sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Paixão

A minha paixão começou cedo. Diziam que era muito novo. Seria duro para mim. Fui desaconselhado mas depois de receber o convite, decidi dizer que sim.

Foi há mais de vinte anos. Um dos meus professores de música perguntou-me se queria ir. Vinha um coro, uma orquestra barroca e um grupo de solistas alemães. Era necessário alguém para entregar flores.

O evento era de primeira linha. O então presidente da República, Ramalho Eanes, estaria presente. Nós iríamos receber os VIPs vestidos com roupas da época. Eu era o mais novo.
A preparação foi uma risota. O fato de seda azul com rendas a branco e ouro, os collants e as cabeleiras brancos. De repente vivia num carnaval barroco e esse dia marcou o início da minha grande Paixão.

Porque é de Paixão que se trata. Paixão segundo São João (BWV 245), obra dura e longa, tensa e dramática, demasiado para uma criança com menos de dez anos, diziam-me.

Deram-nos um programa de luxo com a tradução e preparava-me para um concerto longo, demasiado longo para uma criança.

Entra a orquestra barroca e o coro. Estava fascinado com a luz, os sons, o ambiente do meu primeiro grande concerto. Sentia-me importante na minha fatiota de seda azul, metido nuns calções ridículos e estava nervoso como se fosse eu o principal solista.

Entram os solistas seguidos pelo maestro. Faz-se silêncio.

Começa a obra numa orgia de sons e dissonâncias, num ostinato de cordas em movimentos circulares, cantava-se a morte e ainda assim a música, o tema dos violinos, andava em círculos num hipnostismo que só pode querer dizer: Infinito.

Os movimentos circulares das cordas, o eternidade, a dissonância dos oboés, a dor e a perda. E no conjunto o mistério da vida explicado através de música.

O som cresce, as dissonâncias prolongam-se e resolvem-se em novas dissonâncias. Não o percebi na altura, gostei, senti-me cheio de não sei quê. Mas só com os anos percebi a grande abertura da Paixão. A melodia redonda e imparável e longos minutos de movimentos circulares, repetitivos mas nunca iguais, pintados pelos oboés. Mas a tensão cresce até ao grito desesperado do coro. A invocação: “Herr!” três vezes, o tríduo pascoal, a trindade.

Mas foi nesse dia, nesse primeiro dia em que ouvi o grande mestre, o meu amado e inultrapassável Johann Sebastian Bach que nasceu a minha verdadeira e grande paixão. Por música clássica, por música coral-sinfónica, por música sacra, pelo periodo barroco, por Bach.
E a Paixão, esta paixão de mais de duas horas, deixou uma semente cá dentro, semente que cresceu como e com a própria vida, a grande obra prima da música sacra tão bem pintada. A narração de uma das mais belas histórias de amor.

Estudei-a a fundo, cantei-a, ouvi as mais variadas interpretações, os grandes coros, as doces árias, toquei-a num órgão positivo no meu país e na Alemanha acompanhando o coro e a orquestra que em criança tinha ouvido trajando barroco.

E ainda assim, é uma obra que me traz paz, que me leva e me deixa cheio de sentimentos bons.
Um caminho longo, reflexões corais, leveza e alegria “Ich folgende dir gleichfalls”, traição “Ach, mein Sinn”, entrega “Es ist vollbracht”, morte “Mein teurer Heiland”, arrependimento “Zerfliesse, mein Herze”, paz “Rhut wohl” (que serviu de banda sonora aos meus dois posts anteriores) e finalmente esperança “Ach Herr” num coral tipicamente luterano, música vertical ao contrário da orgia sonora do primeiro coro, tonalidade maior para dar brilho, notas longas para terminar num aberto acorde maior (Mi bemol maior – a terceira nota da escala, armação de clave com três acidentes, frases de três compassos – o tríduo pascoal, a trindade) em que se ouve a palavra “eternamente” .

O mistério da vida tão bem pintado para crentes e não crentes. Pode ser ou não a vida de Deus, é com toda a certeza a mais bela história de amor.

