabalho ou tomam um café ao meio da tarde, são aqueles que há 30 anos levavam a marmita com batatas e feijão.

Os homens que dizem que só há guerra e terror, são aqueles que lutavam em África.

Os que dizem que o sistema educativo é mau são os que tinham avós que não sabiam ler.

Os que dizem que agora se maltratam as crianças, são os que apanhavam de cinto em casa e tinham que trabalhar aos 10 anos.

Os que dizem que o mundo caminha para pior, são os que viviam pior.
Mas devagarinho a nossa sociedade vai avançando, porque a floresta está a crescer e um dia ocupará o lugar das árvores que tombaram.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Mas ela não percebeu!

Hoje, depois de ler a experiência da Tuxa (que não sei bem como nem porquê, decidiu premiar-me com um thinking blogger award – quando tiver tempo ponho-o aqui ao lado) com os vôos, lembrei-me que me tinha esquecido de vos contar o que se passou comigo há duas semanas (mais coisa, menos coisa).

Ia eu para Paris todo contente. Tinha no dia seguinte um Pequeno-Almoço com um cliente e ia passar uns 5 dias na cidade luz a relembrar os tempos em que por lá vivi (tenho que confessar que não gostei de lá viver).

Como saía do estaminé, mas a contenção de custos já não nos deixa viajar no Eurostar... shuifff, shuifff..., decidi apanhar o vôo que sai do city que é o aeroporto que está mais à mão.

Era um dia de calor, segundo os standards britânicos, há que dizê-lo. Estavam uns 30 graus e o Melões não encontrava um puto de um táxi! Finalmente, passado uns 20 minutos lá aparece um táxi que leva o Melões até ao aeroporto.

Quando lá chego... era o caos, não havia fila nenhuma nos balcões do check-in à excepção da Air France, no vôo que ia para Paris.

Disseram que havia overbooking no vôo das 19h por isso tínhamos que ir no das 21h, o que com a diferença horária faria com que chegasse ao Hotel já depois da 1h local, e uma reunião às 8h ainda por preparar!

Passei o security control e entrei no pior galinheiro que existia. Não havia vôo que não estivesse atrasado, e havia mais gente á espera do que a que o espaço disponível se permitia acolher. Os tectos baixos, a humidade e falta de ar condicionado... a perfeita tarde num aeroporto Londrino.

Estava eu a tentar dar uma voltas pelo lounge e vem uma simpática jovem da Air France pedir desculpa e explicar o sucedido.

Esta era a razão de não haver lugar no avião para toda a gente e de todos os vôos estarem com atraso:
Devido às condiçes atmosféricas, nomeadamente ao calor que se fazia sentir, o piloto da Air France, não se sentia seguro para levantar vôo com o avião cheio. Da mesma forma, a maioria dos vôos estavam à espera que as temperaturas baixassem para procederem à descolagem!
Foi por isso que eu lhe disse: “Agora percebi porque é que em Portugal não há vôos de Junho a Setembro” – mas ela não percebeu.

sábado, 9 de junho de 2007

Eu, hoje.


O caos é uma ordem por decifrar.
in O Homem Duplicado by José Saramago

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Preconceitos

Os meus e os dos outros

Quando vemos as coisas de fora, pensamos que tudo tem uma resposta simples e imediata. Vemos tudo com outros olhos de quem não convive todos os dias com determinados tipos de comportamentos e preconceitos.

Não se pode lutar sempre, ainda menos se deve gastar a energia que se tem com quem não o merece.

No passado dei, o que então era para mim, passos de gigante. Virei-me do avesso, fiz das tripas coração, decidi que não podia viver uma vida dupla.

