quinta-feira, 27 de março de 2008

Mais Desafios, Agradecimentos e Afins

Ainda estou na Santa Terrinha. Faz já uma semana que cheguei, e fará duas antes de regressar a Terras de Sua Majestade.

Apesar de andar por cá a trabalhar, dei-me esta pausa por muitas razões, principalmente para arejar a cabeça, comer boa comidinha e aproveitar o bom tempo, se bem que este último tem deixado muito a desejar.

Com todo este tempo, visita a amigos, a família, procura de casa, casamentos, concertos e afins, ando com muito pouco tempo (e vontade, verdade seja dita) para andar por aqui.

Escrevo pouco, comento pouco e, acima de tudo, tenho deixado de responder aos comentários e emails, o que, para mim, é uma enorme falta de respeito e de educação. Por isso apresento-vos as minhas desculpas e fiquem sabendo que todos os comentários, mas todos, mesmo os caídos em posts mais antigos (alguns em posts muito antigos) foram lidos.

Pelos blogues que leio diariamente (todos os que estão aqui ao lado), verifiquei que me foram deixados mimos, agradecimentos, agradecimentos a agradecimentos ou simples comentários. Continuo a achar este mundo blogosférico espantoso. O Melões, vindo do nada, foi conhecendo gente, foi lido e leu e criou relações onde antes julgava não ser possível.

Isto leva-me a outro ponto. O desafio da azulinha, que já veio da Carlota e que me é muito fácil de responder, porque, já há uns tempos, a pedido de outra pessoa, escrevi um texto sobre porque tenho um blogue.

Assim, e devido à minha enorme preguiça, deixo-vos parte do meu texto, escrito já há algum tempo, e por isso um tanto desactualizado.

Quanto aos links, tambem a preguiça tomou conta de mim, por isso, pesquisem nos links ao lado. La encontrarão as pessoas a quem me refiro. A Azulinha, as cangalheiras, os dois felizes, o ser positivo, enfim... detesto enumerar porque sei que me esquecerei sempre de alguém.

E cá fica o texto, ficando o desafio para ser respondido por quem bem entender.
“Tenho uma amiga que tem um blog há muito tempo. Nesse blog baptizou-me com o belíssimo nome "Michael Melões". Falávamos muito do blog e criei um profile para o comentar. Como o nome, estranhamente, já estava utilizado, criei o Melões Melodia – Melões porque assim fui baptizado na blogosfera e Melodia porque a música é uma parte importante da minha vida. Com a interacção com outros bloguistas, começou esta vontade pequenina (que logo foi crescendo) de criar um blog. Assim surgiu "As aventuras do músico guerreiro" se bem que este nome passa ao lado de muita gente. Mas para mim é muito claro. O blog é "As aventuras do músico guerreiro" e o protagonista, eu, o Melões.Há duas grandes razões para a sobrevivência deste blog: estando longe do meu país, é uma forma de continuar a escrever em Português, que se vai deteriorando depois de cinco anos fora; e, não menos importante, uma necessidade enorme de expôr sentimentos, anseios e vontades. Em relação a este segundo ponto tenho que esclarecer um bocadinho. Tive uma adolescência muito complicada, uma entrada na