quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Serei músico?!


Finalmente consegui ler o artigo de que toda a gente fala. Gostei dele. É sincero no que diz e no que conta. Somos assim, gente espalhada pelo mundo, unidos por essa coisa magnífica que se chama Língua Portuguesa.
Apareço como músico. Sim, sou músico, ou antes tenho uma licenciatura em música e vou praticando quando posso.
Sou músico, músico não praticante, para utilizar a linguagem de muitos (des)crentes que se chamam não praticantes, porque crêem que acreditam, mas não praticam.
Como já disse aqui, não sei em que é que acredito. Acredito? Sim, acreditarei. Não sei. Às vezes é mais fácil dizer que não acredito em nada. Está mais na moda.
Sinto-me tão bem numa igreja como em cima de um palco diante de uma plateia cheia ou vazia.
Mas em que é que acredito? O que sou mas não pratico?
Sou músico? Sou crente?
Acredito na vida depois da morte?
A morte! Nunca me assutou. Vivi com ela lado a lado e como todos nós vi morrer gente de quem gosto.
Não suporto quando se tenta amaciar o que não se pode amaciar e se diz “defunto” ou “falecer”. É “morto” ou “morrer”. Ainda pior é quando se diz que alguém “chegou cadáver” ao hospital. “Chegou MORTO”.
Nunca sofri quando alguém me morreu. Estranhamente, senti-me sempre aliviado, acompanhado. E isto, não acreditando em almas. Mas acredito na energia das pessoas. E que acontece a essa energia quando a pessoa morre?
“Morrer” é tão difícil de dizer como é “sou crente”. Por isso somos um bando de (des)crentes, que acreditam não sabemos bem em quê. E para os bons olhares de uns e dos outros, somos cristãos, porque somos bons. Ou porque não acreditamos na estrutura da Igreja e ainda a acusamos dos erros do passado, somos não praticantes.
Eu pratico, não, não vou à missa todos os Domingos, ou comungo regularmente, como não dou concertos todos os dias. Mas pratico aquilo em que acredito. Tento ser bom, como posso, com quem posso.
Admiro a Igreja. Gosto dela. Tem ideais bonitos e defende coisas boas. E a maioria das pessoas que por lá andam são boas. Eu não ando sempre lá metido porque não, não sou praticante mas pratico.
Não acuso a Igreja dos erros do passado, nem dos dirigentes que eventualmente possa ter. A Igreja vai muito além da hierarquia que a governa. É exactamente o mesmo que não julgar Portugal pelo tráfico de escravos, ou pela qualidade dos seus governantes, pelo regime de Salazar ou pela guerra civil de absolutistas e liberais.
Com a vantagem que a Igreja ajuda aqueles que são esquecidos pelo país.
Têm que mudar os dois. Igreja e País.
Se acredito?
Não sei, mas sei que gosto de aproveitar os momentos para pensar. A quaresma que aí vem, serve para isso – para eu pensar um pouco na minha vida, reflectir.
Se pratico? Não! Não vou à missa aos domingos, não comungo, não me confesso (mas reflicto).
Se pratico? Não! Não dou concertos todos os dias nem ensaio regularmente (mas estudo).
Se pratico? Não?
Não sei no que acredito. Sei que não tenho medo da morte, sei que admiro Cristo, sei que não entendo o Universo, sei que respiro música, sei que me sinto bem dentro de uma igreja, e acima de tudo sei que quando consigo ser bom, me sinto feliz, tão feliz como quando faço música.
Afinal sou praticante?
E toda esta revolução de pensamentos porque disseram que sou músico.
E sim, sou músico!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Velho

Do lat. Vetùlu-, “id.”

adj.
1. que tem muita idade; idoso; 2. antiquado; antigo; 3. muito usado; 4. que exerce há muito uma profissão;
s.m.
1. homem de idade avançada; 2. coloquial pai;


Olhava para as mãos. Pele enrugada e palmas ásperas como se de uma lima se tratassem. Talvez por tantas vezes terem limado, lixado as imperfeições da vida.
Sentado à velha mesa de madeira, enquanto olhava sem ver para lá da escura cozinha, brincava distraidamente com o velho oleado pregado à mesa, já rompido pelos anos, quase tantos como os seus.

