quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Hoje estou doente

Hoje estou doente.

Depois de me sentir estranho desde segunda-feira, saio mais cedo, chego a casa e o termómetro nos quarenta.
Não me lembrava de ter febres tão altas há uns bons anos, mas é uma coisa que sei suportar bem e creio que já andam por estes valores há uns bons dois dias.

Como sou gajo, e apesar de um historial complicado, ainda não me decidi ir ao médico nem meter uma pastilhinha na boca. Claro, ao comer kiwis e morangos e ao beber um litro de sumo de laranja, porque acho que a vitamina C tem um papel fundamental, os intestinos deram de si, assim que tive que sair do estaminé e vir para casa.
Decidi que amanhã também não vou trabalhar. Não tenho que me matar pelos outros. Chega de maltratar o meu corpinho e há que por-me fino porque o músico guerreiro ainda tem muito porque lutar.

Mas o que me pôs verdadeiramente doente foram duas notícias que li e que não posso aceitar. São notícias que não passam nos telejornais e só olhares mais atentos as descobrem porque fechamos os olhos ao que realmente vai mal no mundo.

OK, há a Carolina Salgado ou a noite do Porto que afinal é perigosa. Perigosa? Não. Perigosa é a nossa atitude perante os verdadeiros flagelos do mundo. E hoje falo-vos de um muito em particular, do qual muito se fala, mas não como deve ser – SIDA.


Pelos vistos uma larga quantidade de preservativos enviados para a África do Sul têm problemas devido à sua fraca resistência.Vinte milhões de preservativos foram postos em quarentena, colocando em risco a vida de milhares de pessoas num país já de si flagelado pela doença.


Pergunto-me eu, porque é que andamos a brincar com a humanidade e com a saúde das pessoas? Porque é que os preservativos que se distribuem na Europa, mesmo gratuitamente, são resistentes? Sim, porque aqui, no meu médico posso escolher preservativos de todos os tamanhos, formas e sabores sem ter que pagar o que quer que seja. Preservativos, lubrificantes, pílulas para quem não pode mas também para quem pode pagar.

Por essas e por outras é que eu nunca trouxe um kit para casa, e se quero preservativos compro-os, porque há quem não os possa comprar e não posso hipotecar o futuro de quem quer que seja ou ter alguma responsabilidade em que se enviem preservativos de fraca qualidade para países onde as pessoas não podem pagar, porque não podem pagar.

Já na Papua Nova Guiné, famílias com doentes de sida em fase terminal, enterram-nos vivos devido aos custos e esperança nula na recuperação destes doentes e porque estes já não podem olhar por si. E sim, porque neste país ainda há gente que não sabe como é que a doença se transmite ou se previne, porque remoto e pouco lucrativo, não cai nos olhos da cultura ocidental.


É por esta falta de vontade política e de valores morais da nossa cultura ocidental, em que temos tudo por garantido, que deveríamos pensar duas vezes antes de nos queixarmos das taxas moderadoras, comparticipação nos medicamentos, preservativos grátis,… porque os podemos pagar, como podemos pagar as nossas férias ou umas jantaradas com os amigos. Mas não, achamo-nos no direito que temos direito a tudo grátis.

Esquecemo-nos que quando aceitamos estas ajudas, estamos a diminuir o bolo das ajudas para os que realmente necessitam, porque estes sim, não podem pagar.

E apesar dos meus quarenta graus, da tosse insuportável e das dores da cabeça, são estas as razões porque estou realmente doente.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Bloguices

Às vezes pergunto-me porque é que as pessoas têm blogues, porque se dão a conhecer, se é que se dão a conhecer, de uma forma pública e exposta, em vez de partilharem estas ideias ou sentimentos com os amigos à mesa do café.

