sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Velho

Do lat. Vetùlu-, “id.”

adj.
1. que tem muita idade; idoso; 2. antiquado; antigo; 3. muito usado; 4. que exerce há muito uma profissão;
s.m.
1. homem de idade avançada; 2. coloquial pai;


Olhava para as mãos. Pele enrugada e palmas ásperas como se de uma lima se tratassem. Talvez por tantas vezes terem limado, lixado as imperfeições da vida.
Sentado à velha mesa de madeira, enquanto olhava sem ver para lá da escura cozinha, brincava distraidamente com o velho oleado pregado à mesa, já rompido pelos anos, quase tantos como os seus.

Passava os dias sentado entre a escura cozinha, enegrecida pelo lume do Inverno, e a soleira da porta, olhando a horta onde durante anos trabalhou de sol a sol. Já não havia as marcas dos regadios que sulcava todos os anos quando terminava a época das chuvas. A terra, então arada com a ajuda de uma jumenta, estava agora coberta de ervas, e tornava-se dura, como as suas memórias e a pele das suas mãos.

Não sabia que idade tinha. Estaria bem além dos noventa, mas desde que a sua velha, e também a filha velha, o deixaram, deixou de contar os anos.

Dos netos, nada sabia. Tinham deixado a terra em busca de uma vida melhor. A última vez que os vira foi no funeral da filha velha. Estariam grandes, seriam gente, a gente que ele nunca pudera ser. Até sabiam ler e escrever! Já não corriam atrás das moedas de vinte e cinco tostões, nem queriam apanhar a bicha para ir à pesca. Vira os bisnetos uma vez no funeral da filha velha.

“Moços da cidade, gente fina, querem lá saber do velhote e de dar o penso aos animais.”

Tivera mais sorte que muitos.
O velho que passava as tardes na tasca foi levado para um desses sítios onde os velhos se sentam uns em frente aos outros, numa sala bafienta, sem ver a luz do sol ou sentir o ar fresco que desce do monte. Foi a enterrar passado nem um ano.
À velha da venda, ali da vila onde está o cruzeiro, também a levaram para um desses asilos. Parece que caiu nas escadas e ficou em agonia, até que uma irmã a encontrou. Passa os dias a olhar para a parede sentada numa cadeira de rodas.

Ele não. Ele podia já não ter alegrias nem tristezas. Não sabia dos seus, mas tinha a sua velha casa, a sua velha mesa coberta com o velho oleado e podia sentar-se no velho banco olhando para a velha horta. Dos velhos amigos, só com um contava. O cão também velho, agora pachorrento, que se deitava aos seus pés nos longos dias. Sim porque com a velhice, os dias tornavam-se maiores.
Então o velho pensava que ainda tinha uma longa vida pela frente, porque cada dia era agora um ano, e porque tinha uma velha casa, uma velha mesa, uma velha horta e um velho amigo.
E, acima de tudo, umas velhas mãos. Pele enrugada e palmas ásperas como se de uma lima se tratassem. Talvez por tantas vezes terem limado, lixado as imperfeições da vida.

Veio-lhe um sorriso aos lábios quando sentiu a brisa fresca que descia do monte. Olhava novamente para as mãos. E estas contavam as histórias dos que o deixaram.

Viu-se novo.
Acreditou que tinha uma vida pela frente.

18 comentários:

Ck in UK disse...

Mmmm, de quem falas?

Diabba disse...

Espero que este texto esteja guardado, com prova da data da sua elaboração... para publicação futura.

Fizeste-me lembrar o meu avô, pastor e sonhador.

beijos d'enxofre

calamity jane disse...

Oh homem, que me puseste com pele de galináceo e olho molhado!

amigona avó e a neta princesa disse...

E não é bom acreditar - sempre?!
Este é um tema muito grato porque (penso que sabes) a minha vida de voluntariado (quase 24h por dia!)é estar a gerir uma Instituição de Idosos - centro de dia, apoio domiciliário e lar...tenho experiências únicas que mais me enriqueceram como ser humano...um dia destes vai ser tema de debate no Silencio Culpado (agora é a educação)...vou convidar-te a passar por lá...beijo meu amigo e passa um bo fim-de-semana...não esquecer um beijinho para a cara-metade-mais-que-tudo...

geocrusoe disse...

Bonito texto, mesmo muito bonito, para relatar várias realidades actuais, muitas vezes de mãos dadas: a velhice e a solidão no mundo rural; a distância entre as novas gerações urbanas e os seus antepassados no mundo rural; o desconforto de uma casa onde o idoso se sente enraizado e as condições de um lar onde muitos se sentem perdidos; o esvaziamento e envelhecimento das povoações rurais; enfim retratos de uma sociedade que não sabe cuidar de uma classe vítima da evolução: as comunidades rurais idosas...

Maçã com Canela disse...