Passava os dias sentado entre a escura cozinha, enegrecida pelo lume do Inverno, e a soleira da porta, olhando a horta onde durante anos trabalhou de sol a sol. Já não havia as marcas dos regadios que sulcava todos os anos quando terminava a época das chuvas. A terra, então arada com a ajuda de uma jumenta, estava agora coberta de ervas, e tornava-se dura, como as suas memórias e a pele das suas mãos.

Não sabia que idade tinha. Estaria bem além dos noventa, mas desde que a sua velha, e também a filha velha, o deixaram, deixou de contar os anos.

Dos netos, nada sabia. Tinham deixado a terra em busca de uma vida melhor. A última vez que os vira foi no funeral da filha velha. Estariam grandes, seriam gente, a gente que ele nunca pudera ser. Até sabiam ler e escrever! Já não corriam atrás das moedas de vinte e cinco tostões, nem queriam apanhar a bicha para ir à pesca. Vira os bisnetos uma vez no funeral da filha velha.

“Moços da cidade, gente fina, querem lá saber do velhote e de dar o penso aos animais.”

Tivera mais sorte que muitos.
O velho que passava as tardes na tasca foi levado para um desses sítios onde os velhos se sentam uns em frente aos outros, numa sala bafienta, sem ver a luz do sol ou sentir o ar fresco que desce do monte. Foi a enterrar passado nem um ano.
À velha da venda, ali da vila onde está o cruzeiro, também a levaram para um desses asilos. Parece que caiu nas escadas e ficou em agonia, até que uma irmã a encontrou. Passa os dias a olhar para a parede sentada numa cadeira de rodas.

Ele não. Ele podia já não ter alegrias nem tristezas. Não sabia dos seus, mas tinha a sua velha casa, a sua velha mesa coberta com o velho oleado e podia sentar-se no velho banco olhando para a velha horta. Dos velhos amigos, só com um contava. O cão também velho, agora pachorrento, que se deitava aos seus pés nos longos dias. Sim porque com a velhice, os dias tornavam-se maiores.
Então o velho pensava que ainda tinha uma longa vida pela frente, porque cada dia era agora um ano, e porque tinha uma velha casa, uma velha mesa, uma velha horta e um velho amigo.
E, acima de tudo, umas velhas mãos. Pele enrugada e palmas ásperas como se de uma lima se tratassem. Talvez por tantas vezes terem limado, lixado as imperfeições da vida.

Veio-lhe um sorriso aos lábios quando sentiu a brisa fresca que descia do monte. Olhava novamente para as mãos. E estas contavam as histórias dos que o deixaram.

Viu-se novo.
Acreditou que tinha uma vida pela frente.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Porque hoje é 24 de Janeiro

Mais um ano se passou sobre o meu segundo nascimento.
Só que este ano, pela primeira vez, me sinto bem comigo e feliz com o que se passou.
Sim, porque hoje é 24 de Janeiro.

domingo, 20 de janeiro de 2008

O mundo em que vivemos

Ontem foi um dia triste. Triste, muito triste.

Soube que um dos meus meninos morreu. Na terça-feira, quando os fui visitar, ali estava ele. Magrinho, com aqueles olhos negros, enormes, cheios de vida e de energia. Brincalhão como sempre. Uma pneumocistose levou-o em três dias.
Sei que, trabalhando com estes meninos, isto iria acontecer mais cedo ou mais tarde. Mas por muito que nos julguemos fortes, por muito que nos preparemos, é difícil.
É uma criança. Deveria ter o futuro pela frente e pensava que o tinha.
A sorte destas crianças é que não sabem a gravidade do mal que as atinge. Que estão ali porque nao respondem aos tratamentos, que estão ali para morrer com serenidade e sem dor à espera de um milagre que acontece a muito poucos afortunados.
Este menino, ao contrário da maioria dos que ali estão, tem pais que sofrem da mesma doença, mas cujo filho os fez lutar contra a vida e dependências que os levou ali. Perderam a vontade de lutar porque perderam o motivo. Assim, em vez de ver uma vida perdida, deparei-me com três. A do menino e a dos pais.

Falei com o médico destas crianças. Contou-me outra história que já tinha ouvido, mas não conhecia na primeira pessoa.

