quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Quase um ano!... e planos pelo cano!

Ontem a Cara-Metade-Mais-Que-Tudo notificou-me que tem que ir para as Canárias por tempo indeterminado, até encontrar um novo director para um resort, já que a directora actual se demitiu.
Quem não ficou muito contente com a ideia foi o Melões porque:
- as Canárias estão a mais de quatro horas de vôo de Londres;
- não há vôos diários;
- são umas ilhas que até podem ter sido bonitas, mas hoje estão sobre-exploradas;
- não é um destino onde o Melões possa ir em negócios;
- não é um destino onde o Melões possa ir por um fim de semana.

Enfim, quando pensava que as coisas se começavam a encaixar, mais uma contrariedade, e o que se estava a começar a planear fica adiado por mais uns meses, até a que se encontre um director para o resort das Canárias!

A Cara-Metade-Mais-Que-Tudo não gostou muito da reacção do Melões porque cá o Melões não tem sangue de barata e disse talvez o que não devia. Mas ver planos a ir pelo cano, adiar ainda mais o que se quer resolver, deixa-me a rosnar baixinho e a morder quem quer que se aproxime.

A Cara-Metade-Mais-Que-Tudo lá telefonou hoje umas dez vezes para ver se já não mordo tanto e para assegurar que será no máximo seis meses, mas pode ser duas ou três semanas. Mas claro está, o Melões ouve seis meses e sai mais uma ferradela telefónica!

Agora, condenado a ir passar o fim de ano às Canárias, no meio de nórdicos e britânicos pé de chinelo!

Felizmente hoje chegam os papás e Sábado é o aniversário do pai Melão (e do primeiro post deste blog).

Foi um ano curioso em que o blog ganhou vida própria e se tornou num dos grandes companheiros do Melões.

Como os papás estarão por cá, não penso escrever nada nesse dia, de qualquer forma aqui fica o apontamento de que não me esqueci de quando escrevi o meu primeiro post que transcrevo aqui porque após um ano continua a ter o mesmo significado:

"Nao é que goste muito destes sentimentalismos, ou mesmo de viver o passado e recordar memórias.
Mas hoje o Melões não pode esquecer 2 acontecimentos que marcam a sua vida.
- o aniversário do pai;
- o dia internacional da luta contra a sida.

Se o primeiro me deixa feliz, mais feliz me deixa o segundo, porque, a cada dia que passa, acredito que estamos cada vez mais próximos do fim...
Houve alturas em que sofria neste dia... eram demasiadas notícias negras, fatalistas, números trágicos e fotos sensacionalistas em todos os jornais da terrinha...
Talvez continuem as notícias sobre a peste, o fim do mundo, a calamidade, mas vejo as coisas de outra forma e não é concerteza por pena que me vou deixar abalar.

Acho que sou forte para levar tareias e não são noticias deste género que me vão deitar abaixo, nunca... sobrevivi a notícias piores, talvez mais pessoais e sinceramente a minha mensagem neste dia é desejar muitas felicidades para:
- o meu pai - porque é o seu aniversário;
- todos aqueles que convivem com o HIV - porque é possivel "seguir adelante" e de certeza que é muito mais dificil viver com uma Cara Metade chata a moer o juizo todos os dias.

E a música vai soando, instrumentos entrando e saindo de cena até à apoteose final"

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O Báltico

Se pudesse multiplicava o tempo. Fazia os dias com quarenta e oito horas.
Estive uns dias fora, a voar de Londres para Vilnius, de Vilnius para Tallinn, de Tallinn para Riga, de Riga para Tallinn, de Tallinn para Riga (não é repetição, foi mesmo assim) e de Riga para Londres.

Tentar acomodar passeios pelas capitais do Báltico entre reuniões.
Descobrir que o Grande Palace Hotel em Riga não tinha água.
Quase perder o nariz nas temperaturas que lutavam para chegar a zero.
Lidar com gente que não fala nenhum dos idiomas que sei falar.
Recusar serviços de "acompanhamento” oferecidos na rua – e em relação a estes conto uma história.
- Um sujeito em Riga vê-me chegar ao hotel e pergunta-me de onde sou. Português, respondo. Ao que o sujeito me atira a seguinte frase tal como a transcrevo: “- Quer uma mulher boa para f*der esta noite?”
Lidar com dias curtos e quase sem luz.
Deliciar-me com a boa cozinha do Báltico, os doces e os queijos!
Maravilhar-me com a arquitectura destes países, com as cidades medievais totalmente reconstruídas e cheias de vida, que me trazem a amarga recordação de como o nosso país falhou ao limpar e fazer renascer o centro do meu amado Porto quando recebeu os fundos de coesão da União Europeia.
Ouvir nas rádios dos táxis músicas esquecidas e levadas pelo tempo como o “Tema de Lara” do “Dr Jivago” ou o tema de “Song of Love”.

Mas muito ficou por fazer:
- ir a S. Petersburgo e Helsínquia;
- ver um concerto no fabuloso teatro de Riga;
- jantar no Fellini em Riga;
- subir á Torre do Old City Hall em Tallinn;
- visitar Jurmala;
- percorrer as recuperadas muralhas de Vilnius;...

