terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Um Natal Português

Está oficialmente declarada aberta a quadra natalícia.

É hora de guardar na caixinha das memórias, metida no centro do peito, as emoções de mais um ano.

É hora de deixar os medos de lado. É hora de esquecer a crise, a instabilidade no trabalho, de aceitar que o mundo não é perfeito, mas ainda assim, é belo.

A minha casa, não esta onde passo a maioria dos meus dias, a outra, a casa onde cresci, está à minha espera, a pouco mais de um dia de distância.

É hora de abrir o sorriso para aqueles que o merecem, de encher o mundo de música e de esperança.

Esperam-me a família, os amigos, o calor de um lar nos dias frios de Inverno.

Ouvir concertos com músicas de Natal, recordar concertos idos sem tristeza, ver que no meu país (e onde quer que seja) o Natal é belo.

Por isso deixo-vos aqui quatro andamentos de uma peça que me é muito querida. Chama-se “Um Natal Português”.

Cruza melodias do nosso cancioneiro popular com a erudição de quem tem amor à música sem nostalgias nem constrangimentos. E sexta-feira lá estarei eu sentado na primeira fila para ouvir ao vivo, não os quatro andamentos mas todos... porque em Portugal também se escreve e faz boa música.

Vou deixar mimar-me pelas letras deliciosas, pela linguagem ora crua ora subtil, mas sempre festiva e maravilhada, pelo calor das vozes, pela efusão da orquestra e pelas recordações de um Natal que foi mas que ainda é.

Gosto do Natal, faz-me sentir bem, com alegria e esperança. Porque como dizem os compositores desta obra “o menino é a eterna promessa do novo, da utopia: enquanto um menino nascer, há lugar para toda a esperança.”




Natal Portugues

sábado, 13 de dezembro de 2008

Porque ainda se morre de amor

Hoje fico em casa. Deveria sair, meter-me na confusão da grande metrópole sob a copiosa chuva, o vento desagradável, o frio, fazer as compras de Natal, enfrentar os grandes armazéns cheios de gente, mas fico em casa.

Hoje estou como o tempo, cinzento, chuvoso, porque não sei lidar com o que não consigo entender.

Ontem vi morrer uma criança. Nunca tinha visto morrer ninguém mas não esperava ver morrer uma criança.

Chamou pela mãe que não estava. Depois chamou por mim que não estava. Mas eu, ao contrário da mãe, estava na mesma cidade e não noutro continente.

Já falara antes aqui do meu menino. O único que não estava terminalmente doente e que ficara sem mãe devido à burocracia estúpida e à lei cega e insensível que pensa defender a civilização ocidental mas a despe da boa moral, da alegria e do amor.

Não foi a doença que matou o meu menino, foram as leis. Desde que a mãe teve de tomar a decisão, fazer a impossível escolha, pior do que a de Sofia e bem mais real, que o menino deixou de comer e quando o fazia, rejeitava, e nesta rejeição não só dizia que não à comida mas também ao tratamento. Com os meses o brilho dos olhos definhava, o olhar tornava-se perdido e ver este olhar numa criança, dói.

Quando me via, sorria e abraçava-me. Pedia-me para não desaparecer como a mãe havia feito.
Ontem quando me ligaram, saí do escritório e fui ao hospital.

Desta vez não me pediram que me desinfectasse ou vestisse a bata azul ou que cobrisse os sapatos. Disseram-me: “Entra, só chama pela mãe e por ti. Achamos que não passa desta noite.”

Sorri-lhe como pude. Sorriu-me e pediu-me um beijo. Estive ali três horas a olhar para o meu menino, o meu preferido, a sorrir-lhe e a passar-lhe a mão pelo cabelo encarapinhado. No silêncio cortado pelo “bip” das máquinas.

Adormeceu mas eu fiquei ali a olhar para ele de coração partido e alma desfeita. Estremeceu, abriu os olhos, olhou para mim e sorriu. Aqueles olhos enormes naquele rosto tão magro.

E num minuto o "bip" tornou-se infinito, entraram as enfermeiras, o médico enquanto eu assistia a tudo como se fosse um filme em câmara lenta e só via aqueles olhos grandes fixados em mim.

A cidade calou-se à minha volta e a paz reinava. Fui até a casa e sentei-me às escuras no silêncio. Ignorei o telefone quando tocou, fugi dos compromissos que tinha, vira morrer uma pessoa, uma criança, o meu menino.

Já tarde, quando as pessoas que haviam saído já dormiam, saí, caminhei lentamente sob a chuva da madrugada que me lavava a alma e acalmava a revolta.

Entrei em casa ensopado, já o céu clareava. Dormi profundamente e quando acordei ainda chovia.

Ainda vejo aqueles olhos grandes e negros fixados em mim.

Para muitos, para as estatísticas, foi mais uma criança que morreu de sida.

Para mim foi uma criança que morreu por amor.





Requiem Lacrimosa - Mozart

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Ilusão


Sentado no avião, olho pela janela. Após centenas de vôos ainda gosto de olhar pela janela. Vejo a minha cidade tornar-se pequena, reconheço os espaços tão bem marcados pelas luzes da noite.

A cidade encolhe e ganha um véu que a torna misteriosa quando as nuvens se começam a cruzar. Os contornos perdem a definição e as luzes só se vêem aqui e ali. A cidade torna-se menos reconhecível e mais distante, como as memórias, até desaparecer.

Já só se vê a lua e as estrelas mas sob o manto negro ainda se esconde a cidade cheia de memórias, de histórias e de amores.

Pergunto-me o que faz cada um daqueles que desenham a minha história. Sinto-os longe como distantes estão as estrelas que me seguem. E é aí que o coração salta, se contorce e se ata num nó profundo de saudade.

É duro voltar a casa, ver mais rugas nas pessoas que amamos, ver as crianças crescidas, ouvir os relatos de vida que não presenciamos e sentir uma inveja, saudável mas ainda assim inveja, por perdermos parte de uma vida que um dia foi nossa.

O coração aperta-se tanto que se esvazia e ainda assim parece querer ocupar todo o peito e expandir-se para lá do tórax, enquanto as costelas o seguram com dificuldade no lugar.

Pergunto-me qual o sentido de estar num lugar, noutro e não pertencer a lugar algum. Entendo o que me levou a partir, o que me transformou num lobo das estepes mas não consigo entender o que me leva a ficar.

Deixo-me enganar, lucidamente deixo-me enganar, rumo ao nada, como o céu negro que o avião teima em atravessar. Sei que o engano se transformará em ansiedade que dará lugar à amargura. Que a busca da redenção é quixotesca com a desvantagem de não conhecer os moinhos de vento que devo combater.

Tenho medo de não voltar a ver certas pessoas. Sinto pela velha senhora que passou horas comigo, mãos nas mãos a confidenciar, a senhora que sempre foi dura e aparentemente fria, a segurar-me as mãos, olhando-me nos olhos com os olhos húmidos desgastados pela idade. Apetece-me dizer que ainda nos veremos muitas vezes e por muitos anos, mas não consigo. Se o tempo é implacável comigo, como não o será com quem conta mais sessenta anos do que eu?

Outras mudam, e apesar de ocuparem lugar no nosso coração, não são iguais. Os valores crescem em sentidos divergentes ao ponto de calarem as conversas.

E o meu mundo, assim como as estrelas do céu, é uma ilusão.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Carta

Pouco escrevo sobre ti. Não sei porquê, não é porque não sinto. Sinto e muito. Tenho por ti tamanhos respeito e admiração que se secam as palavras e ainda fico surpreendido a olhar para ti.

Contas-me o teu segredo? Vá, conta-me! Quando chegar à tua idade quero ser como tu. Quero saber viver cada momento e acreditar sempre.

O próximo dia um de Dezembro é o teu aniversário. Sessenta anos!... e ainda esse brilho no olhar que se vê nas crianças.

As imagens que guardo de ti são belas: ver-te chorar disfarçadamente quando vês as notícias diz-me que sentes, que és humano, que és bom; quando cada um de nós vê as notícias impávido e sereno, tu deixas-te chocar ainda com as imagens da fome em África ou com uma história com final feliz.

Nunca te ouvi dizer “não” a um pedido de ajuda. Gostas de dar, de ajudar.

Lembro-me de ver-te doente com febre na cama do hospital no dia em que a mãe foi operada. A preocupação transfigurara-te e quem entrava naquele quarto de hospital pensava que eras tu o paciente.

Recordo-me de ouvir as histórias de quando nasci. Assim pequenino, a mãe em coma, a minha irmã que te via chorar na igreja ao fundo da rua. Não lhe mudaste a roupa durante uma semana. Quando a mãe acordou, em vez de te sorrir, fez o reparo ao estado em que estava a vossa filha, a minha irmã.

Quando te ofereço roupa, mudas-te imediatamente e vais tomar café para mostrar a roupa nova. Ainda contas as prendas que recebes no Natal como as crianças pequenas.

Mas o que mais admiro em ti, pai, é seres essa criança grande sem ponta de maldade.

Já te vi zangado, nervoso, mas nunca rancoroso. Nunca te vi julgar fosse quem fosse, acreditas que todos temos um lado bom.

Nunca foste dado às convenções e nisso és o oposto da mãe. Para ti é um frete acompanhá-la aos jantares, às festas, participar nas conversas fúteis. Preferes o café com os amigos e, se as houver, as crianças.

Lembras-te da entrada no casamento da mana? Inchado de orgulho com os olhos pequeninos, nem quiseste ler, coisa que fazes tão bem. Sabias que seria demasiado. Depois, na festa, como sempre, deixaste os convivas e passaste grande parte da tarde a brincar com as crianças no jardim. E elas gostam de ti.

Só há uma coisa que te peço. Pensa um pouco em ti. Sei que para ti viver é viver para os outros, mas, e quem cuida de ti? Nunca te ouvi pedir ajuda, um favor, e tu mereces tanto... provavelmente é este o teu segredo, dar.

