quinta-feira, 6 de março de 2008

Pausa


Este texto adivinha-se longo. Tão longo como a vida que desejaria ter. Mas é um texto de um Melões cansado. Cansado, desanimado, triste.

É o meu texto, sou eu hoje, ontem e amanhã. Um guerreiro que perde batalhas, que quer ganhar a guerra, mas, no fundo, sabe que não é possível.

Gostava de saber quais são as duas forças que comandam o guerreiro. Uma força demasiado destruidora e outra que o resgata nos momentos de profunda angústia. Será Deus? Quem me resgata? E se sim, quem me condena?

Não sei se acredito em Deus, já o disse aqui. A minha razão diz-me para não acreditar, mas a minha emoção acredita profundamente. Como diz o texto das pegadas na areia, creio que nos momentos difíceis, há alguém que nos leva ao colo e quando olhamos para trás e vemos um par de pegadas, pensamos que Deus nos abandonou.

Hoje, outra vez, tudo recomeçou, mais uma luta contra o tempo, pela vida. Não é o mesmo mal que me afligiu durante o longo Inverno. É outro... que poderá ter o mesmo destino fatal que já fui capaz de tornear duas vezes.

Duas vezes me disseram que não tinha futuro, duas vezes provei que tinha. Hoje, uma terceira vez... manhã passada no hospital, o mesmo onde estão as minhas crianças, mas porque pura e simplemente perdi momentaneamente a visão.

Voltaram os exames e mais exames, angiografias, TACs, e lá está de novo a força maligna que me quer arrancar deste mundo, agora com outra forma, com outro nome.
O meu corpo voltou a ser a bomba relógio que já foi no passado e eu tenho de descobrir a forma de a desactivar antes da detonação.

Bolas, dizem que cada homem só carrega a cruz que consegue suportar. Serei eu um homem forte? Até quando? Não, não quero desistir.

Afinal nem tudo é mau. Sei que o meu sangue curou ratos, agora é esperar que cure homens. Soube-o hoje depois de saber da nova bomba relógio, desta vez no meu cérebro, pronta a estourar.

Depois dos exames, fui ver as crianças... parecia que adivinhavam. Provavelmente o meu olhar traía-me e mostrava o que me ia na alma. Deram-me os mimos que normalmente lhes dou, e ouvi a frase mais bela que poderia imaginar. Uma pergunta. Pergunta inocente como só um menino de quatro anos pode fazer. Um menino órfão e sem futuro. O mais calado e tímido de todos os meninos. Hoje não teve medo. Viu-me e correu até a mim. Abraçou-me a perna. Peguei nele ao colo e deu-me um beijo. Cola-me a boca pequenina ao ouvido e diz em segredo: “Do you want to be my father?”

O meu coração que ficara vazio, encheu-se e aqueceu. Os meus olhos, os que me levaram a descobrir a terceira bomba brilharam e fiquei sem palavras.

Apeteceu-me agarrar nele, cobri-lo de beijos e trazê-lo para casa. Sussurrei-lhe “I’m your father” e senti-me pai daquele menino.

Saí do hospital alegre e triste, cansado, destruído, mas motivado para lutar.

Dizem que não há duas sem três mas também dizem que à terceira é de vez. Não sei em que acreditar e procuro forças para mais uma dura luta contra o tempo.

E tudo porque um dia um olho deixou de ver. E tudo porque a minha vida parece destinada a ser vivida no fio da navalha, uma vida de presente, sem futuro, mas um presente que se alarga durante anos até não sei onde.

Será pedir muito, pedir uma trégua? Quase não tenho tempo de me recuperar de uma luta e vem outra.

Qual a finalidade de tudo isto? Qual a finalidade de ter a constante recordação de que a vida é tão efémera? As provas passadas não serão suficientes? O que vejo todos os dias não chega?
E onde posso eu ir buscar mais forças?

Acredito que não sou má pessoa, acredito no lado bom de toda a gente, mesmo dos que cometem as maiores atrocidades, respeito todos por igual e da mesma forma ou ainda mais do que me respeito a mim.

Então porquê tudo isto? Porquê uma vida cheia das mais fortes emoções?

Às vezes penso que ter uma vida mediana, mediocre é tão mais fácil... levantar, trabalhar, jantar, ver televisão, dormir... tão mais fácil... gostava tanto de me contentar com uma vida assim, sem dores de cabeça, sem as dores do mundo, sem os meninos do hospital, sem discriminados, sem políticos, sem dinheiro, sem paixões,... mas não será isto uma vida sem vida?

Que sentido teria viver assim? Nenhum.

Não sei se deva fazer uma pausa ou não. Dar-me tempo, o tempo que posso não ter, para pensar. Para pensar em mim, para pensar na vida, na minha vida.

Para escrever, para compor, para dormir... para mim e só para mim. Tenho-me negligenciado, posto em segundo plano e a vida não aceita adiamentos, porque o tempo escapa-se e não volta atrás.

Por isso não sei se farei uma pausa neste espaço, se me ausentarei até me reencontrar e saber quem é o novo eu.

Porque ainda há esperança... como diz o grande livro, o livro dos cinquenta livros, toda a carne é como a erva e toda a sua glória é como a flor da erva. Seca-se a erva e cai a flor. Vede como o agricultor espera pacientemente o fruto precioso da terra até receber a chuva da manhã e da noite. Mostra-me o meu fim, para saber quanto sou frágil. Olha, os dias que me deste são um palmo apenas e a minha duração é um nada. Sim, todo o homem não passa de um vazio, todo o homem é apenas aparência. O homem vai e vem como sempre e labuta por um nada, pois nós não temos aqui a nossa pátria definitiva. Morte, onde está a tua vitória? Morte, onde está o teu aguilhão?

Respeito a morte, não a temo, como respeito e admiro a vida... porque não há muitas vidas. Há uma e uma só e todos partilhamos um pouco dela. E não é por uma estrela se apagar, que deixa de haver estrelas no céu.

Tudo faz sentido, nada faz sentido.

O que sei é que ainda tenho muitas batalhas pela frente. E uma vez mais, o mote da minha vida ganha força.
Sim,tudo é possível ainda que nos digam que não.