quinta-feira, 8 de maio de 2008

Bibo no Aozora

Lembro-me bem.

Foi em 1994 que conheci este compositor.

Fiquei fascinado pela qualidade da música, pela expressividade, pela alma profunda. Desde aí Sakamoto passou a ser um nome de referência na minha biblioteca musical. Fiz viagens para o ouvir, para ver o génio da música moderna. Abri os ouvidos a outros estilos, outras estéticas, construídos por quem sabe.

Apaixonei-me por esta música, utilizada mais tarde na banda sonora de Babel. Quanto ao título, não sei a que se refere, o que quer dizer.

Mas esta música tem um significado especial para mim.

É a minha luta, a luta do guerreiro que se estende num doce ostinato infinito do piano e das cordas, é o bater de um coração frágil e magoado e lá no meio, bem lá no meio, uma tentativa desesperada de revolta, de gritar: estou aqui! enquanto o coração continua a latir devagarinho no ostinato da vida que passa sem se dar conta de que nenhum dos que a compõem está sempre em sintonia com os sentimentos mudos e a alma apagada.

É o grito em que dizemos: Preciso de ti, dá-me a tua mão, leva-me contigo. Copiamos o ostinato do mundo, a ver se nele nos podemos rever ou sobreviver. Não conseguimos. Gritamos, lutamos, tomamos o caminho do lado, marcamos a nossa posição de indivíduos e por isso únicos. O mundo não se importa connosco. Desistimos. Regressamos ao nosso caminho, e então, de mansinho, somos levados por este mundo infinito, obstinado em não parar, com uma cor ali, outra acolá.

E, às vezes, damo-nos conta que este mundo toca a nossa melodia, aí deixamo-nos relaxar, extasiar, até que, quando mundo e indivíduo se encontram, acaba o ostinato, vai cedendo, cedendo, desaparecendo e aparecendo, até que tudo se desvanece.

Espero que gostem e apreciem uma que é, sem dúvida, uma das músicas da minha vida.

1 comentário:

geocrusoe disse...

"O mundo não se importa connosco"... passei a manhã a pensar nisso, a reflectir se vale a pena lutar neste ostinato da vida onde, frequentemente, não me sinto em sintonia com um mundo que me envolve.
Não conhecia Sakamoto, embora tenha visto Babel, mas compreendi o texto, o grito, mas não encontrei ainda a minha melodia, duvido que alguma vez a encontre, mesmo assim, tenho cada vez mais sede de viver.
Afinal, todos temos altos e baixos, mas vale a pena lutar e há sempre alguma mão estendida, muitas vezes a que menos esperamos, mesmo assim continuo aqui.