sábado, 13 de dezembro de 2008

Porque ainda se morre de amor

Hoje fico em casa. Deveria sair, meter-me na confusão da grande metrópole sob a copiosa chuva, o vento desagradável, o frio, fazer as compras de Natal, enfrentar os grandes armazéns cheios de gente, mas fico em casa.

Hoje estou como o tempo, cinzento, chuvoso, porque não sei lidar com o que não consigo entender.

Ontem vi morrer uma criança. Nunca tinha visto morrer ninguém mas não esperava ver morrer uma criança.

Chamou pela mãe que não estava. Depois chamou por mim que não estava. Mas eu, ao contrário da mãe, estava na mesma cidade e não noutro continente.

Já falara antes aqui do meu menino. O único que não estava terminalmente doente e que ficara sem mãe devido à burocracia estúpida e à lei cega e insensível que pensa defender a civilização ocidental mas a despe da boa moral, da alegria e do amor.

Não foi a doença que matou o meu menino, foram as leis. Desde que a mãe teve de tomar a decisão, fazer a impossível escolha, pior do que a de Sofia e bem mais real, que o menino deixou de comer e quando o fazia, rejeitava, e nesta rejeição não só dizia que não à comida mas também ao tratamento. Com os meses o brilho dos olhos definhava, o olhar tornava-se perdido e ver este olhar numa criança, dói.

Quando me via, sorria e abraçava-me. Pedia-me para não desaparecer como a mãe havia feito.
Ontem quando me ligaram, saí do escritório e fui ao hospital.

Desta vez não me pediram que me desinfectasse ou vestisse a bata azul ou que cobrisse os sapatos. Disseram-me: “Entra, só chama pela mãe e por ti. Achamos que não passa desta noite.”

Sorri-lhe como pude. Sorriu-me e pediu-me um beijo. Estive ali três horas a olhar para o meu menino, o meu preferido, a sorrir-lhe e a passar-lhe a mão pelo cabelo encarapinhado. No silêncio cortado pelo “bip” das máquinas.

Adormeceu mas eu fiquei ali a olhar para ele de coração partido e alma desfeita. Estremeceu, abriu os olhos, olhou para mim e sorriu. Aqueles olhos enormes naquele rosto tão magro.

E num minuto o "bip" tornou-se infinito, entraram as enfermeiras, o médico enquanto eu assistia a tudo como se fosse um filme em câmara lenta e só via aqueles olhos grandes fixados em mim.

A cidade calou-se à minha volta e a paz reinava. Fui até a casa e sentei-me às escuras no silêncio. Ignorei o telefone quando tocou, fugi dos compromissos que tinha, vira morrer uma pessoa, uma criança, o meu menino.

Já tarde, quando as pessoas que haviam saído já dormiam, saí, caminhei lentamente sob a chuva da madrugada que me lavava a alma e acalmava a revolta.

Entrei em casa ensopado, já o céu clareava. Dormi profundamente e quando acordei ainda chovia.

Ainda vejo aqueles olhos grandes e negros fixados em mim.

Para muitos, para as estatísticas, foi mais uma criança que morreu de sida.

Para mim foi uma criança que morreu por amor.





Requiem Lacrimosa - Mozart

20 comentários:

AnAndrade disse...

Merda. É tudo quanto me ocorre: MERDA!
Um beijinho para ti, sobretudo por seres quem és.

Kapitão Kaus disse...

Acredita que fiquei profundamente chocado com estas tuas palavras.

Não sei o que te hei-de dizer.

Ainda bem que a criança te teve perto. Ainda bem que tu pudeste dar-lhe algum carinho.

Abraço reconfortante.
KKF

caditonuno disse...

e vinha eu todo lampeiro a pensar que tinhas saudades da tua moça e ia já dizer que uma vez quase morri por amor, mas depois arrependi-me que até perdi a voz. nem sei o que hei-de dizer.

nestes momentos nunca é fácil nem correcto dizer o que quer que seja. ficam as recordaçoes (boas). é o que interessa.

mas deves ter presente na mente que a criança morreu feliz. estava contigo, chegou a abrir novamente os olhos e sorriu. sabe que tu o amavas e ponto final.

eu sei que é estúpido as crianças morrerem, mas infelizmente é uma verdade. má e crua, mas é uma verdade.

abraço forte.

Anónimo disse...

È maravilhoso. morrer e entregar o nosso último olhar a quem nos ama, morrer em paz,é tudo o que o ser humano deseja.As mais lindas palavras de amor são ditas no silêncio de um olhar.Ele vai velar por ti.Beijos e não estejas triste,és lindo.FIFI Este blog é uma bomba para a humanidade.

Teresa disse...

Como todos os outros, nem sei o que dizer. Como a todos os outros, estas tuas palavras (dizer texto soa-me artificial) calaram fundo. Nunca as esquecerei, nunca as esqueceremos.

