domingo, 13 de janeiro de 2008

Uma semana como qualquer outra

Faz hoje uma semana que regressei a Londres, semana essa com alguns acontecimentos dignos de registo.
Tive uma visita indesejável, a senhora gripe, que me deixou de molho na quarta-feira. Felizmente, foi-se rápido mas deixou um presente, o senhor Staphylococcus, que se alojou no meu nariz - dizem as más línguas (aka Cilinha) que eu devia deixar de snifar, mas a verdade é que tenho o nariz num estado lastimável.
Aparte da batata aberta que tenho no lugar do nariz, este senhor não me deixa ir visitar os meninos ao hospital, o que me deixa profundamente irritado, mas, enquanto para mim isto não passa de um nariz a cair, que vai ao sítio com uma dose de antibiótico, para os meus meninos, poder-se-ia traduzir em algo bem pior. Por isso manda o bom senso que não os visite, pelo menos até as feridas fecharem, e deixar de ter este corrimento amarelo (que bela descrição).

Este senhor foi ainda mais inoportuno porque nesta semana não houve muito trabalho, isto é, não há nada para fazer no estaminé. O mercado está morto. Passo um tédio descomunal à espera que passe o tempo para ir para casa. Ou seja, era uma excelente semana para estar com os meus meninos com os quais não estou há mais de um mês, e imagino-os sós (porque o Natal já passou e há muita gente que só se lembra deles no Natal). De qualquer forma, esta semana prevê-se pouco trabalho no estaminé e o meu visitante Staphilococcus ja não estará na fase infecciosa.

Com tanto tempo livre (e movimentos limitados) tenho posto a minha leitura em dia. Acabei de ler o "Rio das Flores" do Miguel Sousa Tavares, e agora estou em vias de terminar "História dos Castrados" de Patrick Barbier oferecido pela muito prestável (foi um amor durante a minha semana em Lisboa) e simpática Cangalheira Letrada. Estou a gostar. Ler o livro fez-me analisar a partitura do "Stabat Mater" de Pergolesi e ver o fabuloso filme Farinelli, que conta de uma forma um tanto fantasiosa mas interessante, a vida do grande castrato Carlo Broschi.
Vejo-me então a queimar o DVD com a cena em que Farinelli canta a belíssima aria de Handel (da ópera "Rinaldo") Lascia Ch'io Pianga após saber que a sua castração não foi resultado de um acidente, mas porque o seu irmão quis aproveitar a belíssima voz do infante para fazer triunfar a sua mediana música. A cena é violentíssima e por mais que a veja, não posso evitar uma forte comoção. E ao ler este livro em que se explica a atrocidade que era a castração, ao ver e rever o filme, continuo sem perceber como foi possível que a moda dos castrati tenha surgido e vejo o que a nossa sociedade, onde estas barbaridades já não se cometem, avançou.

Finalmente, ontem tivemos o almoço de bloggers portugueses em Londres. Uma mesa com muita gente, a maioria desconhecida. Passei um bom bocado e a prova disso é que o repasto durou mais de quatro horas e nem dei conta do tempo passar. Não sei porquê, mas foi um almoço onde a conversa fluiu e houve muito boa disposição de todos. Certamente para repetir.

Mas como tópico da semana, deixo-vos aqui a cena de que falo, cena essa de um dos filmes da minha vida, um misto de fascínio e horror pelo que foram os artifícios do meu período favorito da música. O Barroco.





22 comentários:

Teresa disse...

Fico feliz por estares a gostar do livro. Já que tens um bom francês, volto a recomendar-te Farinelli, le Castrat des Lumiéres, também dele e disponível na Amazon francesa (eu devo estar a receber o seu La Malibran, mal posso esperar...).