Muitos são diários, daqueles à moda antiga que todas as meninas tinham, em que escreviam os seus amores e desamores, as aventuras e desventuras, tornados públicos.
Há os blogues daqueles que querem ser o que não são e por isso criam um personagem perfeito, belo, tolerante, frontal, activo ou lutador
… é que nisto de não dar a cara, qual exercício de psicologia, se pode entender muita coisa.
Também os há daqueles que mostram o que realmente são, quando levam uma vida totalmente diferente e onde se desafogam dos pecados desta vida
Há os sociais, os científicos, de opinião e temáticos.
Há os da arte, porque a arte só serve alguns, quando, no fundo somos todos arte.
Há os que querem ser um livro
Há os que vendem sexo, os que dão sexo, os que só falam de sexo como há os que falam de crenças, religiões, que vendem ou dão a salvação.

Há os politicamente incorrectos e os incorrectos que defendem perversões ou desvios, como a racismo ou a homofobia,
Há, no entanto, os que os defendem com unhas e dentes.

Também há os da cara destapada, de gente só ou famosa, de gente triste ou feliz, que só quer gritar ao mundo: “Estou aqui!” ou porque o mundo os esquece, ou porque os trata mal, ou ainda porque realmente estão aqui e querem somente partilhar…

Mas quando revejo tudo isto, não sei onde cai o meu.

Não acredito, no entanto, que um blog é mais uma ferramenta que nos afasta das pessoas reais e nos torna socialmente isolados.

E fico feliz quando vejo comentários no que vou escrevendo porque partilho o meu mundo com ainda mais gente, ou simplesmente, tenho opiniões isentas de qualquer ruído externo.

E se metade do que leio é mentira, também será metade do que ouço.


Depois de ler este texto, parece-me desarticulado, sem continuidade, em que as ideias não se desenvolvem, mas foi assim que o senti, e que o escrevi ao correr da pena

sábado, 25 de agosto de 2007

Emoções

Devia ter dois corações, ou três, ou quatro…
...para poder lidar com todas as emoções que me assaltam quando menos espero.

Basta uma palavra, um olhar atento, uma leitura e o meu coração torna-se tão pequeno que de tão cheio o sinto vazio.

Acordei bem disposto, finalmente está Sol e calor. Falei com quem amo.

Passei a manhã a passear no parque e a dar amendoins aos esquilos, enquanto disfrutava dos raros raios de Sol.

Lembrei-me de vir aqui e li vidas de outras gentes que não conheço, com as quais a minha relação não passa de um esporádico comentário aqui e ali.

E de repente, no meio de nada, vejo uma mãe que sofre, um filho que sofre…

E lembro-me que nós, filhos, somos autistas, porque no sofrimento daquela mãe, vejo o sofrimento de muitas mães, vejo o sofrimento da minha mãe… porque negamos a mão que nos estendem, o carinho que nos dão…

O filho náufrago deixa de saber onde está o seu Porto de Abrigo, não vê a luz do farol que indica os perigos, não ouve a sirene nos intensos nevoeiros da vida, porque navega à deriva, e nada mais vê do que a vaga que se levanta diante de si…

O meu coração fica tolhido e os olhos perdidos fixam o monitor sem ver…

Amiga, as tempestades passam, podem tardar mas temos que acreditar que passam… Tu és o farol, o Porto de Abrigo, …
Só tens que continuar a iluminar e a indicar o caminho, até que um dia, em que haja uma acalmia e as vagas diminuam, e o nevoeiro se dissipe numa ligeira bruma, a tua luz vai continuar a indicar o caminho.

Por agora, com o coração pequenino, olho pela janela e vejo o Sol depois deste longo Inverno que foi Agosto e não posso deixar de sorrir.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Do Cambodja à Sibéria

Apesar de ter programado chegar a casa às 16.30 na sexta-feira passada, com a bela história do passaporte, os atrasos de vôos e afins, cheguei a casa a umas belíssimas 23.00.

