domingo, 10 de fevereiro de 2008

Primavera

As palavras não me saem. Estão todas aqui dentro e são tantas que me bloqueiam.

Podia dizer que é do tempo, mas, assustadoramente, é Primavera – diz-mo o meu casaco pendurado no cabide quando saio de casa, ou o céu azul, os rebentos nas árvores, as esplanadas cheias, ou os termómetros que, vertiginosamente, se aproximam dos vinte graus. Não, não é o tempo.
Podia dizer que é o facto de nada se ter passado, mas tive por cá a Cara-Metade-Mais-Que-Tudo, fui ver um musical sobre a morte da música com a imortal música dos Queen, tive excelentes notícias do hospital, conheci o meu menino órfão com mãe, fui ver um concerto com a Maria João Pires e a Orquestra Sinfónica de Londres (e continuo a dizer que Beethoven não me convence) dirigido pelo grande Gardiner, e subi aos céus com a Flauta Mágica, magistralmente interpretada e encenada na Royal Opera House.
Ah, como quero ir escutá-la outra vez, deliciar-me com a beleza da sala, a exuberância da encenação e do guarda roupa, mas acima de tudo, as interpretações de um Sarastro quente e magnânimo, de um Papageno irreverente e perfeito e de uma Pamina, uma Pamina... Onde estiveste até agora? Que técnica é essa? Que pianos são esses que inundam a sala e que terminados vivem nos silêncios em que a música respira antes da estrondosa ovação rendilhada de Bravos!?
Quando cantavas, o constante arrepio que teimava em não deixar-me, os olhos húmidos, e um calor... foi a segunda vez em toda a minha vida e inúmeros concertos em que uma execução teve tamanho impacto em mim, e tu fizeste com que esta fosse a ópera da minha vida...
Podia ainda dizer que é a quantidade de trabalho ou a rotina, mas nem isso é verdade.
Não sei porque não me saem as palavras quando tive uns últimos dias cheios de emoções. Boas emoções.
Penso então que talvez não saiba lidar com elas, ou que quero-­as tanto, que, inconscientemente, as quero deixar guardadas no meu coração, a aquecer-me ainda mais nestes amenos dias de Inverno.
Porque tal como na Flauta Mágica, como nos dias lá fora, bem como dentro do meu coração, a luz veio vencer o obscurantismo. E a noite não conseguiu destruir o templo, provando estão os céus azuis e os dias maiores.

12 comentários:

Diabba disse...

Para quem não conseguia soltar as palavras...

Talvez tu tivesses sido colocado no meu caminho (e eu acho que há um propósito em certos acontecimentos) para eu aprender a gostar de música... caramba, até fiquei com inveja de não ter ido contigo ver a Flauta Mágica! (não ia perceber nada, mas tenho qse a certeza que ia gostar)

beijos d'enxofre

Melões Melodia disse...

Anacleta - Ias gostar, ja to tinha dito. E afinal, ja te rendeste as evidencias de que ha musicas e musicas. Nem todas tem de ser dos infernos!
Beijos

Teresa disse...

Quanto a mim... é como se estivesse lá estado contigo. Espero que não te importes que tenha copiado este teu post na Gota, quase na íntegra...

Beijo enorme.

Melões Melodia disse...

Teresa - sabes que pensei muito em ti. Por isso estavas comigo.
Beijo grande

Maçã com Canela disse...

Ola Melões...
Tão boas noticias por aqui...
Também já sinto a chegada da Primavera ainda que no meu peito chova torrencialmente...
O tempo passa... o ciclo da vida continua.. as estações mudam.. sim.. elas continuam a mudar... e tudo parece tão frio...

O que me atormenta??
Sabes quando sentes a areia a passar-te pelos dedos.. e quanto mais tu apertas mais ela se escapa? É o que sinto... tu sabes o que é isso com as tuas crianças no Hospital... Eu neste momento também quero ajudar, dar forças, curar e não o consigo fazer...

Vou mesmo dormir... esper acordar melhor amanhã...

BJ e obrigada pela força!

Melões Melodia disse...

Maca - essa ansiedade nao resolve nada. As vezes mais vale deixar a areia correr e depois com as maos limpas, recomecar.
Beijo grande

Pitanga disse...

E não te saem as palavras? Já disseste tudo. A Primavera instalou-se em ti com toda a sua sensação de que tudo vai dar certo.

abraços carinhosos

Melões Melodia disse...

Pitanga - vao saindo como podem.
beijinhos

greentea disse...

andamos todos a precisar de uma Flauta Mágica!
ou de ouvir a Mria João Pires
ou o Laginha
ou um qualquer outro que nos faça extravazar e partirmos para além de nós, para outra dimensão que não a do dia a dia das filas e do trabalho , do jantar para fazer e da roupa para lavar.
Um beijo pelo texto

Melões Melodia disse...

Greentea - sim, estes momenos sao muito especiais.
beijo

Fernando Vasconcelos disse...

Beethoven não te convence (e desculpa o tu) e eu que estava a gostar de ler :-). Bem ninguém é perfeito ! ;-)

Melões Melodia disse...

Fernando - Estas a vontada para me tratares por tu.
Sabes, nao digo que nao gosto de beethoven, mas nao me enche as medidas como , por exemplo, Bach.
Abraco