quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Oito de Agosto


Mãe, uma vez mais este texto é para ti.

É um dia difícil, de memórias de gente ida. Esta altura do ano não tem sido meiga connosco e não o foi contigo.

Fez ontem cinco anos que morreu a avó M., de repente, sem aviso, com um golpe de calor. Passaste o teu aniversário numa cerimónia que queremos evitar. Era um dia para seres feliz, deverias ser o centro do mundo. Do meu mundo. Mas dedicaste esse dia ao pai que dava o último adeus à mãe.

Acredito que abriu feridas, as feridas daquele Verão de 94 (já faz amanhã catorze anos, quem diria) em que o teu pai se despedia de ti nos teus braços.

Lembro-me de receber o telegrama poucas horas depois da hora a que nasceste. Saí da casa e caminhei lentamente pelo aldeamento. Olhava as estrelas. Senti-te comigo. Não chorei a primeira grande perda da minha vida. Uma das minhas referências. Senti a mão do avô pousada no meu ombro e uma paz interior inexplicável como se o mundo tivesse parado por uns segundos a sua louca correria. Sabia-te esmagada de dor e ainda assim estava invadido por uma serenidade vinda não sei bem de onde. Eu era parte do mundo, deste e do outro caso exista.

Pediste-me que fosse neste dia. Estive muito tempo sem ir a casa. Queria ir antes. Como não sabes porque estive ausente, não imaginas a vontade que tinha de abraçar-te, abraçar o pai... mas não sabias o quanto precisava de vos ver. Por isso pediste-me para adiar a ida umas 3 semanas para estar no dia do teu aniversário. Percebi-te. Sou teu filho e leio-te nas entrelinhas.

Por isso amanhã estarei aí. Sei que vais chegar ao aeroporto muito antes do avião aterrar e quando sair vais rasgar o teu sorriso e os teus olhos vão brilhar. É o teu aniversário mas vais ter a casa cheia de mimos para mim, farás um dos meus pratos favoritos com muito carinho. Terás o frigorífico cheio com os meus iogurtes, o meu queijo e as minhas águas favoritas. Terás morangos e uma taça cheia de caramelos, enquanto a outra tacinha sobre o aparador estará cheia daqueles caramelos de infância que ainda consegues arranjar. Haverá uma surpresa em cima da cama e enquanto entro no quarto e a abro, tu e o pai espreitam da porta com um sorriso aberto. Mas é o teu aniversário, mãe! tu deverias receber os mimos. Todos os mimos do mundo.

Deverias deixar de lado essa sombra e celebrar a vida de um homem que é o meu maior exemplo. Que te deu a sapiência para que me incutisses os valores que são meus, celebrar a tua vida que é tua e não minha. Deverias pensar em ti, só em ti. Ser egoista por um dia.

Mas sei que é a mim que vais encher de mimos, como sei que esse é o maior mimo que te posso dar.


Et incarnatus est - Bach

14 comentários:

pinguim disse...

No teu anterior post falava-se de amor, e de um amor belo de que tanto se precisa.
Hoje voltas a falar de amor, outra espécie de amor, tão necesário como o outro, e de impossível comparação. O amor de Mãe é qualquer coisa de sublime e todas as homenagens que lhe sejam feitas não são suficientes para pagar a dívida enorme de nos terem trazido ao mundo. Parabéns a ti, rapaz, por demonstrares de uma forma tão bela o amor a tua Mãe; e parabéns a ela, pelo seu aniversário e pelo orgulho que deve sentir por ter um filho como tu.
Abraço.

AnaD/FG disse...

Peço desculpa pela intromissão, este é um post bastante pessoal ... mas gostaria apenas de dizer que me comovi realmente com estas palavras ... parabéns à mãe e ao filho!

Deda disse...

Eu também tenho a sensação de estar a invadir um espaço muito íntimo e muito teu... mas não posso deixar de dizer que fico com os olhos húmidos quando leio os teus pensamentos sobre a família.

Sofia disse...

Gostei muito de ler. So nao deixei a lagriminha cair porque estou no trabalho.

Lua disse...

Sabes, se um dia for mãe, quero ter-'te'.

Mas grande deve ser ter tua mãe... afinal és como pareces ser.

Diabba disse...

Só sendo mãe (ou pai), se percebe que não há maior presente nem melhor mimo que beijos e abraços dos filhos.

Beijo d'enxofre

AnAndrade disse...

Vale choramingar?!
Texto lindo...
Beijo (e bem vindo!).

AEnima disse...

Olha que este post tambem eh um mimo e peras!

Parabens 'a mae. Mae e' mae mesmo... so temos uma e a nossa e' sempre a melhor do mundo.

Bem-vindo 'a terrinha. Tudo de bom! Se quiseres tomar um cafezinho avisa. :) Beijinho

papagueno disse...

Sem palavras, apenas um abraço.

papagueno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

Arrepio-me e tenho vontade de correr para o colo da minha mae. Beijo grande. Raquel

Músico Guerreiro aka Melões disse...

Carissimos - sei que mereciam uma resposta individual mas como nao tenho muito a acrescentar so posso agradecer as vossas palavras meigas e elogios.
Foi um fim-de-semana estupendo cheio de alegria e de festa. Nada como ter a casa cheia de criancas para adocar as memorias tristes.
Beijos e abracos

Anónimo disse...

Desculpa, já tinha lido,mas não tive tempo de comentar:achei este post muito bonito,com os anos vamos ficando mais doces,e mais extrovertidos,deixamos de ter vergonha de dizer a quem merece, que são tudo para nós e que sem eles a vida não tem sentido,estás um verdadeiro comentador,adoro ler este blog,pena escreveres tão pouco,são discrições muito puras e a realidade quase passa de ti para nós,só uma pessoa com grande sensibilidade é capaz de tamanha proeza.Beijinhos e brinca muito por ti e por mim, que sou muito molenga. FIFI

Paulo disse...

bem, que dias carregados de memórias tristes, mesmo! as minhas estão noutras alturas do ano. agora, passado tanto tempo após este texto belíssimo, carregado de amor, queria felicitar-te pelo ser que aqui revelas e que nasceu de outro ser igualmente belo. atrasado, mas parabéns aos dois!