sábado, 15 de março de 2008

Os Olvidados II

Portugal, como muitos países europeus, teve o seu periodo de ouro.

Com o ouro vindo do Brasil e o cacau de África, com as rotas das especiarias, Portugal florescia e as cidades portuguesas rivalizavam com as grandes cidades europeias em termos de arte.

Portugal era uma sociedade sedenta de arte e com vontade de mostrar ao mundo a sua riqueza. Esta riqueza atraiu ao império músicos, arquitectos, compositores...

Escolas floresciam pelo país, como a de Lisboa, de Vila Viçosa, de Coimbra, de Évora. Todas as catedrais tinham um mestre capela e a construção de órgãos fazia-se ver por todo o país.

Infelizmente, um violento terramoto veio acabar com este período de beleza e estilo e muitas obras se perderam. Os grandes polifonistas portugueses foram esquecidos, parte das obras perdidas, outras escondidas e enterradas em arquivos que vão desde as catedrais do país até arquivos nacionais como a Torre do Tombo.

Lentamente, estas obras vão sendo resgatadas e as pérolas da nossa música vão-se encontrando por aí. Estranhamente, é mais fácil encontrar registos sob a forma de gravações ou partituras neste país onde vivo do que no meu país.

Deixo-vos aqui um motete de Diogo Dias Melgás, da escola de Évora. Apesar de ser um dos grandes polifonistas portugueses, tenho a certeza que se perguntar pelo nosso país o nome de um, poucos me saberão dizer um nome que seja.

A obra de Melgás, sobre a qual há muita informação, é de primeira qualidade e denota já uma transição da música polifónica dita antiga para o barroco.

O motete que deixo é uma obra prima. O seu famoso (mas só para alguns) Salve Regina. Um texto recriado ao milímetro onde Melgás fugiu às tradicionais longas sequências harmónicas da época para alongar a obra, mas deu um cuidado cirúrgico a cada palavra. Destas destaco a invocação inicial, os pedidos de súplica, repetindo as palavras e harmonias, a fabulosa plasticidade do clamamus e do suspiramos, e o pungente choro do gementes et flentes que se afunda num lacrymarum vale. O suplicante oculos ad nos converte, a bondade e piedade do clemens e pia e a doçura do dulcis.

E quando ouço um motete desta qualidade, tão bem interpretado, mas acima de tudo tão descritivo, tão emotivo, tão polifónico mas já tão barroco, me pergunto quantas obras maestras estão ainda por descobrir e quantos outros Melgás estão por ser resgatados do esquecimento.



12 comentários:

Diabba disse...

Eu nem sequer sei o que é um polifonista.

Mas vou já descobrir.

beijo d'enxofre

Nota: e vou ouvir um bocadinho da música.

Diabba disse...

Ok, já cá estou.

Polifonia = processo de composição musical em que se casam várias melodias, que se desenvolvem independentemente, mas dentro da mesma tonalidade.

beijo d'enxofre

Melões Melodia disse...

Diabba - ouvir musica nao te faz mal nenhum. Quanto a definicao de polifonia que me das, bem, ha mais a dizer. Polifonia sera uma estrutura em que duas ou mais melodias se desenvolvem independentemente, mas com igual peso dentro da peca (em oposicao a monofonia ou melodia acompanhada, como e o casa do coral). Mas o que realmente interessa e que usufruas do primeiro motete portugues que ouves.
Beijos

AEnima disse...

chuiff...só ouço 30 seg...

Melões Melodia disse...

Aenima, pois, a diabba ja me disse... nao sei como resolver o problema!
Eu ouco tudo!
Tenho que descobrir como solucionar isto.
Beijos

geocrusoe disse...

Pois também não consigo ouvir mais do que 30'', mas julgo que isso é uma medida de segurança anti-pirataria na net, onde só quem coloca pode ouvir tudo, por ser o proprietário do original (pelo menos existem discos e aplicações assim).
Para contornar o problema fui ver se nos meus discos o Melgás lá constava, mas dos polifonistas portugueses (apenas 1 cd) estou limitado a Duarte Lôbo e Filipe de Magalhães, também editados no reino unido.
Gostei da informação de que se nota na obra a transição para o barroco, pois fora informado que o auge da polifonia em portugal, embora de qualidade, era tardia face à europa e pouco inovadora, mas isso talvez seja porque os lusitanos nunca valorizam o que têm.
ainda hoje ouvi motetos de bach e recordo-me que na época poucos lhe reconheciam o seu valor e contributo para a evolucção da música e ele é posterior a vários importantes polifonistas lusos.

Fernando Vasconcelos disse...

Penso que se se registarem poderão ouvir tudo. Em alternativa a solução é colocar a capa com a música em fundo fazer um vídeo e colocar no You Tube. Excelente motete e concordo contigo que poucos conhecem. Eu por exemplo desde já anuncio a minha total ignorância. Não tinha pensado em falar de música renascentista mas fizeste-me mudar de opinião. No entanto preciso de aprender muito mais sobre ela antes disso ... Por acaso é curioso que apesar da sua polifonia tem como dizes já muito de barroco. Suponho que se deve á clareza das vozes que permitem uma leitura clara de cada linha melódica, mas não sei já estou a inventar ...

Melões Melodia disse...

Geocrusoe - creio que tens razao. sim Bach (o meu favorito) e sem duvida posterior a Melgas. Recomendo-te vivamente o CD acima. Um abraco

Fernando - nao estou registado no youtube e respeito a proteccao do CD (visto esta ser a causa dos 30 segundos de exemplo). procurei o motete de que falo, mas nao o encontro no youtube. quanto ao barroco, nao e tanto devido a clareza das vozes que falo, mas as mudancas harmonicas que ja nao se ficam por pendulos e cadencias I-IV-V-I ou I-II-V-I ou ainda sequencias a terceira.
Entram formas mais elaboradas, como a seguencia do gementes et flentes, mas acima de tudo o estilismo descritivo da letra.
Um abraco.

disse...

Melanito,
estamos sempre a aprender! Nunca tinha ouvido dois terços das palavras que utilizaste no teu texto!!! vou tentar ler mais sobre o assunto e ouvir, claro!
Bj
:)

Melões Melodia disse...

Be - Fico muito contente por passar um bocadinho da minha experiencia.
Beijocas

Mocho Falante disse...

Gosto imenso destes teus posts que nos põem a pensar e na verdade a descobrir contigo que temos aqui tão perto e que tão pouco valor damos

abraços

Rm disse...

EXELENTE MÚSICA!

realmente, tinhamos compositores exelentes....ainda temos....mas mudam-se os tempos mudam-se as vontades!

D. Pedro de Cristo

conheces?

está no meu blog, dedicado a ti :)