idade adulta ainda mais dura. Guardei-o tudo para mim. Encontrava nos papéis o meu escape. Quantos textos não tenho eu perdidos por aí com as amarguras e dificuldades de uma terrível adolescência. Criei uma sensibilidade diferente para as coisas do mundo quando soube que tinha a vida por um fio. As coisas mudaram surpreendentemente e de repente estava bom. Quando passamos por momentos assim, achamos que temos algo a fazer. Isso passa por denunciar o que está mal, mas acima de tudo, dar um bocadinho de esperança àqueles que pensam que a vida lhes foge e os maltrata. Como digo algumas vezes no meu blog, e é o mote do músico guerreiro, "Tudo é possível ainda que nos digam que não."
Para falar à vontade, porque conto coisas muito íntimas e refiro pessoas que existem e não quero ver sofrer (outra vez), decidi-me pelo anonimato. O que interessa é que a história é real.
No entanto "as aventuras do músico guerreiro" ganhou vida própria e deu-me a conhecer gente formidável a quem finalmente tive coragem de pôr cara. É uma decisão difícil a de dar este passo. Mas depois de um ano de existência, depois de muitos bloguistas que vêm e vão, há aqueles que ficam e com os quais se vão criando relações sólidas de amizade. Relações fortíssimas. Daí a conhecer a pessoa vai um passo. E nunca me desiludi.
Afinal o músico guerreiro aprendeu mais uma coisa nesta nova jornada. As relações criadas na blogosfera não são mascaradas. O monitor cria a distância suficiente que nos torna muito mais honestos em relação aos sentimentos e dizemos coisas que nos seriam muito difíceis de expôr cara a cara. E conhece-se gente que não conheceríamos doutra forma.
A propósito disto lembro-me de um jantar em Lisboa em que éramos quatro pessoas tão diferentes, que por vias normais, tenho a certeza de que nunca faríamos parte do mesmo grupo de amigos. No entanto criámos uma enorme cumplicidade, um carinho muito grande e essa abertura de horizontes vale a pena. Já os jantares com "emigrantes" aqui em Londres são diferentes. Temos muito em comum. Andamos todos pela mesma idade, temos educações similares e, acima de tudo, temos a vivência do que é viver numa terra que não é a nossa. A empatia é então muito natural porque conheces, mesmo antes de conhecer, uma parte importante da vida de cada um.
Como não tenho família neste país e tenho uma cara metade a viver longe, há vezes em que a solidão aperta. Nesses momentos o blog e os que por cá passam, tornam-se muito importantes e uma boa companhia, no entanto tive a sorte de ter uma integração fácil. É o sexto país que conta na lista dos países onde já vivi, Londres é uma cidade simpática, onde já tinha amigos, e a duas horas de distância da família e da cara metade. Além do trabalho (...) faço voluntariado com crianças doentes em fase terminal num hospital local. É um "trabalho" recente, mas duro. Uma vez mais, o blog serve para expurgar as angústias criadas por este tipo de trabalho, o trabalho mais reconfortante e bonito que alguma vez fiz e pelo qual me sinto realizado e feliz. (...)”