Graças a ti pude lembrar esta cena maravilhosa, em que as imagens tão magnificamente contam a dor da ária... um dia destes roubo-ta para a pôr na Gota, entra definitivamente nas "Cenas da minha vida"! Além de que, ao contrário de ti, eu adoro Handel!
Como te disse, ando cheia de vontade de rever o filme, mas vou ter de o encomendar, que a nossa sempre tão bem abastecida Fnac apresenta-nos um leque de três versões diferente e todas... indisponíveis...

Quanto ao irmão de Farinelli, Ricardo Broschi, e ao seu talento mediano, julgo que concordarás comigo: apesar de tudo, Son qual Nave ch'Agitata é uma ária belíssima!

P.S. Adorei conhecer-te, foi pena não nos termos visto mais, fica para a próxima!

Teresa disse...

Vê isto:
http://www.amazon.co.uk/Moreschi-Last-Castrato-Various-Artists/dp/B000000WYS/ref=pd_bbs_9?ie=UTF8&s=music&qid=1200246478&sr=8-9

Eu tinha este disco, estava na mala do carro que me roubaram. Tenho de o mandar vir novamente. É um documento (o Patrick Barbier fala destas gravações no livro).

Beijo!

Teresa disse...

E mais isto (a preço de banana, ainda por cima...):http://www.amazon.co.uk/gp/product/1904341772/ref=reg_hu-wl_mrai-recs

Cromossoma X disse...

Ola! Eu prazer conhecer-te! O almoco correu bem, quando dei por mim ja estava de noite :)

geocrusoe disse...

Em primeiro lugar melhoras e sem recaídas.
A seguir, lembro-me do filme, quanto ele me chocou então, quanto me interroguei sobre a própria história do filme e o grau de culpa e envolvimento do irmão. Na época o mundo d ópera era-me ainda muito distante, não sei se a voz que ouço é do actor ou se estou perante uma outra voz, mas que o tema de castrados faz reflectir do que a sociedade é capaz, isso faz. Concordo que em muito esta sociedade melhorou, mas talvez noutros aspectos tenha sido o contrário: não temos castrados no ocidente por aquele motivo, não temos escravatura, mas temos uma desigualdade social norte sul aterradora e vemos como tratam aqueles entram na europa em busca de um futuro melhor. Afinal cada época tem as suas atrocidades.

Maçã com Canela disse...

Quem me dera eu estar em Londres...
Pertinho do grande amor da minha vida!!!!!!!

Beijinhos Melões Melodia!!!!!

Mad disse...

Olá! A Teresa mandou-me cá, pois achou graça ao facto de termos pensado nesta mesma ária ao mesmo tempo. Um grande, grande filme, este. E ela é destas pessoas que tem o condão de nos dar o presente certo na hora certa: já me fez isso num dia que eu estava mesmo a precisar.
Bjs. Parabéns pelo bom gosto.

Lua disse...

O almoço foi giro, sim senhor :)

Tb gostei deste teu cantinho. Vou voltar!

Melões Melodia disse...

Teresa - se estivesse ai podia emprestar-te o filme, assim torna-se um pouco mais complicado.
Quanto a Aria de que falas, sim, acho-a bonita, mas nao me preenche. E uma aria cheia dos afectos do barroco, ensinados com grande mestria nos conservatorios italianos. A melodia e portentosa e os saltos para notas longas e agudas ajudam ao exagero dos afectos. No entanto, para mim, falta algo. Ricardo Broschi nao era capaz de por a harmonia ao nivel da melodia. Demasiado estudade, conhecida, sem novidade. Nao me aquece o coracao. Mas nisso, dificilmente qualquer barroco italiano o consegue como ja discutimos. Prefiro, de longe, a bem mais simples melodia do barroco alemao ou mesmo ingles, suportada por uma harmonia que vem de dentro.
Mas, como sabes, tenho o meu patamar barroco num patamar completamente diferente, com o grande que tu bem sabes quem e.

Quanto as tuas sugestoes, vou investigar. E de certeza que teremos tempo para um cafezinho (pelo menos) da proxima vez que for a Lisboa - aviso-te com antecedencia.

beijo

Melões Melodia disse...