Lá tinha eu os Pais Melões à espera.
Fomos para casa onde nos esperava um lauto jantar (só para os três) e um bolito com as velas – isto porque o Melões tinha dito à Mãe Meloa no dia do seu aniversário que era inconcebível que não se cantasse o “Parabéns”ou não se soprasse às velas.
Assim sendo, foi tarde mas foi...
Devido à hora tardia do repasto não me acerquei a casa de outro amigo que cumpria anos nesse dia e me tinha convidado para passar por sua casa. Mas mãe é mãe.

Depois de uma larga noite a pôr a conversa em dia, e uma manhã bem dormida o Melões levanta-se no Sábado directamente para a mesa para comer umas espetadas mistas grelhadas pelo Pai Melões que se auto-intitula experto em grelhados. É que isto, no Verão, há que aproveitar o tempo, o terraço e o grelhador.

Café com a Mãe Meloa, voltinha higiénica do costume, ajudar a Mãe Meloa com uns problemitas informáticos, lanche na cervejaria ao lado de casa com os Pais Melões (só o Melões, afiambrou-se a uma Sapateira Recheada) e toca a ir a casa de outra amiga cujo aniversário era no dia seguinte.

Claro, isto de misturar caipirinhas, mojitos e afins tem muito que se lhe diga e até há quem não se lembre como foi parar ao Bela Cruz. No fim da noite, três resistentes tentaram a sua sorte no Indústria. Infelizmente estava fechado e, por isso, casa.

Domingo ao almoço voltámos aos grelhados. Bacalhau assado na brasa com um puré de bacalhau e canela, receita de família, normalmente comido ao almoço em véspera de Natal. Ahhh... que saudades das receitas da Avó! Infelizmente o estômago e o fígado não estavam à altura e lá comi como podia.

Acaba o repasto e decido fazer o check-in online. Introduzo os dados e nada, outra vez e nada, e mais nada.
Ligo para o check-in telefónico e dizem-me:
“-O seu vôo foi cancelado porque falhou ao seu vôo Londres Porto.”
“-E se não vim, então como é que quero regressar a Londres?”
“-Ligue para a central de reservas e veja se conseguem localizar o seu vôo”
(...)

Lá consegui marcar o vôo novamente e fazer o check-in online. Café, volta higiénica, bagagem de mão para evitar problemas com a greve e pés ao caminho de Pedras Rubras.
Entro, compro as “famosíssimas” trufas de vinho do porto que o pessoal do estaminé crê ser a maior iguaria do Porto (e das quais eu nunca tinha ouvido falar) e sento-me ao lado da porta de embarque.

Olho para o lado e vejo uma amiga que ia exactamente no mesmo vôo. Quando olho para o cartão de embarque dela reparo que tinha o mesmo lugar que me estava assignado. Vamos até ao balcão para resolver o embróglio e diz-me o senhor:
“ - Senhor Melões, pedimos muita desculpa pelo incoveniente mas vamos ter que fazer-lhe um up-grade para business” Isto, e mais as dez mil milhas que me deram pelos inconvenientes de cancelarem a reserva e haver atrasos nos vôos.

Provavelmente devia perder o passaporte mais vezes.

Mas quando desço do avião, reparo que se tinham enganado no destino. Depois de mais hora e meia de atraso, em vez de fazer Porto Londres, fiz Cambodja Sibéria. Essa é que é essa.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Viagem ao Cambodja

Hoje vou até à terrinha!
Principal razão – festejar, ainda que com atraso, o aniversário da Mãe Meloa.
Vôo comprado ontem por uma pipa de massa para hoje às 13.55 de Gatwick