O hospital vai acolher um novo menino um tanto diferente dos demais porque responde aos tratamentos. Tem quatro anos. Nasceu cá porque a mãe, quando engravidou na Nigeria, fez tudo para vir ter a criança a Inglaterra devido à qualidade e disponibilidade dos tratamentos.
O visto da mãe não foi renovado e a senhora tem de regressar à Nigéria. A criança pode ficar em solo Britânico.
Esta valente mãe sabe que o regresso à Nigéria é uma condenação à morte. Mas o amor de mãe, este gigante amor de mãe, é sofrer se isto significar um futuro melhor para o filho.
Como é de prever, a senhora vai regressar à Nigéria só. Vai deixar o filho "órfão" neste país, porque ele cá pode viver uma longa vida e na Nigéria estará condenado à morte como a mãe, quer pela situação do país, quer pela falta de tratamentos.
Que se faz, que se diz?
Uma criança doente, que precisa da mae, que precisa de amor,... e por causa de leis estúpidas, burocracias imbecis, tem de regressar ao país de origem e escolher o que fazer ao filho.
Lembro-me então da “Escolha de Sofia”, da dor que é mandar um filho para a morte, quando é este país do “primeiro mundo” que manda a mãe para uma morte certa, sem dignidade e a obriga a escolher.
Queres um filho órfão e sem família aqui, ou condenas o teu filho à morte?

O que é isto?

E tudo isto em Janeiro, sim, porque mais um ano se passou...

E quando ontem cheguei a casa, sentei-me no sofá e deixei a dor entrar em mim, deixei a revolta apoderar-se de mim, porque é Janeiro, porque morreu um menino, porque uma mãe teve de escolher o que não tem escolha,...

... e chorei, chorei convulsivamente até a dor se apagar e adormeci no sofá.

Acordei já era noite depois de um sono consolador. Sonhei que o menino estava curado e com ele estava a mãe. Sonhei que o outro não tinha morrido.
Acordei já era noite, sem a dor, sem a raiva, só um vazio, um enorme vazio...

...e apeteceu-me ser criança e adormecer novamente, mas agora no colo da minha mãe.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Mas porque é que há gente que teima em dar tiros nos pés?

O que fazemos quando descobrimos que uma abécula, calhau-com-olhos, que tem a corda ao pescoço, mete a pata na poça (mas valentemente), o que poderia ter sérias implicações quer para ele, quer para mim, e mesmo para o estaminé, me mente abertamente apesar de o estar a ajudar a que não seja despedido, e depois de o chamar à razão (que o pôs com lágrimas nos olhos) volta a fazer borrada e a mentir?
Só ao estalo, não?

domingo, 13 de janeiro de 2008

Uma semana como qualquer outra

Faz hoje uma semana que regressei a Londres, semana essa com alguns acontecimentos dignos de registo.
Tive uma visita indesejável, a senhora gripe, que me deixou de molho na quarta-feira. Felizmente, foi-se rápido mas deixou um presente, o senhor Staphylococcus, que se alojou no meu nariz - dizem as más línguas (aka Cilinha) que eu devia deixar de snifar, mas a verdade é que tenho o nariz num estado lastimável.
Aparte da batata aberta que tenho no lugar do nariz, este senhor não me deixa ir visitar os meninos ao hospital, o que me deixa profundamente irritado, mas, enquanto para mim isto não passa de um nariz a cair, que vai ao sítio com uma dose de antibiótico, para os meus meninos, poder-se-ia traduzir em algo bem pior. Por isso manda o bom senso que não os visite, pelo menos até as feridas fecharem, e deixar de ter este corrimento amarelo (que bela descrição).

Este senhor foi ainda mais inoportuno porque nesta semana não houve muito trabalho, isto é, não há nada para fazer no estaminé. O mercado está morto. Passo um tédio descomunal à espera que passe o tempo para ir para casa. Ou seja, era uma excelente semana para estar com os meus meninos com os quais não estou há mais de um mês, e imagino-os sós (porque o Natal já passou e há muita gente que só se lembra deles no Natal). De qualquer forma, esta semana prevê-se pouco trabalho no estaminé e o meu visitante Staphilococcus ja não estará na fase infecciosa.

