quarta-feira, 18 de junho de 2008

Mentira



A mentira veste-se de muitas formas. Faz parte da nossa vida. Ouvimos mentiras todos os dias e, ainda que digamos que não e nos chamemos defensores da verdade, dizemos mentiras todos os dias. Mentiras brancas como são chamadas neste país. Porque quando alguém nos pergunta como estamos, dizemos “bem, obrigado!” porque nem a pessoa que faz a pergunta quer saber realmente a nossa vida nem nós queremos desfiar o nosso rosário.

Quando dizemos ao arrumador “dou quando vier”; “agora não tenho”;... mentimos. Mentimos todos os dias e mais do que uma vez ao dia.

Depois há outras mentiras. Mentiras mais sérias que nem todos praticamos. Nestas há três categorias.

- Há a mentira que protege – a mentira inocente, que oculta um facto que pode causar dor, desilusão ou transtorno e para o qual não há solução.
- Há a mentira que promove – uma mentira que, sem atacar, promove quem mente (como as mentiras dos CVs), lhe dá um estatuto que não tem, sucessos, o peixe de 5 metros pescado à linha.
- Há a mentira que ataca – mentira suja que atribui culpas a quem não as tem, mais uma vez como protecção do próprio mentiroso, ou por medo ou simplesmente maldade.

Tenho de confessar que para além das “white lies” utilizo bastante a primeira. Já utilizei a segunda. Sou avesso à terceira. E não me venham cá com coisas que acho que isto é normal. Todos mentimos.

Da terceira não vou falar porque é a que me pões os cabelos em pé. Não compreendo como se pode querer prejudicar alguém e ainda mais quando se faz com falsos testemunhos.

Em relação à segunda quero que me digam uma coisa. Nunca nenhum de vocês, numa entrevista de emprego, num CV, numa candidatura ao que quer que seja, “embelezou” a verdade. Não digo que tenha dito falsidades, mas tenha pelo menos exagerado em determinados pontos, ocultado pontos fracos, atribuido diferentes pesos aos critérios de avaliação. Adulterado a verdade que por já não a ser, passa a ser mentira. Pois, esta mentira faz parte das nossas vidas. Ajuda-nos a atingir objectivos sem prejudicar quem quer que seja. Apesar de tudo esta segunda mentira tem uma face que me incomoda. A mentira do status. A mentira que esconde origens, que pretende ser o que não se é. O egoísta que vai à missa todos os domingos e bate com a mão no peito e que julga as pessoas e as avalia não pelo que são mas pelas suas origens.

Resta-me a primeira. A mentira que protege. Não sou advogado do diabo, mas há mentiras que são aceitáveis e até exigíveis, quando a realidade é cruel e magoa e não há solução.

Lembro-me da minha avó, eterna enamorada do meu avô que sofria de uma gravíssima aplasia medular. Ela desenvolvia Alzheimer a uma velocidade estonteante porque talvez o stress de ver o meu avô tão doente acelerasse o processo. Quando o avô morreu, a avó ainda tinha alguns momentos de lucidez. Decidimos não dizer. Iria sofrer muito, iria piorar o seu estado de saúde.

Eu, há uns anos, caí gravemente doente. Necessitava de internamento urgente. Os meus pais sempre lidaram mal com as minhas maleitas e nunca foram grande ajuda. Não davam o apoio necessário, pelo contrário, e eu preocupava-me com eles. Aquando dos primeiros sintomas, da origem da doença, nasceu a mentira que cresceu, cresceu, cresceu como uma bola de neve que desce a mais alta das montanhas a uma velocidade alucinante. Quando as coisas estavam no limite, quando a minha fraqueza me obrigou a confiar e a partilhar o peso da minha cruz com alguns amigos, menti uma vez mais. Disse que ia de férias e fui para um tratamento sério, longo e delicado. Correu bem e a mentira evitou o sofrimento daqueles que mais amo.

Incluo nestas mentiras as mentiras de índole pessoal de alguém vive numa sociedade que não o aceita. Ainda não sei se faz bem ou mal porque se exclui e não ajuda à aceitação rápida, mas compreendo o ponto de vista do visado e defendo a posição que queira tomar, quer seja pela verdade ou pela mentira. Falo por exemplo de diferentes tendências sexuais, do gay que está no armário, falo de doenças discriminatórias como a infecção pelo HIV. Falo das condições e não das escolhas porque cada um tem de saber enfrentar de frente as suas escolhas, mas pode proteger-se numa sociedade que não aceita as suas condições, nem que para isso tenha de mentir.

O único problema é quando a mentira se descobre (se se descobre) e magoamos aqueles que queremos proteger porque não lhes confiàmos os nossos problemas ou as nossas dores.

E é aqui que o balanço é difícil. Correr o risco de desiludir os que queremos por lhes mentirmos ou fazê-los sofrer com alguma situação para a qual não têm solução. É saber lidar com a mentira e ter estômago para mantê-la e coragem para enfrentá-la.

É, acima de tudo, sermos sempre verdadeiros connosco e fiéis aos nossos princípios.

8 comentários:

AnAndrade disse...

Também já escrevi sobre isto.
Sobre como tenho dificuldade em lidar com a mentira. Mesmo a minha.
Mas é inevitável, bem sei.
Nada é linear, e muito menos a mentira o será.
Costumo dizer que boa, boa, é a mentira que nunca se descobre. Ou que é para sempre tida como verdade. Porque se for tão boa assim, merece sê-lo. E tiro o chapéu a quem é capaz delas.
Um beijo!

geocrusoe disse...