domingo, 23 de março de 2008

Os actos e as palavras

Este ano vivi a Páscoa.
A minha relação com a Igreja sempre foi estranha. Fascina-me a Igreja nos seus princípios e fundamentos, a Igreja formada por todos os Cristãos, não a igreja. A Igreja.
Cheguei quinta-feira. O dia da mesa. Os pais estavam no aeroporto à espera mas com pressa. Cantavam na celebração da ceia do Senhor. Longe vão os tempos em que eu vivia intensamente este periodo.
Perguntaram-me se me queria juntar a eles. Disse que não. Tinha que desfazer a mala. Saem e sinto uma necessidade de ir ter com eles. Vou à celebração da ceia do Senhor, junto-me ao coro dessa igreja que vive da e para a música e onde fui professor de música, organista e cantor durante muitos anos. Comunguei porque era o dia da mesa e não faria sentido ir à festa e não participar. Não o fazia há muito tempo, não sei porque o fiz, mas fiz. Terminada a festa, fui jantar com os meus pais. Deixei-os e fui jantar com os amigos. Sempre à volta da mesa.
Sexta-feira amanheceu brilhante, com Sol, um dia lindo. Depois de almoçar um pobre almoço de Sexta-Feira Santa, porque os meus pais são rigorosos na sua vivência do Tríduo Pascoal, decidi juntar-me a eles na celebração da morte do Senhor.
Uma celebração longa, triste, de reflexão. Há largos anos que não o fazia. Encontrei vários amigos que costumava encontrar nos meus anos de juventude em que a Igreja fazia parte da minha vida. Sempre me impressionou esta celebração, com a longa procissão de entrada silenciosa, com círios negros ao lado da cruz, acólitos cabisbaixos e o celebrante vestido de vermelho vivo. E emocionei-me quando, como em criança, vi o celebrante, na sua veste vermelha, numa Igreja com duas mil pessoas em silêncio, prostrar-se no altar, com o rosto encostado ao chão. Mais me tocou a leitura da Paixão segundo São João. Por mais que ouça esta leitura, especialmente esta do predilecto, por mais que a leia, ou que ouça a magistral composição de Bach, não me canso e cada vez parece a primeira. Tocante, profunda, cheia de dor e de amor. E recordo-me das palavras de Pilatos, da pergunta: o que é a verdade, que fica sem resposta. Fica sem resposta, não por mania de Jesus, ou por estratégia, mas pela evidência. A verdade está ali, na entrega, no amor, na dor de quem é a verdade. Comunguei.
Acabei o dia com um belíssimo concerto. O Requiem Alemão. O Requiem humanista e não do Deus castigador. O Requiem do Deus em quem tento acreditar, mesmo que a minha razão me traia. O texto deste Requiem, que ainda há poucos dias escrevi aqui parcialmente , é amor, é verdade. Somos nós. O Requiem que embala, que consola, o Requiem que começa com a palavra Felizes e com esta termina. O Requiem humanista da felicidade eterna, em que a letra diz tudo, mas em que a música diz mais do que a letra, e pela qual, a letra não seria necessária. O meu Requiem de eleição. E no fim do concerto reuni-me com os músicos à mesa.
Chegou Sábado e outros amigos vieram para mais um encontro à mesa. Vieram de longe para almoçar. Falámos, rímos, falámos de tudo. Só não falámos do que não era preciso falar, porque vieram e quando vieram, disseram tudo. Conheci-as aqui, à excepção de uma, mas vieram. Restaurante, mesa, gelataria, mesa, café, mesa, depois jantar com outros amigos que também nada disseram mas vieram, mesa.
Cheguei a casa de madrugada com os pais ainda acordados que estiveram a ajudar uma vizinha que pedia Socorro na rua porque a sogra estava a morrer. Vinham da Vigília Pascoal, de celebrar a vida, e viram-se com a partida serena de uma pessoa que não conheciam enquanto esperavam a vinda do INEM.
Amanheceu o Domingo. Os pais já idos para a quinta. A Irmã passa por casa para me levar até à celebração da Ressurreição do Senhor onde ia cantar. Quando me viram chegar, perguntaram-me se me queria juntar ao coro, e assim o fiz, e cantei a plenos pulmões a gloriosa Páscoa e comunguei. Os metais ecoavam pelo granito da Igreja. Vivi a Páscoa à minha maneira.
Seguimos viagem até à quinta onde nos juntámos com a família. Vinte e um à mesa. Sempre à mesa. Um longo almoço de festa na longa mesa da adega da quinta, uma mesa corrida, a única onde os vinte e um cabiam.
Já ao fim da tarde, o rosmaninho na entrada. O Cheiro do rosmaninho recém colhido que me recordaram as Páscoas com os avós na quinta. O compasso, o riso das sete crianças que aproveitavam o espaço da quinta para as suas incansáveis brincadeiras, apesar do frio. Sem se lembrarem que há televisões, DVDs ou videojogos. Uma família feliz.
Regressado ao Porto, depois destes dias tão preenchidos e passados à volta da mesa, depois das palavras ouvidas e das que não são precisas dizer, depois dos actos passados e dos actos presentes, senti-me em paz.
Senti-me em paz porque encontrei-me na minha verdade, na única verdade, na verdade que está dentro de mim e dentro daqueles que amo.
E eu, que não sei se creio no que vejo, que não creio na igreja, mas acredito na Igreja, vivi esta Páscoa como a minha Páscoa.

quinta-feira, 20 de março de 2008

sábado, 15 de março de 2008

Os Olvidados II

Portugal, como muitos países europeus, teve o seu periodo de ouro.

Com o ouro vindo do Brasil e o cacau de África, com as rotas das especiarias, Portugal florescia e as cidades portuguesas rivalizavam com as grandes cidades europeias em termos de arte.

Portugal era uma sociedade sedenta de arte e com vontade de mostrar ao mundo a sua riqueza. Esta riqueza atraiu ao império músicos, arquitectos, compositores...

Escolas floresciam pelo país, como a de Lisboa, de Vila Viçosa, de Coimbra, de Évora. Todas as catedrais tinham um mestre capela e a construção de órgãos fazia-se ver por todo o país.

