sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Ilusão


Sentado no avião, olho pela janela. Após centenas de vôos ainda gosto de olhar pela janela. Vejo a minha cidade tornar-se pequena, reconheço os espaços tão bem marcados pelas luzes da noite.

A cidade encolhe e ganha um véu que a torna misteriosa quando as nuvens se começam a cruzar. Os contornos perdem a definição e as luzes só se vêem aqui e ali. A cidade torna-se menos reconhecível e mais distante, como as memórias, até desaparecer.

Já só se vê a lua e as estrelas mas sob o manto negro ainda se esconde a cidade cheia de memórias, de histórias e de amores.

Pergunto-me o que faz cada um daqueles que desenham a minha história. Sinto-os longe como distantes estão as estrelas que me seguem. E é aí que o coração salta, se contorce e se ata num nó profundo de saudade.

É duro voltar a casa, ver mais rugas nas pessoas que amamos, ver as crianças crescidas, ouvir os relatos de vida que não presenciamos e sentir uma inveja, saudável mas ainda assim inveja, por perdermos parte de uma vida que um dia foi nossa.

O coração aperta-se tanto que se esvazia e ainda assim parece querer ocupar todo o peito e expandir-se para lá do tórax, enquanto as costelas o seguram com dificuldade no lugar.

Pergunto-me qual o sentido de estar num lugar, noutro e não pertencer a lugar algum. Entendo o que me levou a partir, o que me transformou num lobo das estepes mas não consigo entender o que me leva a ficar.

Deixo-me enganar, lucidamente deixo-me enganar, rumo ao nada, como o céu negro que o avião teima em atravessar. Sei que o engano se transformará em ansiedade que dará lugar à amargura. Que a busca da redenção é quixotesca com a desvantagem de não conhecer os moinhos de vento que devo combater.

Tenho medo de não voltar a ver certas pessoas. Sinto pela velha senhora que passou horas comigo, mãos nas mãos a confidenciar, a senhora que sempre foi dura e aparentemente fria, a segurar-me as mãos, olhando-me nos olhos com os olhos húmidos desgastados pela idade. Apetece-me dizer que ainda nos veremos muitas vezes e por muitos anos, mas não consigo. Se o tempo é implacável comigo, como não o será com quem conta mais sessenta anos do que eu?

Outras mudam, e apesar de ocuparem lugar no nosso coração, não são iguais. Os valores crescem em sentidos divergentes ao ponto de calarem as conversas.

E o meu mundo, assim como as estrelas do céu, é uma ilusão.

11 comentários:

Diabba disse...

Nã é nada, é reeal. Tal como as estrelas!

enxofre natalino

pinguim disse...

A tua escrita lê-se de um só fôlego; brilhante!!!
Abraço.

Anónimo disse...

Que maravilha.Eu no teu lugar nunca mais voltava a ser o lobo das estepes.Aquilo que te leva a ficar, é o amor daqueles que te querem de verdade, o seu colo, os olhares meigos e a sua magia,é o sangue portugues,(PORTUGAL é lindo) e apesar de tudo, isto é um pequeno paraiso.Deixa tudo e fica, ainda tens muito tempo para sentires as mágicas dos que te amam.Beijinhos

Anónimo disse...

Foi a FIFI esqueci a assinatura

caditonuno disse...

"Pergunto-me qual o sentido de estar num lugar, noutro e não pertencer a lugar algum. Entendo o que me levou a partir, o que me transformou num lobo das estepes mas não consigo entender o que me leva a ficar."


só esta parte por si mesma servia como post.

realmente por vezes andamos de um lado para o outro e no final sentimos que somos de todos o lado, mas não somos necessariamente de um lugar ou dois em específico.

curioso...

amigona avó e a neta princesa disse...

Um abraço meu amigo...

Mad disse...

Foi exactamente por isso que voltei. E foi a melhor coisa que eu fiz na vida.

1 beijo grande

Afrika disse...

Sei bem do que falas!
Eu vivo com a cabeça aqui mas o coração la. Aqui falta-me o que la esta, e la falta-me o que tenho cá. Pode ser que um dia, as estrelas se posicionem in the right way!

Pitucha disse...

Tocas em ponto nevrálgico. Eu pergunto: uma vez partidos, poderemos regressar? Ou nada mais será como era dantes?
Beijos

geocrusoe disse...

tenho de reconhecer que a tua situação é mais angustiante que a minha... mas o texto é de uma beleza extrema que dá gosto lê-lo, mas não considero a tua realidade uma ilusão, talvez haja problemas de desenraizamento, nostalgia... mas a forma como descreves o que sentes prova que a tua vida e sentimentos são bem reais.

Mocho Falante disse...

Uff, que Grande e excelente texto, que desabafo comovente, que verdade tão verdadeira...adorei

um grande grande abraço