terça-feira, 31 de julho de 2007

Eu, hoje (II)




Porque será que actos irreflectidos e injustos cometidos por outras pessoas nos tiram o sono?
Elas sim, deviam ficar sem sono para que pudéssemos dormir descansados.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Ainda Portugal

Celebrou-se no passado dia 1 de Julho o 140o aniversário da abolição da pena de morte no nosso país, apesar da última pena ter sido executada em 1846. Tal decisão, no reinado de D. Luís, pioneira na Europa, levou Victor Hugo a exaltar o feito Português: “Está pois a pena de morte abolida nesse nobre Portugal, pequeno povo que tem uma grande história. (...) Felicito a vossa nação. Portugal dá o exemplo à Europa. Desfrutai de antemão essa imensa glória. A Europa imitará Portugal. Morte à morte! Guerra à guerra! Viva a vida! Ódio ao ódio. A liberdade é uma cidade imensa da qual todos somos concidadãos”

Passados todos estes anos, Portugal, sábio na sua decisão, continua a ser um dos países mais seguros do mundo e o mais seguro do sul da Europa. De facto, de acordo com a Vision of Humanity, o GPI, índice de Paz desenvolvido pela “The Economist Intelligence Unit” é nono num extenso ranking de 121 países, merecendo destaque da organização.
“Politically stable and free from civil unrest since the mid-1980s, Portugal is the highest-ranked southern European country in the Global Peace Index. Relations with neighbouring countries are very good and the level of violent crime is very low, although human rights accord less respect than the top-ranked eight countries in the index. Other measures of safety and security in society, such as the likelihood of violent demonstrations, the level of distrust in other citizens and the number of internal security officers and police per head of population are fairly low in global terms, but notably higher than the Nordic countries surveyed. Access to small arms and light weapons is heavily restricted.”

Estranhamente, esta não é a realidade que nos é transmitida quando lemos um jornal, uma revista ou quando vemos um noticiário (e não falarei de jornais diários e canais de televisão, que há uns peritos em fazer-nos crer que estamos à beira do colapso).

Se falarmos de saúde, a organização mundial de saúde, coloca o nosso país numa honrosa décima segunda posição (numa lista de 190 países) à frente de países como o Luxemburgo, a Holanda, o Reino Unido, a Bélgica ou a Suécia.

Portugal foi ainda o quarto país no mundo e o primeiro na Europa, em Julho de 2004, a banir da sua constituição a discriminação com base na orientação sexual.
“Portugal is the first country in Europe and (after Ecuador, Fiji and South Africa) the fourth worldwide to explicitly ban sexual orientation discrimination by constitutional legislation.”

Mais estranhamente, toda esta informação foi obtida em sites oficiais, mas todos eles de países que não o meu Portugal.

Pergunto-me eu, quem tem interesse em esconder estes factos dos Portugueses, em nos fazer acreditar que nada melhora no nosso país, quando socialmente somos um dos países mais avançados do mundo, que marcámos passos decisivos no respeito e na igualdade e fomos e continuamos a ser exemplo neste sector para muitos dos países que bajulamos.

Sim, mostrem-nos o que está mal, mas dêem-nos o que está bem para que continuemos com força para seguir em frente e corrigir o muito que ainda há para corrigir.

terça-feira, 17 de julho de 2007

Portugal

Não sou dado a nacionalismos ou patriotismos. No fundo sou Europeu. Mas também sou Ibérico, Português e Tripeiro.

Qualquer Português tem o direito de dizer que Portugal deveria ser Espanha, apesar de me magoar. E logo eu que gosto de e vivi em Espanha.

Afinal, Espanha parece ter maior sucesso no seu desenvolvimento económico (até um dia), que na minha opinião não é sinal de maior vontade política ou menor corrupção. Senão é ler os jornais Espanhóis todos os dias e ver como os problemas deles são exactamente os mesmos que o meu Portugal enfrenta.

Sinceramente, Portugal em Espanha seria mais uma Extremadura ou Andalucia ou Rioja ou mesmo Galicia, não seria uma Castilla La Mancha, Catalunia ou Comunidade de Madrid. Seria uma região pobre, e ainda mais profunda de uma Espanha que cresce e por isso seria uma região ainda mais esquecida.

O que nos falta é dimensão Sr. Saramago, dimensão e uma atitude mais positiva e alegre face ao futuro.

Portugal, como está, está bem melhor.

Se um amigo está doente, não o abandono nem deixo de gostar dele. Não o entrego à solução mais fácil mas tento curá-lo.
Este é o meu Portugal, doente e triste.
Não está doente pelos governos que se têm sucedido. Está doente no seu âmago, porque cada uma das suas células decidiu deixar de lutar, e agora há quem pense que, afinal, o melhor é deixá-lo morrer. É um corpo sem defesas. Parece que o queremos deixar ao abandono de um “Ensaio sobre a Cegueira”.

E tu, quantas vezes te queixaste da situação do nosso Portugal no último mês?
E tu, o que fizeste para melhorar a saúde do nosso Portugal e para fazê-lo sorrir de novo?
E tu, quantas vezes olhaste as leis dos nossos governos de uma forma isenta e também conseguiste ver as coisas boas?
E tu que também és Portugal, quando é que deixaste de acreditar nele e por isso de agir e de o defender?

