sábado, 7 de junho de 2008

Fim de semana


Podia ser um fim de semana como outro qualquer. Sem planos, sentado no sofá a ler um livro, ver um bom filme acompanhado por uma chávena de chá, passear no parque e tomar uma bebida numa das muitas esplanadas desta magnífica cidade, ouvir a melhor música e com ela despertar emoções boas vindas não se sabe bem de onde. Podia ser assim. Um fim de semana como outro qualquer. Devia ser assim.

Mas a vida corre imparável. Acelera violentamente abalando os hábitos adquiridos, aqueles que são as fundações da comodidae, ou, quem sabe, da rotina que tenta apagar-nos e nos confunde e desvanece no meio da humanidade.

Os abalos vêm e arrasam as fundações, as erupções sucedem-se numa força que desperta, que move montanhas e altera caminhos.

Apesar de tudo, quando visto do espaço, este planeta continua azul e belo. Igual a si mesmo.
Não é um fim de semana como outro qualquer.

Esta tarde, destinada ao ócio, será ocupada por uma tarefa que não quero. Preparar a minha candidatura a um lugar que era meu. Rever os meus nove anos nesta casa, pô-los em papel. Recordar os bons projectos, os sucessos e os fracassos, definir o que tenho de bom, as minhas capacidades. Resumir uma carreira que se desenvolveu por si mesma numa ridícula folha de papel.

E isto tudo perde importância quando sei que amanhã a família se reúne. Encontra-se e eu não estou lá. Celebra a primeira comunhão da prima meloa. A menina que pergunta por mim todos os dias. A criança tímida, de feitio difícil, que me desarma constantemente com um sorriso aberto e honesto. Que me enche o coração quando diz aos quatro ventos que o melhor amigo é o Melão grande. Toda a família estará à volta da mesa em comunhão com a minha princesa e eu não estarei lá. Ficará triste e não tenho como explicá-lo porque o trabalho não o justifica. Nunca o fará.

Mas mesmo isto perde importância quando penso no filho do careca. Amigo de infância, de adolescência, de juventude. Amigo de hoje. O filho do careca, das festas que faz na casa de praia, da viagem empreendedora que fez à Roménia quando eu lá vivia. Dos imensos concertos em conjunto. Porque o careca morreu ontem. De repente. Sentado no seu automóvel, vítima de um AVC. O careca... apresentava-se assim e queria ser chamado assim. Completamente careca, sem pestanas, sobrancelhas, sem um único pêlo. É como sempre o conheci, careca e bem humorado.

Levava-nos para a sua oficina onde passava os seus tempos livres montando e desmontando carros e motores. Um hobby que me fascinava e surpreendia. Mas o careca morreu. Com ele morreu uma parte feliz da minha infância. A alegria, as festas na casa de praia, o hobby excêntrico de montar e desmontar carros naquela oficina cheia de carros antigos. E não estou ali para dar um abraço ao filho do careca e um beijo à mãe do filho do careca.

Um fim de semana em que devo um abraço a um amigo. Um fim de semana em que devo um beijo e um sorriso rasgado a uma amiga. Porque tudo acontece ao mesmo tempo e um papel, um estúpido papel, se intromete naquilo que realmente importa.

Podia ser um fim de semana como qualquer outro, mas cada um é singular. Quem me vê aqui, sentado à mesa do café a escrever no meu caderno de capa preta, quem me costuma ver aqui todos os sábados, pensa que é um fim de semana como qualquer outro.

Porque apesar de tudo, quando visto do espaço, este planeta continua azul e belo. Igual a si mesmo.


Ihr habt nun Traurigkeit - Ich will euch tr?ten - San Francisco Symphony - Blomstedt

11 comentários:

Diabba disse...

Fiquei de cauda murcha.

beijo de mel com enxofre

Melões Melodia disse...

Va la, arrebita a cauda. Ja terminei o que tinha de fazer... quanto ao resto, tenho pena. Ha coisas que so a presenca podem aliviar, mas se nao pode ser, nao pode ser.
Acredito que sabem que nao estou porque nao posso estar.
Beijo

geocrusoe disse...

Concordo que, pior do que problemas relacionados com o trabalho, é não podermos estar ao pé de quem gostamos... precisamente quando lá deveríamos estar. Mas tal como o planeta, a vida continua!

AEnima disse...

Tive um amigo de liceu que era e sempre foi conhecido por "Careca". Nunca mais o vi desde essa altura.

k coisas tristes nos contas, hoje que andava tão feliz, depois de uma vitória de Portugal e o aniversário de uma amiga querida.

Tudo de bom no emprego. Tenho plena confiança nas tuas capacidades. Mil beijinhos

Melões Melodia disse...

Aenima - o meu dia tambem acabou melhor com a alegria do futebol... e eu nem sou dado a futebois!
Beijo

calamity jane disse...

Bem me parecia que os telhados de há dias eram daqui do burgo! Bolas, q ñ há meio de tomarmos a tal cafézada. Tou a ver que tenho de ir a Londres!
Quanto ao resto, fica atento. às vezes está tudo a indicar-nos o caminho e nós teimamos em não ver (e contra mim falo, mas enfim... fácil ser bom para os outros!). Talvez esteja mesmo na hora de te reunires aos teus. :-)))
beijos

Afrika disse...

Caramba! Pois sabes eu acho que sim. Eu acho que esta na altura de deixares de pensar nos outros e começares a pensar em ti! Mas a serio mesmo... nada de vou consultar com o travesseiro ou amanha vemos.

E quando um dia sem aviso, de repente, partires que sera feito dos outros?!
De que valeu ter uma vida se não a vivemos?!

Beijoka

Ms D. disse...

É tudo uma questão de perspectiva! Sem sombra de dúvidas...
Vou adorando ler sobre as tuas porque me fazem mudar de lugar!

**

Anónimo disse...

A vida está sempre em movimento,e nós temos que acompanhar senão acabamos por ser engolidos por ela.Dias melhores dias piores, e alguns até muito e muito bons, por isso não devemos ficar tristes antes do tempo,beijinhos e vais ver que tudo vai correr muito bem.FIFI

Mãe Frenética disse...

Melhores fds virão, em q o papel nao vai contar nada.
O abraço faz falta sempre, e principalmente qdo os outros começam a faltar. às vezes o abraço "atrasado" é o mais lembrado. Por mim falo.
E para a prima meloa tu vais ser sempre o seu melhor amigo. Sempre. Os amigos não se esquecem só pela distãncia.

Mocho Falante disse...

Viva

finalmente de regresso, cheguei até aqui para matar saudades destes textos cheios de bom gosto

abraços