14 comentários:

Fernando Vasconcelos disse...

São sempre coisas assim que nos despertam para a paixão. Nem sempre nos apercebemos logo como dizes mas fica lá a "impressão".

pinguim disse...

Maravilhoso texto em que fiquei a saber umas quantas coisas, de ti, de música e da vida...
Obrigado pela partilha.
Abraço.

Músico Guerreiro aka Melões disse...

Fernando - E uma obra que nao pode deixar ninguem indiferente.
Abraco

Pinguim - fico feliz, e uma obra que vale a pena que se revela e faz-nos revelar, senao aos outros, a nos mesmos. Obrigado.
Abraco

amigona avó e a neta princesa disse...

Meu querido amigo passei para matar as saudades...estive a ler...não, a saborear...saio devagarinho...beijos...

geocrusoe disse...

Gostei imenso do relato, conheço e possuo a Paixão de S S Mateus, segundo são joão ainda não conheço a obra, mas despertaste-me a curiosidade. Confesso que foi a paixão em causa e vários motetos de bach, conjuntamente com outras músicas alemãs como os Lieder que me levaram a começar a aprender a língua para apreciar melhor a texto combinado com a música (a tradução combina a estória com a música, mas fora de tempo).
Quanto à mensagem do texto, embora seja um relato de uma morte é sem dúvida uma mensagem de amor aos vivos.

Anónimo disse...

Cada vez escreves coisas mais bonitas, gosto muito deste blog é o primeiro da minha lista, a minha neta com 2 anos já gosta muito de música classica e balell,a sua adoração é o quebra nozes,e depois tenta dançar e acompanha a música com a cabeça, é lindo.Beijos, e continua, essa é das paixões mais puras leal e para sempre,além de te limpar a alma e te dar felicidade. FIFI

Músico Guerreiro aka Melões disse...

Amigona - beijo grande

Geocrusoe - nao e tao longa como a de Sao Mateus, mas sinceramente prefiro, e mais intensa, e mais amor. E a aria " Es ist vollbracht" e de subir aos ceus. Tenho a certeza que gostaras. Como me disse um dia um padre, cantar e rezar duas vezes e e realmente a cantar ou a ouvir (principamente obras desta magnitude) que sou levado a lavar a alma.
Abraco.

FiFi - a musica, a boa musica tem esse dom. Torna-nos sensiveis, melhores, e a melhor educacao que podes dar a tua neta.
Beijo

Lua disse...

Que caminhada tão bonita, a da tua paixão...

Eu sei pouco de Bach, ou o suficiente para lhe fazer justiça, mas o que sei deixa-me agradecida por haver quem consiga fazer algo tão belo.

Músico Guerreiro aka Melões disse...

Lua - Podia perder horas a falar de Bach, mas essencialmente sobre este barroco o que me agrada e o unico que consegue dar alma a todo e qualquer rendilhado da sua musica, mas do que um barroco estetico e um barroco de sentimentos.
Beijo

Paulo disse...

bem, já conhecia a Paixão e vislumbrava a paixão há já algum tempo, mas tê-la assim mesclada com a infância do próprio é maravilhoso (mesmo para mim que não aprecio o barroco muito por aí além).
grande abraço

ana v. disse...

Texto lindo, sobre uma paixão e a sua história. E esta é uma paixão correspondida, tenho a certeza. A música dá-se sempre a quem a entende assim tão bem.

Quanto a Bach... só pode ter tido inspiração divina.

Beijo

Diabba disse...

Aton?? a paixão num te passa?? (resmungando de cenho franzido)
Inda por cima é uma paixão acompanhada de música do Conde Drácula, grunfff

hihihihihi

beijo d'enxofre

Mocho Falante disse...

Adorei a forma como expressaste esse amor pela música, é bom saber que existem pessoas como tu que nutrem amores incodicionais pelo belo, pelo transcendental, pelo sublime

abraços

Afrika disse...

Ola guerreiro, passo por aqui todos os dias umas vezes mais com pressa outros com mais vagar. Hoje com pressa só pra te agradecer estares do outro lado... um beijo enorme.