9.00a.m. – despertador toca
10.30a.m. – banhinho tomado, mala feita, bilhete e passaporte confirmados e metidos ao bolso, apanhar o táxi para o Gatwick Express.
11.00a.m. - chegada à estação depois de 30min num taxi numa viagem que costuma demorar 10min. Accordingly, o preço da corrida também foi o triplo.
11.15a.m. – comboio sai da estação em direcção ao aeroporto. Começa uma viagem de 30minutos sem paragens.
11.20a.m. – O Melões lembra-se de verificar o bilhete e o passaporte.
11.21a.m. – Pânico
11.22a.m. – Pânico
11.23a.m. – PÂNICO GENERALIZADO – Melões não encontra o passaporte e não pode sair do comboio.
11.24a.m. – Melões liga à Mãe Meloa a dizer que não sabe do passaporte, que não tem o BI consigo, só o BI Espanhol que não tem o nome completo e por isso não serve para viajar – Mãe Meloa entra em Pânico!
11.26a.m. – Melões liga à cara metade mais que tudo, insulta meio mundo e outro meio, diz que deitou fora uma fortuna porque não consegue chegar ao aeroporto, voltar atrás, ir a casa buscar o passaporte (que se lembrava de ter metido no bolso do casaco), regressar ao aeroporto a tempo do check-in. Chamada cai.
11.45a.m. – chegada ao aeroporto, correr ao balcão da TAP, explicar a situação, mudar o vôo para as 19.05 de Heathrow, pagar mais uma fortuna porque só havia lugar em Business.
12.05p.m. – Gatwick Express para a estação em central London.
12.35p.m – Táxi para casa – só demorou 10 min.
12.45p.m. – entrar em casa, sem saber o que havia passado com o passaporte, que tinha metido no bolso do casaco

E ali estava ele – no chão, na entrada, o FDP, cabrão, que me custou a brincadeira uma fortuna, que podia ir até ao Cambodja com a fortuna desta viagem de fim de semana.




Bom – o melhor é estar caladinho que o dia ainda não acabou e ainda tenho a viagem por fazer.

domingo, 12 de agosto de 2007

Os dados estão lançados

Há tanta coisa que vos quero contar… e sei que se não o fizer num só post, não o voltarei a fazer… isto, porque muitas vezes penso em coisas que vos quero dar a conhecer e logo depois, com o passar do tempo, outras aparecem, e o que deveria ser escrito não fica senão no meu pensamento.

Vamos lá ver como me saio… e se me faço entender.

Sexta feira - 12.00
Numa tentativa de unir a equipa, e depois das minhas severas críticas da semana passada, o meu chefe anda a fazer um enorme esforço para transformer a equipa num grupo de companheiros e não de estranhos que quase não se falam.
Para isso marcou uma partida de Crown Green Bowling em Finsbury Square. Confesso que não estava muito entusiamado com a ideia, mas lá fui. Os pares foram sorteados e eu tive que defrontar o meu chefe, que é bife, num jogo de bifes, em plena capital da Bifalândia.
Estranhamente ganhei. Uma extraordinária vitória de 21-7, e não, ele não me deixou ganhar, que é ingês e, por isso, extremamente competitivo.
Depois de tudo isto, lá fomos almoçar e tomar uns copos. Criou-se um ambiente descontraido… e vi a equipa mais relaxada do que alguma vez havia visto.
Se os objectivos do chefe serão atingidos? Duvido, dou-lhe o benefício da dúvido e aplaudo o empenho e a atitude.

Sexta feira - 17.00
Fui ao ginásio.
É verdade, o Melões, que já não fazia exercício há mais de cinco anos, inscreveu-se num ginásio, que por acaso é o mesmo onde está a Cila. Tinha encontro marcado para fazer um programa. Claro está, depois do Bowling no parque e de três copitos de vinho, o Melões não estava no seu melhor. Na entrevista, a "personal trainer" que me estava a avaliar, perguntou-me o que esperava do ginásio e quais eram os meus objectivos.
O meu objectivo é só um. Cuidar da saúde. Ainda sou dos que acreditam em “Mente sã em corpo são” e quando já vimos o nosso corpo exposto a algumas coisas, achamos que não o devemos ignorar. Temos que o cuidar.
Diz-me ela… então há que deixar alguns maus hábitos, como beber… ups, afinal os três copitos de vinho ainda se notavam, e mal se começa o ginásio, ganhar fama de etilizado, não me parece muito correcto.