Sessenta anos, pai! Uma vida de entrega...
...quando durante mais de um ano fazias, diariamente, cem quilómetros para levar sangue ao avô que um dia esteve contra o teu casamento;
...quando cuidas diariamente do teu irmão doente para que não falte ao tratamento;
...quando cuidas todos os dias do teu pai e da tua tia;
... quando cuidas de todos os meus assuntos porque estou fora;
...quando vês que saio e te levantas para levar-me onde seja para que não apanhe um táxi.
Pensas que não reparo? Reparo e admiro, acima de tudo respeito e amo.

Pai!

Tenho tanta sorte, queria ser como tu, acreditar.

Tiveste a tua dose de coisas más, foste abusado por pessoas que se aproveitaram da tua bondade, pessoas houve que confundiram a graça da tua entrega com obrigação, não te queixas nunca, as dificuldades da vida não te amargaram nem sequer te tornaram mais frio.
Talvez por tudo isto, por não teres mal dentro de ti, sejas das poucas pessoas da tua idade que dorme a sono solto a noite inteira sem acordar. É a consciência do dever feito.

Quando penso em ti, neste preciso momento, quando recordo cada episódio, também os meus olhos se humedecem e sinto-o como um bocadinho de ti.

Pai, parabéns!

Obrigado, Pai!

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Silêncio

O silêncio não é ausência. Talvez a melhor música se faça ouvir nos silêncios com o tempo para respirar. Tempo para olhar à volta e tentar ver o mundo, belo e único.

Os tempos que correm são tempos de ruído e nós, facilmente, deixamo-nos envolver e tragar pelo descontentamento. Perdemos a noção de que não ouvimos o silêncio há muito tempo, e que, como bem pintou David Lynch no seu filme Mulholland Drive, tudo não passa de uma encenação exagerada.

Às vezes precisamos de pausas, como a ida ao Clube Silencio, para separar o trigo do joio e entender o que realmente somos e o que se passa. A vida ensinou-me que não devemos fazer planos. Ensinou-me que Deus, se existe, rir-se-á dos planos que fazemos. Mas ensinou-me a ouvir o sil^encio e nele discernir a verdade, a que interessa, e nessa calma tomar as decisões que se tornaram pontos charneira na minha vida.

Não vou dizer-vos o que me preocupa, não interessa e só o tempo pode resolver, também não interessa os probleminhas mundanos e há que saber fazer uma festa de um frigorífico que avaria com a arca cheia de comida. É que de repente o inconveniente torna-se num motivo para sorrir, numa festa não planeada e deixada ao acaso.

Há muitos anos só havia ruído, e sem silêncio não há música, já o disse. No meio de tanto ruído, fiz planos. Hoje, não sei se Deus se ri dos planos que fiz, eu rio-me. Na altura disse-me que não me deixaria levar por uma e para uma relação, e hoje faz quatro anos que um olhar trocado em silêncio cresceu e amadureceu. Hoje celebramos quatro anos em conjunto.

É a velha história da árvore que já usei no passado, aquela que diz que “uma árvore cai com um enorme estrondo enquanto milhares nascem em silêncio”. E quando não cai uma árvore, mas duas, ou três, ou quatro,... quando somos inundados por más notícias nos meios de comunicação, no trabalho, na rua, nas conversas com amigos, ensurdecemos e em vez de ouvir o silêncio, transformamo-nos no silêncio eterno e não na música que se pode tocar ou ouvir.

Assusto-me às vezes com o ruído mas felizmente passo-lhe a perna. Concentro-me nas coisas boas, nos quatro anos que celebramos hoje, no sonho futuro que corre bem, num mundo um bocadinho menos ganancioso e certamente menos racista.

Além dos quatro anos que celebro, descubro no meio de toda a confusão notícias de esperança. Esperança para as minhas crianças e para milhares de pessoas pelo mundo fora. E os meus dias bons, os quatro anos não planeados, um sonho que caminha, tornam-se em esperança. Porque no silêncio ainda consigo descobrir notícias como esta.

Afinal há sempre gente boa, há sempre coisas boas, um trabalho não é tão importante como uma relação, um salário não vale uma entrega, uma crise não vale uma cura, o ruído, aquele onde tudo é falso, onde tudo é fabricado não vale o silêncio do amor.

O que vale a pena é ouvir o silêncio e descobrir a nossa verdade.


terça-feira, 21 de outubro de 2008

Dias bons

Já sei, já sei! Tenho andado ausente. Não há motivos especiais, há mesmo uma enorme preguiça.
Mas o que interessa, o que interessa mesmo, é que hoje recebi uma notícia que me deixou muito feliz. Já desconfiava, tive hoje a confirmação... e assim, assim de repente com uma chamada telefónica de alguém a uns milhares de quilómetros de distância, o mundo deixou de ser cinzento, a crise perdeu toda a importância, o futuro tornou-se mais promissor.

Conheci um verdadeiro momento de alegria, entusiasmo e energia. Fiquei feliz por ver um sonho realizado, um sonho que mais do que meu, era o sonho de quem me ligou.

Estranhamento, as notícias também me trouxeram medo e ansiedade, mas a esperança de que o sonho se concretize torna-se mais forte e mais perto.

Aqui estou a seguir lado a lado o desenrolar dos acontecimentos, feliz por mim, feliz por ti e acima de tudo com uma forte esperança no futuro. Esperando que tudo ocorra como desejado.



Chorus: Jauchzet, frohlocket - Boston Bach Ensemble

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O que vale a pena



Lido muito mal com os problemas da vida real. Não sei ser bom conselheiro, não sei confortar com palavras. Talvez isto seja tudo fruto da minha forma de lidar com os meus problemas. Calo-os. Enterro-os bem fundo em sítios da minha alma onde vou no silêncio da noite, só, tentar desatar os nós.

Não sou pessimista. Não sou, no entanto, optimista.

Ultimamente, quando olho à minha volta, vejo um mundo envolto numa bruma, vejo um céu plúmbeo com imensa carga eléctica pronta a disparar e a cair ao acaso.

À partida não há razões para sorrir, à partida. Não acredito que o passado não volta mais como diz a canção, mas não peço ao tempo para que volte para trás. Afinal, je ne regrette rien, como cantava Piaf.

Neste momento tenho amigos com problemas. Amigos que sofrem. Amigos que vêem amigos sofrer e partir, amigos que vêem dois adultos usar uma criança como moeda de troca, amigos com problemas financeiros, amigos em vias de perder o emprego, amigos em vias de perder a vida.

Quero ser capaz de vos dizer alguma coisa. Sinto que há sempre tanto por dizer...

A alma está cheia e pressiona o corpo que a tenta limitar. Como escape, abro o meu caderno de capa preta, com muitas linhas escritas e outras em branco, escritas na memória e que nunca tomaram forma no papel. O caderno preto impregna-se de mim. Guarda memórias e sentimentos. Guarda silêncios nas páginas deixadas em branco. Por tudo o que guarda, é parte de mim. Amigo de confidências, de sentimentos, de alegrias e de tristezas, de anseios e esperanças.

É mais fácil falar com um caderno que é só meu do que com uma pessoa. Ouve silenciosamente e está ali para mim a qualquer hora do dia e da noite e sem horários para cumprir.

Sempre fui reservado. Raras vezes exprimo sentimentos, os profundos, os que importam. Aqueles que nos tiram o sono ou que nos deixam sonhar. Os que são a essência de mim. Nunca fui bom com palavras, já o disse, penso muito antes de dizer algo e sinto que as palavras encerram e limitam os sentimentos que quero deixar fluir.

Quando um amigo precisa de mim, tento estar lá mas não sei reconfortar. As conversas sérias sobre emoções e sentimentos assustam-me. Sinto-me devassado na essência que é só minha. Mas estou lá, estou lá como o meu caderno preto está para mim. Ouço, guardo.

Ao passear pela blogosfera sinto que a crise chegou a um ponto sério. Talvez seja a altura de ouvir o silêncio. Felizmente (ou infelizmente), o mundo contagiou-me com a gripe severa que o afecta, por isso estou em casa, o que me deixa ouvir o silêncio. (Pena a solução de injectar dinheiro não funcione com a minha gripe e tenha de ficar-me por analgésicos e antipiréticos).

Ontem, quando me preparava para parodiar a crise com a Ivone Silva, chegou-me um mail da Cara Metade Mais Que Tudo com a música que afinal foi o meu post. A crise passou a segundo plano, a possível nacionalização do estaminé, a instabilidade do emprego, tudo perdeu interesse.

Continuaram a chegar más notícias dos mais diversos cantos, os problemas não se resolveram. Decidi não ler jornais, não ligar a televisão, decidi deixar-me no meu silêncio e pensar que por trás de tanta nuvem o Sol continua a brilhar, e por muitos raios que caiam, por chuvadas copiosas ou trombas de água que ocorram, por muita destruição que possa eventualmente acontecer, o Sol, lá detrás, continua a brilhar em silêncio mas disposto a aquecer todos.

E é por isto que as palavras não fazem sentido. Como podemos aconselhar e confortar quando a solução dos problemas que nos rodeiam não está nas nossas mãos? Valerá a pena perder o tempo com as palavras, ou ficar sentado em silêncio a olhar o negro do céu na ânsia de vislumbrar o raio de sol?

O meu chegou num email com uma música, e logo veio outro, porque amanhã, sim, amanhã estarei na cidade que me viu crescer e sábado haverá festa. Porque há gente que me pergunta se estou melhor, porque sinto o calor escondido detrás de tanto ruído.

Acima de tudo porque acredito. E acredito que acreditar, acreditar bem fundo e em silêncio, resolve muitos problemas, ou torna-os menos negros.

Por isso um dia já distante me disse: “Tudo é possível ainda que te digam que não” e foi possível.

