terça-feira, 11 de março de 2008

Onze de Março

Passaram quatro anos. Quatro anos desde aquele amanhecer em que, de repente, a vida se quebrou, incapaz de suportar a dimensão de uma barbárie tão desusada.

Acordei antes do tempo, com a casa a tremer e o ruído das janelas. Pensei ser um sismo, mas depois do banho, quando comecei a ouvir as sirenes e vi como ambulâncias e carros de polícia desciam a Alfonso XII ou o Paseo del Prado, dei-me conta que algo mais sério se tinha passado.

Saí de casa e a cidade estava estranhamente calma e silenciosa. As ruas estavam desertas, a manhã fria.

Chegando ao escritório recebo o primeiro de dezenas de telefonemas. Fiquei a saber pelo meu pai o que se tinha passado, ali, a quinhentos metros de minha casa. Foi esse ruído que me acordou, o ruído da matança indiscriminada de quase duzentos inocentes que haviam madrugado para ir trabalhar. Duzentas pessoas que haviam embarcado em quatro combóios suburbanos, quase todas humildes, muitas imigrantes, todas inocentes.

Senti-me ferido. Madrid era uma cidade ferida e nessa cidade que tão bem me acolhera, também eu me sentia ferido.

Podia falar das angústias dos que não chegavam ao trabalho, dos telefones que não funcionavam, dos olhares assustados e da profunda tristeza. Mas não.

Este acto cobarde de meia dúzia, mostrou-me que para um acto mau, há milhares de actos bons.

As pessoas desciam ao lugar dos acidentes e não exitavam em rasgar as suas camisolas e casacos para parar o sangue que corria nesta Madrid ferida. Traziam de casa cobertores para aquecer aqueles que se esvaiam em sangue na manhã fria. Os cafés da zona ofereciam água, comida ou um chá quente aos feridos e aos que os ajudavam, incansáveis.

Por toda a cidade, filas gigantescas de anónimos que queriam dar sangue para mitigar a perda de sangue da cidade atacada.

Madrid, a cidade sempre em festa, estava silenciosa, triste, ferida na alma e no orgulho. A cidade sempre recebera bem e recebia este prémio. Mas mais do que nunca, a cidade da “fiesta” vestia-se de humanismo. Uma cidade viva, desinteressada, caridosa, uma cidade de amor.

Uma cidade que respondeu com amor a um ataque de ódio.

Juntei-me a esta cidade que não era minha. Vivi os ataques como não vivi nada na vida. Senti-me atacado, impotente mas rodeado de amor. Calei nos momentos de silêncio, e nunca estes haviam tido tanto significado.

Marchei pela paz num dia de chuva, eu, aquele que sempre evitara manifestações.

Uma marcha silenciosa com milhares de pessoas. Com todos os partidos políticos, com o príncipe herdeiro, com todos os chefes religiosos e com largos milhares de anónimos que desafiavam a chuva copiosa e faziam uma massa humana desde a Plaza Colón até a Atocha.

E não se sabe de onde, após uma marcha lenta e silenciosa sob uma chuva forte que caía sobre a multidão sem guarda chuvas, ouve-se a frase. Uma frase simples, mas que me mostrou o poder que uma frase dita em coro por uma multidão pode ter.

“No está llovendo, Madrid, está llorando!”

As lágrimas estariam disfarçadas pela chuva, a multidão, a dor, a chuva, as lágrimas, o amor, a cidade eram só um.

Um apelo à vida, para a vida e pela vida.

Porque nesse dia, para mim, Madrid era o mundo, a vida e o amor.

12 comentários:

CITRAG disse...

Tocante...

geocrusoe disse...

Um acto selvagem, mas cobarde, com o qual o mundo ainda são aprendeu a lidar e a saber controlar. temo que apenas tenhamos visto a ponta do iceberg, que muitas mais vidas sejam levadas e não haja chuva que esconda as lágrimas, mas espero que um dia o Homem seja capaz de na generalidade respeitar os direitos do Homem e logo, a vida humana com dignidade.

Ck in UK disse...

....
pois

chiqui disse...

Gosto do Meloes quando soa assim. Desacomodado, incomodado, irado ate..Lutador, sempre!! A fazer lindos apelos a vida, a liberdade!!
gosto simplesmente de ti, michael :)

calamity jane disse...

Depois da Chiqui, nada me resta a acrescentar... só que, enquanto existirem seres como tu, podemos manter a esperança no amor e no amanhã

Ms D. disse...

"Uma cidade que respondeu com amor a um ataque de ódio."

Por isso ainda acredito na humanidade.

*

Mocho Falante disse...

é o horror da cobardia humana no seu expoente máximo, Madrid, uma cidade que muito quero e que muito estou ligado por diversas razões não merecia tal barbárie, tal como tu nesse dia também eu chorei

abraços

living in london disse...

oi!
o teu outro blog de contos é muito interessante.
os contos que já li são cheios de sentimento.
serão autoretratos?
beijos

Melões Melodia disse...

A todos - sei que todos sentimos isto de forma semelhante e que este tipo de ataques vai para alem dos nossos valores, principios e razao.
Porque como todos os que estiveram para ajudar, fazemos parte da maioria que sao humanos. Infelizmente, as vezes precisamos de sianais destes, para sair do turpor em que o quotidiano nos enterra.
Beijos e abracos

Living in London - Obrigado. uns sao, outros nao. na sua maioria sao reflexoes e historias ouvidas por ai.
beijos

handsoftime disse...

... sem palavras!!

Fernando Vasconcelos disse...

Curiosamente estive em Madrid anteontem no dia 11. Só me apercebi disso hoje ao ler o teu post. E na verdade ainda hoje é como dizes. Excelente post.

Melões Melodia disse...

Obrigado Fernando. Pois eu nunca me esqueco, talvez porque la estivesse nesse dia.
Um abraco