sexta-feira, 3 de outubro de 2008

De regresso ao mundo real

...ou o mundo como os homens o fazem

Não costumo perder o meu tempo a falar das notícias dos jornais, dos acontecimentos que fazem História. Escreve-se muito e fala-se muito. Ouvem-se opiniões e não há muito a acrescentar. No entanto, quando abro os jornais, não consigo ignorar o mundo que me rodeia e decido-me a escrever humanidade com minúscula.

Durante as minhas férias recentes vi um mundo belo, quase perfeito, um mundo salvaguardado pela distância a qualquer centro de decisão ou grande metrópole.

Chegado a Londres, abro o jornal e dou graças por não ter filhos. Em consciência, não quero trazer ao mundo um ser inocente que terá de sobreviver na selvajaria dos tempos modernos.

O primeiro grande choque, tive-o em Lisboa. A velha e bela cidade está doente, muito doente. Passear por Lisboa não foi prazenteiro apesar do Sol e das temperaturas quentes para a altura do ano. No meio da famosa luz de Lisboa sobressaíam edifícios abandonados, degradados, ruas sujas. Não sei quantas vezes, em plena baixa numa tarde de domingo, fui abordado por gente que pedia, que vendia relógios sabe-se lá trazidos de onde, que vendia drogas, tudo isto sob o nariz dos inúmeros polícias que preferem passear-se numas máquinas ridículas e que quando são abordados (queixei-me do assédio na Rua Augusta e na Praça do Comércio) dizem que dá muito trabalho e seguem a passear-se nas ridículas maquinetas.

Pior é quando ao lado desta gente vejo a outra gente, gente que pretende ser o que não é, os chicos-espertos armados em gente fina, de carteiras falsas e um cosmopolitismo de trazer por casa.

Entristeceu-me esta cena da capital do meu país. Preferia a Lisboa dos pregões, da gente boa e genuina, a esta Lisboa vendida à imagem, povoada por pobres, os que pedem na rua, os que assediam e os outros, os pobres de espírito que pensam que a imagem de modernidade e liberalismo os fazem superiores aos demais.

Dói, sentado numa esplanada em pleno Rossio, ouvir os turistas comentar a imagem terceiro-mundista da cidade, velha, decrépita, em que os supostos ricos se exibem num novo-riquismo de trazer por casa (como as casas dos emigrantes lá da aldeia) e os pobres se multiplicam e incomodam sob o olhar ausente das autoridades.

Chegado a Londres as coisas não melhoram, não que a cidade tenha o comportamento provinciano da capital do meu país, longe disso. Em Londres são as notícias. A famosa crise criada pelos homens, pela ganância e pela imagem.

Hoje faz-se História. Os mercados financeiros colapsam por culpa de muitos. A culpa não é só daqueles que mandam. A culpa é também daqueles que se queixam que não querem pagar a factura.

Quando nos Estados Unidos o comum dos mortais diz que os seus impostos não devem tapar o buraco criado no mercado hipotecário, engana-se. O mundo capitalista tem vivido muito além das suas possibilidades, o comum dos mortais gastou o que não tinha, tudo por imagem, e o resultado é que a mão invisível que deveria equilibrar os mercados, tornou-se numa mão visível e muitas vezes calçada com uma luva branca.

Não fosse a ganância dos homens tão grande, não fosse a imagem tão importante, hoje não se escreveriam páginas negras da História universal.

Mas a crise vai bastante além da económica, vai até uma crise de valores e acima de tudo de julgamentos.

Quando vejo uma oração no senado Americano a ser feita para iluminar os senadores antes da votação, pergunto-me porque tem Deus que entrar na resolução dos problemas criados pelos homens. Quando a ganância levou à situação em que nos encontramos onde estava essa invocação a Deus, ou será Deus o antibiótico para as infecções causadas pela bactéria que é a humanidade, num mundo transformado pelos homens?

E onde está a razão dos homens quando perdem tempo a boicotar o filme “Blindness” baseado no fabuloso romance de Saramago “Ensaio sobre a Cegueira” porque dá uma imagem errada dos cegos?

Mais do que nunca, vejo esta parábola dos tempos modernos tomar forma e desenrolar-se diante dos meus olhos perplexos, como é com a mesma perplexidade que vejo o supremo tribunal de justiça do meu país a proibir um seropositivo de ser cozinheiro, quando todos sabemos (ou devíamos saber) como é difícil esta doença ser transmitida, como é improvável que o seja na cozinha de um restaurante.