Agora, se me permitem, continuarei em busca dos raios de sol.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Boig Per Tu


A la terra humida escric
nena estic boig per tu,
em passo els dies
esperant la nit.

Com et puc estimar
si de mi estàs tan lluny;
servil i acabat
boig per tu.

Sé molt bé que des d'aquest bar
jo no puc arribar on ets tu,
però dins la meva copa veig
reflexada la teva llum,
me la beuré;
servil i acabat,
boig per tu.

Quan no hi siguis al matí,
les llàgrimes es perdran
entre la pluja
que caurà avui.

Em quedaré atrapat
ebri d'aquesta llum
servil i acabat
boig per tu.

Sé molt bé que des d'aquest bar
jo no puc arribar on ets tu,
però dins la meva copa veig
reflexada la teva llum,
me la beuré;
servil i acabat
boig per tu.

boig per tu - sau

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

De regresso ao mundo real

...ou o mundo como os homens o fazem

Não costumo perder o meu tempo a falar das notícias dos jornais, dos acontecimentos que fazem História. Escreve-se muito e fala-se muito. Ouvem-se opiniões e não há muito a acrescentar. No entanto, quando abro os jornais, não consigo ignorar o mundo que me rodeia e decido-me a escrever humanidade com minúscula.

Durante as minhas férias recentes vi um mundo belo, quase perfeito, um mundo salvaguardado pela distância a qualquer centro de decisão ou grande metrópole.

Chegado a Londres, abro o jornal e dou graças por não ter filhos. Em consciência, não quero trazer ao mundo um ser inocente que terá de sobreviver na selvajaria dos tempos modernos.

O primeiro grande choque, tive-o em Lisboa. A velha e bela cidade está doente, muito doente. Passear por Lisboa não foi prazenteiro apesar do Sol e das temperaturas quentes para a altura do ano. No meio da famosa luz de Lisboa sobressaíam edifícios abandonados, degradados, ruas sujas. Não sei quantas vezes, em plena baixa numa tarde de domingo, fui abordado por gente que pedia, que vendia relógios sabe-se lá trazidos de onde, que vendia drogas, tudo isto sob o nariz dos inúmeros polícias que preferem passear-se numas máquinas ridículas e que quando são abordados (queixei-me do assédio na Rua Augusta e na Praça do Comércio) dizem que dá muito trabalho e seguem a passear-se nas ridículas maquinetas.

Pior é quando ao lado desta gente vejo a outra gente, gente que pretende ser o que não é, os chicos-espertos armados em gente fina, de carteiras falsas e um cosmopolitismo de trazer por casa.

Entristeceu-me esta cena da capital do meu país. Preferia a Lisboa dos pregões, da gente boa e genuina, a esta Lisboa vendida à imagem, povoada por pobres, os que pedem na rua, os que assediam e os outros, os pobres de espírito que pensam que a imagem de modernidade e liberalismo os fazem superiores aos demais.

Dói, sentado numa esplanada em pleno Rossio, ouvir os turistas comentar a imagem terceiro-mundista da cidade, velha, decrépita, em que os supostos ricos se exibem num novo-riquismo de trazer por casa (como as casas dos emigrantes lá da aldeia) e os pobres se multiplicam e incomodam sob o olhar ausente das autoridades.

Chegado a Londres as coisas não melhoram, não que a cidade tenha o comportamento provinciano da capital do meu país, longe disso. Em Londres são as notícias. A famosa crise criada pelos homens, pela ganância e pela imagem.

Hoje faz-se História. Os mercados financeiros colapsam por culpa de muitos. A culpa não é só daqueles que mandam. A culpa é também daqueles que se queixam que não querem pagar a factura.

Quando nos Estados Unidos o comum dos mortais diz que os seus impostos não devem tapar o buraco criado no mercado hipotecário, engana-se. O mundo capitalista tem vivido muito além das suas possibilidades, o comum dos mortais gastou o que não tinha, tudo por imagem, e o resultado é que a mão invisível que deveria equilibrar os mercados, tornou-se numa mão visível e muitas vezes calçada com uma luva branca.

Não fosse a ganância dos homens tão grande, não fosse a imagem tão importante, hoje não se escreveriam páginas negras da História universal.

Mas a crise vai bastante além da económica, vai até uma crise de valores e acima de tudo de julgamentos.

Quando vejo uma oração no senado Americano a ser feita para iluminar os senadores antes da votação, pergunto-me porque tem Deus que entrar na resolução dos problemas criados pelos homens. Quando a ganância levou à situação em que nos encontramos onde estava essa invocação a Deus, ou será Deus o antibiótico para as infecções causadas pela bactéria que é a humanidade, num mundo transformado pelos homens?

E onde está a razão dos homens quando perdem tempo a boicotar o filme “Blindness” baseado no fabuloso romance de Saramago “Ensaio sobre a Cegueira” porque dá uma imagem errada dos cegos?

Mais do que nunca, vejo esta parábola dos tempos modernos tomar forma e desenrolar-se diante dos meus olhos perplexos, como é com a mesma perplexidade que vejo o supremo tribunal de justiça do meu país a proibir um seropositivo de ser cozinheiro, quando todos sabemos (ou devíamos saber) como é difícil esta doença ser transmitida, como é improvável que o seja na cozinha de um restaurante.

Como diz a decisão, o vírus está nas secreções, sim, está, está no sangue e nas secreções sexuais que duvido interajam com os alimentos manipulados. Sei também que um eventual corte do dito cozinheiro exporá o vírus ao ar, quando este não é resistente ao oxigénio. Finalmente, se o vírus se encontrar noutras secreções como suor e lágrimas, a doença já estará tão avançada que o sujeito em causa estaria numa cama de um hospital. E tudo isto envergonha-me.

Tudo isto não passa de discriminação e isolamento, de imagem de país seguro, e mais uma vez me recordo do início do já referido romance de Saramago.

Da parte que me toca, prefiro um cozinheiro seropositivo a um com uma gripe ou com uma amigdalite. Mas este sou eu que não percebo nada de leis, sou eu que ainda hoje estive com os meus meninos a dar-lhes de comer, a limpar-lhes o suor das febres e a depositar beijos carinhosos nas testas transpiradas. E depois de retirar a maiúscula à humanidade, depois de decidir que não gostaria de trazer filhos a este mundo de vaidades, olho para as minhas mãos, olho para os meus meninos, fecho os olhos para me ver por dentro e desejo, desejo nunca me deixar vender a estes novos valores que são “desvalores”, desejo que a parte da Humanidade que não perdeu a maiúscula cresça, desejo que esta crise seja uma lição, que acabe com algumas perversões e que a alma volte a ser mais importante do que o corpo, desejo que a imagem dê lugar ao amor, desejo que o tal mundo descrito por Saramago dê lugar ao mundo original para que o “h” cresça, cresça tanto para que este mundo seja outra vez amigo e digno das crianças.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

De regresso...


Quando saí daqui tinha grandes expectativas. Quando disse que ia passar duas semanas no meio do Atlântico, algumas vozes levantaram-se e disseram que era demasiado tempo.

Acabado o tempo afirmo convictamente que duas semanas não são suficientes. Passados dois dias, tinha-me esquecido do trabalho, dos dias longos e cinzentos da grande metrópole. Estava mergulhado num mundo verde e azul.

Não consigo dizer do que mais gostei, não consigo apontar o que não gostei porque gostei e muito.

Achei piada aos guias que comprei nos postos de turismo. O de São Miguel mandou-nos descer ao salto do cavalo e quase não conseguimos tirar de lá o carro. O do Faial, fez-nos parar em frente a duas igrejas (Ribeirinha e Flamengos) das quais só restam ruínas de um sismo que ocorreu há dez anos e meteu-nos num caminho de terra até ao farol da Ribeirinha também destruído mas nem por isso menos bonito.

(farol da ponta da Ribeirinha)


Em São Miguel são as lagoas, o verde, o Nordeste, as nascentes de águas férreas ou sulforosas, quentes ou frias, as furnas, descer à lagoa do Congro foi uma aventura. São as igrejas cobertas de mil luzes, as procissões.

(Lagoa do Fogo)


Na Terceira, descer ao Algar do Carvão, bater à porta de uma escola em Angra para visitar um tesouro da arquitectura religiosa, a igreja de São Gonçalo, subir ao Monte Brasil para admirar a belíssima cidade, os coloridos impérios.

(Angra do Heroísmo vista do Monte Brasil)


O Pico, sempre diferente, diferentes cores dependendo da hora do dia, cobrindo-se e destapando-se, e sempre magnífico. São as vinhas e os campos de lava.

(Piquinho)


A costa norte de São Jorge é única. Esta ilha, realmente, surpreendeu-me pelas abruptas encostas verdes e as belíssimas fajãs. O ilhéu do topo, a Silveira ou o topo dos Rosais.

(Fajã dos Cubres)


No Faial, subir à impressionante caldeira, ir aos capelinhos onde o farol ao qual se juntam o já mencionado farol da ribeirinha ou a igreja, ou as muitas casas em ruínas, prova que a natureza tem tanto de belo como efémero. Ir ao Monte da Guia ao fim da tarde para espraiar os olhos sobre Porto Pim ou subir até à Espalamaca para admirar a Horta. Ao fim do dia, passear pelo colorido do porto e da marina, destino de iates de todo o mundo e registo a céu aberto dos que por lá passaram, entrar no Peter e recolher um postal,...

(o farol dos capelinhos)


Na Terra o verde, as flores endémicas ou não, os relevos, as pedras negras, e as vacas, vacas negras, castanhas, malhadas, vacas e mais vacas...