Este objectivo, apesar de não estar vencido a cem por cento, está quase atingido. Uma longa caminhada, feita com esforço para vencer medos e fantasmas, e os preconceitos, meus e dos outros. Não tenho uma vida dupla com os meus amigos, com a minha irmã, mesmo com os meus pais, apesar de ter uma conversa pendente com eles (sempre a evitaram)

No estaminé, infelizmente, não é assim, mas acho que não é aqui que tenho que gastar as minhas energias. Não minto abertamente, porque não o sei fazer, mas oculto. Trabalho num ambiente xenófobo, homófobo, conservador e intolerante. Um ambiente, em que depois do jantar ou de uma festa, os gaijos vao às putas ou a clubes de strip, ao qual sempre me escapo, primeiro, porque nada tem a ver comigo e segundo, porque acho deprimente, humilhante e inumano.

Sei no entanto do que a casa gasta, o que dizem ou o que pensam, e não merecem a minha mínima consideração. Sabem disso, nunca o escondi, mas não quero dar-lhes armas que possam utilizar ainda que covardemente.

Vivemos numa sociedade onde reina o mediano e o mediocre. Faço parte dela, não me posso apartar como fiz no passado, e tenho que confessar que, até hoje, tive muito poucas más surpresas. Ainda assim, tive-as.

Mas, às vezes, não quero dar determinadas informações que podem ser utilizadas contra mim ou magoar os que amo. E é aqui que surge o meu medo.


Não posso hipotecar o meu futuro ou a minha carreira, quando sei que há alguém, mais senior do que eu, à espera de um passo em falso (que não o é) para o fazer. Detrás desta informação, virão as outras. Especulações sobre as visitas regulares ao médico no passado, o mau aspecto, coisas enterradas que podem ser muito mal utilizadas para me atacarem. Acima de tudo, gente má e invejosa, que pode magoar de forma extrema quem mais amo.

Mesmo na família, a minha irmã, a melhor meloa que existe na face da terra, decidiu que a abécula com quem se casou, não deve saber, porque pertence ao mesmo grupo de gente dos que estarão no tal casamento de Julho e gosta muito de falar. Por isto, infelizmente, a minha cara metade mais que tudo não assistiu ao casamento da mana.


Se estou a ser cobarde, digam-me onde que não percebo. Toda a gente tem direito a proteger-se e a proteger os que mais ama. Infelizmente não fiz nada de mal, não errei, mas apesar de hoje ser melhor do que ontem, ainda sofro na pele.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Dúvidas

Tenho um amigo que se casa no fim de Julho. Convidou-me a mim e à cara metade mais que tudo. Nada de Novo.
Hoje, ao ligar para os velhos companheiros do estaminé da terrinha, descobri que o rapaz, que trabalha lá, também convidou o pessoal. O big boss incluido.

Não queria que esta gente soubesse da cara metade. Afinal, trabalho no mesmo estaminé, mas em Londres, e não quero dar explicações da minha vida pessoal.

Que faço?

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Música

Do gr. mousiké, «relativo às musas», pelo lat. musìca-, «música; poesia»
s.f.
1. arte de combinar harmoniosamente vários sons, frequentemente de acordo com regras definidas; 2. qualquer composição musical; 3. concerto vocal ou instrumental; 4. conjunto de sons agradáveis; harmonia; 5. cadência; ritmo;


dedicado a todos os que partiram antes do tempo

Os músicos entram na sala onde reina o ruído. Sentam-se e logo começam a afinar os instrumentos num caos que busca a forma.
Silêncio absoluto.
Começa a obra. Serena, perfeita, criando um rendilhado de harmonia sem muito que contar.
Logo, um oboé melancólico lança a sua mensagem. Uma melodia simples, suspensa no ar, entram as outras madeiras, repetindo a melodia em diferentes tons e com subtis matizes. O tema desenvolve-se, cresce, muda os ritmos. Junta-se-lhe o grupo das cordas. Num crescendo louco e quasi agitato, até que irrompem os metais e a percussão, num tutti, um plenissimo, fortissimo, em que a subtil melodia do oboé nada mais é do que o apontamento longínquo da simplicidade que originou a histeria que enche a sala. Todos vibram e há uma necessidade enorme de repetir as emoções descritas.