Infelizmente, um violento terramoto veio acabar com este período de beleza e estilo e muitas obras se perderam. Os grandes polifonistas portugueses foram esquecidos, parte das obras perdidas, outras escondidas e enterradas em arquivos que vão desde as catedrais do país até arquivos nacionais como a Torre do Tombo.

Lentamente, estas obras vão sendo resgatadas e as pérolas da nossa música vão-se encontrando por aí. Estranhamente, é mais fácil encontrar registos sob a forma de gravações ou partituras neste país onde vivo do que no meu país.

Deixo-vos aqui um motete de Diogo Dias Melgás, da escola de Évora. Apesar de ser um dos grandes polifonistas portugueses, tenho a certeza que se perguntar pelo nosso país o nome de um, poucos me saberão dizer um nome que seja.

A obra de Melgás, sobre a qual há muita informação, é de primeira qualidade e denota já uma transição da música polifónica dita antiga para o barroco.

O motete que deixo é uma obra prima. O seu famoso (mas só para alguns) Salve Regina. Um texto recriado ao milímetro onde Melgás fugiu às tradicionais longas sequências harmónicas da época para alongar a obra, mas deu um cuidado cirúrgico a cada palavra. Destas destaco a invocação inicial, os pedidos de súplica, repetindo as palavras e harmonias, a fabulosa plasticidade do clamamus e do suspiramos, e o pungente choro do gementes et flentes que se afunda num lacrymarum vale. O suplicante oculos ad nos converte, a bondade e piedade do clemens e pia e a doçura do dulcis.

E quando ouço um motete desta qualidade, tão bem interpretado, mas acima de tudo tão descritivo, tão emotivo, tão polifónico mas já tão barroco, me pergunto quantas obras maestras estão ainda por descobrir e quantos outros Melgás estão por ser resgatados do esquecimento.



terça-feira, 11 de março de 2008

Onze de Março

Passaram quatro anos. Quatro anos desde aquele amanhecer em que, de repente, a vida se quebrou, incapaz de suportar a dimensão de uma barbárie tão desusada.

Acordei antes do tempo, com a casa a tremer e o ruído das janelas. Pensei ser um sismo, mas depois do banho, quando comecei a ouvir as sirenes e vi como ambulâncias e carros de polícia desciam a Alfonso XII ou o Paseo del Prado, dei-me conta que algo mais sério se tinha passado.

Saí de casa e a cidade estava estranhamente calma e silenciosa. As ruas estavam desertas, a manhã fria.

Chegando ao escritório recebo o primeiro de dezenas de telefonemas. Fiquei a saber pelo meu pai o que se tinha passado, ali, a quinhentos metros de minha casa. Foi esse ruído que me acordou, o ruído da matança indiscriminada de quase duzentos inocentes que haviam madrugado para ir trabalhar. Duzentas pessoas que haviam embarcado em quatro combóios suburbanos, quase todas humildes, muitas imigrantes, todas inocentes.

Senti-me ferido. Madrid era uma cidade ferida e nessa cidade que tão bem me acolhera, também eu me sentia ferido.

Podia falar das angústias dos que não chegavam ao trabalho, dos telefones que não funcionavam, dos olhares assustados e da profunda tristeza. Mas não.

Este acto cobarde de meia dúzia, mostrou-me que para um acto mau, há milhares de actos bons.

As pessoas desciam ao lugar dos acidentes e não exitavam em rasgar as suas camisolas e casacos para parar o sangue que corria nesta Madrid ferida. Traziam de casa cobertores para aquecer aqueles que se esvaiam em sangue na manhã fria. Os cafés da zona ofereciam água, comida ou um chá quente aos feridos e aos que os ajudavam, incansáveis.

Por toda a cidade, filas gigantescas de anónimos que queriam dar sangue para mitigar a perda de sangue da cidade atacada.

Madrid, a cidade sempre em festa, estava silenciosa, triste, ferida na alma e no orgulho. A cidade sempre recebera bem e recebia este prémio. Mas mais do que nunca, a cidade da “fiesta” vestia-se de humanismo. Uma cidade viva, desinteressada, caridosa, uma cidade de amor.

Uma cidade que respondeu com amor a um ataque de ódio.