(Hortênsias – introduzidas nos Açores há mais de três séculos, endémicas da China e do Japão)


E no mar, no mar, aproveitar o azul, as suaves temperaturas, atravessar o canal uma duas e três vezes, ver como os roazes, os golfinhos comuns e os de pinta se divertem com os barcos, ver um peixe voador sair da água e mergulhar bastantes metros à frente, e ver um cachalote, olhar para ele, vê-lo ali, até que se decide a mergulhar e vê-se aquele rabo enorme sair da água, curvar-se para num golpe de elegância desaparecer em direcção ao fundo do mar onde ficará mais de meia hora.


(Azul e verde – Horta e Monte da Guia do miradouro da Espalamaca)

Preciso de dizer se esta pausa foi de encontro às minhas expectativas?

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Fui!

Agora que já quase toda a gente regressou das férias, chega a minha hora de partir.
Não levo o laptop comigo e não tenho postagens automáticas.
Vou recolher a informação necessária para responder a um desafio.
Irei buscar correspondência que me espera a umas quantas milhas de distância.
Celebrarei trinta e dois anos na terra que tem o meu nome.
Espero absorver beleza e natureza e sobretudo descansar.
E sempre em muito boa companhia.
Regressarei lá para o fim do mês.
Agora, se me permitem, tenho o avião à espera.
Fui!

sábado, 30 de agosto de 2008

Tarde de Verão em Londres

...e assim se passa uma agradável tarde de Verão em Londres, ao longo de um dos meus caminhos preferidos e terminando no Regent’s park.
As fotografias, bem, são as possíveis.


sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Os talentos


Os meus textos preferidos da Bíblia, só superados pelo "Cântico dos Cânticos" e algumas cartas de São Paulo, são as parábolas.

Tive uma educação profundamente católica e uma relação muito próxima com a Igreja. Todos os Domingos, às dez da manhã tinha a missa das crianças e a missa era uma festa. A música era feita por nós e o coro formado pelos nossos pais. Uma missa em que as nossas flautas interpretavam pequenas peças de Bach ou Corelli e em que os cânticos eram acompanhados por uma orquestra Orff, toda a família das flautas de bisel, da soprano à baixo, a família dos xilofones, o metalofone, os jogos de sinos e um conjunto bastante completo de percussão.

As homilias eram conversas. O padre descia do altar e falava com as crianças. As crianças interpretavam a Bíblia de forma inocente o que resultava, de quando em vez, numa rotunda gargalhada de toda a assembleia. As homilias (ou conversas) mais interessantes seriam sobre as parábolas talvez porque estes textos tenham sentido absoluto nos tempos que correm.

Sempre gostei de imagens, metáforas, pequenos contos. Não consigo escrever uma história que não diga mais do que aquilo que as palavras desenham, talvez por isso a etiqueta dos meus contos do meu outro lado seja “vidas reais”. Ainda hoje gosto de falar por meias palavras porque a realidade não se encontra numa caixa hermeticamente fechada e expande-se, não se sabe para onde, como este Universo que habitamos.

Uma dessas parábolas é a dos talentos em que um senhor dá talentes aos seus criados segundo as suas capacidades enquanto sai de viagem. Dois fazem render os seus talentos mas o outro que só recebeu um, enterra-o.

Foi nessa mesma igreja onde escutava as parábolas que um dia me propuseram estudar música mais a sério. Tinha de aproveitar e fazer render os meus talentos e a vaga de órgãos de tubos novos na cidade do Porto, o restauro de mais uns quantos, pediam organistas formados. Assim, comecei a minha formação em música a nível superior. Estudei, entre várias coisas, órgão, piano, canto, composição e direcção de coro e orquestra. Concluí-o com louvor (porque a modéstia não é para aqui chamada) e excedi-me nas classes acima mencionadas.

Curso acabado, definitivamente no meu amado Porto, comecei a utilizar os meus talentos. Fundei um coro de câmara que ainda hoje vive, tocava regularmente nos grandes órgãos da cidade, dava as minhas aulas aos meus meninos pobres, entrei num programa da câmara municipal para dar aulas às crianças problemáticas nas piores escolas do concelho. Concertos, recitais, muito trabalho... até um dia. Até ao dia em que disse que não. Disse-o porque não me vendo e a cultura no Porto é dominada por um grupo sujo e perverso. Fui cobarde, não lutei, deixei.

Continuei com o meu coro, aulas aos meninos pobres da igreja e com o órgão, mas, mesmo na igreja, feita infelizmente por homens, hove invejas e calúnias, ataques pessoais quando eu só queria viver a minha vida que dava voltas e reviravoltas e se encontrava de pernas para o ar, a fazer o que mais gosto – música. Uma vez mais não me vendi mas não lutei. Fugi.

Seguiu-se Madrid onde, em dois meses, fazia o Requiem de Mozart transmitido em directo pela televisão espanhola a partir da Real Iglesia de Los Jerónimos. Dava técnica vocal ao coro, cotinuava a tocar órgão. Fui para Paris onde encontrei um velho amigo e professor que me realizou o sonho de tocar em Notre-Dame. Daí seguiu-se Londres e com Londres a morte da música.

Continuo a compôr, é verdade. Tenho uma gaveta cheia de escritos tontos. Canto com os amigos e para amigos. Os seus casamentos tem sido um fartote mas não me cansam. Gosto de cantar, entrego-me a cantar, dou-me e sou feliz.

Infelizmente deixei de tocar. Há três anos que não ponho os dedos num verdadeiro órgão de tubos.

Longe vão os tempos em que saía do polo do São João, atravessava o Porto até à Sé, com a enorme chave do templo perdida entre Bach e Messian, subia ao órgão e, sozinho, na escuridão da catedral, fazia aquela maravilha de instrumento ressoar no granito.

Hoje tenho medo, tenho medo de me sentar à frente de um órgão porque este talento, há tanto tempo enterrado, estará perdido... e tenho pena.



O Mensch, bewein dein Sunde gross BWV622 - Simon Preston

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Paixão

A minha paixão começou cedo. Diziam que era muito novo. Seria duro para mim. Fui desaconselhado mas depois de receber o convite, decidi dizer que sim.

Foi há mais de vinte anos. Um dos meus professores de música perguntou-me se queria ir. Vinha um coro, uma orquestra barroca e um grupo de solistas alemães. Era necessário alguém para entregar flores.

O evento era de primeira linha. O então presidente da República, Ramalho Eanes, estaria presente. Nós iríamos receber os VIPs vestidos com roupas da época. Eu era o mais novo.
A preparação foi uma risota. O fato de seda azul com rendas a branco e ouro, os collants e as cabeleiras brancos. De repente vivia num carnaval barroco e esse dia marcou o início da minha grande Paixão.

Porque é de Paixão que se trata. Paixão segundo São João (BWV 245), obra dura e longa, tensa e dramática, demasiado para uma criança com menos de dez anos, diziam-me.

Deram-nos um programa de luxo com a tradução e preparava-me para um concerto longo, demasiado longo para uma criança.

Entra a orquestra barroca e o coro. Estava fascinado com a luz, os sons, o ambiente do meu primeiro grande concerto. Sentia-me importante na minha fatiota de seda azul, metido nuns calções ridículos e estava nervoso como se fosse eu o principal solista.

Entram os solistas seguidos pelo maestro. Faz-se silêncio.

Começa a obra numa orgia de sons e dissonâncias, num ostinato de cordas em movimentos circulares, cantava-se a morte e ainda assim a música, o tema dos violinos, andava em círculos num hipnostismo que só pode querer dizer: Infinito.

Os movimentos circulares das cordas, o eternidade, a dissonância dos oboés, a dor e a perda. E no conjunto o mistério da vida explicado através de música.

O som cresce, as dissonâncias prolongam-se e resolvem-se em novas dissonâncias. Não o percebi na altura, gostei, senti-me cheio de não sei quê. Mas só com os anos percebi a grande abertura da Paixão. A melodia redonda e imparável e longos minutos de movimentos circulares, repetitivos mas nunca iguais, pintados pelos oboés. Mas a tensão cresce até ao grito desesperado do coro. A invocação: “Herr!” três vezes, o tríduo pascoal, a trindade.

Mas foi nesse dia, nesse primeiro dia em que ouvi o grande mestre, o meu amado e inultrapassável Johann Sebastian Bach que nasceu a minha verdadeira e grande paixão. Por música clássica, por música coral-sinfónica, por música sacra, pelo periodo barroco, por Bach.
E a Paixão, esta paixão de mais de duas horas, deixou uma semente cá dentro, semente que cresceu como e com a própria vida, a grande obra prima da música sacra tão bem pintada. A narração de uma das mais belas histórias de amor.

Estudei-a a fundo, cantei-a, ouvi as mais variadas interpretações, os grandes coros, as doces árias, toquei-a num órgão positivo no meu país e na Alemanha acompanhando o coro e a orquestra que em criança tinha ouvido trajando barroco.

E ainda assim, é uma obra que me traz paz, que me leva e me deixa cheio de sentimentos bons.
Um caminho longo, reflexões corais, leveza e alegria “Ich folgende dir gleichfalls”, traição “Ach, mein Sinn”, entrega “Es ist vollbracht”, morte “Mein teurer Heiland”, arrependimento “Zerfliesse, mein Herze”, paz “Rhut wohl” (que serviu de banda sonora aos meus dois posts anteriores) e finalmente esperança “Ach Herr” num coral tipicamente luterano, música vertical ao contrário da orgia sonora do primeiro coro, tonalidade maior para dar brilho, notas longas para terminar num aberto acorde maior (Mi bemol maior – a terceira nota da escala, armação de clave com três acidentes, frases de três compassos – o tríduo pascoal, a trindade) em que se ouve a palavra “eternamente” .

O mistério da vida tão bem pintado para crentes e não crentes. Pode ser ou não a vida de Deus, é com toda a certeza a mais bela história de amor.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Ainda o acidente de Barajas

De repente o acidente torna-se pessoal.

Dois amigos da Cara-Metade-Mais-Que-Tudo, dois companheiros de trabalho durante mais de um ano em que a Cara-Metade-Mais-Que-Tudo trabalhou nas Canárias, casados e com um filho de cinco anos iam nesse vôo.

