sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Os talentos


Os meus textos preferidos da Bíblia, só superados pelo "Cântico dos Cânticos" e algumas cartas de São Paulo, são as parábolas.

Tive uma educação profundamente católica e uma relação muito próxima com a Igreja. Todos os Domingos, às dez da manhã tinha a missa das crianças e a missa era uma festa. A música era feita por nós e o coro formado pelos nossos pais. Uma missa em que as nossas flautas interpretavam pequenas peças de Bach ou Corelli e em que os cânticos eram acompanhados por uma orquestra Orff, toda a família das flautas de bisel, da soprano à baixo, a família dos xilofones, o metalofone, os jogos de sinos e um conjunto bastante completo de percussão.

As homilias eram conversas. O padre descia do altar e falava com as crianças. As crianças interpretavam a Bíblia de forma inocente o que resultava, de quando em vez, numa rotunda gargalhada de toda a assembleia. As homilias (ou conversas) mais interessantes seriam sobre as parábolas talvez porque estes textos tenham sentido absoluto nos tempos que correm.

Sempre gostei de imagens, metáforas, pequenos contos. Não consigo escrever uma história que não diga mais do que aquilo que as palavras desenham, talvez por isso a etiqueta dos meus contos do meu outro lado seja “vidas reais”. Ainda hoje gosto de falar por meias palavras porque a realidade não se encontra numa caixa hermeticamente fechada e expande-se, não se sabe para onde, como este Universo que habitamos.

Uma dessas parábolas é a dos talentos em que um senhor dá talentes aos seus criados segundo as suas capacidades enquanto sai de viagem. Dois fazem render os seus talentos mas o outro que só recebeu um, enterra-o.

Foi nessa mesma igreja onde escutava as parábolas que um dia me propuseram estudar música mais a sério. Tinha de aproveitar e fazer render os meus talentos e a vaga de órgãos de tubos novos na cidade do Porto, o restauro de mais uns quantos, pediam organistas formados. Assim, comecei a minha formação em música a nível superior. Estudei, entre várias coisas, órgão, piano, canto, composição e direcção de coro e orquestra. Concluí-o com louvor (porque a modéstia não é para aqui chamada) e excedi-me nas classes acima mencionadas.

Curso acabado, definitivamente no meu amado Porto, comecei a utilizar os meus talentos. Fundei um coro de câmara que ainda hoje vive, tocava regularmente nos grandes órgãos da cidade, dava as minhas aulas aos meus meninos pobres, entrei num programa da câmara municipal para dar aulas às crianças problemáticas nas piores escolas do concelho. Concertos, recitais, muito trabalho... até um dia. Até ao dia em que disse que não. Disse-o porque não me vendo e a cultura no Porto é dominada por um grupo sujo e perverso. Fui cobarde, não lutei, deixei.

Continuei com o meu coro, aulas aos meninos pobres da igreja e com o órgão, mas, mesmo na igreja, feita infelizmente por homens, hove invejas e calúnias, ataques pessoais quando eu só queria viver a minha vida que dava voltas e reviravoltas e se encontrava de pernas para o ar, a fazer o que mais gosto – música. Uma vez mais não me vendi mas não lutei. Fugi.

Seguiu-se Madrid onde, em dois meses, fazia o Requiem de Mozart transmitido em directo pela televisão espanhola a partir da Real Iglesia de Los Jerónimos. Dava técnica vocal ao coro, cotinuava a tocar órgão. Fui para Paris onde encontrei um velho amigo e professor que me realizou o sonho de tocar em Notre-Dame. Daí seguiu-se Londres e com Londres a morte da música.

Continuo a compôr, é verdade. Tenho uma gaveta cheia de escritos tontos. Canto com os amigos e para amigos. Os seus casamentos tem sido um fartote mas não me cansam. Gosto de cantar, entrego-me a cantar, dou-me e sou feliz.

Infelizmente deixei de tocar. Há três anos que não ponho os dedos num verdadeiro órgão de tubos.

Longe vão os tempos em que saía do polo do São João, atravessava o Porto até à Sé, com a enorme chave do templo perdida entre Bach e Messian, subia ao órgão e, sozinho, na escuridão da catedral, fazia aquela maravilha de instrumento ressoar no granito.

Hoje tenho medo, tenho medo de me sentar à frente de um órgão porque este talento, há tanto tempo enterrado, estará perdido... e tenho pena.



O Mensch, bewein dein Sunde gross BWV622 - Simon Preston

13 comentários:

pinguim disse...

Estou perfeitamente encantado!!!!
Nunca imaginei esta tua faceta (também te conheço há pouco) e tenho uma enorme satisfação em ser leitor do teu blog e de um dia te poder conhecer pessoalmente.
Dou um imenso valor às pessoas como tu e só me penaliza que tivesses abandonado a música, embora perceba que neste país se cultiva o elogio e não o valor.
Também só hoje fiquei a conhecer a existência do teu outro blog e vou ser "assinante", podes estar certo.
Obrigado por estas duas saborosas surpresas.
Abraço amigo.

ana v. disse...

