quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Livros

A Amigona lançou-me este desafio.
Não lhe vejo grande interesse (ao desafio), apesar de me despertar curiosidade. Gosto de saber o que as pessoas lêem, apesar de uma frase fora do contexto, pouco dizer do livro ou do autor.

Por acaso, ontem uma colega do estaminé devolveu-me um livro que lhe tinha emprestado há mais de um ano. Está aqui ao meu lado. Chama-se The Music of Chance e é de um dos meus autores preferidos da actualidade – Paul Auster.

Tenho que escrever aqui a quinta frase completa da página 161 que reza assim:
“What difference would it make if he had still been alive?”
Frase curta, directa e sem a magia dos livros de Auster.

O livro é bastante bom, recomendo-o.

Deveria passar o desafio a cinco pessoas – fica aqui o desafio a todos os que, ou porque quiseram ou por um mero acaso, vieram aqui cair.

sábado, 27 de outubro de 2007

O John

Há algumas coisas que me aborrecem. Mas que me aborrecem até ao limite.

Há uns meses conheci o John*. O John é seropositivo há vinte anos e perdeu o parceiro para a mesma doença. Está internado num hospital Londrino e pertence a um grupo de estudo de doentes em fase terminal.


O John tem o aspecto que imaginamos de um doente de SIDA. Nos seus quase sessenta anos, pareceria ter noventa, não fosse o brilho dos olhos. Mas o rosto encovado, a falta de cabelo e pelo, os tumores pelo corpo bem como a lipodistrofia, e uma magreza assustadora, não nos deixa esquecer que o John está mal e não estará muito tempo. É um homem inteligente e culto, com um sentido de humor e uma ironia excepcionais.


Ri-se da vida e da doença. Infelizmente, é um dos raros casos em que os tratamentos não actuam. Cada vez que surge um novo tratamento, muda e melhora durante uns seis meses, mas logo o virus ganha resistência ao medicamento e neste momento não há tratamento no mercado que lhe valha.

Como o hospital é ao lado de minha casa, e porque eu tenho que fazer uns controlos de sangue regularmente, cada vez que vou ao hospital, visito o John. Já não tem pais e passa o dia sozinho. Barafusta e tal porque diz que o quero matar porque levo virus comigo, quando até a propria água que o John bebe é fervida para evitar qualquer infecção. Mas logo fala, fala, conta-me a vida dele, as experiências, a frustação...

Finalmente esta semana percebi o porquê da frustação. Ao falar com o médico que segue o caso do John, apercebi-me que as coisas não estão fáceis. Há medicamentos em fase experimental, inibidores de fusão, e o bem recente “splicing” (não sei qual o nome em Português).

Estes tratamentos não estão aprovados nem podem ser administrados porque não são conhecidos todos os efeitos secundários, no entanto sabe-se que não matam em dois dias. No entanto o John, apoiado pelo médico, queria experimentá-los, mas não pode... estes tratamentos podem aumentar seriamente o nível de gordura no sangue e levar a sérios problemas cardíacos...

Agora expliquem-me uma coisa, se um deles impede que o virus se funda com as células doentes e o outro impede que o virus se multiplique, garantir-se-ia que a doença do John parasse exactamente onde está, OK, com mais colesterol e tal, e outros efeitos que o podem matar daqui a cinco ou seis anos, ou nunca, porque não se conhecem; mas porque o podem fazer, não podem ser administrados, e o John continua a tomar os seus trinta comprimidos diários e à espera que um dia que o vá visitar leve comigo um viruseco qualquer que o mate.
Não deveria ele poder escolher? Bolas, é muito diferente dizer a alguém que morre amanhã, ou que pode morrer daqui a cinco ou seis anos, ou talvez mais,...

Mas claro, os novos medicamentos demoram sempre três anos ou mais a ser aprovados, exactamente o mesmo tempos que demoram as patentes dos existentes a expirar, e por isso a ser aprovada a produção de genéricos.

Entendo perfeitamente que a Indústria Farmacêutica precise de dinheiro para pagar as suas investigações, que haja patentes, e compreendo que a falsificação de medicamentos na China e na Índia, estejam a retirar parte destes fundos fundamentais para o desenvolvimento de novos tratamentos para qualquer doença, mas bolas,... onde entram aqui os direitos do Homem, a Justiça Social?

Queremos mais escândalos como foi não lançarem os inibidores da protease até os stocks de AZT terem diminuído para níveis economicamente aceitáveis?