A criança, vá lá saber-se porquê, voou na véspera.

Jantámos e ainda os ajudei a fazer o orçamento para 2007 quando estive por essas terras.

...e por agora o saldo pessoal é uma criança orfã, a Cara-Metade-Mais-Que-Tudo destroçada e eu de coração encolhido.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Não sei...

Não sei se é porque já fiz esse mesmo vôo,
Não sei se é por passar constantemente pelo terminal 4 de Barajas,
Não sei se é porque em Madrid me sinto em casa,
Não sei se é por ter um coração que bate em Espanhol,
Não sei se é porque as Canárias, em tempos, me criaram medos e saudades,
Não sei se é por ter estado nas Canárias para estar com quem me diz muito.
Talvez seja porque me sinto, em parte, espanhol.
É porque há gente inocente que morreu.
Sinto-me chocado com as notícias de hoje.
Não me sentiria mais chocado se o acidente de hoje tivesse ocorrido em Portugal.
Não sei porquê.
Mas sei que sinto...

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

O país em que “vivemos”

O nosso país parece um folhetim. Um folhetim daqueles da pior espécie.
Chegou-se ao ponto de transmitir em directo uma operação policial de alto risco (que me recuso a comentar).

Os jornais dão notícias de crimes, de processos morosos, de corrupção, de sequestros, roubos, violações...

... mas entretanto e silenciosamente (porque não choca e não vende jornais) o meu país sobe no ranking dos países mais pacíficos no mundo. E não porque os outros pioraram mas porque Portugal melhorou sendo a criminalidade uma das variáveis utilizadas para calcular este índice.

Fica aqui o link para o sítio. Vejam que vale a pena. Mais do que uma actuação hollywoodesca da polícia portuguesa, são estas notícias que me fazem acreditar no cantinho onde nasci.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Oito de Agosto


Mãe, uma vez mais este texto é para ti.

É um dia difícil, de memórias de gente ida. Esta altura do ano não tem sido meiga connosco e não o foi contigo.

Fez ontem cinco anos que morreu a avó M., de repente, sem aviso, com um golpe de calor. Passaste o teu aniversário numa cerimónia que queremos evitar. Era um dia para seres feliz, deverias ser o centro do mundo. Do meu mundo. Mas dedicaste esse dia ao pai que dava o último adeus à mãe.

Acredito que abriu feridas, as feridas daquele Verão de 94 (já faz amanhã catorze anos, quem diria) em que o teu pai se despedia de ti nos teus braços.

Lembro-me de receber o telegrama poucas horas depois da hora a que nasceste. Saí da casa e caminhei lentamente pelo aldeamento. Olhava as estrelas. Senti-te comigo. Não chorei a primeira grande perda da minha vida. Uma das minhas referências. Senti a mão do avô pousada no meu ombro e uma paz interior inexplicável como se o mundo tivesse parado por uns segundos a sua louca correria. Sabia-te esmagada de dor e ainda assim estava invadido por uma serenidade vinda não sei bem de onde. Eu era parte do mundo, deste e do outro caso exista.

Pediste-me que fosse neste dia. Estive muito tempo sem ir a casa. Queria ir antes. Como não sabes porque estive ausente, não imaginas a vontade que tinha de abraçar-te, abraçar o pai... mas não sabias o quanto precisava de vos ver. Por isso pediste-me para adiar a ida umas 3 semanas para estar no dia do teu aniversário. Percebi-te. Sou teu filho e leio-te nas entrelinhas.

Por isso amanhã estarei aí. Sei que vais chegar ao aeroporto muito antes do avião aterrar e quando sair vais rasgar o teu sorriso e os teus olhos vão brilhar. É o teu aniversário mas vais ter a casa cheia de mimos para mim, farás um dos meus pratos favoritos com muito carinho. Terás o frigorífico cheio com os meus iogurtes, o meu queijo e as minhas águas favoritas. Terás morangos e uma taça cheia de caramelos, enquanto a outra tacinha sobre o aparador estará cheia daqueles caramelos de infância que ainda consegues arranjar. Haverá uma surpresa em cima da cama e enquanto entro no quarto e a abro, tu e o pai espreitam da porta com um sorriso aberto. Mas é o teu aniversário, mãe! tu deverias receber os mimos. Todos os mimos do mundo.

Deverias deixar de lado essa sombra e celebrar a vida de um homem que é o meu maior exemplo. Que te deu a sapiência para que me incutisses os valores que são meus, celebrar a tua vida que é tua e não minha. Deverias pensar em ti, só em ti. Ser egoista por um dia.

Mas sei que é a mim que vais encher de mimos, como sei que esse é o maior mimo que te posso dar.


Et incarnatus est - Bach

quinta-feira, 31 de julho de 2008

30 anos

Tenho andado apartado deste canto que tanto prezo.
Há muitos motivos mas nenhum motivo especial. Basicamente ando a aproveitar a vida, os dias longos de Sol e calor, são os espectáculos, o teatro, os concertos, as visitas da Cara-Metade-Mais-Que-Tudo e as visitas à Cara-Metade-Mais-Que-Tudo.

Depois de se perder três semanas de vida fechado (ou visto positivamente, depois de ganhar muitos anos de vida), as ideias organizaram-se e o que estava atrasado, nomeadamente a nível pessoal teve de ser recuperado.

Julho é um mês agri-doce. Não vou falar o porquê do agri porque o “Longo Inverno” já vai longe e o que lá vai, lá vai. Parece que as cambalhotas na minha vida se dão no Verão e se resolvem no Inverno.

Afinal as boas notícias tive-as quase todas durante o Inverno, enquanto o Verão me deu as más.... mas lá estou eu a ir por onde não quero. Não tivesse uma memória de elefante e não me haveria recordado que foi em Julho que começou o "Longo Inverno". E tudo isto porque nesse dia (ou noite) sonhei com ele, um pesadelo, coisa que não se passava há anos. Ao acordar tentei perceber porque é que sonhei com algo que havia passado há catorze anos, olhei para o relógio e vi que fazia exactamente catorze anos que o mundo desabara na minha cabeça... mas como disse, o que lá vai, lá vai e o que interessa é o aqui e hoje e o ali e amanhã.

Faz hoje três semanas, chegou a Cara-Metade-Mais-Que-Tudo. Foi musical, passeio no parque, concerto, museus, cinema (sim que fomos ver o Mamma Mia!), jantares românticos, bares, discoteca... enfim, um fim-de-semana alargado sem descanso e com muito carinho, o carinho de quem não se via há dois meses.

O fim-de-semana passado fui eu a Madrid. Razão especial. A Cara-Metade-Mais-Que-Tudo fazia trinta anos. Foi um fim-de-semana muito bem passado apesar do calor que se fazia sentir na capital espanhola, ainda assim, mais suportável do que o calor que se tem feito sentir na capital inglesa, não pelo valor que se lê nos termómetros da rua, mas pela humidade pegajosa e más condições que esta cidade tem quando as temperaturas andam pelos 30 graus centígrados.

O vôo roubou-nos mais de uma hora... que me venham falar dos atrasos da TAP, eu sofro mais com a British Airways ainda que esta esteja a jogar em casa (talvez por isso).

Cheguei e a Cara-Metade-Mais-Que-Tudo à minha espera. Diz o nome de uma rua desconhecida ao Táxi e vejo-me a percorrer o bairro de "San Bernardo", as ruas estreitas de "Noviciado", ali para os lados do "Conde Duque", bairro encaixado entre os famosos "Gran Via", "Tribunal", "Plaza de Espana" e o famoso "Barrio de Chueca".

Adoro Madrid. Cidade que me acolheu e me fez sentir em casa desde o primeiro dia, que conheço bem e que cada vez que lá vou me faz sentir em casa. E nestas ruelas impregnadas de gente e de vida, o Táxi pára à frente de um hotel pequenino (viria a descobrir que não tinha mais do que quinze quartos, todos com decoração diferente).

Entramos e somos recebidos com um sorriso caloroso pelo dono daquele pequeno hotel boutique metido no coração da capital espanhola. A Cara-Metade-Mais-Que-Tudo abre a porta e em vez do quarto, vejo um pátio interior. O Pátio da nossa suite superior e só nosso. Para lá do pátio o quarto gigante com uma decoração retro (branco e negro) e com um jacuzzi enterrado no solo de xisto preto preparado a borbulhar e com sais. Depois do calor sofrido em Londres, do atraso terrível num aeroporto sem condições (sim, o City Airport é mau para estar à espera) um jacuzzi preparado foi como um presente dos deuses... mas assim foi (e por aqui me deixo ficar neste primeiro dia).

No segundo dia, sábado e véspera do trigésimo aniversário da Cara-Metade-Mais-Que-Tudo passeámos por Madrid, fomos às compras, tentar marcar as férias ao Corte Ingles (mas sem sucesso), e sentávamo-nos cada meia hora num café para deixar os quarenta graus da rua e repôr os líquidos.

Como no ano anterior, fomos comprar roupa nova para usar no jantar e apesar de ser o aniversário da cara-Metade-Mais-Que-Tudo, fui eu que saí com dois pares de calças de presente porque a Cara-Metade-Mais-Que-Tudo se apressou no pagamento (Idiota!).

E assim se passou o dia até à hora do jantar que eu tinha marcado num sítio que não conhecia mas imensamente criticado e aclamado. Estava marcado para as dez.

Às dez lá chegámos. Fomos a pé. O “restaurante” ficava numa ruelazita chamada “Travesía de San Mateo” no “Barrio de Chueca”.
A rua estava deserta e não se percebia um único restaurante na zona e aí é que estava o encanto. A Cara-Metade-Mais-Que-Tudo vê-me dirigir sem hesitações à porta de um antiquário que estava fechado. Toco à campaínha e somos levados por entre antiguidades orientais (algumas bem mais antigas do que a nacionalidade Portuguesa) até uma mesa ao lado de um fabuloso astrolábio, dois contadores e uma cama vietnamita (que custava a módica quantia de cem mil euros) que era um encanto.