Ver morrer uma criança... uma criança... UMA CRIANÇA!

Desculpa, estou a chorar. Era o teu menino, agora é um bocadinho nosso.

Sabes que não sou de palavrões, mas estou mesmo como o AnAndrade: MERDA!!!

Não sei dizer nada, e é horrível. Desculpa.

Teresa disse...

P.S. Lacrimosa, sim.

Deus, o que nós amamos este Requiem, que exprime o que não sabemos pôr em palavras!...

Tenta descansar, precisas. Até porque há mais meninos que precisam de ti.

pinguim disse...

Eu estou atarantado, meu amigo.
Raras vezes um post colocado num blog provocou em mim tal turbilhão de reações: de revolta, pela situação; de tristeza, pela perda deuma criança; de admiração, por haver um ser humano com a tua capacidade de amar e a sensibilidade extrema de o transmitir por palavras.
Sou impulsivo, e mesmo sem autorização prévia, vou transcrever este texto no meu blog, porque ele deve ser divulgado e lido pelo maior número possível de pessoas.
Obrigado pelas lágrimas que me fizeste soltar.
Um imenso abraço.

geocrusoe disse...

coincidência ou não, mal acabei de ler a última palavra deste post, já com os olhos turvos de lágrimas, e a luz eléctrica apagou-se nesse instante nesta minha zona, confesso que há momentos que não sei o que dizer... compreendo a tua dor, mas revolta-me muito mais os frutos desta civilização que cria leis desumanas para nos reger... feitas sem amor, cheias de egoísmo e capazes de matar uma criança por falta de amor. raio de sociedade esta em que vivo...
um abraço

Carlota disse...

Admiro-te muito. Muito mesmo.
Um grande beijo.

Pitucha disse...

É de ficar sem palavras perante o que contas. Sem palavras e com muitas lágrimas.
Beijos

lampejo disse...

Triste...
Por vezes guardam-se as últimas forças, para o último - eterno - adeus...
Sem dúvida o amor também mata, quando deixa muita dor...

Lua disse...

Queria muito ter escrito um comentário na altura que li o teu post mas fiquei tão triste que não consegui :(

Queria perguntar-te algo que está relacionado com esta tua outra faceta. Ficas por Londres mais alguns dias?

Beijinhos.

AEnima disse...

desculpa nao conseguir dizer muito, mas fiquei por aqui a chorar por ele e pela mae dele. Estou por aqui a ver muitos meninos muito pobres e tambem ando de coracao partido. Parece que nada que a gente faca e' suficiente para mudar o triste destino tracado dos desfavorecidos. Estupida esta palavra... "desfavorecidos".... Nos e' que nos deviamos chamar de "sortudos, snobs, que nascemos com o cu virado para a lua e ainda reclamamos de tudo" e nao eles de "desfavorecidos". Beijinhos e um abraco especial.

Diabba disse...

vou deixar de te ler...

beijo grande

Anónimo disse...

Que dor tão grande. Que dor tão grande. Pudesse alguma palavra, alguma lágrima, algum abraço aliviar a mais ínfima partícula de uma dor tão grande...

Calamity

Sophiamar disse...

Sem palavras, amigo. Muito comovente.

Beijinhos

Anónimo disse...

Gosto de ti, fazes-me sair das "preocupacoes da treta" que ocupam a cabeca e me fazem sofrer...como se eu soubesse o que e sofrer!? Fazes-me distinguir o que e realmente importante. Eu achava que tava a ter um dia mau... nao tou nada, ta um dia lindo, e ha tanto para fazer, nao tenho nada que me queixar, tou cheia de saude e de amigos!!! Beijinhos. Raquel

Sandra disse...

Olá, já várias vezes vim visitar o teu blog, mas hoje os meus olhos ficaram presos a este pos't.
É preciso muita coragem para estar ao lado de um ser que deve ter sofrido tanto na sua pequena existência de vida, ainda bem que estiveste a seu lado...
Eu este ano sofri com uma coisa parecida, soube da morte de uma criança que acompanhei durante estes ultimos anos e toda a sua luta contra o cancro. Sempre foi um menino com uma força brutal, mas a força nos fim dos seus dias foi-se tornando fraqueza. Não me esqueço dos seus olhos brilhantes e sei que está num sitio bem melhor que este onde andamos...
Continua com o teu blog, gosto muito de o ler...

Mad disse...

Não era MERDA que me apetecia dizer, era bem pior.

Mas TU estavas lá (como se alguma vez te fosses esquecer disso). E agora tens um anjo da guarda.

Que parvoíce de comentário, deixaste-me bamba. Desculpa. E 1 grande beijo. Um abraço apertadinho.

Mad disse...

Gosto de ti. E não te conheço, o que é fantástico.