E com tanta coisa, relatórios por fazer, trabalho de uma semana acumulado, visita dos papás dentro de uns dias, publicar um research, o meu canto e os que aqui vêm não recebem a atenção que merecem.

Quanto ao Báltico, espero lá regressar um dia e ter tempo para o que ficou a fazer – e claro, no Verão.

Por agora resta-me aliviar a carga de trabalho para vos visitar e pôr os meus papéis em dia.

sábado, 17 de novembro de 2007

O Guerreiro declara Paz!


Sei que ainda estamos em Novembro e faltam precisamente quarenta e quatro dias para o fim do ano.

Sei como é arriscado fazer balanços de anos por terminar, mas esta noite, dei por mim a fazer o balanço do último ano e senti-me em Paz.

Em paz comigo e com o mundo.

Foi um ano cheio de emoções. Histórias bonitas e menos bonitas. Houve nascimentos e mortes, a grande boda e momentos difíceis.

Acima de tudo, não faltou trabalho, muito que ainda segue. Sim, continuo afogado em trabalho, e no fim deste ano, não sei se Canto de Cisne, aparece por todos os lados.

- No estaminé, condenado a desaparecer, o trabalho cresce, bem como as responsabilidades, um ano a viajar, a organizar conferências aqui e ali, a opinar.
- Na música, os convites, convites para compôr, para dirigir, para cantar…
- No hospital, os novos grupos de trabalho, os doentes em fase terminal, as crianças esquecidas.
- A Cara Metade Mais Que Tudo com novos projectos, aqui e ali que começam a tomar forma…
…e uma vida dividida entre Londres, Madrid e Porto.

Mas, acima de tudo, reconhecimento… reconhecimento não só traduzido em promoção, aumento e bonus, mas também em distinção.

Um reconhecimento público, no estaminé, pelo trabalho feito, pelo apoio dado aos mais novos, pelo trabalho social.
E esta gente, normalmente tão parca em palavras, excedeu-se nos comentários que me puseram aquele brilho nos olhos.
Pareciam as palavras de uma mãe que não vê os defeitos dos filhos. Senti-me querido por todos, e nunca, mas nunca, fiz o meu trabalho para isto. Mas porque gosto de fazer bem, e porque creio profundamente que se não ajudar os outros a melhorar no seu trabalho, não me ajudo a mim.

Pode realmente ser o Canto do Cisne, porque não sei o que o futuro me guarda, mas este ano, depois de passar uma noite sem dormir a reflectir na vida, foi o ano em que olhei para trás e disse:


“Guerreiro, esta Guerra já não é a tua. Venceste finalmente a tua guerra pessoal, e os medos, ansiedades do passado já não estão!
Guerreiro, começaste esta luta como um perdedor, mas finalmente venceste!”

E a pergunta – porquê eu o afortunado? – que me fui pondo durante estes anos, deixou de fazer sentido - Qual o meu papel? – e não há resposta.
A resposta foi olhar à volta e vêr que o mundo que me rodeia é belo, e sou feliz, tenho amigos, tenho amor e tenho a consciência tranquila do dever cumprido. E acima de tudo, apesar de nunca esquecido, tenho o meu “Longo Inverno” passado.

Sim, é Primavera!

E a quem quer que me tenha dado uma segunda oportunidade, aos que caminharam comigo lado a lado até aqui, aos que me fizeram acordar, aos que lutaram comigo, muito obrigado.

Quanto ao Guerreiro, continuará a sua luta, já não com os fantasmas do passado, não consigo, mas lutará por aqueles que precisam porque um dia precisou, e não há nada pior do que ingratidão.

Mas hoje o Guerreiro está em paz!

terça-feira, 13 de novembro de 2007

A Cara Metade Mais Que Tudo

Um bar de um hotel em Madrid. Escuro lá fora. Dentro o glamour e gente bonita.

Era o fim de uma vida em Madrid. Sabia-o porque nesse dia tinha assinado um contrato de trabalho em Paris para onde iria no novo ano que já espreitava.

Os olhares tímidos já se tinham cruzado aqui e além, mas sem grande importância. Só uma curiosidade de quem, há muito, se proibira sentir.

Primeiro vem a irmã. Ignoro a conversa porque não quero dar-me a oportunidade.

Mais umas voltas, mais uns olhares.

Regressa a irmã e pergunta se depois do cocktail não quero ir dar uma volta. Estou com gente – digo eu – devemos ir ali.

E quando chego, lá estão.

Ainda me lembro da camisola vermelha, do sorriso e da conversa longa até as seis da manhã, já numa discoteca de Madrid. E Paris dali a mês e meio.

Não acreditava em nada daquilo. Quando saímos, dissemos – Até amanhã.

No dia seguinte só pensava nessa noite, no café. Não sabia se ia estar ou não. Nunca se sabe. Queria muito que não mas desejava que sim. Havia algo que começava a mudar lentamente. Uma curiosidade cada vez maior.