Podem chamar-me simplista, mas porque carga de água gastam os governos das grandes potências em armas e afins, promovem guerras aqui e acolá para estimular a economia e não dão este dinheiro à investigação para as doenças que matam todos os dias? Ou à prevenção?

Se é por motivos económicos, que se lembrem que doentes inválidos também ocupam camas de hospitais, gastam em cuidados paliativos e não produzem... e esta gente curada, ou activa, será menos um custo e mais um proveito.

Para mim é mais uma pessoa.

Por isso John, vou fazer o que me pediste, tu e o teu médico. Vou aventurar-me nesta cidade a dar alguma formação e conforto aos mais vulneráveis e aos doentes.


Fiquei muito contente em saber o conforto que te dou e a alegria que sentes quando me vês entrar. Sei que sou um risco para ti, mas vale a pena arriscar, seja por um tratamento do corpo ou por um tratamento da alma.
*nome fictício

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

A Cara Metade, Madrid e a Mochila

Uma vez mais quero falar de tantas coisas que passaram estes dias que não sei como fazer ou se terei algum sucesso.

No fim de semana passado esteve aqui a Cara Metade Mais Que Tudo. Foi um excelente fim de semana. Muito frio, mas aquele sol baixo de Outono que dá uma côr especial a tudo o que nos rodeia. Foi um fim de semana de muitas conversas. Falou-se dos amigos e do futuro.

Cilinha, estiveste muito presente nas nossas conversas, pelo teu avô, pela tua gata, pelo teu casamento, por ti. E a Cara Metade fica-me com aqueles olhos brilhantes de criança que bem conheces postos em mim e sinto que sofre contigo. Queria estar contigo, não pôde. Fica para a próxima.

Passeamos no parque, vimos veados, demos de comer aos esquilos, aos patos, aos cisnes, aproveitámos os fins de semana ao máximo. Apesar de tudo nunca programamos o que quer que seja porque gostamos que seja o tempo e a vontade do momento a ditar os acontecimentos.

O futuro foi uma constante nas nossas conversas. Estamos cansados desta vida, aqui, ali e acolá e em lado nenhum. A Cara Metade está desesperada por unir os trapinhos. Di-lo todos os dias e a toda a hora. Eu também quero, mas... ...porque há sempre um “mas”... ou muitos “mas”...

e mais uma vez, a Cilinha está sempre presente para me lembrar dos “mas”. Além dos “mas” normais, enquanto a trabalhos e carreiras, há os outros. Há por um lado a minha enorme independência, o gostar de estar só; como há conversas pendentes, muitas, com muita gente e um segredo do passado, que de acordo com a Cila tenho de contar. E apesar de ser um segredo com um fim bonito, tem um lado muito negro, que se o consigo expôr neste canto, ainda me é difícil de falar dele abertamente com quem quer que seja, porque não gosto de chorar em frente das pessoas, mas porque não consigo manter-me a pessoa calma, racional e fria, que muitos me consideram quando abordo o “longo inverno”.

Depois do fim de semana fui a Madrid. No mesmo vôo ia uma pessoa que conhece o meu segredo de um ponto ao outro porque o estuda. Sabe provavelmente mais da minha vida do que qualquer outro. Imagino que se tivesse um psicólogo ou psiquiatra, não lhe contaria metade, mas a este, pelo nobre trabalho que faz, conto tudo. Tive medo que ao sair do aeroporto desse de caras com a Cara Metade e se descaisse com o “longo Inverno”, mas não. No entanto, cada vez se torna mais claro que temos que partilhar tudo, não só as coisas boas, mas também as más.

A razão da minha ida a Madrid foi a visita a um cliente que ia apresentar o seu plano estratégico para os próximos três anos. Claro, aproveitei para tratar de outros assuntos mais pessoais e olhar pelo futuro. Mesmo sem Sol, dei-me conta do quanto gosto de Madrid e que me facilmentevejo a viver por lá.

Mas como não podia deixar de ser, a viagem terminou com mais uma de muitas aventuras de aeroporto.

O cliente deu a toda a gente que assistia ao evento uma mochila térmica. Lá a meti como pude dentro da mala e segui até ao “security control”. Param-me. Ora bolas, mas que raio é que se passa agora, tenho a pasta de dentes, o desodorizante e a espuma de barbear num saquinho de plastico à parte, e dentro da mala vai uma camisa e uma muda de roupa interior (já usadas). Olho para o monitor e vejo que a minha mala acusa, facas, garfos, un canivete e um saca-rolhas!