Com tanto tempo livre (e movimentos limitados) tenho posto a minha leitura em dia. Acabei de ler o "Rio das Flores" do Miguel Sousa Tavares, e agora estou em vias de terminar "História dos Castrados" de Patrick Barbier oferecido pela muito prestável (foi um amor durante a minha semana em Lisboa) e simpática Cangalheira Letrada. Estou a gostar. Ler o livro fez-me analisar a partitura do "Stabat Mater" de Pergolesi e ver o fabuloso filme Farinelli, que conta de uma forma um tanto fantasiosa mas interessante, a vida do grande castrato Carlo Broschi.
Vejo-me então a queimar o DVD com a cena em que Farinelli canta a belíssima aria de Handel (da ópera "Rinaldo") Lascia Ch'io Pianga após saber que a sua castração não foi resultado de um acidente, mas porque o seu irmão quis aproveitar a belíssima voz do infante para fazer triunfar a sua mediana música. A cena é violentíssima e por mais que a veja, não posso evitar uma forte comoção. E ao ler este livro em que se explica a atrocidade que era a castração, ao ver e rever o filme, continuo sem perceber como foi possível que a moda dos castrati tenha surgido e vejo o que a nossa sociedade, onde estas barbaridades já não se cometem, avançou.

Finalmente, ontem tivemos o almoço de bloggers portugueses em Londres. Uma mesa com muita gente, a maioria desconhecida. Passei um bom bocado e a prova disso é que o repasto durou mais de quatro horas e nem dei conta do tempo passar. Não sei porquê, mas foi um almoço onde a conversa fluiu e houve muito boa disposição de todos. Certamente para repetir.

Mas como tópico da semana, deixo-vos aqui a cena de que falo, cena essa de um dos filmes da minha vida, um misto de fascínio e horror pelo que foram os artifícios do meu período favorito da música. O Barroco.





terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Ressaca

Há vários tipos de ressaca, uns mais agradáveis do que os outros. Eu sinceramente prefiro a ressaca física à ressaca psicológica.

Domingo, quando regressava, olhava para um lado, para o outro, e via as famílias inteiras de regresso a Londres, os jovens casais, e eu ali só, deixando a família e os amigos nesse canto da Europa, e a Cara-Metade-Mais-Que-Tudo num voo que, tendo exactamente a mesma duração, se faz em direcção oposta.

E aí, este que bate, descontrolou-se e batia descompassado, apertou-se como que a tentar encontrar um caminho para subir pela garganta e saltar-me pela boca. Mas a garganta também tinha um nó. Um nó apertado.

Os pensamentos, esses, começaram a voar, a voar pelo passado distante, pelo passado próximo e pelo futuro de hoje como pelo de amanhã.

Senti-me perdido neste mundo. Sem estar bem aqui ou ali, porque não é onde se está que interessa, mas como se está e com quem se está. E de repente essa agonia, a ressaca do mês passado com os que amo, em vez de revolver-me o estômago e atacar-me o figado, fez-me sentir só, muito só. Eu, o lobo solitário, que gosta de estar só. Que é independente e que não gosta de dar justificações a quem quer que seja. A reacção física desta ressaca não se dava ao nível do estômago ou do fígado, mas do coração arritmado, da garganta apertada e dos olhos húmidos.

Detestei o aeroporto, detestei o avião e não queria ver quem lá vinha dentro. Queria vir sossegado no meu canto, abstraindo-me no meu livro e aceitando o futuro que eu escolhi como um condenado se deixa levar até à sua cela.

E hoje, levantar-me para a estúpida vida de casa-trabalho-casa, a confusão do metro, o trabalho acumulado, o tempo frio, ventoso e cinzento, a cama vazia, a casa em silêncio, um jantar à frente de uma televisão onde dá uma porcaria qualquer... não me apetece.
Continuo a acreditar que as mudanças que anseio, acontecerão mais cedo ou mais tarde. Sei também que gosto de viver aqui e um dia vou ter saudades dos anos que cá passei, mas hoje, depois da longa festa que foram as últimas quatro semanas, depois de me ter embriagado no amor e carinho dos que me querem, sinto-me a ressacar.