sábado, 24 de maio de 2008

Queixumes? Não, obrigado!




Não quero queixumes. Não quero mais emails sobre o preço da gasolina, o lucro dos bancos e das empresas, impostos, comissões, fumo (dentro e fora de aviões), inflação, crime... não quero!

Quero lá saber que Franco queria invadir Portugal e que o país faz tudo mal.

Uma crise como esta serve, acima de tudo, para nos pôr no nosso sítio.

A economia mundial está à beira do colapso. Não há comida, a crise energética acerca-se a passos largos. O mundo está em guerra consigo, e nós, passivamente, vemos a Natureza a destruir (ou a construir).

No entanto temos a nossa comida na mesa, roupa lavada, electricidade em casa (que nos deixa utilizar este fabuloso meio chamado “blogosfera”). Viajamos mais do que nunca. Temos armários cheios de roupa (de marca ou não) de algodão colhido na Índia por gente que vive em condições muito piores do que as dos animais que nos fazem companhia. Quando a vestimos não nos lembramos que do lado de lá, no fim da cadeia, estão crianças, mulheres e homens que ganham por dia o que nás gastamos num inútil café.

Pagamos por isso. “Alimentamos essa ideia”.

Dizemo-nos “verdes”, quando passamos horas a ver televisão, ou quando damos um passeio de carro, quando podemos simplesmente dar uma agradável volta ao quarteirão. Compramos livros, não os partilhamos. Não damos a nossa roupa aos mais novos, como outrora, compramos. E quando o primeiro borboto aparece, lixo com ela.

Então de que é que nos queixamos? De desperdiçar recursos que são finitos e que agora cobram factura?

Muito do que somos depende de onde nascemos.

Se o acaso me tivesse feito nascer no interior da Índia, na China mais remota, numa favela do Rio, na bela e sofrida África, berço do Homem, não estava aqui a escrever. Provavelmente nem sequer estaria aqui de todo.

Por isso não se queixem. Os queixumes só servem para nos deprimir. Não têm valor construtivo. Não quero arruinar o meu bem-estar, os meus dias bons.

E isto não é ser egoísta. É ser humano. Tenho consciência do que faço e do que está por trás. Tive sorte. Nasci num país pequeno, afortunado, com a mania que é grande, mas mesquinho e invejoso. Um país fechado nos seus defeitos com uma clara arrogância e falsa humildade.

E tudo isto porque hoje fui ver os meus meninos. Não ia há algum tempo. Mas saúde recomposta, ânimos levantados e cá vai disto.

Ligou-me ontem o médico deles (que sabia porque andava afastado) a pedir ajuda para dar os almoços.

Lá fui lampeiro e feliz porque os meus meninos me fazem feliz e quando lá cheguei, uma festa. Uma festa para mim.

Bolo de chocolate e chá. E dez crianças que não têm a minha sorte, sem pais, sem futuro (talvez porque tenham nascido em África) e , acima de tudo, sem queixas.

Dei-me conta de que enquanto estas crianças estão ali a morrer, celebram a minha vida. A minha não, a delas.

Com os desenhos que me deram, coloridos, todos na rua, em jardins que só vêem da janela, bem guardados debaixo do braço, regresso a casa. Nunca aprendo tanto como com as crianças e as crianças não se queixam. E são muito mais felizes.

The unanswered question - Charles Ives (1874-1954)

22 comentários:

Diabba disse...

:-)

Não me revejo em nada, no teu texto.

Até as minhas roupas e as da diabbita vão para 2ªs mãos, e a diabbita tb recebe roupa de outras mãos, de outra menina maior que ela.

Na verdade não me revejo no espírito de desgraçadinho que teima em morar neste jardim.

beijo d'enxofre

Diabba disse...

Fui a primeira??
Oh Geo, andas distraído?

Melões Melodia disse...

Diabba - nao digo que somos todos assim, mas ja estou farto de abrir a caixa de emails e ve-la cheia de queixumes de quem tem a barriga cheia. tens de concordar que meio pais e assim... e irrita-me!
Beijos.

Teresa disse...

Não sabia que conhecias Charles Ives (grande estúpida, o músico és tu, só podias conhecer!). OBRIGADA por me teres feito finalmente chorar, desde ontem à noite. Precisava tanto...

Melões Melodia disse...

Teresa, vim agora da tua casa. Tinhas andado por aqui.
E tambem nestes momentos que todos os queixumes perdem importancia. E e nestes momentos que deixamos as perguntas sem resposta, como tao bem pintou Charles Ives.
Beijo grande.