Pois, o idiota do cliente ofereceu uma mochila térmica para pic-nic. Lá dentro havia dois pratos, dois copos, saleiro e pimenteiro, uma tábua de cozinha, talheres para duas pessoas, um saca rolhas e um canivete. Mas vinha tudo tão bem embrulhadinho que nem me passou pela cabeça que pudesse vir tanta arma branca lá dentro.
Eu bem que dizia: esta mochila deve ser feita de chumbo que pesa... deve ser porque é térmica.

Digo eu embaraçado: Ah sabe, es que ha sido un regalo de un cliente y no sabía lo que había dentro.
e diz-me a senhora: Pues, pero usted debria saber que no puede traer cosas que no sabe que son.
E respondo eu: Tiene toda la razón, se puede quedar con los cubiertos, la navaja y el saca-corchos, que además tengo cubiertos en casa.
Ela chama um policía que lhe diz: quédese con el saca-corchos, pero déjelo pasar con los cubiertos y la navaja. Al final, si se va a un restaurante dentro de la terminal, también puede coger unos cubiertos.


E depois o polícia olha para mim e diz-me: Joder, que ya eres el tercero con la puta mochila esa!

E lá fiz eu um vôo Madrid Londres com duas facas e um canivete na bagagem de mão.

Viva a segurança dos aeroportos!

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Perfeição

Sinto-me sempre assim. Insatisfeito, como se algo me faltasse, como se me tivessem tirado um pedaço sem o qual me sinto incompleto. Não sei dizer se esta sensação é de vazio, ou se pelo contrário, de uma pressão enorme dentro do peito do que se foi acumulando ao longo dos anos e não consegue sair.

Neste sentimento que mistura nostalgia com dor e ansiedade, não me deixo iludir ou surpreender.
Quase não me recordo dos tempos em que era genuinamente feliz, inocentemente feliz. Lembro-me sim, de desde muito cedo, à hora de dormir, ter uma necessidade enorme de rasgar o peito, abrir o esterno e separar as costelas, como se por esse espaço criado no corpo se pudesse esvair o que me consome a alma.

Porque deixei eu de acreditar tão cedo? Deixei-me crer que pouca coisa tem importância acabando por tirar importância ao que a tem. Privei-me de me sentir realizado e satisfeito porque tudo me parece pouco.

Então, fui pelo mundo fora à procura do que não encontro, seis países em que vivi e sempre a mesma insatisfação.

Sempre quis ser perfeito no que faço. Sempre, desde que nasci.
Não falei até muito tarde, mas quando comecei a falar, era capaz de dizer frases inteiras para espanto de muitos. Mas porque sei que não o sou, deixei a frustação crescer em mim.

Consegui algum alívio na música.

O aperto do meu peito diminui cada vez que canto e canto como se não houvesse amanhã. Não me deixo levar pela perfeição, mas empenho-me até ao limite, e faço deste meu canto um escape de sentimentos guardados e escondidos.
É assim que conto a minha vida. É aqui que vejo como estou errado ao tentar ser perfeito, porque ao entregar-me ao canto de corpo e alma me liberto, mesmo sem ser perfeito. A minha energia vai comigo, não tenho medo de falhar. E sou brutalmente recompensado. Muitas vezes vi salas de espectáculos, auditórios e Igrejas com gente que chorava as minhas lágrimas, estas corriam então pelos olhos dos outros, alimentando-me o vácuo ou esvaziando a congestão do meu peito.

Hoje, quando passo pelas ruas de Londres com as iluminações de Natal, as mesmas do ano passado, as mesmas do ano anterior, sinto o ar frio na cara, sou assaltado por uma ansiedade crescente: Quero viver Natal que vivia no passado, quero o meu Natal de criança.
Onde deixei eu ficar a inocência que um dia me fez levar o menino Jesus do Presépio para a minha cama porque estava frio? Acreditava que não havia problemas na família ou no mundo, ficava feliz ao subir o monte com o avô para recolher o musgo para o presépio e cortar um ramo de um pinheiro que logo era enfeitado na quinta por toda a família. Não dormia, excitado pelo ambiente de Natal, a música, as luzes, os doces, os presentes, chegava mesmo a esquecer-me que nos era vedado ver televisão. E não era importante porque tudo era perfeito.

Quero tanto, mas tanto, voltar a sentir como em criança...