Cromossoma X - foi giro sim senhora. Tem que ser mesmo para repetir.
Beijo

Geocrusoe - Obrigado. Felizmente ja sem grandes problemas. Um nariz ainda feio e e tudo. A voz que ouves foi trabalhada em estudio. Vi (ha bastantes anos) um making of do filme em que explicam como se tentaram aproximar a voz de um castrato. Utilizaram um soprano e um contratenor que cantaram as partes, que foram depois misturadas - uma complexidade com fusao de timbres. Muito interessante.
Sim, tens razao quando dizes que cada epoca tem as suas atrocidades, ainda assim penso que as atrocidades que ainda se cometem hoje eram piores ou nem se consideravam como tal ha uns anos atras. Pelo menos, alguns de nos foram capazes de abrir os olhos.
Um abraco

Melões Melodia disse...

Maca com canela - isso esta feio, mas tu mesma me disseste que queres perseguir os teus sonhos e acreditas que estes um dia se realizarao. Por isso, porque desistir?
Beijo grande

Mad - Bem vinda! Realmente e curioso. A mesma aria, o mesmo livro, que engracada coincidencia (ou gostos semelhantes).
Beijo


Lua - entao nao foi? passou a voar. Repetiremos um destes dias. Entretanto, vamo-nos vendo pelos nossos cantinhos.
Beijo

125_azul disse...

Eu ainda estou à espera de um jantar ou almoço ou lanchinho aqui ou a Norte, contigo, com a Cilinha...
As melhoras e olha, adorei Farinelli e a cena que descreves é maravilhosa: chocante, intensa, marcante.
Beijinhos

Actriz Principal disse...

Com que então doentinho... agora é que gostarias de me ter por perto, para te fazer uma sopinha e uma comidinha boa, não é?
(tenho que me livrar destes meus instintos maternais, só me dão um ar querido, argh!!!)
As melhoras, estupor, tenho saudades tuas. Vê se voltas cá depressinha; ainda que a cara-metade dance bem melhor do que tu, fazes-me falta para as nossas cumbersas, pateta!
Beijos, de longe que não quero apanhar esses bichinhos...

amigona avó e a neta princesa disse...

Espero que estejas bem melhor e já tenhas morto as saudades...depois conta como foi (se te apatecer,claro!)... Deixei-te um prémio...não te zangues, tá?beijo...

Melões Melodia disse...

Azulinha - olha que esse cafezinho tambem se pode dar aqui em terras de Sua Majestade.
Beijo

Actriz - Doentinho? Nao! E so o nariz, mas esta melhor.
Ah e nunca mais danco contigo. Nunca mais. se estivermos so os dois, que arranjes um cabo de vassoura que te faz muito vem.
Beijos

Amigona - e porque razao me havia de zangar? Fico muito contente com o reconhecimento.
Beijoca

Diabba disse...

Aton moço?? O estafermococus já bazou? Ou ainda tens o nariz a cair?

beijo d'enxofre

Melões Melodia disse...

Enxofrada - pois esta melhor sim senhora. Quase nao se nota.
Beijos

caditonuno disse...

gostei de saber as novidades, pese a gripe e a batata, aliás nariz, mas salvou-se a boa disposiçao entre todos os bloggers. espero que estejas já melhor.

calamity jane disse...

E então? Já não se escreve? O narigão não deixa?
uma beijoca curativa

Melões Melodia disse...

Caditonuno - fino como um alho.
Abraco

Calamity - quando estiver menos preguicoso, ja que o nariz esta quase bom.
Beijos

jojo disse...

Agora tenho que ver este filme, tás a ver? e a culpa é toda tua. :D
Temos que repetir mais almoços tugas sem dúvida!

Melões Melodia disse...

JoJo - e fazes muito bem em ver o filme. E belissimo.
Quanto ao almoco, repetiremos.
Beijo