E naquele café de Madrid tocámos as mãos pela primeira vez. A conversa fluiu até fechar o café. Continuou do lado de fora. Mais tarde veio o silêncio. Ficámos ali a olhar um para o outro numa praça deserta de Madrid. Digo outra vez – Até amanhã.

E, de repente, de um olhar num bar de hotel, de um café em Madrid, e apesar de Paris ali ao lado, passo a passo, se foi construindo o que, então, não procurava.

Mas o calendário marca hoje três anos sobre esse primeiro olhar, e ao lembrar-me desses primeiros dias, fico, na cara, com “la sonreísa tonta de los enamorados”.

domingo, 11 de novembro de 2007

Crianças



Ontem fui conhecer um novo grupo de trabalho.

Primeiro lançaram-me um olhar a medo. Depois foram-se aproximando. Ao fim da tarde riam, puxavam-me a camisola e escondiam-se. Atiravam-se sem medo e faziam-me cócegas.

São crianças. E talvez porque sejam crianças, mantêm o olhar vivaço e o sorriso de quem acredita que tem uma vida pela frente.

Mesmo sabendo que não é assim, consegui esquecer-me do estado delas e passei uma tarde de brincadeira e alegria numa enfermaria pediátrica de infecto-contagiosas.

Estranhamente, saí de lá revigorado e não esgotado, como havia imaginado.

E estas crianças que levam tareia da vida ensinaram-me tanto… não se queixam, não se choram…

…mas se há duas coisas que não combinam são crianças e doença.
PS – se alguém conhecer textos ou livros sobre voluntariado ou como lidar com crianças doentes e em fase terminal, por favor deixe sugestão – ou na caixa de comentários ou na caixa de correio electrónico – Obrigado.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Saudade

Há dias em que sinto falta do meu canto e em que poderia passar horas a olhar para a velha aldeia metrópole, cidade ao abandono, quando o abandono são feridas, feridas que não queremos ver e por onde se esvai o sangue que a fez grande um dia.


sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Todos os Santos




Finalmente chega sexta-feira e com este dia chega um fim de semana de descanso. Não há atrasos nos vôos. Aterro em Londres meia-hora antes do previsto. A caminho de casa decido passar pelo hospital.

Não está, já não está desde ontem.

Ao perder o contacto com o mundo com duas semanas de trabalho, falhei em apoiar quem contava comigo.

Não estou triste porque morreu, porque me preparei para isso, porque o sabia, porque ele o queria. Mas estou revoltado e irritado. Revoltado com o mundo que o esqueceu e abandonou e irritado pelo cansaço que não ajuda.

Estou zangado comigo porque o deixei morrer sozinho, mesmo quando soube que perguntou por mim.
Ironicamente, morreu no dia em que o mundo Cristão celebra Todos os Santos, os proclamados e os outros – Irónico, sendo ele um dos que são proclamados pecadores.

Não sei se foi bom ou mau, se fez sofrer ou deu felicidade.
Sei simplesmente que falhei comigo e falhei com ele.



Sei que morreu por amar e por amar, morreu.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Outra vez o tempo

Enquanto os Portugueses em geral estão de papo para o ar, a gozar um feriado ou uma ponte bem merecida, eu aqui sigo na minha labuta diária.

Já não sei o que é descansar há duas semanas – sem fins de semana, sem horas de sono, este tempo tem sido complicado.

Liga-me a Cila para mandar vir e desabafar por causa da quantidade de trabalho e leva com o meu relambório, que quando o trabalho aperta parece que ando sob o efeito de speeds; mas isto de estar no estaminé das 7h às 2h tem muito que se lhe diga. Claro, primeiro umas olheiras até ao chão, e depois um humor, que o melhor é não falarem comigo, senão vai resposta torta.

Mas o pior de tudo é a falta de tempo, sem tempo para falar com a Cara Metade, despachar os Papás, não responder aos emails ou comentar posts, nem sequer mostrar o meu apreço pela nossa nova Sprofetora da Blogosfera.

Acima de tudo, não tenho ido ver o John que ontem perguntou por mim e que está mal. Vá lá, o médico disse que o John não chegava a Novembro, mas já cá estamos, e ele connosco.

Para terminar a semana em beleza, amanhã acordar outra vez com as galinhas, ir para o aeroporto, daí para Amesterdão, reunião, comboio para Bruxelas, reunião e regresso a Londres.

Tudo em nome so sacrossanto trabalho que me põe comida na mesa e me paga a renda, mas há já duas semanas que não me deixa estar com amigos, telefornar-lhes ou responder-lhes aos comentários e e-mails como bem merecem.

No meio disto tudo, além da nossa nova Doutora, que por si só é uma excelente notícia, recebi um convite para dirigir uns concertos em Portugal já em Dezembro. Vamos lá ver se consigo um tempinho, porque se tiver que continuar a passar os fins de semana a ter que ir ao rectângulo por razões de trabalho, mas o trabalho for a música, então, podem ter a certeza que o trabalho em excesso não me deixará de mau feitio ou a responder torto e morder quem quer que se aproxime.

Tenho que conseguir este tempo porque tenho saudades de fazer música a sério.