Sexta feira - 21.00
Um colega comprou casa e fez uma festa de inauguração. Lá fui eu. Não conhecia quase ninguém e queria sair cedo, pois sábado tinha algo muito importante para fazer.
Copo puxa copo, conversa puxa conversa, e vem o tema "Gay" à baila.
Não sei porquê, este tema parece estar na ordem do dia. Parece que toda a gente tem que provar que está bem com o assunto. Faz-me acreditar que ainda há muita discriminação ainda que seja pela positiva. Nos tempos que correm tem que se ter um amigo gay.
Não estava muito envolvido na conversa, mas sempre de ouvido afiado.
Ouço então alguém a dizer - isso não é normal. É anti natural!

Saltou-me a tampa. Ainda por cima vindo de alguém com alguma formação e com apenas 23 anos. Uma jovem jornalista que vive em Brighton – a cidade gay por excelência na Bifalândia.
Apesar de só lhe querer dar um chapo bem dado, perguntei-lhe calmamente o que era ser normal… não soube responder.
Perguntei se ser normal é acordar todos os dias de madrugada, preparar o pequeno almoço dos filhos, levá-los à escola, ir trabalhar, ir buscá-los à escola, chegar a casa, fazer o jantar, deitar os filhos, e completamente exausto ir para a cama, para ter um dia seguinte exactamente igual… poupar uns cobres para ir passar férias a uma praia cheia de turistas, esturricar ao sol, all inclusive, voltar de férias, ver os anos passar e aquando da reforma, estar sentado a ver televisão ou enfiado num asilo. Sim, porque se é isto ser normal, então prefiro não o ser.
Ser normal é amar, ser amado, seguir as normas e a rotina quando estritamente necessário e fugir delas sempre que possível. É fazer o que nos dá prazer, com quem nos dá prazer, e dar o mesmo prazer aos outros, através do amor, da arte, da partilha de ideias,
Ser normal é estar bem consigo, com os outros, e fazer com que os outros estejam bem.
Ninguém respondeu ao meu discurso – todos se calaram para o ouvir – quando o terminei havia o silêncio…
Mudámos de assunto e quando dei conta eram duas da manhã e escapei-me até a casa.

Sábado – 09.00
Tinha medo deste dia, tanto medo, que não o partilhei com ninguém, nem sequer com a Cila (que me vai matar por nada ter dito) que se tinha oferecido para acompanhar-me.
Entrei no Hospital com medo mas contente e excitado. Uma sensação doce. Todos me trataram com muito carinho.
Às nove entrei no bloco e começaram com os procedimentos que já conhecia. Deitaram-me em posição fetal, começaram o procedimento.
Tinha mais medo do que da primeira vez, há uns anos atrás. Sabia com o que contava, mas fi-lo com um sorriso nos lábios e pedindo interiormente, a quem estivesse ao meu lado e me ouvisse para fazer tudo isto valer a pena. Desta vez chorei, mas não pela dor, que dor já eu conheço bem e aprendi a suportar. Emocionei-me.
Lembrei-me da primeira vez que fiz exame semelhante. De ter desistido, perdido as esperanças. Agora era diferente. Dava uma parte de mim onde esperanças tinham sido depositadas. Quis guardar esta emoção só para mim. Era o meu momento.
Passei o resto do dia e da noite deitado com a cabeça abaixo do nível do corpo para evitar as terríveis cefaleias de que bem me lembrava e que eram o que realmente me assutava.
Estive assim, sem me mexer, com uma palha enfiada na boca a beber toda a água que podia, mas sem me mexer. Sem ir à casa de banho, sem comer, a tentar dormir. Até adormecer...