Só sete mesas, nem mais, nem menos. Sete mesas é o que se encontra no restaurante "Asiana" de um self-made chefe com direito a estrela Michelin e que serve um único menu degustação de quinze pratos que misturam ingredientes espanhóis com sabores orientais. Confesso que foi o restaurante mais romântico onde já estive, um regalo para os sentidos. Todos! Até aqueles que não conheçemos. A comida soberba, bem apresentada, bem servida, no meio de um ambiente belíssimo, obras de arte de todos os tempos, dos dias de hoje até há dois milénios atrás. E ali, numa mesa escondida entre maravilhas, com uma selecção de pratos e de vinhos de bradar aos céus, passámos a meia-noite e celebrámos o aniversário da Cara-Metade-Mais-Que-Tudo. Uma refeição a dois que durou quatro horas mas que poderia ter durado outras quatro.

Por isso se um dia forem a Madrid com alguém especial já sabem. Desapertem os cordões à bolsa (não é nada barato) e dêem um banho aos sentidos porque é por coisas assim que vale a pena abrir os cordões à bolsa.

E a beleza do sítio, o aroma das especiarias misturado com o das madeiras antigas, a música suave, a textura e os sabores da comida ficarão gravados por muitos tempos.

E acima de tudo sei que a cara-Metade-Mais-Que-Tudo adorou e esteve feliz no dia em que entrou na sua terceira década. O brilho dos olhos não engana.


E eu feliz por ver a Cara-Metade-Mais-Que-Tudo assim feliz.

domingo, 20 de julho de 2008

Sempre o amor


Ao ler os comentários a este post da Excomungada dei comigo a discordar com um ou outro comentário.

O post aborda um tema, o casamento homossexual, com outro subentendido, a discriminação homossexual.

Já falei deste tema anteriormente (da discriminação) e todos sabem a minha posição.

Há, no entanto, dois temas mais polémicos que ainda não debati (ou expus) pelo menos abertamente. O tema do post - o casamento de pessoas do mesmo sexo, e um tema abordado na caixa de comentários - a adopção por casais homossexuais.

Em relação à discriminação não tenho nada a dizer. É um tema amplamente discutido e sem sentido. Discriminar, positiva ou negativamente, não entra no meu vocabulário e considero o acto de discriminar uma reminiscência da fase primária da evolução do Homem enquanto ser social, quando este condenava e destruía à partida o que não conhecia e por isso temia. Discriminar é retrógrado e só prova que a sociedade moderna vive, em parte, na Idade Média não utilizando o que a distingue dos animais, a razão.

O casamento. Em relação a este não tenho muito a dizer. Se duas pessoas se amam, se o querem pôr em papel e mostrá-lo assim ao mundo, se querem partilhar não só amor mas casa, se querem que o outro tenha os direitos consagrados na lei aos casados em relação a heranças ou simples visitas a hospitais, têm o direito de o fazer independentemente do sexo, da raça ou da religião. Casar é um acordo entre duas partes em que as duas dizem “Sim”. Acho, no mínimo, reprovável comentários que dizem que sim, são a favor, “Mas quanto ao resto,podem até casar com animais,são opções..”. Não, porque não é um acordo entre duas partes mas uma decisão unilateral que além de ser uma piada de muito mau gosto, mostra uma intolerância reprovável e, acima de tudo, discriminação.

Chegamos ao terceiro ponto. Sem dúvida o mais complexo já que os dois primeiros serão fáceis de entender usando a razão, não havendo discussão fundamentada que consiga provar o contrário.

A adopção por casais do mesmo sexo. Neste ponto há argumentos fortes contra a adopção.
Não concordo com os argumentos que defendem que estas crianças serão também homossexuais porque os seus pais são homossexuais. Na realidade, a maioria dos homossexuais são filhos de casais heterossexuais.

Não concordo com o argumento de que é um mau exemplo porque não é um mau exemplo. É uma orientação diferente da vigente que prova a diversidade que existe na natureza. Deixa assim de ser um mau exemplo e passa a ser um excelente exemplo dessa riquíssima diversidade que levará a uma maior aceitação e porconseguinte menor discriminação a pessoas do mesmo sexo que se amam e que querem amar.

O único argumento com alguma força será o argumento que defende que esta criança terá problemas quando confrontada com outras crianças que têm um pai e uma mãe e não dois pais ou duas mães. Acredito que esta criança será, no entanto, educada em casa de uma forma a entender a diversidade, relegando o problema às outras crianças. E é aqui que entramos num ciclo vicioso. As outras crianças atacam porque não conhecem e duas pessoas do mesmo sexo não podem adoptar porque o filho estará sujeito ao ataque das outras crianças. E esta “pescadinha de rabo na boca”, por incrível que pareça, tem de ser quebrada exactamente onde se pensa que não está o problema. Nas famílias monoparentais ou heterossexuais para que eduquem os filhos no conhecimento da diversidade. Porque se um rapaz educado só por um homem for educado a acreditar que a mulher é uma aberração, tratá-la­-á como tal e passará a atacá-la. Se for educado, como o é, a aceitar a mulher como outra forma de ser, aceitá-la-á sem problemas e sem questões. O mesmo se passará com famílias monoparentais, heterossexuais ou homossexuais.

Quanto às crianças, a estas desejo o melhor. Ter uma educação onde abunde o bem estar, a tolerância e o respeito, mas, acima de tudo, e qualquer que seja a forma, onde abunde o amor.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Porque a vida se leva a rir


ou histórias de um hospital


Ao fim de quatro dias encerrado no hospital (fora as escapadelas para comprar chocolates na loja da frente) faço uma grande escapadela até a casa (que fica a dez minutos a pé do hospital).

Cobri o meu lindo cateter com uma gaze e lá fui para levar roupa suja, deixar o pagamento à empregada e trazer roupa lavadinha.

Ao sair de casa, toca o telemóvel. Atendo. Era a enfermeira que estava de serviço nesse dia. “ - Onde estás? Estão aqui para te levar a fazer os dopplers às carótidas.”

Estou cá em baixo, já subo. Ora como estou perto de casa. Desato a correr em direcção ao hospital. Chego lá e só um elevador está a funcionar. Subo a correr até ao quinto andar. Quando entro estou mais vermelho e mais ofegante do que uma mulher em trabalho de parto.

À minha espera está um enfermeiro com uma cadeira de rodas. “Ah, és tu! Senta-te que te levo.”
Digo-lhe que posso andar. Ele olha para mim com cara de espanto. E porque os dopplers normalmente se fazem a pessoas que tiveram ataques cardíacos, porque estava mais vermelho do que um tomate e porque estava tão ofegante que não conseguia articular uma palavra, o sujeito olha para mim e diz-me: “Senta-te! Não me parece que estejas em muito boa forma e além disso não quero responsabilidades!”

Calei-me e sentei-me. E de repente vejo que há um enfermeiro manco a empurrar-me pelo hospital. Coitado, andava pior do que eu e mal sabia que tinha acabado de fazer um sprint de mais de um quilómetro e terminado com a escalada de cinco andares de uns três metros de pé directo cada.

Pelo caminho lá lhe dizia. “Sinto-me tão mal aqui sentado… eu posso andar” ao que ele respondia que tinha de levar a cadeira para o outro lado.

Chegámos a outros elevadores com muita gente à espera. Esperamos, esperamos, e a hora do exame a passar (mas porque carga de água não me avisaram que tinha o exame e teria poupado tantas correrias?)

Como os elevadores daquele hospital pareciam ter deixado de funcionar, o enfermeiro olha para mim e diz-me “Podes mesmo andar? Podes fazer esforços?” e eu com um olhar furioso digo “Claro, Já disse que sim... ando aqui a fazer de estúpido, sentado numa cadeira de rodas e a ser passeado pelo hospital.”

Leva-me na cadeira até às escadas mais próximas e diz-me: “Então vamos!” e para espanto dos presentes, levanto-me da cadeira de rodas e começo a descer as escadas a correr, seguido por um enfermeiro manco que tinha dificuldade em seguir o meu passo.

sábado, 28 de junho de 2008

A Verdade

Há momentos na vida em que somos surpreendidos.

Há momentos que tememos e que depois de passados se traduzem em crescimento pessoal.

As últimas semana foram assim. Semanas de paragem forçada.

Estive três semanas sem trabalhar. Sim, agora que tudo passou, confesso e transformo em verdade a mentira que disse aos que de longe me seguem e que me atormentou durante as últimas semanas.

Fiz de tudo isto um segredo enorme. A primeira semana em casa porque não me sentia bem. As duas últimas semanas num hospital (Cilinha, agora que tudo está resolvido, tinha de contar).

Alguns dos meus amigos sentir-se-ão chocados, outros magoados, outros traídos, mas eu sou assim e fora a amiga que vive mais perto (que desconfiou) e nem uma mão cheia de outras pessoas que me acompanharam quase diariamente no messenger, calei.

Recuperei-me rapidamente e os dias tornaram-se longos. Levei livros comigo, não os li. Tinha acesso à internet e nem assim escrevi assiduamente ou comentei os cantinhos que leio diariamente. Não queria mentir. Omitir tornava-se mais fácil.

Tive muitas saudades daqueles que mais amo. Tanto tempo livre dá-nos para pensar. O pensamento voa e roça zonas inexploradas.

Passeava muito pelo hospital, chegava a sair e todos me olhavam com estranheza na rua. Claro, não é normal alguém entrar numa pastelaria com uma etiqueta de um hospital num braço e um cateter metido no outro, sentar-se e pedir um bolo e um café. Pior ainda, ir ao pub em frente com a Cilinha ver a bola.