Juntei-me a esta cidade que não era minha. Vivi os ataques como não vivi nada na vida. Senti-me atacado, impotente mas rodeado de amor. Calei nos momentos de silêncio, e nunca estes haviam tido tanto significado.

Marchei pela paz num dia de chuva, eu, aquele que sempre evitara manifestações.

Uma marcha silenciosa com milhares de pessoas. Com todos os partidos políticos, com o príncipe herdeiro, com todos os chefes religiosos e com largos milhares de anónimos que desafiavam a chuva copiosa e faziam uma massa humana desde a Plaza Colón até a Atocha.

E não se sabe de onde, após uma marcha lenta e silenciosa sob uma chuva forte que caía sobre a multidão sem guarda chuvas, ouve-se a frase. Uma frase simples, mas que me mostrou o poder que uma frase dita em coro por uma multidão pode ter.

“No está llovendo, Madrid, está llorando!”

As lágrimas estariam disfarçadas pela chuva, a multidão, a dor, a chuva, as lágrimas, o amor, a cidade eram só um.

Um apelo à vida, para a vida e pela vida.

Porque nesse dia, para mim, Madrid era o mundo, a vida e o amor.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Pausa


Este texto adivinha-se longo. Tão longo como a vida que desejaria ter. Mas é um texto de um Melões cansado. Cansado, desanimado, triste.

É o meu texto, sou eu hoje, ontem e amanhã. Um guerreiro que perde batalhas, que quer ganhar a guerra, mas, no fundo, sabe que não é possível.

Gostava de saber quais são as duas forças que comandam o guerreiro. Uma força demasiado destruidora e outra que o resgata nos momentos de profunda angústia. Será Deus? Quem me resgata? E se sim, quem me condena?

Não sei se acredito em Deus, já o disse aqui. A minha razão diz-me para não acreditar, mas a minha emoção acredita profundamente. Como diz o texto das pegadas na areia, creio que nos momentos difíceis, há alguém que nos leva ao colo e quando olhamos para trás e vemos um par de pegadas, pensamos que Deus nos abandonou.

Hoje, outra vez, tudo recomeçou, mais uma luta contra o tempo, pela vida. Não é o mesmo mal que me afligiu durante o longo Inverno. É outro... que poderá ter o mesmo destino fatal que já fui capaz de tornear duas vezes.

Duas vezes me disseram que não tinha futuro, duas vezes provei que tinha. Hoje, uma terceira vez... manhã passada no hospital, o mesmo onde estão as minhas crianças, mas porque pura e simplemente perdi momentaneamente a visão.

Voltaram os exames e mais exames, angiografias, TACs, e lá está de novo a força maligna que me quer arrancar deste mundo, agora com outra forma, com outro nome.
O meu corpo voltou a ser a bomba relógio que já foi no passado e eu tenho de descobrir a forma de a desactivar antes da detonação.

Bolas, dizem que cada homem só carrega a cruz que consegue suportar. Serei eu um homem forte? Até quando? Não, não quero desistir.

Afinal nem tudo é mau. Sei que o meu sangue curou ratos, agora é esperar que cure homens. Soube-o hoje depois de saber da nova bomba relógio, desta vez no meu cérebro, pronta a estourar.

Depois dos exames, fui ver as crianças... parecia que adivinhavam. Provavelmente o meu olhar traía-me e mostrava o que me ia na alma. Deram-me os mimos que normalmente lhes dou, e ouvi a frase mais bela que poderia imaginar. Uma pergunta. Pergunta inocente como só um menino de quatro anos pode fazer. Um menino órfão e sem futuro. O mais calado e tímido de todos os meninos. Hoje não teve medo. Viu-me e correu até a mim. Abraçou-me a perna. Peguei nele ao colo e deu-me um beijo. Cola-me a boca pequenina ao ouvido e diz em segredo: “Do you want to be my father?”

O meu coração que ficara vazio, encheu-se e aqueceu. Os meus olhos, os que me levaram a descobrir a terceira bomba brilharam e fiquei sem palavras.

Apeteceu-me agarrar nele, cobri-lo de beijos e trazê-lo para casa. Sussurrei-lhe “I’m your father” e senti-me pai daquele menino.

Saí do hospital alegre e triste, cansado, destruído, mas motivado para lutar.