Ainda que em Agonia, eu quero o meu Portugal.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Esclarecimento

Caríssimos, aqui o Melões quer esclarecer uma coisa. Isto devido a alguns comentários e mails recebidos debloguistas preocupados, assustados, deprimidos, angustiados depois de lerem alguns dos meus textos.

Provavelmente não me sei expressar, ou estes textos, escritos noutras alturas, têm interpretações diferentes – do meu e do vosso lado. Para vocês parecem motivo dos mais tristes e deprimentes sentimentos. Para mim, nada mais são do que motivo de esperança e alegria. São reflexos de uma fase, que contra tudo e contra todos, foi superada, e foi superada, talvez, porque no fundo, nunca deixei de acreditar.

Passei por diferentes fases, negação, raiva, rendição, tristeza, depressão, euforia... estranhamente a que durou mais foi a da euforia, sentia-me especial, escolhido, o novo Cristo pronto a levar com todas as dores do mundo às costas. Mas fazia a minha vida como se não se passasse nada, absolutamente nada, nem sequer me tratava – cada pastilha que tomava, era mais uma recordação do que não queria recordar. Tornei-me hiperactivo. Trabalhava das 8.30 as 18h, depois dava aulas de música, à noite tinha ensaios e concertos, nas horas livres escrevia, lia, compunha, pintava,... não me dava tempo e sentia-me bem mentalmente, mal fisicamente e inconstante emocionalmente.

Um dia depois de ver que estava a ser um egoísta, egocêntrico, estúpido mesmo, porque vi a preocupação na cara dos meus pais, da minha irmã, dos meus amigos, decidi lutar... aí nasceu o músico guerreiro, peguei num saco com roupa, disse que ia de férias e lá me internei, fiz dos piores testes mas sentia-me confortável, acima de tudo acreditava. Uma noite, após um tratamento de choque, tudo colapsou. Não vou contar reacções médicas, ou as reacções extremas a que o meu corpo ficou sujeito. Via a cara de aflição dos enfermeiros da noite, mas eu, eu estava calmo, dizia para mim, Esta reacção vai passar... e passou. Adormeci.

Na manhã seguinte a minha médica, a minha adorada médica, entrou com um sorriso de orelha a orelha. Nunca o esqueço. Estava feliz porque vira uma reacção que até então conhecera de livros. E eu, então, nasci de novo.

Agora digam-me, como pode ser isto motivo de preocupação, medo, depressão ou angústia?

Não, é motivo de esperança, alegria e muita, não a alegria eufórica de uma noite de S.João ou de uma marcha popular. É uma alegria profunda e serena, solene mesmo, de um Gloria da missa em Si menor, ou melhor, a reflexão e provocação do requiem de Brahms. Não é mais o Dies Irae ou o Rex, ou mesmo o Lacrimosa, e antes o “Bleib bei uns” de Rheinberger, o “Verleih uns Frieden” de Mendelssohn...
Lutei com as minhas armas, acreditei, no fundo nunca desisti, e ri para o mundo quando ele se ria de mim. Acreditei que estava na altura de vos mostrar como era por duas coisas – uma para exorcizar o meu passado e outra para que quem passe por momentos difíceis, perceba que não está só, que pode haver uma luz ao fundo do túnel, ainda que nos digam que não.

sábado, 7 de julho de 2007

Segredos

Há uns meses atrás comecei a rubrica do “O Longo Inverno”. Muito tempo se passou em que não disse nada, como se este assunto estivesse esquecido. Nunca esteve, e se só agora falo dele abertamente, é porque só agora se fecharam as feridas e acho que tenho que partilhar a minha história, como a via na altura, para que se possa compreender, sem piedades, aquilo pelo que muita gente passa.

Hoje lembrei-me da minha reacção sobre o contar ou o manter em segredo, ao ler um livro de alguém que padeceu do mesmo mal. Infelizmente partiu, mas revi-me, página a página, no que escreveu.

Lembrei-me precisamente deste texto que vos deixo:

"Senti chegar a morte no espelho, no meu olhar reflectido no espelho, muito antes dela ter tomado verdadeiramente posição. Será que eu atirava essa morte através do meu olhar aos olhos dos outros?

Não a tinha confessado a todos. Como tantos outros, gostaria de ter tido a força, o orgulho louco, também a generosidade, de não contar a ninguém, para deixar viver as amizades livres como o ar e indiferentes e eternas. Mas, o que fazer quando estamos esgotados e a doença chega mesmo a ameaçar a amizade?

Há aqueles a quem disse; aqueles a quem não queria dizer mas a quem sentia o longo silêncio de mentiras afastá-los horrivelmente de mim e que se não agarrasse imediatamente a sinuosidade da verdade, tornar-se-ia, instantaneamente, demasiado tarde, assim que lhes disse para continuar fiel; fiquei a dever a verdade a outros e parecia-me que nesse instante perdi toda a liberdade e total controlo sobre a minha enfermidade; e finalmente, disse-o à velha senhora, porque ela, por ser velha, nada temia, ela, que tinha noventa e seis anos e por isso me igualava no seu potencial de vida, e porque a sua memória o tomaria por irreal ou o apagaria imediatamente.