Como diz a decisão, o vírus está nas secreções, sim, está, está no sangue e nas secreções sexuais que duvido interajam com os alimentos manipulados. Sei também que um eventual corte do dito cozinheiro exporá o vírus ao ar, quando este não é resistente ao oxigénio. Finalmente, se o vírus se encontrar noutras secreções como suor e lágrimas, a doença já estará tão avançada que o sujeito em causa estaria numa cama de um hospital. E tudo isto envergonha-me.

Tudo isto não passa de discriminação e isolamento, de imagem de país seguro, e mais uma vez me recordo do início do já referido romance de Saramago.

Da parte que me toca, prefiro um cozinheiro seropositivo a um com uma gripe ou com uma amigdalite. Mas este sou eu que não percebo nada de leis, sou eu que ainda hoje estive com os meus meninos a dar-lhes de comer, a limpar-lhes o suor das febres e a depositar beijos carinhosos nas testas transpiradas. E depois de retirar a maiúscula à humanidade, depois de decidir que não gostaria de trazer filhos a este mundo de vaidades, olho para as minhas mãos, olho para os meus meninos, fecho os olhos para me ver por dentro e desejo, desejo nunca me deixar vender a estes novos valores que são “desvalores”, desejo que a parte da Humanidade que não perdeu a maiúscula cresça, desejo que esta crise seja uma lição, que acabe com algumas perversões e que a alma volte a ser mais importante do que o corpo, desejo que a imagem dê lugar ao amor, desejo que o tal mundo descrito por Saramago dê lugar ao mundo original para que o “h” cresça, cresça tanto para que este mundo seja outra vez amigo e digno das crianças.

16 comentários:

calamity jane disse...

"A velha e bela cidade está doente, muito doente"
"Mais do que nunca, vejo esta parábola dos tempos modernos tomar forma e desenrolar-se diante dos meus olhos perplexos..."
(...)"prefiro um cozinheiro seropositivo a um com uma gripe ou com uma amigdalite"
(...)que o “h” cresça, cresça tanto para que este mundo seja outra vez amigo e digno das crianças"
Amigo poderia fazer copy-paste de (quase) todo este texto e assinar por baixo
Só te digo que enquanto houver quem pense e escreva assim há esperança. Não, não podemos mudar o mundo. Mas cada vez mais acredito que cada um de nós pode fazer o seu papel, mudando-se a si próprio todos os dias e apesar de tanta besta por aí (fora os animais, que esses, definitivamente, não têm culpa), a próxima geração é infinitamente melhor do que esta.
desculpa o tratado, mas, como sabes, escrever pouco não é comigo :-)
bjs

Lua disse...

Eu nunca consigo comentar os teus pensamentos porque acho que os violo. Também não acho que queiras que o repita sempre porque sei que não é esta a reacção que procuras.

Só te posso dizer que concordo com tudo. Com a tristeza, com a perplexidade, com a esperança.

A ver se nos vemos num desses encontros de tugas. Vais ao japonês?

Beijos grandes

Diabba disse...

Lamento desapontar-te, mas a humanidade já não tem salvação. O homem é um bicho auto-destrutivo.

enxofre

Pitanga Doce disse...

Olá, aqui é a Pitanga. Sabes alguma notícia da Azulinha (125 AZUL)? Estou começando a ficar preocupada.

abraços do lado de cá

Paulo disse...

caso para dizer que é o mundo que temos. provavelmente, o que merecemos porque o ajudamos a construir e a ser assim: porco, velho, hipócrita. não tenho orgulho deste mundo cego. nenhum. acho que luto contra ele, mais ou menos conscientemente. fiquei abismado com a deliberação do supremo, quando toda os especialistas atestam contra. pelos vistos os senhores do supremo são alimárias iluminadas. o agá não cresce... desaparece.

abraço

geocrusoe disse...

Bem, depois daquele miguel que se passeou uns dias naquilo que lhe pareceu um paraíso (também aqui ha muitos dos problemas que aí referistes, mas claro a uma escala diferente e num cenário para mim idílico) eis que o guerreiro se revolta contra este mundo que todos sabemos estar muito doente e muito cego, mas em todas as épocas houve faróis e tenho esperança que nesta também hajam... embora por agora quase só surjam fogueiras para darmos à costa

pinguim disse...