Dizem que não há duas sem três mas também dizem que à terceira é de vez. Não sei em que acreditar e procuro forças para mais uma dura luta contra o tempo.

E tudo porque um dia um olho deixou de ver. E tudo porque a minha vida parece destinada a ser vivida no fio da navalha, uma vida de presente, sem futuro, mas um presente que se alarga durante anos até não sei onde.

Será pedir muito, pedir uma trégua? Quase não tenho tempo de me recuperar de uma luta e vem outra.

Qual a finalidade de tudo isto? Qual a finalidade de ter a constante recordação de que a vida é tão efémera? As provas passadas não serão suficientes? O que vejo todos os dias não chega?
E onde posso eu ir buscar mais forças?

Acredito que não sou má pessoa, acredito no lado bom de toda a gente, mesmo dos que cometem as maiores atrocidades, respeito todos por igual e da mesma forma ou ainda mais do que me respeito a mim.

Então porquê tudo isto? Porquê uma vida cheia das mais fortes emoções?

Às vezes penso que ter uma vida mediana, mediocre é tão mais fácil... levantar, trabalhar, jantar, ver televisão, dormir... tão mais fácil... gostava tanto de me contentar com uma vida assim, sem dores de cabeça, sem as dores do mundo, sem os meninos do hospital, sem discriminados, sem políticos, sem dinheiro, sem paixões,... mas não será isto uma vida sem vida?

Que sentido teria viver assim? Nenhum.

Não sei se deva fazer uma pausa ou não. Dar-me tempo, o tempo que posso não ter, para pensar. Para pensar em mim, para pensar na vida, na minha vida.

Para escrever, para compor, para dormir... para mim e só para mim. Tenho-me negligenciado, posto em segundo plano e a vida não aceita adiamentos, porque o tempo escapa-se e não volta atrás.

Por isso não sei se farei uma pausa neste espaço, se me ausentarei até me reencontrar e saber quem é o novo eu.

Porque ainda há esperança... como diz o grande livro, o livro dos cinquenta livros, toda a carne é como a erva e toda a sua glória é como a flor da erva. Seca-se a erva e cai a flor. Vede como o agricultor espera pacientemente o fruto precioso da terra até receber a chuva da manhã e da noite. Mostra-me o meu fim, para saber quanto sou frágil. Olha, os dias que me deste são um palmo apenas e a minha duração é um nada. Sim, todo o homem não passa de um vazio, todo o homem é apenas aparência. O homem vai e vem como sempre e labuta por um nada, pois nós não temos aqui a nossa pátria definitiva. Morte, onde está a tua vitória? Morte, onde está o teu aguilhão?

Respeito a morte, não a temo, como respeito e admiro a vida... porque não há muitas vidas. Há uma e uma só e todos partilhamos um pouco dela. E não é por uma estrela se apagar, que deixa de haver estrelas no céu.

Tudo faz sentido, nada faz sentido.

O que sei é que ainda tenho muitas batalhas pela frente. E uma vez mais, o mote da minha vida ganha força.
Sim,tudo é possível ainda que nos digam que não.

sábado, 1 de março de 2008

E como sou um ingrato mas não por muito tempo...

...aqui ficam uma dívidas pagas.

Há alguém para quem a vida são instantes, que nunca desiste de mim. É mais um destes conhecimentos virtuais que vai crescendo e que passa por aqui todos os dias. Lança-me desafios e prémios e eu tardo em realizar os primeiros e nunca trago os segundos.

E já sabe que nunca trago os prémios, que os deixo lá guardadinho, pois enquanto lá ficam, fica um bocadinho de mim. Não são só os prémios destes instantes da vida que não trago. Não trago de nenhum lado.

Não vou dizer, no entanto, que não gosto de ver o meu nome nestas nomeações. Gosto. As pessoas lembraram-se de mim, reconheceram-me e isto faz muito bem ao ego e à alma. Pois desta vez disse que o meu blog é um “Bom Blog, Porra”, daí, aqui a minha nota de que estas coisas não me passam ao lado e um muito obrigado.