E vem a fuga, o tema repete-se descoordenado pelos diferentes naipes, com sons diferentes e ligeiras variações, já longe, mas evocando o tema inicial. Esta espiral não se aguenta muito tempo e começa o contra-tema seguido da desconstrução do tema original, em ritmos compostos e sincopados, com intervalos imperfeitos e acima de tudo com cromatismos em que a dissonância passou a ser a regra. O crescendo não para, torna-se insustentável e, com uma explosão da percussão, detem-se subitamente e só o eco se ouve na sala, com a respiração suspensa dos ouvintes.

E logo, no meio deste eco, lá longe, o oboé retoma o seu tema perfeito, mas desfalecendo até se perder. O mesmo se passa com as flautas, os fagotes e os clarinetes. Numa raiva surda, os metais entram na luta, mas em vez de se evaporarem no ar, o seu tema já corrompido pelas suas limitações, acaba bruscamente como um grito que clama perdão. Ficam as cordas, que ornamentam o tema no seu virtuosismo fácil que busca a fácil emoção dos presentes. Mas estes ainda se lembram das madeiras e dos metais que partiram antes do fim da música. Uns desfaleceram, os outros explodiram. Mas todos antes do fim. Queríamos voltar a ouvi-los, mas já só há o eco na sala e as cordas que desenvolvem o tema, tornando a necessidade de ouvir o original, do doce e triste oboé, ainda mais presente.


***


Um dia o meu professor de improvisação disse-me que a música é o Homem. Enquanto a primeira tem ritmo, harmonia e melodia, já o segundo tem corpo, inteligência e emoção.Para mim a música é tudo isto e muito mais. É a arte por excelência, mas a mais falível. Não é preciso ir até a ela porque ela vem até a nós. Invade-nos os sentidos. Não é como uma arte plástica que temos que olhar. Não é literatura que temos que ler. Basta-nos entrar numa sala com música e já esta nos invade, quer gostemos, quer não. Assim é a vida. Mas ao mesmo tempo, ao contrário das outras artes é a mais mutável. Há a ideia original de quem a escreveu, a interpretação de quem a dirige, o expressão de quem a executa e a percepção de quem a escuta. Por isso a música, mais do que o Homem, é a vida onde infelizmente muito fica por contar.

sábado, 2 de junho de 2007

Ainda o Tempo

É curioso, não é a primeira vez que acontece, depois de postar um texto, descobrir que alguém postou exactamente sobre a mesma ideia. Isto aconteceu com "O Tempo" como podem comprovar.

Houve duas vezes na minha vida em que parei e deixei o tempo tomar conta das coisas. Da primeira vez estive parado quase dez anos. Quando dei conta já não era eu quem estava ali. Não consegui deixar o tempo ganhar a corrida como tinha planeado, e felizmente decidi!

A minha decisão mostrou-se acertada e deu mais frutos do que podia imaginar. Um novo futuro, um novo porto de abrigo, novas aventuras, desejos, projectos…

Mas a vida segue e deixamo-nos ir no tempo, mesmo que ainda haja coisas por resolver. Por isso, o tempo, outra vez, comanda a minha vida.

Conversas duras, fantasmas a abater, afinal o que quero fazer da minha vida, para onde deixo que o tempo me leve?

O tempo trouxe-me até aqui. Afastou-me do meu porto de abrigo como das duras conversas que tenho que enfrentar.

Mas se tenho planos, se tenho desejos, devo remar contra a maré? O tempo não volta atrás. Também não o queria. Mas quero continuar a viver o futuro e não recordor o passado com todas as oportunidades perdidas. Para isso tenho de tomar uma decisão. Para sair deste limbo que é o presente.

Afinal qual é a melhor hora para começar a lutar? Quando chega o tempo?

Porque, afinal, o que eu desejo é ser eu, sempre!