Mas como dizia eu, passeava muito pelo hospital.

Ao fim de uns dias já me sentia fino como um alho e só voltava ao quarto na hora do tratamento.

Conheci muita gente. Entrava nos quartos dos outros pacientes e falávamos horas a fio. Passava a noite a falar com as enfermeiras de serviço.

Ontem, quando saí, deixei flores à Margaret e à Angie, duas senhoras inglesas completamente diferentes.

A Margaret, educadíssima, estava no quarto em frente ao meu. Muito doente, quase não saía da cama, mas sempre que me via sair do quarto chamava-me, sorria-me da sua cara amarela, o sorriso sincero dos velhos, com uma boca sem dentes que descansavam num copo sobre a mesinha de cabeceira. Uma mulher bravíssima que descobri ser minha vizinha. Do alto dos seus setenta anos cuida do marido que teve dois AVCs e do filho com paralisia cerebral. Quando me sorria, dizia-me um sincero “Take care!”.

A Angie. A Angie é um amor. Conheci-a um dia que, passeando lá fora, a fui encontrar a fumar uns charros. Desfez-se em explicaçoes e risadas sonoras. Acabou por ser a minha companheira dos tempos mortos. Ficávamos cá fora a falar até bem tarde, levava-me a conhecer o hospital onde já estivera internada oito vezes.

Começara a fumar charros aos quarenta e cinco anos quando sofria de um cancro do sistema linfático porque descobriu que aliviava as dores. Contou-me toda a vida. Desde a infância em que o pai batia na mãe quando chegava bêbado a casa, até que um dia o puseram fora de casa e se mudaram para Londres. O marido, que em tempos também bebia e batia nela, transformara-se num doce no dia em que ela lhe deu com o ferro de passar na cara e lhe partiu o nariz e os dentes. Agora, muitos anos passados, são eternos companheiros e felizes. A mãe, de noventa e dois anos, que vive só mas na casa ao lado e a quem tenciona levar em Setembro à Irlanda para o encontro de família, mais de duzentas pessoas. O trabalho que adora, numa lavandaria, um filho lixeiro que não fala com o pai porque não lhe perdoa ter maltratado a mãe no passado, e o grande orgulho num neto pouco mais novo do que eu e que conheci, que abriu a sua própria empresa de instalação de alarmes.

Contou-me muitos pormenores de uma vida extremamente difícil, num inglês cheio de erros e com muitos palavrões, mas sempre com uma risada sonora, mesmo para as coisas tristes da vida. Muito me ri com a Angie e o seu marido Sid quando este lhe ofereceu diante dos meus olhos incrédulos quatro rolos de papel higiénico “soft” em vez de um ramo de flores, porque teriam mais utilidade.

Com estas duas senhoras conheci um lado dos ingleses que não conhecia. Um lado humano que teimam em esconder e que os torna iguais a nós, talvez porque os hospitais tirem as máscaras e façam as pessoas mais genuínas. Reparei que os ingleses, afinal, são iguais a nós e que a nacionalidade não quer dizer absolutamente nada, só nos dá uma máscara diferente.

Saí com o telefone cheio de contactos que talvez se percam com a rotina do dia-a-dia. O Libanês que aos trinta e cinco anos já sofreu dois enfartes, um deles enquanto conduzia a sua moto e que o levou ali; o Somali que sofria de cirrose porque bebia twenty four / seven e que dizia que infelizmente quando saísse iria voltar à mesma vida porque não se podia controlar e mesmo que lhe cortassem as mãos, usaria uma palha; a Filipina que ia levar os filhos à Eurodisney assim que tivesse alta, a marroquina, o paquistanês, o italiano, mesmo a enfermeira do Zimbabwe, preocupada com a situação do seu país e que vira a irmã morrer de Sida no início dos anos noventa e que por isso fizera voluntariado no seu país natal, mas acima de tudo, as inglesas.

E todos, todos preocupados com uma única coisa. Os amigos e a família. Todos para quem o valor essencial, acima da própria vida, é o amor.
PS – e no meio disto tudo, até me esqueci de mencionar que tenho trabalho confirmado com direito a promoção e tudo.

domingo, 22 de junho de 2008

¡Azul!

¡Sí! Mi blog está azul, el azul del mar, el azul del cielo. El color que, aun que digan que es frio, me deja feliz. Y todo esto porque me acuerdo que el amor puede ser tan infinito como el mar azul o el cielo que en él se ve reflejado.

Y aun que parezca cutre, aun que la música sea un pelín cutre, hiciste con que el azul sea el color de mi corazón.

Porque eres mi cara mitad, mi media naranja y porque en noches de borrachera me cantas esta música sin pretensiones, sin vergüenzas, y con un brillo especial en tu mirada que solo nosotros sabemos leer. Te echo de menos. Quiero tenerte aquí conmigo para hacer mis días todavía más azules, mi peque.

Y la música es para ti.

Azul - Cristian Castro

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Mentira



A mentira veste-se de muitas formas. Faz parte da nossa vida. Ouvimos mentiras todos os dias e, ainda que digamos que não e nos chamemos defensores da verdade, dizemos mentiras todos os dias. Mentiras brancas como são chamadas neste país. Porque quando alguém nos pergunta como estamos, dizemos “bem, obrigado!” porque nem a pessoa que faz a pergunta quer saber realmente a nossa vida nem nós queremos desfiar o nosso rosário.

Quando dizemos ao arrumador “dou quando vier”; “agora não tenho”;... mentimos. Mentimos todos os dias e mais do que uma vez ao dia.

Depois há outras mentiras. Mentiras mais sérias que nem todos praticamos. Nestas há três categorias.

- Há a mentira que protege – a mentira inocente, que oculta um facto que pode causar dor, desilusão ou transtorno e para o qual não há solução.
- Há a mentira que promove – uma mentira que, sem atacar, promove quem mente (como as mentiras dos CVs), lhe dá um estatuto que não tem, sucessos, o peixe de 5 metros pescado à linha.
- Há a mentira que ataca – mentira suja que atribui culpas a quem não as tem, mais uma vez como protecção do próprio mentiroso, ou por medo ou simplesmente maldade.

Tenho de confessar que para além das “white lies” utilizo bastante a primeira. Já utilizei a segunda. Sou avesso à terceira. E não me venham cá com coisas que acho que isto é normal. Todos mentimos.

Da terceira não vou falar porque é a que me pões os cabelos em pé. Não compreendo como se pode querer prejudicar alguém e ainda mais quando se faz com falsos testemunhos.

Em relação à segunda quero que me digam uma coisa. Nunca nenhum de vocês, numa entrevista de emprego, num CV, numa candidatura ao que quer que seja, “embelezou” a verdade. Não digo que tenha dito falsidades, mas tenha pelo menos exagerado em determinados pontos, ocultado pontos fracos, atribuido diferentes pesos aos critérios de avaliação. Adulterado a verdade que por já não a ser, passa a ser mentira. Pois, esta mentira faz parte das nossas vidas. Ajuda-nos a atingir objectivos sem prejudicar quem quer que seja. Apesar de tudo esta segunda mentira tem uma face que me incomoda. A mentira do status. A mentira que esconde origens, que pretende ser o que não se é. O egoísta que vai à missa todos os domingos e bate com a mão no peito e que julga as pessoas e as avalia não pelo que são mas pelas suas origens.

Resta-me a primeira. A mentira que protege. Não sou advogado do diabo, mas há mentiras que são aceitáveis e até exigíveis, quando a realidade é cruel e magoa e não há solução.

Lembro-me da minha avó, eterna enamorada do meu avô que sofria de uma gravíssima aplasia medular. Ela desenvolvia Alzheimer a uma velocidade estonteante porque talvez o stress de ver o meu avô tão doente acelerasse o processo. Quando o avô morreu, a avó ainda tinha alguns momentos de lucidez. Decidimos não dizer. Iria sofrer muito, iria piorar o seu estado de saúde.

Eu, há uns anos, caí gravemente doente. Necessitava de internamento urgente. Os meus pais sempre lidaram mal com as minhas maleitas e nunca foram grande ajuda. Não davam o apoio necessário, pelo contrário, e eu preocupava-me com eles. Aquando dos primeiros sintomas, da origem da doença, nasceu a mentira que cresceu, cresceu, cresceu como uma bola de neve que desce a mais alta das montanhas a uma velocidade alucinante. Quando as coisas estavam no limite, quando a minha fraqueza me obrigou a confiar e a partilhar o peso da minha cruz com alguns amigos, menti uma vez mais. Disse que ia de férias e fui para um tratamento sério, longo e delicado. Correu bem e a mentira evitou o sofrimento daqueles que mais amo.

Incluo nestas mentiras as mentiras de índole pessoal de alguém vive numa sociedade que não o aceita. Ainda não sei se faz bem ou mal porque se exclui e não ajuda à aceitação rápida, mas compreendo o ponto de vista do visado e defendo a posição que queira tomar, quer seja pela verdade ou pela mentira. Falo por exemplo de diferentes tendências sexuais, do gay que está no armário, falo de doenças discriminatórias como a infecção pelo HIV. Falo das condições e não das escolhas porque cada um tem de saber enfrentar de frente as suas escolhas, mas pode proteger-se numa sociedade que não aceita as suas condições, nem que para isso tenha de mentir.

O único problema é quando a mentira se descobre (se se descobre) e magoamos aqueles que queremos proteger porque não lhes confiàmos os nossos problemas ou as nossas dores.

E é aqui que o balanço é difícil. Correr o risco de desiludir os que queremos por lhes mentirmos ou fazê-los sofrer com alguma situação para a qual não têm solução. É saber lidar com a mentira e ter estômago para mantê-la e coragem para enfrentá-la.