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Os três pilares


Portugal escandaliza-se com os aumentos dos acessores da câmara de Lisboa, dos políticos, dos médicos do serviço público…
Podem bater-me, insultar-me, o que bem entenderem.
Neste nosso Portugalinho, já há muito que hipotecámos o futuro, e agora vêem-se os resultados, porque não apostámos em três classes que cairam em descrédito apesar das funções vitais que assumem na sociedade em que vivemos e em qualquer sociedade, qualquer que seja o regime político.

O que eu quero dizer é que enquanto os salários dos políticos, professores e profissionais da saúde (função pública) forem a miséria que são, sim, digo miséria, não teremos pessoas capazes de dirigir, educar e cuidar este país.

Quem quer ser político nos dias de hoje? Talvez alguns jovens idealistas, mas estas utopias morrem com a idade, e quando se pesam os prós e os contras, quem em perfeita consciência quer ocupar um lugar em que se está na mira de todos, numa classe desrespeitada e a receber muito menos do que em qualquer instituição privada? Só quem tem ganância de poder e uma inteligência razoável para enganar meia dúzia de tolos.
Haverá um ou outro que o faz por convicção, mas acredito que estes casos são raros. Os verdadeiros dirigentes, os que sabem governar, ou estão fora do país, ou dirigem empresas de sucesso, com sucesso e ganhando no mínimo dez vezes mais.

Quem que ser professor nos dias de hoje? A classe está desmotivada, é desrespeitada, anos de regalias e manifestações e greves por dá cá aquela palha levaram ao descrédito da classe. Uma vez mais os salários são uma miséria e não há sequer segurança do posto de trabalho. Pior se passa nas Universidades em que os catedráticos se colam às suas cátedras não dando espaço às reformas necessárias, também estes, na sua maioria reduzidos a professores mediocres porque se fossem bons, estariam no sector privado a ganhar bem mais e a não prejudicar os que relamente gostam de ensinar. Ao valorar realmente esta classe, teríamos pessoas com valor para fazer as mudanças necessárias, a criar uma sociedade que evolui, com conhecimente e produtividade. Uma sociedade actualizada, que produziria mais, aumentando o rendimento do país e a qualidade do ensino, entrando num ciclo virtuoso. Em relação a todos os outros professores, anos de negligência no ensino superior, fraca remuneração e inexistente actualização, levaram a um défice de conhecimente e a uma desmotivação sem precedentes. Quem sofre é o país e os novos e os futuros professores, que não têm colocação porque o país está de rastos principalmente porque descurou esta peça fundamental. Uma vez mais, fora meia dúzia de sonhadores, os que podiam mudar tudo isto fogem do país a sete pés porque o Ensino está desacreditado e mal pago.

Quem que exercer na saúde pública? Uma vez mais, a luta dos poderes é constante e os salários miseráveis. Quem pode, abre o seu consultório onde cobra cem vezes mais, deixando para os hospitais públicos os inexperientes, os maus, e os que, mais uma vez, gostam do poleiro, hipotecando assim a saúde do nosso país.

E tudo porque se dá pouco ou nenhum valor a estas três funções que são o pilar de uma economia saudável.
Por não o reconhecermos, vivemos num país sem educação, sem saúde e sem rumo.

sábado, 13 de outubro de 2007

Tempo de Mudança


Nunca fui de me deixar vencer pela vida e sempre tentei ver o lado positivo das coisas. Assim sendo, a vida foi-me levando por caminhos pouco planeados mas bem sucedidos.

Vezes houve em que me senti esgotado pelas lutas e em que me apeteceu desistir. Agora não. Não quero perder tempo a lamentar ou discutir o que não tem solução. Não me posso dar ao luxo de perder tempo com o que não interessa.

A minha vida vai mudar, sabia-o há uns meses e agora tenho a confirmação. Posso deixar a vida levar-me onde bem quer, ou posso aproveitar a oportunidade para mudar.
Com o fim deste projecto, posso ficar sentado à espera do seguinte. Formar nova equipa, criar novos padrões de trabalho, deixar-me ir sem ter muito que dar ao futuro que se me vai abrindo à frente.

Mas tenho pensado muito estes dias. E se aproveito esta fase para mudar? Porque é que em vez de deixar que a vida me guie, tomo eu as rédeas e sigo pelo caminho que quero?

Estes dias estive num "off-site", um "team building event", que me pareceu a coisa mais absurda deste mundo. Primeiro porque a equipa não existirá dentro de uns meses, e segundo porque este “team building” deve ser um esforço constante das pessoas que trabalham juntas.