Fizeste lembrar umas da músicas que mais gosto!

Parado e atento à raiva do silêncio
Parado e atento à raiva do silêncio
de um relógio partido e gasto pelo tempo
estava um velho sentado no banco de um jardim
a recordar fragmentos do passado

na telefonia tocava uma velha canção
e um jovem cantor falava da solidão
que sabes tu do canto de estar só assim
só e abandonado como o velho do jardim?

o olhar triste e cansado procurando alguém
e a gente passa ao seu lado a olhá-lo com desdém
sabes eu acho que todos fogem de ti pra não ver
a imagem da solidão que irão viver
quando forem como tu
um velho sentado num jardim

passam os dias e sentes que és um perdedor
já não consegues saber o que tem ou não valor
o teu caminho parece estar mesmo a chegar ao fim
pra dares lugar a outro no teu banco do jardim

o olhar triste e cansado procurando alguém
e a gente passa ao teu lado a olhar-te com desdém
sabes eu acho que todos fogem de ti pra não ver
a imagem da solidão que irão viver
quando forem como tu
um resto de tudo o que existiu
quando forem como tu
um velho sentado num jardim

passam os dias e sentes que és um perdedor
já não consegues saber o que tem ou não valor
o teu caminho parece estar mesmo a chegar ao fim
pra dares lugar a outro no teu banco do jardim

o olhar triste e cansado procurando alguém
e a gente passa ao teu lado a olhar-te com desdém
sabes eu acho que todos fogem de ti pra não ver
a imagem da solidão que irão viver
quando forem como tu
um resto de tudo o que existiu
quando forem como tu
um velho sentado num jardim.

Bonito post..

Um beijinho!

Melões Melodia disse...

Cila - e um conto. So isso.
Beijos

Diabba - O meu canto de contos esta para nascer. La poderas ver todas estas pequeninas historias que fui e seguirei escrevendo.
Beijos

Calamity - Fico feliz por este pequenino conto despertar sentimentos.
Beijos

Melões Melodia disse...

Amigona - Acreditar sempre. Sei bem o que fazes. Espero pelo teu convite.
Beijo grande.

Geocrusoe - E essencialmente o desrespeito por uma sapiencia ignorada e votada ao abandono.
Abraco

Maca com canela - nao conheco a musica, mas sim, a musica descreve exactamente o mesmo abandono que tinha em mente quando escrevi este texto.
Beijo

Inside out disse...

Li o conto pelo menos duas vezes... não por que o tenha entendido a primeira, mas por que quis repetir a sensação que me deixou nessa primeira!
Apeteceu-me beijar-lhe as mãos, dizer-lhe que estou aqui e que nunca o abandonarei... senti pena, muita pena, de não o poder proteger e dar o aconchego que ele um dia talvez tenha proporcionado. Nao estou a falar de ninguém em especial, mas sim do teu velho e de todos os velhos que estão sós por esse mundo fora, de todas as crianças e todos os animais que sofrem injustiças!
Um beijo.

amigona avó e a neta princesa disse...

Ora muito bem! Com que então temos aqui um senhor VIP que aparece nos jornais cá da terra?!!!
Hoje és notícia nesta coisa dos blogues...mas tu já sabes, né?
Beijinho e já sei quando precisar de uma cunha (ih!ih)...

Inside out disse...

Eiiiii, o video que nao pudeste ver esta aqui ainda (ou parte dele)

http://uk.youtube.com/watch?v=gFW50qUxrVs

Melões Melodia disse...

Amigona - Pois, ja sei que saiu, mas ainda nao consegui ver nem ler.
Uma beijoca!

inside Out - Mudaste de nome? OK, vou ver. Obrigado.
beijinhos

Lua disse...

Repeti a leitura também. Só te quero agradecer por me fazeres lembrar de quem tanto gosto e de quem tenho tantas, tantas saudades. Deste-me uma sensação linda e muito sentida.

Muito, muito obrigada.

Melões Melodia disse...

Lua - Fico muito contente que te tenha tocado. Um beijo grande.

ContorNUS disse...

Magnífico ler-te ;)

125_azul disse...

Maravilhoso. Cheio de metáforas, ternura e sabedoria. Adoro ler-te! E parabéns pelo dia 24, aquário querido! Só podias mesmo ser aquário! Tenho andado numa correria estúpida, atolada em trabalho, sem tempo para nada (quase sem tempo para ser feliz, sequer...), mas é bom chegar aqui e ver-te doce e bem. Felicidades

Melões Melodia disse...

contorNUS - Obrigado. Aparece sempre.

Azulinha - Obrigado. Ja sei que mesmo quando nao dizes nada, andas por ai.
Beijo

Maçã com Canela disse...

Mafalda Veiga.. é ´quem canta.. Uma das minhas cantoras favoritas poe~-me a levitar..
Gosto e pronto :)