Impressiona-me o abandono e o medo da música, mas não te pergunto porquê. As razões só podem ter sido muito sérias e provavelmente não são para aqui chamadas.
Acredito que tenha sido como cortarem-te um braço, estou enganada?

Um beijo

Lua disse...

Achas mesmo que estará perdido? Não posso imaginar as razões que te fizeram enterrar a alma, mas... espero que sintas que possas lutar.

Diabba disse...

Como se eu acreditasse que enterraste o teu talento. Oh gajo, queres que te tridente o traseiro é? Ai agora o gajo... grunfff re-grunf tre-grunff

Só achei mal o início do texto, missas, parábolas etc, até se me ouriçou o pelâme!

beijo d'enxofre

Pedro disse...

De certa forma, aconteceu-me o mesmo com o piano, embora nunca tenha chegado a ter formação superior; creio, no entanto, que ninguém tem apenas um talento - mal seria - e prova disso é este blog.

Anónimo disse...

Medo de teres perdido o teu talento,como é que isso é possivel,ele apenas está adormecido,é só tocares a primeira nota, que vai ser como uma explosão,é estranho nesse país vi tantos orgãos e tantos coros,tens que experimentar,vais ficar admirado contigo e muito feliz, apenas tens que deixar o passado enterraddo, o futuro é lindo, cada vez sinto que estás mais calmo, menos revoltado, mais humilde, mais aberto,mais maduro,tens crescido muito neste tempo que leio o teu blog,cada texto está melhor que o outro.Eu fui baptizada na Sé do Porto, mas nunca ouvi o orgão,adorava nem que fosse só uma vez e tocado por ti seria o máximo, acho esse som uma maravilha e nesse espaço deve ser mágico, entra no espirito e no coração.
Toca a tocar e a cantar esses escritos que dizes tontos,não acredito como se pode deixar de fazer uma coisa que nos faz feliz, ainda por cima quando se trata de música.Um beijo e acredita que ainda és o melhor, FIFI

Músico Guerreiro aka Melões disse...

Pinguim - os problemas nao foram elogios ou valor. E uma mafia muito bem organizada com comportamentos deveras perversos. E mais nao digo porque nao tenho de o fazer. Vou fazendo musica como posso. So o orgao, esse rei dos instrumentos e que ficou la longe.
Abraco.

Ana V. - nao, nao e para aqui chamado. Na altura nao foi como cortar um braco, a ira anestesiou a dor. Mas com o tempo a passar, sei que as qualidades se vao perdendo. Um musico nao pode parar.
Beijo

Lua - so o do orgao. Pode ser que se recupere mas com ainda mais trabalho do que seria suposto. O que mais me custa e saber que nao vou ser capaz de tocar metade do que conseguia a tres ou mais anos.
Beijo

Músico Guerreiro aka Melões disse...

Diabba - enterrei-o mas sei onde esta :) E o problema de ver o tempo passar e nao fazer absolutamente nada.
Quanto ao inicio, olha, vai com Deus!
Beijos

Pedro - tenho pena.Sao coisas que nao regressam de um dia para o outro, e quanto mais o tempo passa... e quanto aos talentos, ninguem perder aquele de que gosta mais.
Abraco

FiFi - Sim, ha muito por aqui. Mas sei que nao farei as coisas ao nivel que gostaria de fazer. Tenho este defeito de ser muito perfeccionista. Mas so deixei de tocar. Nao deixei de cantar, de compor ou de dirigir.
Beijo

Paulo disse...

exceptuando a parte da música, andei mais ou menos pelo mesmo "sítio", mas e os salmos? tirando o facto do padre nunca sair do altar e a religião ser uma mistura de visão oficial e religião popular. a realidade é uma coisa muito sensível, demasiado subjectiva para ser rígida. quanto à realidade do medo, pena que achas o teu talento se tenha perdido... não consigo imaginar que assim seja definitivamente, embora acredite que, pelo convívio com outras pessoas que pararam, o regresso seja um caminho impossível. isso, realmente, é triste.

geocrusoe disse...

Bastou dois dias sem passar por cá devido ao verão açoriano e outros eventos já relatados, eis que abres mais uma página de ti e sem ser no outro lado.
Lendo o post e textos anteriores, julgo que não deixastes de lutar, apenas recuastes para constuires os teus sonhos noutras frentes. é estratégia amigo! mesmo sem te aperceberes e quando olhares para trás, compreenderás.
os teus talentos não se foram e embora possas tê-los neste momento enterrado com medo, mas lembra-te que o Senhor não perdoa a quem o enterrou, portanto, vamos lá por isso a render, a estratégia para isso é tua.

papagueno disse...

Será que o talento está mesmo perdido, não estará apenas enferrujado?
Um abraço.

Músico Guerreiro aka Melões disse...

Paulo - Tens toda a razao em relacao aos salmos. Quanto ao talento, e assim mesmo, sinto que estou a passar o ponto de "no return".
Abraco.

Músico Guerreiro aka Melões disse...

Geocrusoe - nao, nao deixei de lutar. mas como disse acima, esta a passar demasiado tempo.
Veremos o que ainda se pode fazer.
Abraco.

Papagueno - espero que tenhas razao, mas nestas coisas, a musica costuma ser implacavel.
Abraco.