É, acima de tudo, sermos sempre verdadeiros connosco e fiéis aos nossos princípios.

sábado, 7 de junho de 2008

Fim de semana


Podia ser um fim de semana como outro qualquer. Sem planos, sentado no sofá a ler um livro, ver um bom filme acompanhado por uma chávena de chá, passear no parque e tomar uma bebida numa das muitas esplanadas desta magnífica cidade, ouvir a melhor música e com ela despertar emoções boas vindas não se sabe bem de onde. Podia ser assim. Um fim de semana como outro qualquer. Devia ser assim.

Mas a vida corre imparável. Acelera violentamente abalando os hábitos adquiridos, aqueles que são as fundações da comodidae, ou, quem sabe, da rotina que tenta apagar-nos e nos confunde e desvanece no meio da humanidade.

Os abalos vêm e arrasam as fundações, as erupções sucedem-se numa força que desperta, que move montanhas e altera caminhos.

Apesar de tudo, quando visto do espaço, este planeta continua azul e belo. Igual a si mesmo.
Não é um fim de semana como outro qualquer.

Esta tarde, destinada ao ócio, será ocupada por uma tarefa que não quero. Preparar a minha candidatura a um lugar que era meu. Rever os meus nove anos nesta casa, pô-los em papel. Recordar os bons projectos, os sucessos e os fracassos, definir o que tenho de bom, as minhas capacidades. Resumir uma carreira que se desenvolveu por si mesma numa ridícula folha de papel.

E isto tudo perde importância quando sei que amanhã a família se reúne. Encontra-se e eu não estou lá. Celebra a primeira comunhão da prima meloa. A menina que pergunta por mim todos os dias. A criança tímida, de feitio difícil, que me desarma constantemente com um sorriso aberto e honesto. Que me enche o coração quando diz aos quatro ventos que o melhor amigo é o Melão grande. Toda a família estará à volta da mesa em comunhão com a minha princesa e eu não estarei lá. Ficará triste e não tenho como explicá-lo porque o trabalho não o justifica. Nunca o fará.

Mas mesmo isto perde importância quando penso no filho do careca. Amigo de infância, de adolescência, de juventude. Amigo de hoje. O filho do careca, das festas que faz na casa de praia, da viagem empreendedora que fez à Roménia quando eu lá vivia. Dos imensos concertos em conjunto. Porque o careca morreu ontem. De repente. Sentado no seu automóvel, vítima de um AVC. O careca... apresentava-se assim e queria ser chamado assim. Completamente careca, sem pestanas, sobrancelhas, sem um único pêlo. É como sempre o conheci, careca e bem humorado.

Levava-nos para a sua oficina onde passava os seus tempos livres montando e desmontando carros e motores. Um hobby que me fascinava e surpreendia. Mas o careca morreu. Com ele morreu uma parte feliz da minha infância. A alegria, as festas na casa de praia, o hobby excêntrico de montar e desmontar carros naquela oficina cheia de carros antigos. E não estou ali para dar um abraço ao filho do careca e um beijo à mãe do filho do careca.

Um fim de semana em que devo um abraço a um amigo. Um fim de semana em que devo um beijo e um sorriso rasgado a uma amiga. Porque tudo acontece ao mesmo tempo e um papel, um estúpido papel, se intromete naquilo que realmente importa.

Podia ser um fim de semana como qualquer outro, mas cada um é singular. Quem me vê aqui, sentado à mesa do café a escrever no meu caderno de capa preta, quem me costuma ver aqui todos os sábados, pensa que é um fim de semana como qualquer outro.

Porque apesar de tudo, quando visto do espaço, este planeta continua azul e belo. Igual a si mesmo.


Ihr habt nun Traurigkeit - Ich will euch tr?ten - San Francisco Symphony - Blomstedt

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Que Futuro?

Voltei, pois voltei.

Às vezes penso (como agora) antes não tivesse voltado.

As coisas estão pretas, pretas mesmo… eu eu que tão bem estava no meu cantinho , num quarto de hotel de onde via a serra de Sintra e ouvia os pássaros, sem ver carros, estradas ou sinais do bulício da vida moderna.

Tempo ameno, comida boa.

Chego a Londres e vejo que as minhas esperanças, as minhas oportunidades, se desvanecem. Não se perdem. Desvanecem-se porque deixam de lá estar.

E, de repente, depois de me dizerem que tenho de ir a Oslo fechar um negócio, que há outro a caminho, recebo o que esperava mas não esperava.

Tenho que me candidatar ao meu trabalho. Depois de nove anos de casa, de muito trabalho feito, de muito dinheirinho ganho para os bolsos dos accionistas.

E isto porque alguém sem dimensão se lembrou de comprar o que não podia. Comprou sem ter dimensão ou capacidade. Comprou por um orgulho idiota. Comprou para ter de descontinuar o que dava valor ao estaminé porque não o comprende.

Os meus amigos de Espanha com quem trabalhei 4 anos (aqui e ali) desvaneceram-se no ar. Aos de Portugal, certamente acontecerá o mesmo. E aos de França, e aos da Holanda.

E claro, agora, só, nesta casa que já não consigo sentir como minha, pedem-me que me candidate a um emprego que é meu. Uma equipa que mantive, uma carteira que construí. Porque como está não pode estar, porque não sabem nem entendem.

E o mais estranho de tudo é que não me vejo minimamente preocupado. Já não acredito neste projecto e ninguém morre de fome por perder um emprego, mas morre-se de frustação por fazer o que não se quer.

Se o meu futuro está aqui, não o sei. Se não está, é porque não tem de estar. Um problema resolverá outros. Talvez seja o momento de regresar a casa, ou ao país do lado, juntar-me à minha metade.

Só me preocupam os meus meninos e outros projectos que salvam vidas que, eventualmente, terei de deixar por aqui.

E apesar dos resultados do teste anterior, hoje estou apático. Amanhã ver-se-á.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Este sou eu!

Não acredito muito em testes, mas faço-os sempre.
Talvez seja o meu lado existencialista que me quer conhecer e desvendar, bem como descobrir o sentido de estar por aqui.

E, realmente, revejo-me neste teste. Este sou eu. Uma bela lição para os que me acham triste e cinzento. Procuro a felicidade, a minha e a dos outros, busco um sentido para a vida e acções, “the greatest good for de greatest number”.

E tu o que és?




What philosophy do you follow? (v1.03)
created with QuizFarm.com

Hedonism


95%

Utilitarianism


90%

Existentialism


90%

Justice (Fairness)


65%

Divine Command


60%

Kantianism


55%

Strong Egoism


45%

Nihilism


10%

Apathy


5%



quinta-feira, 29 de maio de 2008

Santo Trabalho!

Nos próximos dias encontrar-me-ão por aqui












E depois por aqui


sábado, 24 de maio de 2008

Queixumes? Não, obrigado!




Não quero queixumes. Não quero mais emails sobre o preço da gasolina, o lucro dos bancos e das empresas, impostos, comissões, fumo (dentro e fora de aviões), inflação, crime... não quero!

Quero lá saber que Franco queria invadir Portugal e que o país faz tudo mal.

Uma crise como esta serve, acima de tudo, para nos pôr no nosso sítio.

A economia mundial está à beira do colapso. Não há comida, a crise energética acerca-se a passos largos. O mundo está em guerra consigo, e nós, passivamente, vemos a Natureza a destruir (ou a construir).

No entanto temos a nossa comida na mesa, roupa lavada, electricidade em casa (que nos deixa utilizar este fabuloso meio chamado “blogosfera”). Viajamos mais do que nunca. Temos armários cheios de roupa (de marca ou não) de algodão colhido na Índia por gente que vive em condições muito piores do que as dos animais que nos fazem companhia. Quando a vestimos não nos lembramos que do lado de lá, no fim da cadeia, estão crianças, mulheres e homens que ganham por dia o que nás gastamos num inútil café.

Pagamos por isso. “Alimentamos essa ideia”.

Dizemo-nos “verdes”, quando passamos horas a ver televisão, ou quando damos um passeio de carro, quando podemos simplesmente dar uma agradável volta ao quarteirão. Compramos livros, não os partilhamos. Não damos a nossa roupa aos mais novos, como outrora, compramos. E quando o primeiro borboto aparece, lixo com ela.

Então de que é que nos queixamos? De desperdiçar recursos que são finitos e que agora cobram factura?

Muito do que somos depende de onde nascemos.

Se o acaso me tivesse feito nascer no interior da Índia, na China mais remota, numa favela do Rio, na bela e sofrida África, berço do Homem, não estava aqui a escrever. Provavelmente nem sequer estaria aqui de todo.

Por isso não se queixem. Os queixumes só servem para nos deprimir. Não têm valor construtivo. Não quero arruinar o meu bem-estar, os meus dias bons.

E isto não é ser egoísta. É ser humano. Tenho consciência do que faço e do que está por trás. Tive sorte. Nasci num país pequeno, afortunado, com a mania que é grande, mas mesquinho e invejoso. Um país fechado nos seus defeitos com uma clara arrogância e falsa humildade.

E tudo isto porque hoje fui ver os meus meninos. Não ia há algum tempo. Mas saúde recomposta, ânimos levantados e cá vai disto.

Ligou-me ontem o médico deles (que sabia porque andava afastado) a pedir ajuda para dar os almoços.

Lá fui lampeiro e feliz porque os meus meninos me fazem feliz e quando lá cheguei, uma festa. Uma festa para mim.

Bolo de chocolate e chá. E dez crianças que não têm a minha sorte, sem pais, sem futuro (talvez porque tenham nascido em África) e , acima de tudo, sem queixas.

Dei-me conta de que enquanto estas crianças estão ali a morrer, celebram a minha vida. A minha não, a delas.

Com os desenhos que me deram, coloridos, todos na rua, em jardins que só vêem da janela, bem guardados debaixo do braço, regresso a casa. Nunca aprendo tanto como com as crianças e as crianças não se queixam. E são muito mais felizes.

The unanswered question - Charles Ives (1874-1954)