Girafa cor de rosa disse...

Este teu post está muito bom! Gostei imenso. Eu dou as minhas roupas e das minhas crianças (qdo deixam de servir), requisito livros em bibliotecas...tento pensar nos outros, mas sei que sou bem mais consumista que qualquer pessoa que esteja noutras condições. Bjs, voltarei, gostei deste teu cantinho.

Teresa disse...

Votei aqui e isto não tem nada que ver com este post. Voltei só para te dizer que gosto muito de ti. Sei que sabes. Mas é importante dizer.
Gosto mesmo tanto de ti!

Teresa disse...

P.S. É que pode sempre ser mais tarde do que pensamos...

Anónimo disse...

Que beleza de post,o pessoal das lamentações estava mesmo a precisar,eu nem abro essas porcarias.Ao mesmo tempo estou muito contente porque acho que nasceste de novo,força, a vida é bela principalmente neste cantinho apesar de tudo.Beijinhos da FIFI

Melões Melodia disse...

Girafa - Obrigado. Somos todos consumistas e nao ha como evita-lo. Nao faz sentido viver na miseria por solidariedade, So temos que ter consciencia de que somos afortunados e dar gracas por isso.
Beijos

Teresa - Sou um bocadinho duro a mostrar afectos. E sinto bem na pele que esta dificuldade em dizer o que sinto pode pecar por tardia. Nao quero deixar coisas por dizer. Tambem gosto muito de ti. Sabes disso.
Beijo grande.

FiFi - a vida e bela. E porque muito nos e dado de mao beijado, temos tempo para estes inuteis queixumes.
Beijinho.

AEnima disse...

Que murro no estomago!

Fez-me pensar... eu que só me queixo da vida ultimamente, tanto que me enervo a mim própria. Mas sei que as culpas são só minhas e não dela.

Diabbita, desculpa a franqueza mas toda a gente se revê em alguma coisa. Por mais regrado e consciente que sejamos, sempre esbanjamos em algo. É um mecanismo de escape que cedo aprendemos. Só não o faz quem não pode.

Beijinhos

geocrusoe disse...

Isto sim, um post e pêras, com uma linda mensagem e música... há muito que andava à espera deste Melão que sabia existir e que antes tantas vezes aqui surgira... força com isso, é sinal que andas no caminho certo e os meninos do hospital mostraram-te isso!

Melões Melodia disse...

Aenima - e queixar nao leva a lado nenhum. Nem sequer alivia. So aumenta as frustacoes. E sim, acho que todos, a diferentes niveis, temos os nossos defeitos.
Beijos

Geocrusoe - as vezes fechamo-nos no nosso mundinho e vemos sem ver o que esta a nossa frente.
Um abraco

Diabba disse...

Qué lá isto?? Eu num teinho defeitos!!

Olhamestes... grunfff

Deda disse...

Revejo-me em algumas coisas do post, detesto gente que se queixa o tempo todo, reciclo o máximo que posso sem abrir mão dos meus (cada vez mais raros) momentos "indulge yourself " e adoro meloar na Internet (estou a gastar energia enquanto escrevo este comentário). Beijos

Melões Melodia disse...

Diabba - olha, olha, agora que fazer-se passar pela concorrencia!

Deda - todos nos temos os nossos pequenos vicios.
Beijos

calamity jane disse...

Que bom chegar aqui hoje outra vez e voltar a sentir o que há muito não sentia. O sentimento de pertença de que falo na minha posta de hoje. Sinto-me grata, sim, grata por tudo o que tenho e por estar viva. Não me fizeste chorar (coisa estranha em mim, dada a minha natureza diluviana), mas arrepiaste-me, o que é, aliás, teu hábito.
Falas aqui de muitas coisas importantes e, para além das crianças, que são o melhor do mundo para lá de todo e qualquer lugar-comum, a questão que me tocou mais pois não páro de pensar nela é a do desperdício. Porquê? Porquê tanta coisa? Para quê tanta coisa? Tanto lixo, tanto espaço, tanta falta de respeito pela vida, pelo planeta?
Lá estou eu a esticar-me...
Olha, voltei, pronto!
Cheia de saudades. E, como a Teresa, também quero dizer-te que gosto muito de ti! E que me comoveu abrir o meu mail domingo de madrugada, quando, cheia de sono, me preparava para trabalhar e me apetecia era cair na cama a roncar e quis responder-te na hora. E só não o fiz porque a internet foi abaixo. Qd fores lá ao tasco vais perceber por que demorei mais 48 horas a fazê-lo...
Beijos

calamity jane disse...