Não é por ir navegar um dia e passar outro dia em desportos motorizados que me vou tornar mais colega dos meus colegas. Isso poder-se-ia fazer no almoço ou café diário, nas horas livres que dispomos. Infelizmente neste país, todos se recusam a tirar a máscara nesses momentos e continuam com as mesmas atitudes de auto-promoção.
Um exemplo de tudo isto é que ainda hoje mantenho contacto com os meus colegas/amigos do estaminé em Portugal ou Espanha, mas todos os que foram abandonando o estaminé neste país, desapareceram no vento e nada sei do que é feito deles.

Assim sendo, além de achar todo o evento um gasto desnecessário e uma palhaçada, tive tempo para pensar e reflectir no que aí vem.

Porque é que não aproveito esta oportunidade para mudar outra vez? Fazer as trouxas, pegar na mala de cartão e partir, quem sabe, para Madrid, para estar com quem quero?

Gostei de lá viver, tenho lá amigos, estou mais perto de casa e tenho lá a Cara Metade Mais Que Tudo.

E quanto mais penso, mais vontade tenho.

Afinal, o meu comboio segue em frente mas há muitos apeadeiros pelo caminho. E em vez de esperar pela estação terminal, é tentar sair no apeadeiro certo.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Fim de uma etapa

Há semanas assim:
- chegamos ao estaminé e os nossos assistentes têm uma prenda de agradecimento pelo nosso trabalho e paciência;
- vemos o projecto pelo qual lutámos e trabalhámos durante oito anos, desaparecer sem que nada possamos fazer e assistimos serenos à desintegração da casa que fez de nós trabalhadores respeitados, nos formou e ocupou dois terços da nossa vida.

Tenho pena, afinal sempre acreditei no projecto a que me dediquei nos últimos oito anos.

sábado, 6 de outubro de 2007

HIV & Me

Esta semana fui surpreendido por um documentário que passou na BBC2 chamado HIV & Me.
A BBC provou conseguir, ainda, produzir programas de excepção. Fiquei agarrado ao televisor, chocado mas não surpreendido com o documentário e espero ansiosamente pela segunda parte na próxima terça-feira.

O documentário, dividido em duas partes (uma sobre comportamentos face ao HIV e outra sobre o que é viver com o virus) é apresentado por Stephen Fry, um homossexual que viu muitos dos seus amigos morrer nos anos 80.

No programa, Fry examina as taxas de infecção e, terrificado pelo que descobre, pergunta como é que nos deixamos chegar à complacência sobre os perigos desta infecção apesar dos avisos das décadas de 80 e 90.

A sua viagem é uma viagem pessoal em que nos conta como viu os seus amigos morrer e encontra um ex-companheiro que está quase cego devido à infecção. Quando a doença foi descoberta, lembra-se do terror que assolou a comunidade gay e de esta ser considerada então uma sentença de morte. Ainda assim, hoje a doença é percebida como uma condição crónica, chegando mesmo a ter conhecido um rapaz que teve sexo numa noite com cinco homens infectados propositadamente para ter “the gift”.

Como um terço dos infectados desconhecem o seu estado no Reino Unido, e com o número de infecções a aumentar, principalmente entre heterossexuais, Fry sente-se obrigado a mostrar que o problema é presente e que a batalha contra o virus está longe de ser ganha. Fala com uma avó seropositiva, uma adolescente de dezasseis anos que o é desde que nasceu e um casal seropositivo que deu à luz uma menina livre da infecção.

Descobrimos realidades assustadoras: de jovens neste país que não tomam precauções; de países como a África do Sul onde o governo diz que a relação entre HIV e Sida não está provada e por isso não se dá medicação a seropositivos; de como no Zimbabwe as mulheres são infectadas e não podem sequer pedir ao marido que use preservativo; de como na Austrália e Nova Zelândia está proibida a entrada a seropositivos e; de como no Reino Unido, os que dão a cara são ainda insultados.

Acima de tudo, o que me surpreendeu no programa foi a clareza com que se falou de tudo, o não haver julgamentos ou ensinamentos morais. Não ser um programa para assustar ou acenar com um manifesto. Não explorar sentimentos fáceis.

Graças à sua inteligência e sensibilidade, Fry espalha a mensagem com um toque que poucos podem igualar.