Não ando aqui pelos prémios, nem sequer me candidatei ou concorri ao que quer que seja e despejo, muitas vezes, cada chorrilho de ideias, que só não apago mais tarde porque sou teimoso. E a história não se apaga, mesmo que seja a história da nossa alma.

Também me deixou um desafio – as canções da minha juventude – e disse-me inocentemente, este vais gostar porque és músico.

Pois aí é que está o problema. Como comecei a estudar música muito cedo e a cantar ainda antes da escola primária, passaram tantas músicas pelas minhas mãos, que me é difícil dizer que determinadas músicas me marcaram. Ou marcaram muitas, ou nenhuma, não o sei. Recordo-me que ainda criança gostava do Carlos Paião e sofria de dor quando tinha de ouvir a minha irmã com ABBA. Nunca fui das músicas da moda, mas grupos houve, ou pessoas que me seguem até hoje e dos quais tenho tudo.

Sakamoto será sempre uma referência, desde as suas geniais bandas sonoras, ou os Boulevard of the Broken Dreams, que tinha um disco em vinil comprado no Corte Ingles de Vigo que adorava, e que tive de me desunhar até encontrar os CDs e mandá-los vir sabe-se lá de onde. Mas os clássicos sempre estiveram muito presentes desde muito tenra idade.

Não respondo totalmente ao desafio, mas não sei fazê-lo de outra forma.

Já mais recentemente a vizinha ali do Lote 5, tambem me deixou um desafio cheio de regras... não achas que já há regras suficientes neste mundo em que vivemos? Ora bolas... agora, até para postar, necessito de regras?

Pois a vizinha do Lote 5 desafia-me a contar seis coisas sem importância sobre mim. Pois cá vai:
- todos os dias a meio da manhã desço do estaminé para ir buscar um café. Dou a volta ao quarteirão;
-todas as manhãs no metro recolho um jornal destes grátis, o metro, e enquanto desço as escadas rolantes leio os cartoons e o zodíaco;
-vou regularmente até ao Hyde Park com um saco de amendoins, dar de comer aos esquilos;
-quando entro num dos muitos elevadores do estaminé (ou do Heathrow Express) aperto imediatamente no botão de fechar portas, e irritam-me as pessoas que o utilizam por um andar... que subam as escadas, que o exercício faz muito bem;
-estou inscrito num ginásio mas este ano ainda não pus lá os pés;
-escrevo a maioria dos meus posts em papel e todos em word (para ter direito a acentos) e só depois os publico. Ainda assim, não os revejo e há sempre uma gralha aqui e ali.

E agora deixo as regras da Carlota (se bem que eu mesmo não as cumpro todas)
1.. Colocar o link para a pessoa que nos "marcou".
2. Colocar as regras no blog.
3. Partilhar 6 coisas sem importância sobre nós.
4. Marcar mais 6 pessoas no final.
5. Avisar estas pessoas deixando um comentário nos seus blogs.

Ou seja para mim três regras são mais do que suficientes, mas deixo-vos as outros no caso de alguém querer continuar com o desafio.

É Março


Não há nada como dormir muitas horas. Depois de 11 horas de sono, acordei cheio de energia, de fome e com uma enorme vontade de sair nesta bela manhã de Sol. De repente sinto-me como se nada se tivesse passado no início da semana, sinto-me cheio de saúde, de alegria e excitação.

Dei-me conta... é Março... o mês em que chega a Primavera e em que os dias estão claramente maiores. É o mês em que o dia rouba horas à noite até se tornar maior do que a própria noite.

Este ano é o mês da Paixão, mas é o mês da Páscoa, e da Primavera e do Pai – o mês dos “P”.

À minha frente abre-se um belíssimo mês em que vou passar duas semanas em casa, celebrar o dia do pai, o aniversário da mana, ir aos concertos de semana santa, celebrar a Páscoa em família, celebrar (por fim) o casamento da Cilinha.

É o mês em que a Cara-Metade-Mais-Que-Tudo terá um substituto e poderá regressar a Madrid. É o mês em que eu, a Cara-Metade e o pai da Cara-Metade nos sentaremos à mesa para decidir os projectos futuros e cada vez menos distantes.

O que se abre à minha frente é um mês de amor, família, amigos, música e futuro.

É Março.

Que mais posso querer?