terça-feira, 15 de abril de 2008

Perda

Por norma não sabemos perder.
Quando perdemos alguém definitivamente ou nos despedimos de alguém que acreditamos não mais voltar a encontrar, aperta-se-nos o coração e late fininho como se o aperto não o deixasse de rédea solta de forma a mostrar a tristeza que nos vai dentro.
E esta sensação de perda não se tem só com pessoas, mas também com animais, coisas, lugares ou sensações.
Felizmente a nossa forma de ser, o nosso intelecto, leva-nos a sofrer unicamente com as perdas definitivas, normalmente a morte, ou que julgamos ser definitivas, como o regresso de uma viagem de sonho que sabemos que não se repetirá, o fim de uma etapa da nassa vida que vivêmos a fundo...
Sabemos que não vale a pena repetir uma viagem de sonho porque as sensações passadas não voltam mais.
Mas, como dizia eu, felizmente temos uma parca percepção do que perdemos, e às vezes, muitas vezes, olhamos pata trás e perguntamo-nos o que será feito deste amigo, ou daquele, dos grandes amigos de infância ou de férias que foram ficando pelo caminho, com quem brincávamos todos os dias e que não reconheceremos se um dia nos cruzarmos na rua.
Podemos dizer que os amigos de infância são diferentes e que as crianças não sentem da mesma forma. Não, não é verdade. As crianças sentem, mas acreditam que têm a eternidade pela frente e por isso não há perdas. Protegem assim os seus pequenos corações das agruras e amarguras da perda.
Acima de tudo, estes nossos amigos de infância eram tão importantes como os nossos amigos de hoje, mas desvaneceram-se e tornaram-se numa recordação agradável.
Quando olhamos para as fotografias desses tempos, sorrimos. Lembramo-nos das travessuras, das brincadeiras, da amizade e não da perda.
Então porque havemos de sofrer com as perdas quando temos consciência delas? Quando as sabemos definitivas?
Porque temos de sofrer quando sabemos que um amigo partiu, mesmo quando não o vemos há anos e sabemos que, provavelmente, nunca mais o voltaríamos a ver?
Uns amigos vão, outros vêm.
Seguiremos perdendo inconscientemente, como inconscientemente seguiremos ganhando.
Uma ou outra vez daremos conta, sentir-nos-emos sós e tristes, até estes não serem mais do que alegres recordações como os que foram desaparecendo.
Porque não perdemos. O que estes e outros amigos nos deram, ficou, somos nós nos nossos personalidade, comportamento, alegria. Somos nós.
E se pensamos que já nada recebemos dos que partiram ou desapareceram, enganamo-nos.
Recebemos recordações vindas do nada, que se transformam num sorriso e nos fazem os dias melhores.

11 comentários:

Diabba disse...

O que nos faz sofrer é o sentido da palavra "definitivo". É o sabermos que um encontro fortuito ao virar da esquina, ou até num local para nós impensável, é memo impossível de acontecer.

O "quem sabe se um dia destes o vejo" perde-se. Essa pequena possibilidade é-nos retirada.

Eu sei do que falo.

A imagem que ilustra este post é das mais tristes que já algum dia vi.

beijo d'enxofre

Melões Melodia disse...

Diabba - o definitivo e o que realmente nos faz sofrer. A imagem e de um pintor irlandes MacCammon, de 1912.
Beijos

Lua disse...

Acho que é o definitivo também.

Eu sou estranha. Acho que sou uma criança ainda porque tento guardar dentro de mim a sensação de que a pessoa está ali e sempre vai estar. Acordo com a saudade e depois... uff, depois custa-me imenso.

Já tinha visto a imagem antes. Triste, triste.

125_azul disse...

O definitivo torna a saudade infinitamente maior. Só nos aconchega a lembrança do que foi bom enquanto passávamos um pelo outro...
Abraço apertadinho

calamity jane disse...

... e sabes que mais? Acredito que essas recordações não vêm do nada. Nada vem do nada. E penso que tu também sabes que é assim, caso contrário não escreverias "recebemos". O q recebemos é uma dádiva, certo?
Sim, q imagem triste. Mas um post cintilante

amigona avó e a neta princesa disse...

Vim deixar um abraço...

Melões Melodia disse...

Lua - eu sempre senti essa sensacao de que falas, e mais do que tristeza, sinto no momento uma calma nostalgia e muita saudade.
Vemo-nos na sexta?
Beijocas.

Azulinha - mas sao essas recordacoes o que vale a pena - alem disso, acho que fica sempre um pouco do que partiu em nos.
Beijos

Calamity - nao, nao vem do nada! :-)
Beijocas

Amigona - obrigado.
Um abraco tambem para ti.

Mocho Falante disse...

Ora viva

nem imaginas o sentido que me faz este teu texto, é que é mesmo assim que eu vejo a coisa e é mesmo assim que se passa comigo.

Um grande abraço

amigona avó e a neta princesa disse...

Hoje em Portugal estamos em festa! Beijos para ti meu amigo...viva Abril!

Maçã com Canela disse...

Não gosto muito de pensar neste tema.. a verdade é que é uma coisa que ninguém aceita bem.. piorando quando a perda vem de alguém ou algo que nos seja muito querido..
Trabalho com crianças e esse é sempre um tema doloroso... uma perda de um familiar...ou até de um animal de estimação.. é tão dificil explicar... e como explicar se nem nós proprios o conseguimos perceber...

Um tema que me toca profundamente...

Anónimo disse...

Perda é quando abro este blog e não tenho nada de novo para ler.Mesmo assim não deixo de vir até aqui todos os dias.Espero que esteja tudo bem, beijinhos da Fifi.
Conforme os anos vão passando as nossas perdas vão aumentando e vamos ficando mais apaticos e conformados com este tipo de coisas.Perda era também quando tinha que deixar os meus filhos no infantário,era uma dor infinita a maior da minha vida principalmente quando eram bébés,só uma mãe pode avaliar,e quando eles crescem e partem para a sua própria vida e não deixam mais espaço para nós,mas acho que apesar de tudo estamos sempre prontas a abrir o nosso colo quando eles precisam.Acho que quando uma mãe morre e deixa de vez os seus filhos,deve partir com uma mágua infinita, principalmente quando esses filhos são deficientes é horrivel.Amanhã é dia da mãe uma saudação para todas as mães do mundo.VIVA A MÂE