quarta-feira, 7 de maio de 2008

Verão


Quem olha pela janela, quem sai à rua, não acredita que há tão somente um mês nevava na grande metrópole.

O Verão chegou repentinamente, sem aviso.

O casaco deixado à porta, a cidade e os parques cheios de gente, as roupas ligeiras e frescas dos turistas são recordações de que é Verão lá fora.

Mas o Verão é uma estação de extremos, não é a histeria e alegria, não é a explosão de vida que é a Primavera.

Se houve alguém que percebeu a essência desta estação, foi Vivaldi no seu famosíssimo concerto em Sol menor, parte da sua obra mais popular, As Quatro Estações.
Confesso que não sou grande apreciador do barroco italiano, ou da música italiana pós renascença. Tornou-se unicamente estética, como o barroco em si, muita superfície, muito estilismo, pouco conteúdo, pouca alma.
Nisso, para mim, não há como os alemães que, por serem mais fechados, guardam em si os sentimentos que transpiram em cada passagem da música que faziam.
Por isso ouço Bach uma e outra vez, nas melhores gravações, nos melhores concertos, em assustadores toques polifónicos ou anúncios de mau gosto, mas a música sobrevive (continuo a achar que o Air da Suite Francesa em Ré maior é uma obra prima, apesar de ser tocada e abusada), ao contrário de Vivaldi, cuja Primavera me recorda ar condicionado e me deixa os cabelos em pé.
Tal não se passa com as outras estações, mas se há estação que Vivaldi realmente entendeu, foi o Verão. O Verão, o calor, esse calor infernal que ataca brutalmente o corpo e a alma. Uma estação dramática, tensa, de canícula, mesmo infernal.
Uma estação incendiada pelo Sol, em que o lânguido pastor sofre sob os céus ardentes e espera a chegada da tempestade estival para aliviar o seu sofrimento.
A estação que desejamos todo o ano, mas que nos leva a limites incomportáveis, porque somos seres de temperaturas amenas da Primavera ou do Outono que sabemos abrigar-nos no duro e frio Inverno, mas somos colocados perante a fragilidade cada vez mais real da nossa vida como humanidade perante a violência do Verão.
E é esta atitude de dureza, incêndio, vulnerabilidade que Vivaldi soube tão bem descrever, melhor pintura que o Soneto que o inspirou.
***
Sob a dura estação, pelo Sol incendiada,
Lânguidos homem e rebanho, arde o Pino;
Liberta o cuco a voz firme e intensa,
Canta a corruíra e o pintassilgo.
O Zéfiro doce expira, mas uma disputa
É improvisada por Borea com seus vizinhos;
E lamenta o pastor, porque suspeita,
Teme feroz borrasca: é seu destino [enfrentá-la].
Toma dos membros lassos o repouso
O temor dos relâmpagos e os feros trovões;
E de repente inicia-se o tumulto furioso!
Ah! No mais o seu temor foi verdadeiro:
Troa e fulmina o céu, e grandioso [o vendaval]
Ora quebra as espigas, ora desperdiça os grãos [de trigo].





Já agora, tentem identificar as passagens do concerto com o soneto

5 comentários:

Carlota disse...

Fico contente por saber que também chegou aí.
Dá-nos outro alento, não é?...
:)

125_azul disse...

O sol é algo que vale a pena, agora que decidiste procurar o que vale e negligenciar o que não vale...
Beijinhos

lua nua disse...

vim aqui parar sem querer... gostei deste e do outro lado. e melões e melodia combina bem... sabe bem!*

lua nua disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

Gosto muito das quatro estações de Vivaldi,mas gosto mais ainda do verão e da primavera.Tenho muito que fazer beijinhos.Estou a organizar uma viagem a Viena de Austria.FIFI