quinta-feira, 10 de abril de 2008

Ubi Caritas – Maurice Duruflé

É a música do meu post anterior.


Comentários sobre a música (há quem a veja escura ou quem goste do motete) levaram-me a escrever sobre este hino ao amor que vejo apropriado ao conteúdo do post anterior.

Para Maurice Durufllé, nascido em 1902, a composição era um processo lento, laborioso que envolvia revisões constantes e um impecável detalhe: Em seis anos, só dez trabalhos foram publicados, um menos que os publicados pelo seu professor Paul Dukas, igualmente um perfeccionista fastidioso, e catorze em toda a sua vida (o obra e curta, por isso, se puderem, vale a pena ouvir tudo).


Ao contrário do seu amigo Olivier Messiaen, Duruflé evitou a experimentação avant-garde que resultaria no caso do primeiro numa nova forma de linguagem (assunto de um futuro post), preferindo a introspecção, dedicando-se às simples linhas melódicas que lhe serviram de inspiração, e seguindo as tradições dos grandes franceses do fim do romântico – Debussy, Ravel, Fauré e Dukas.


Duruflé é conhecido por sentir-se incapaz de adicionar algo novo ao reportório de piano, aos quartetos de cordas, e era aterrorizado pela ideia de compor lieds depois dos brilhantes exemplos de Schubert, Fauré ou Debussy. Assim, Duruflé dedicou-se aos seus dois meios favoritos, orquestra e órgão, juntando ambos no seu trabalho mais famoso, o Requiem de 1947.

As composições de Duruflé reflectem uma extraordinária fusão de elementos dispares – as linhas melódicas simples, a modalidade liturgica assente nos modos gregorianos, o contraponto subtil, e as harmonias sensuais e refinadas da musica francesa do início do século XX.

O belíssimo motete faz parte dos quatro motetes sobre temas gregorianos publicados em 1960. Nestes motetes, e no Ubi Caritas especificamente, Duruflé mostra o seu génio particular na invocação dos elementos espirituais da melodia gregoriana num contexto polifónico.

Descobri estes motetes, já conhecia o Requiem, onde as linhas simples dos temas gregorianos se misturam com um órgão com registação forte (recorrendo regularmente às palhetas) e metais, invocando uma França assolada pela guerra.

A descoberta dos motetes foi uma agradável surpresa. Primeiro, porque comecei a minha formação musical num coro de Pueri Cantores, com pouco mais de cinco anos, em que cantávamos exclusivamente gregoriano, no qual se encontra o hino que empresta a letra e a melodia ao motete.

Foi há mais de dez anos, no meu último ano do curso de direcção. Tinha de apresentar os motetes em exame. Estudei-os, ensaiei-os ao coro da escola e apresentei-os no meu exame de gradução.

Dos quatro, o Ubi Caritas é o meu preferido, mas nem por isso melhor do que os outros três (Tota Pulchra – para vozes femininas; Tu es Petrus; Tantum Ergo).

Fascina-me a letra, a serenidade, um verdadeiro hino ao amor, porque o amor não é paixão, não é histeria, é dádiva, caridade, reflexão e muita paz.

Ubi Caritas et Amor, Deus ibi est
Congregavit nos in unum Christi amor
Exultemus et in ipso jucundemur.
Timeamus et amemus Deum vivum.
Et excorde diligamus nos sincero. Amen.


(Onde está o amor e a caridade, está Deus.
O amor de Cristo congregou-nos num só.
Exultemos e alegremo-nos no amor,
Temamos e amemos o Deus vivo,
E que esse seja o amor de um coração puro. Amen.)



E como na carta de São Paulo, a caridade é o amor, e a felicidade e a serenidade veio desse amor sereno e maduro tão bem desenhado por Duruflé. E por isto é a minha música do post anterior, porque como diz São Paulo (e aindo o li há pouco num dos vizinhos do lado):
“Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor; mas a maior de todas é o amor.”

6 comentários:

geocrusoe disse...

não conhecia o compositor, julguei-o mais antigo, mas agora compreendo, tendo como fonte o canto gregoriano e os modos litúrgicos não me podia soar a moderno, ao contrário do Messiaen. mas lá por isso, não o achei menos belo e depois conhecendo a letra e o enquadramento que fizestes da carta da caridade de S. Paulo ainda parece mais belo.
Além disso, não tenho nada contra música com raízes e técnicas antigas de composição efectuadas no período contemporâneo, desde de que sejam belas, venham elas. Não conhecia motetos no século XX, mas ainda tenho muito por descobrir.

Fernando Vasconcelos disse...

Também não conhecia e também confesso que gostei. Já aprendi mais uma série de coisas hoje ...

Melões Melodia disse...

Geocrusoe - Sabes, o estranho e que as tecnicas de composicao sao modernas, numa analise detalhada, Durufle usa e abusa das dissonancias, mas consegue uma sonoridade que nao desvirtua as raizes gregorianas, e e nisso que esta o caracter do genio.
Abraco.

Fernando - fico feliz. E um compositor que vale a pena conhecer.
Abraco.

Diabba disse...

É que parece mesmo, a música que o Conde Drácula deve ouvir, enquanto morde, amorosamente, uns pescocitos! Que medo!

beijo d'enxofre (atirado de longe e com tampões nos ouvidos)

Melões Melodia disse...

Diabba - pois se a ouve e porque tem muito bom gosto! ;)
Beijos

Lua disse...

Gostei imenso.

Aprendo imenso contigo. Acho que darias um belo professor em muitas áreas, não só académicas como de vida também.