Domingo - 9.00
Acordei com a sensação do dever cumprido. Estou cansado, mas as cefaleias não me visitaram. Como se alguém me tivesse oferecido a isenção deste efeito secundário por me ter oferecido para fazer aquilo que muitos outros recusaram.
E agora estou aqui, em casa, cansado… olho-me ao espelho e sinto-me extremamente feliz. Não posso evitar chorar quando vejo o meu percurso até este dia. Não sei a quem devo agradecer.
Sinto-me cheio, feliz, feliz como não me sentia há muito tempo. O que fiz pode ser uma gota, mas é de gotas que é feito o oceano.
Agora que os dados estão lançados outra vez, é confiar, acreditar, que neste pedacinho de mim, está uma parte da chave para tornar este mundo mais feliz.

Obrigado!

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Oito de Agosto

Hoje é contigo que quero falar.
Contigo e só contigo. Afinal, em trinta anos, é a terceira vez que não passo este dia contigo. É uma vez em cada década, mas temo que nem assim seja no futuro.

Sei que para ti é um dia de distintas emoções. Não sabes se hás-de sentir-te feliz ou triste. Acreditas que não podes sentir-te feliz.

Curiosamente, da primeira vez que não passei este dia contigo, estava neste país onde agora vivo. Era então uma criança, e tu, que até então nunca te separaras de mim, deixaste-me partir. Lembro-me do teu sorriso enquanto te despedias de mim no aeroporto, enquanto por dentro tinhas o coração esmagado pela separação, ainda que só por um mês. Acredito que ainda hoje, cada dia que me acompanhas ao aeroporto, sentes o mesmo aperto, com a dificuldade de não saberes quando é a próxima vez que me tornarás a ver.

Da segunda vez, deixaste-me porque querias passar este dia, o teu dia, com quem mais precisava de ti. Já não era criança, antes adolescente a entrar em fase adulta, que tentava ultrapassar, não sem dificuldade, desejos e amores proibidos e surpresas desagradáveis. Foi duro ficar para trás. Sabia que precisavas de mim, do meu carinho, da minha presença, mas sabias que tinhas que seguir a tua intuição, e quiseste passar o teu dia com o teu pai, que se despediu de nós nos teus braços.

Esta é a terceira vez, nada de marcante, felizmente, a não ser as memórias do passado e as lembranças de quem partiu neste dia. Sei, por isso, que este dia, para ti, tem um sabor amargo, apesar de toda a doçura que para mim representa.

Queria estar contigo. Não posso. Queria dizer-te que estou muito feliz por este dia, porque te celebro e por ti, celebro-me. É o dia que te viu nascer, por isso que me fez nascer. Pode ser o dia em que perdeste um pai, e eu um avô, mas foi o dia em que, mesmo antes de ter nascido, ganhei uma mãe.

Um beijo muito grande e um abraço muito apertado.

sábado, 4 de agosto de 2007

Olhares

Há olhares tristes, olhares doces, olhares meigos, olhares assustados.
Há olhares apaixonados, olhares furiosos, olhares inquiridores, olhares frustados.
Há olhares frios, olhares quentes, olhares penetrantes, olhares indiferentes.

Que olhar é o meu hoje? Agora?
Olhar vivo? Olhar mortiço?
Olhar que só olha ou olhar que vê?
Olhar que define?
Olhar que interroga?
Olhar que intimida?Olhar que conforta?

Quando me olhas, que vês? Vês-me a alma, o corpo, um mar de letras sem sentido?
Quando me olhas, que vês? Vês o que sinto ou o que quero sentir?
Quando me olhas, que vês? Vês o que sou ou o que quero ser?

Apercebes-te de mim ou daquilo que quero que vejas?
Vês os meus segredos e tristezas? As minhas frustações e agonias?
Vês os meus choros calados e os meus passados escuros?
Vês a minha força imensa ou a minha imensa cobardia?
Vês os meus sucessos ou os meus sucessivos fracassos?

Afinal, que fazes com o olhar? Descobres ou deixas que te descubram?