Depois de um interregno já esperava uma reflexão mais profunda, claro que a mentira que protege todos a usam, pode ser inclusive uma técnica de ajuda.
A que promove não admiro, mas que há quem use eu sei, a que ataca, prefiro nem falar dela.
Não sei se alguém que esconde da sociedade ou de outro algo da sua vida pessoal que a sociedade ou o outro não aceita é uma mentira, neste caso confunde-se mentira com máscara e quem não as usa com maior ou menor frequência? Quem nunca sentiu o medo que ela caia quando mais receia que tal aconteça?
Mentiras ou máscaras, duas face da mesma moeda?

Afrika disse...

Meloes, a uns dias atras escrevi sobre a mentira! Sobre o eu odiar que me mentissem, mas é claro que eu também tenho dessas mentiras brancas, pra não magoar, por que por vezes sao coisas sem grande importância pra os outros e não ira fazer a mínima diferença se "apresentarmos a verdade sobre outro ponto de vista" Quanto ao cv's nunca consegui florear os mesmos, tive sempre medo de ser descoberta e por o meu futuro em jogo! Quanto ao resto eu detesto que me mintam, principalmente quando alguém me diz uma coisa e logo mais a frente descai-se e "apresenta" outra verdade! Ou então dizem-me uma coisa e logo dizem outra a outra pessoa! Detesto aldrabões... mas sim , mais uma vez eu tb minto e minto a minha familiá/mãe quando estou mal e esta (a tantos km de distancia) me pergunta como estou, e eu digo-lhe que estou bem e feliz... Eu neste caso, não tenho medo no desiludir. Por que alias, já não é a primeira vez que penso, que se por acaso tivesse uma doença que não tivesse solução, acredito que optaria por não contar a ninguém!

Ck in UK disse...

oh pa nao posso comentar..... estou atada.

Diabba disse...

Ohhh pah, a mentira, essa nobre instituição que eu tanto prezo.

Respeito a maioria das mentiras, só fico como uma urtiga quando a mentira é só porque sim, sem motivo mas destruidora.

beijo d'enxofre

Melões Melodia disse...

Anandrade - A mentira pode ser muitas vezes um mal menor. E ha verdades que nao valem a pena.
Beijos

Geocrusoe - mascaras usamos todos de vez em quando. Nao me surpreende, contudo, que tenhamos a mesma opiniao em relacao a mentira.
Abraco

Afrika - lembro-me do teu post sobre a mentira. Afinal e bastante recente e eu ate comentei. Atencao que em relacao aos CVs, sou contra dados falsos. Falo aqui de nao mencionar o que nao vale a pena e exacerbar qualidades. Mas para mim a omissao e o exagero sao outra face da mentira que todos usamos e que se encaixa muitas vezes na mentira que promove.
Beijos

Cilinha - hmmm, porque?
Beijos

Diabba - sem mais.
Beijos

AEnima disse...

Eu fico magoada quando me mentem para me proteger. Sinto que tudo o que vivi não foi de facto real e que muitos momentos alegres que tive com essa pessoa em particular são ilusões. Isso faz-me desconfiar de outras alturas alegres que possa vir a ter no futuro eventualmente reais.

Se vires bem, quem trai o companheiro e não conta porque não teve importância nenhuma e continua a gostar de com quem está, também está a mentir para proteger o outro, como na tua situação 1 o descreves. Gostarias que to fizessem?

Eu não. Eu prefiro enfrentar com a cara e a coragem o lado negro dos outros. Há pessoas que se calhar merecem que lho façam. Talvez a sua natureza seja demasiado delicada para conseguir enfrentar a situação. Talvez até sintamos que nem gostem assim tanto de nós que justifique contarmos e lidarmos com a adversidade esperada.

Há muitas razões para que nos mintam pela razão 1. Eu mencionei agora uma, tu falas de outra, e há ainda incontáveis outras situações. No entanto, cada vez que descubro uma mentira tipo 1 sinto-me fortemente traída. Não por ter havido traição. Mas porque alguém sentiu que eu não seria suficientemente forte para lidar com uma situação adversa. Porque alguém não acreditou na minha capacidade de apoiar ou ajudar em vez de me preocupar ou discriminar. Porque alguém não confiou em mim.

A verdade é que tenho muitos amigos que não contam as coisas porque "ah e tal... era complicado... ninguém podia fazer nada". Acontece muito quando alguém atravessa uma depressão, seja ela endógena ou não. Eu compreendo. Mas a verdade é que ao longo dos anos começo a distanciar-me dessa pessoa. Começo a ficar mais fria com ela. Se ela nunca precisa de mim quando está mal, se nem me conta nada, irei eu recorrer a ela quando preciso? Ela mente uma, duas, três vezes... 10 anos passam, 15 até e quando perguntamos: - "Então, tudo bem?" - "Tá tudo..." pensamos: "Não deve estar nada, mas que se lixe, que se amanhe ou peça ajuda." E desligamos aos poucos da preocupação genuína de amizade que tínhamos com alguém que tão importante para nós é... ou foi.

Eu não estou com isto a censurar a tua conduta. De forma alguma... quem sou eu? Só queria mostrar-te um pouco do outro lado, que conheço melhor, já que muito honestamente, fora uma mentirita muito "white" aos pais do tipo: "Estou fixe" quando estou com uma ressaca de todo o tamanho da noite de S. Joao - quando se trata de coisas mais importantes, não minto às pessoas que amo. Dói muito quando elas me mentem a mim. E somos bem mais fortes do que parecemos. Mesmo não podendo fazer nada.

Beijinho especial

Músico Guerreiro disse...

Aenima - Sabes que nao consigo discordar do que dizes?
Ainda assim...

Beijos