E aos que nada disse, será que o viam nos meus olhos? Cada vez me aborrecia mais com os que não sabiam. Tinha a impressão de não ter nada a contar aos que sabiam, tudo se tornava nulo e se desmoronava, sem valor e sem sabor, tudo ao redor desta novela, que a amizade havia transformado no nosso dia a dia e onde a minha rejeição me abandonava.

Confessar aos meus pais seria expor-me ao mundo inteiro, ser gozado por todos os miseráveis da Terra, deixar-me ser espezinhado por toda a merda abjecta.

O meu principal problema era morrer ao abrigo dos olhos dos meus pais."

Os Chefes

Ontem combinei ir tomar um café com o gaijo que chefia uma equipa do estaminé que me quer a trabalhar com ele.

Está o Melões de pé a vestir o casaquito para descer (que o outro gaijo estava à espera na recepção) e aparece o chefe do Melões que pergunta se quero descer para um café.
O gaijo nunca faz isto, mas eu também nunca recuso um café – tomo uns 10-12 por dia!
Tornei a sentar-me e respondi algo estúpido como “espera um bocado” numa voz impregnada de mau feitio. E ele desceu, e o outro gaijo a porta. Cruzaram-se.

Começa então a cena mais ridícula da minha vida laboral. Eu, a tentar perceber quando é que o chefe regressava a saltar de janela em janela e a pensar em que elevador deveria descer para não ter que me cruzar com o meu chefe e dar-lhe explicações desnecessárias, enquanto tentava descubrir o número do telemóvel do sujeito que me queria oferecer trabalho.
Dez minutos mais tarde, lá me telefona o gaijo, o que estava à minha espera, para dizer-me que o chefe já regressava. Corri, e desci pelo elevador de serviço.

E tudo isto para saber que o meu chefe sabia que o outro gaijo ia falar comigo, porque mandam as normas internas do estaminé que quando alguém quer oferecer trabalho a outro, tem que falar com o chefe da equipa.

Ou seja, o anormal do meu chefe fez isto só para gozar com a minha cara. Quando regresso, vou falar com o meu chefe que me diz, Só te deixo sair daqui (da equipa, entenda-se), se arranjares alguém que te substitua, e eu digo-lhe, Então aumenta-me e promove-me. E o gaijo, como sempre, fica calado e só diz, Sabe bem quando sentimos que as pessoas nos admiram e admiram o nosso trabalho…

Fiquei babado, saí sem dizer nada, pego nas trouxas, ligo à Cila (que não me atende) e vou para casa.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

A Porta

Do lat. porta-, «id.»

s.f.
1. abertura em geral rectangular, feita numa parede ao nível do pavimento, para permitir a entrada ou saída; 2. peça que fecha essa abertura; 3. peça ou estrutura que permite o acesso ao interior de algo (carro, móvel, cofre, etc.); 4. entrada; acesso; 5. passagem estreita; desfiladeiro; garganta; 6. admissão; 7. solução; expediente;



A porta estava fechada.

Na pequena sala, entrava uma luz coada pela janela também fechada.

Apesar do ambiente sujo e bafiento, ele sentia-se bem naquela sala. Conhecia bem cada um dos seus cantos: o verde velho do sofá já coçado pelos anos e queimado pela luz; as marcas do caruncho na madeira do soalho; o cheiro bafiento dos velhos e carcomidos livros perdidos na estante húmida ao lado da porta; a sólida mesa de carvalho que vira passar a geração dos seus avós e a dos avós dos seus avós; conhecia até as manchas do bolor que apareciam e se multiplicavam no tecto, fruto de anos de porta e janelas fechadas.

Desde que ficara ali, só, estudara a sala ao milímetro e sempre se questionara sobre o que havia para lá daquela porta fechada.


Já muitos anos haviam passado desde que a cruzara pela última vez e não se lembrava do que havia para lá da porta fechada.

Ali, naquela sala, não estava triste, tão pouco estaria contente, estava abandonado ao conforto dos cobardes, ao desinteresse dos mediocres, ao bem estar dos ignorantes.

Um dia, sem saber porquê, levantou-se do sofá e pôs-se à frente da porta. Tentava escutar o que se passava do outro lado e adivinhar o que se passaria nesse outro lado esquecido, mas como vivia há muito tempo fechado naquela sala, os uivos do vento pareciam-lhe fantasmas. Cada som era uma ameaça porque não sabia o que era realmente.

Enquanto o medo o fazia encolher encostado àquela porta, a curiosidade invadia-o.

Com o passar do tempo viu a sala tornar-se pequena e o que era até então a sua fortaleza, a muralha que o defendia dos fantasmas que habitavam para lá da porta, passou a ser o seu cárcere, e a porta fechada o seu carcereiro.

Então, com um inexplicável impulso, abre a porta e sai!