Que bom chegar aqui hoje outra vez e voltar a sentir o que há muito não sentia. O sentimento de pertença de que falo na minha posta de hoje. Sinto-me grata, sim, grata por tudo o que tenho e por estar viva. Não me fizeste chorar (coisa estranha em mim, dada a minha natureza diluviana), mas arrepiaste-me, o que é, aliás, teu hábito.
Falas aqui de muitas coisas importantes e, para além das crianças, que são o melhor do mundo para lá de todo e qualquer lugar-comum, a questão que me tocou mais pois não páro de pensar nela é a do desperdício. Porquê? Porquê tanta coisa? Para quê tanta coisa? Tanto lixo, tanto espaço, tanta falta de respeito pela vida, pelo planeta?
Lá estou eu a esticar-me...
Olha, voltei, pronto!
Cheia de saudades. E, como a Teresa, também quero dizer-te que gosto muito de ti! E que me comoveu abrir o meu mail domingo de madrugada, quando, cheia de sono, me preparava para trabalhar e me apetecia era cair na cama a roncar e quis responder-te na hora. E só não o fiz porque a internet foi abaixo. Qd fores lá ao tasco vais perceber por que demorei mais 48 horas a fazê-lo...
Beijos

calamity jane disse...

desculpa a repetição, mas esta ligação está muito manhosa...

Afrika disse...

Meloes, conseguiste (muito bem) por por escrito algo que eu faco (muito bem) verbalmente... A mim por norma assalta-me uma vontade enorme de apertar o pescoco a alguem quando se comecam a queixar da vida! Nos, com tantas razoes para agradecer e nao fazemos mais do que queixar-nos e sermos uns ingratos... acredito sinceramente que se nada tivessemos talvez ate fossemos mais felizes. Nestas alturas bem me a memoria as historias da minha mae que nada teve durante a sua infancia e mesmo assim diz me ela que foi uma infancia feliz! E claro quanto mais nos queixamos mais infelizes somos... eu sou tou sempre grata e feliz, mais nao seja pela ida e pela familia e amigos que tenho!
Beijoka miudo.

Lua disse...

Tenho-me andado a queixar um bocadinho nestas últimas semanas. Estou doente (há muito), com trabalho até aos dentes e o espírito está de rastos. Normalmente não sou assim. Mas mesmo nada assim e irrito-me com queixumes constantes. De facto, queixo-me mais no blogue do que alguma vez me queixaria face-to-face.

Não acho mal queixarmo-nos de vez em quando. Não acho que devemos carregar as dores do mundo nos ombros como desculpa para não nos queixarmos.

Em vez disto, devemos ser activos e querer mudar as coisas. Porque isto é o que nos separa daqueles que descreves, quando muito está fora do alcance deles. Enquanto nós, os sortudos, temos tantas formas de nos voltarmos a sentir melhor.

Quanto ao materialismo referido, dou roupas velhas, compro roupas usadas. Costumava ser muito apegada a objectos, não pelo valor monetário ou funcional mas pelo valor emotivo. Não tive muito durante muitos anos da minha vida. Não necessriamente porque não me podiam dar mas porque achavam que não tinham de dar. O resultado foi um apego anormal às coisas que recebia e que conseguia adquirir por mim mesma. Eram prémios. Agora já não. Ou pelo menos tanto.

Tenho de melhorar na reciclagem. Ainda ontem estava a dizer isto ao marido. Tenho saudades de viver na Alemanha por causa disto!

Melões Melodia disse...

calamity - que bom ter-te de volta!
E estica-te o que quiseres que as palavras nao destroem o planeta e nao sao desperdicadas.
Beijo grande.

Afrika - e mesmo isso, quanto mais se tem mais nos queixamos. Esse e o grande defeito do homem, o querer cresce exponencialmente com o ter.
Beijinhos.

Lua - nao temos que carregar com os problemas do mundo, mas queixumes nao aliviam, fazem-nos concentrar so no que esta mal e tapa-nos a janelinha aberta para o que esta bem ou para as solucoes. o segredo esta mesmo em fazer, mas e muito mas dificil do que queixar.
Olha, quanto a reciclagem, aqui nao faco - e verdade, e vergonhoso mas nao faco. nao faco porque nao ha eco-pontos e porque o meu council nao a promove. Queixo-me e nao faco nada quanto a isso... mais um ponto a melhorar.
Beijos