Depois de ler este teu texto, e no início do qual, confesso ter estranhado a opção do "h" minúsculo para escrever Humanidade, fiquei com a sensação de ter ampliado considerávelmente a minha sensação de desconforto acerca do mundo de hoje, quer neste nosso "Portugalzinho" como no resto do mundo; focas assuntos vários, todos demasiado importantes e todos mal resolvidos; afirmas e eu estou totalmente de acordo contigo, que, e pese embora, tivesse gostado muito de ter filhos, olharia essa situação, hoje, com muita preocupação, pelo futuro deles.
Concluo, colhendo uma observação de um comentário anterior: enquanto houver pessoas com a tua lucidez e capacidade de análise, haverá sempre a esperança de voltar o "H" maiúsculo, na palavra Humanidade.
Abraço forte.

Anónimo disse...

Será que vale a pena viver no mundo de hoje? os que disserem que sim andam iludidos. Fifi

Ck in UK disse...

Pois eu nem sabia do filme ate que o vi advertised in NY... ja viste o nosso saramago? fiquei com uma certa curiosidade.
Quanto ao resto nem comento. E os gaijos continuam a atirar credito a tudo o que e homenzinho e a forcar uma sociedade de consumo estupida a quem a nao pode pagar. Porque ao fim e ao cabo essa e a gde desgraca do q se passa hoje.Parece que ainda ninguem conseguiu ver isto....

AEnima disse...

Ja tinha lido este teu post ontem. Mas ha certas coisas que escreves que para mim sao dificeis de comentar. A perspicacia de te aperceberes dos vicios humanos... a capacidade de polidamente pores o dedo na ferida e escarafunchar bem ate nos doer a todos. Porque ninguem e' livre de defeito.

E' facil criticarmos a "sociedade"... como se esta fosse um grupo de massa humana distante das caracteristicas com que nos reconhecemos. Mas NOS todos somos a sociedade. Todos contribuimos para o estado das coisas. E todos temos tendencia para nos desculpabilizar. Dizer: "Ah... tens toda a razao, mas eu nao sou assim."

Tenho vergonha eu tambem de muita coisa que vejo nestes tempos modernos. Especialmente da minha vaidade. De saber que, mesmo na face das adversidades, sonho em ter sucesso e dar-me bem. Ate que ponto esta esperanca e' simbolo de coisas boas como tenacidade, resiliencia e capacidade de sobrevivencia... ou se, no fundo, nao passa de arrogancia e futilidade?

Nao sei. Mas obrigado por me fazeres repensar a minha conduta.

Cromossoma X disse...

Olá!!! brigada pelo teu simpático comentário- como sempre!!

Passo por aqui muitas vezes, mas acho-me sempre tão impura para comentar os teus textos...que grandeza!
Espero que vás ao japonês!! :)

amigona avó e a neta princesa disse...

Deixo um abraço de amizade...hoje é só...

Músico Guerreiro aka Melões disse...

Calamity - escreve a vontade, e ja agora, o que e o quase?
Beijos

Lua - Ainda nao sei se posso ir ou nao. Provavelmente tenho visitas.
Beijos

Diabba - desta vez nao estou de acordo contigo. E nao vamos estar aqui para ver quem tem razao.
Beijos

Músico Guerreiro aka Melões disse...

Pitanguinha - pois nao sei nada. Tambem estranho muito a ausencia.
Beijo do lado de ca.

Paulo - A decisao do supremo e uma vergonha tao grande como a da proxima sexta-feira. E o mundo que temos.
Abraco

Geocrusoe - pelo menos que surjam as fogueiras.
Abraco.

Músico Guerreiro aka Melões disse...

Pinguim - infelizmente o H nao cresce lutando contra moinhos de vento. De qualquer forma o sistema actual esta a dar provas de esgotamento. Vejamos o que vem depois.
Abraco.

FiFi - eu quero acreditar que sim
Beijo

Cilinha - o filme estreia em Novembro. A ver se este vamos ver.
Quanto ao credito nao tenho mais nada a acrescentar.
Beijo

Músico Guerreiro aka Melões disse...

Aenima - e nao temos todos? tenho as minhas vaidades e os meus defeitos, todos de vez em quando vivemos de imagem, escondemos algumas verdades como bem sabes.
Mas convem colocar o dedo na ferida para nao nos esquecermos do que e realmente importante.
Beijos

Cromossoma X - ora essa, a verdade nao tem de se agradecer. Quanto ao Japones, como disse a Lua, ainda nao sei.
Beijo

Amigona - um beijo para ti e outro para a princesa.