Agora que nos mostrou os comportamentos face à infecção, espero pela segunda parte em que nos mostra o que é viver com ela (apesar de ele não a ter), e espero que um dia este tipo de documentários passe onde merece estar, nos canais de maior audiência, para não deixar esquecer que este virus anda por aqui e que apesar de controlado, de não mostrar as faces que nos mostrava nos anos 80, ainda mata, mas que acima de tudo, é muito fácil de evitar.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

A Mulher e a Igualdade

Há já algum tempo que pensei neste assunto e queria muito escrever sobre ele, mas, como é um tema delicado, a maioria das pessoas que comentam este canto são mulheres, bem como os meus melhores amigos são mulheres, quis pensar bem antes de abrir uma guerra aberta com as senhoras com quem me dou.

Todos sabemos que a cultura judaico-cristã, bem como quase todas as outras sociedades, apagou o papel da mulher, revertendo-a ao papel de mãe e mulher, apesar de tal processo ter começado bem antes quando o homem era caçador e a mulher governava a casa e cuidava dos filhos. Esta divisão foi natural devido às diferenças físicas entre homem e mulher e deu à mulher o importantíssimo papel de educar os futuros homens e mulheres, bem como de governar. Desta forma a mulher tinha, já desde tempos muito remotos, as armas para triunfar sobre os homens porque os educava bem como governava a sua casa e os seus haveres enquanto estes buscavam comida.


Não sou antropólogo e, por isso, não sei porque falhou a mulher nos inícios da História. Talvez a dependência da comida, do trabalho de equipa dos homens para construir casas ou caçar, aliados à sua inferior força física, levou o homem a dominar a mulher.

Com o desenvolvimento das civilizações, este domínio foi crescendo levando a extremos como a irradicação da mulher da vida activa das sociedades. As religiões ajudaram, apesar de, por não poderem extinguir o papel da mulher da vida, criaram figuras mulher e mãe quase tão divinas como os próprios Deuses, como a Virgem, a eterna e consoladora mãe que embala, acolhe e refugia, intercedendo pelas almas junto do Justo Juiz.

Com os seus direitos negados, a mulher começou a lutar, primeiro para trabalhar, depois para votar, mais tarde para dirigir e finalmente para ter justa e igual recompensa. Esta luta brutal e que se arrasta através dos séculos, deixou-nos exemplos de bravura e inteligência da mulher.

A mulher de sucesso tornou-se um marco e exemplo para todas as outras mulheres, e porque para se distinguirem numa sociedade que ainda as discrimina, só as mulheres acima da média triunfam (que me desculpem as outras).


No entanto, esta luta de poder, igual à dos homens ou de qualquer outro animal que habita nesta terra, criou perversões tais como acabar, num grupo significativo de mulheres, com as características de bondade e sensibilidade (maternidade) que até então definia mulher.

Pior ainda, demonstrou ao mundo que as mulheres conseguem ser tão más como os homens e atacam-se umas às outras para obter os seus objectivos. Afinal, a luta por esta igualdade mostrou-nos uma mulher com os mesmos defeitos dos homens mas exponenciados porque, como referi acima, para se distinguirem num mundo de homens, têm que ser melhores no que fazem, mesmo que seja fazer guerra.

E isto é claramente demonstrado pelas mulheres que me rodeiam, que, amores à parte, têm na sua lista de pessoas que as magoaram ou trairam, mulheres. Porque isto nada mais é do que a luta da sobrevivência das espécies e dos genes.

Assim sendo, não acredito que a mulher seja melhor do que o homem (ou vice-versa). Mas acredito honestamente que a repressão leva a grupos fortes onde as pessoas para vencer, têm que superar o grupo governante.

Assim, na minha opinião, no dia em que a mulher esteja em pé de igualdade com o homem, esta poderá finalmente relaxar, e apesar de se tornar naquilo que sempre abominou, porque como não tem que lutar se tornará tão relaxada e preguiçosa como um homem, poderá recuperar a honestidade, a bondade e sensibilidade.

Ou como disse num comentário aqui, no dia em que as mulheres tenham os mesmos direitos que os homens e não sejam reprimidas em relação a eles, deixarão de ser melhores do que eles porque não têm nada a provar. Deixar-se-ão cair na mesma preguiça, incompetência e estupidez. Outros grupos se seguirão, pois lutam pela igualdade (tais como gays e lésbicas, minorias étnicas...) mas estarão condenados ao mesmo, até que mais não restará do que um grupo de gente muito homogénea na sua incompetência e estupidez.

Mas, acima de tudo, um grupo de gente mais feliz porque o sobreviver dará lugar ao viver, e de novo, se poderá deixar sentir.