quinta-feira, 29 de maio de 2008

Santo Trabalho!

Nos próximos dias encontrar-me-ão por aqui












E depois por aqui


sábado, 24 de maio de 2008

Queixumes? Não, obrigado!




Não quero queixumes. Não quero mais emails sobre o preço da gasolina, o lucro dos bancos e das empresas, impostos, comissões, fumo (dentro e fora de aviões), inflação, crime... não quero!

Quero lá saber que Franco queria invadir Portugal e que o país faz tudo mal.

Uma crise como esta serve, acima de tudo, para nos pôr no nosso sítio.

A economia mundial está à beira do colapso. Não há comida, a crise energética acerca-se a passos largos. O mundo está em guerra consigo, e nós, passivamente, vemos a Natureza a destruir (ou a construir).

No entanto temos a nossa comida na mesa, roupa lavada, electricidade em casa (que nos deixa utilizar este fabuloso meio chamado “blogosfera”). Viajamos mais do que nunca. Temos armários cheios de roupa (de marca ou não) de algodão colhido na Índia por gente que vive em condições muito piores do que as dos animais que nos fazem companhia. Quando a vestimos não nos lembramos que do lado de lá, no fim da cadeia, estão crianças, mulheres e homens que ganham por dia o que nás gastamos num inútil café.

Pagamos por isso. “Alimentamos essa ideia”.

Dizemo-nos “verdes”, quando passamos horas a ver televisão, ou quando damos um passeio de carro, quando podemos simplesmente dar uma agradável volta ao quarteirão. Compramos livros, não os partilhamos. Não damos a nossa roupa aos mais novos, como outrora, compramos. E quando o primeiro borboto aparece, lixo com ela.

Então de que é que nos queixamos? De desperdiçar recursos que são finitos e que agora cobram factura?

Muito do que somos depende de onde nascemos.

Se o acaso me tivesse feito nascer no interior da Índia, na China mais remota, numa favela do Rio, na bela e sofrida África, berço do Homem, não estava aqui a escrever. Provavelmente nem sequer estaria aqui de todo.

Por isso não se queixem. Os queixumes só servem para nos deprimir. Não têm valor construtivo. Não quero arruinar o meu bem-estar, os meus dias bons.

E isto não é ser egoísta. É ser humano. Tenho consciência do que faço e do que está por trás. Tive sorte. Nasci num país pequeno, afortunado, com a mania que é grande, mas mesquinho e invejoso. Um país fechado nos seus defeitos com uma clara arrogância e falsa humildade.

E tudo isto porque hoje fui ver os meus meninos. Não ia há algum tempo. Mas saúde recomposta, ânimos levantados e cá vai disto.

Ligou-me ontem o médico deles (que sabia porque andava afastado) a pedir ajuda para dar os almoços.

Lá fui lampeiro e feliz porque os meus meninos me fazem feliz e quando lá cheguei, uma festa. Uma festa para mim.

Bolo de chocolate e chá. E dez crianças que não têm a minha sorte, sem pais, sem futuro (talvez porque tenham nascido em África) e , acima de tudo, sem queixas.

Dei-me conta de que enquanto estas crianças estão ali a morrer, celebram a minha vida. A minha não, a delas.

Com os desenhos que me deram, coloridos, todos na rua, em jardins que só vêem da janela, bem guardados debaixo do braço, regresso a casa. Nunca aprendo tanto como com as crianças e as crianças não se queixam. E são muito mais felizes.

The unanswered question - Charles Ives (1874-1954)

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Two to go!


Dizem que na vida queremos três coisas.

Saúde, amor e trabalho.

Também, como dizia Herman José nos seus tempos áureos, a vida é como os interruptores. Umas vezes para cima, outras vezes para baixo.

Às vezes parece que todos os interruptores se desligam e não vemos a luz ao fundo do túnel. Mas, com um bocadinho de esforço, muita vontade e muita luta, é possível ligá-los.

Ontem soube que o primeiro já está para cima. Agora é só esperar que a luz que ilumina o túnel encurte o segundo e defina o terceiro.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Bird Gerhl

Acordo cedo (como todos os dias da semana). O Sol continua a brilhar e inunda o meu quarto logo pela manhã.

Antes de ir para o escritório para mais um dia que suponha ser de muito trabalho, dores de cabeça, instabilidade (porque os mercados estão violentas e não sabemos até quando e onde temos trabalho), vou até ao hospital fazer uma simples colheita de sangue porque tenho uma consulta na próxima semana. Felizmente está tudo a correr bem e parece que a saúde se vai compondo a uma velocidade assombrosa que admira médicos.

Chego ao hospital. Sou o primeiro para a colheita. A enfermeira fala comiga. Queixa-se dos erros do hospital, diz mal dos colegas e do sistema (porque tem havido trocas nas identificações do sangue e, por isso, análises repetidas).

Depois de dizer mal de isto e daquilo, lá estou eu de braço estendido à espera de mais uma picadela (uma constante nos últimos dois meses).

Enfia a agulha, faz não sei o quê e de repente tenho sangue a sair às golfadas e três enfermeiras em cima de mim. Enquanto umas tentam para a hemorragia, a enfermeira (que fez a asneira) passa para o outro braço, nervosa. Pica uma, duas três, quatro vezes enquanto as outras duas tentam parar a hemorragia. Mas naquele braço não acerta numa única veia. (Creio que no outro acertou numa artéria, mas isso sao outras conversas).

Começo a ficar branco. O sangue sai às golfadas há mais de cinco minutos. O meu corpo desfaz-se em água. A enfermeira desiste e diz-me que estou com mau aspecto. Deita-me.

De repente sonho que estou a voar, a voar para longe. Sinto-me bem, confortável. Aconchegado. Um doce vôo que me leva ao ventre da minha mãe, ao abraço do meu pai, companhia de todos aqueles que amo.
Abro os olhos e vejo uma mulher vestida de enfermeira à minha frente que me segura as pernas. Pergunto-lhe em português, Quem és? Onde estou? Ela sorri e, enquanto começo a recordar o que se passou, diz-me, Desmaiaste.Perdeste muito sangue, mas já está tudo bem.

Fiquei no hospital umas boas duas horas. Dão-me alta. Dizem-me que tenho que regressar quinta-feira para repetir os testes.

Quando estou a sair, diz-me a enfermeira, Estás com um aspecto bem pior do que aquele com que chegaste. Não lhe respondo. Saio ainda tonto, pálido como nunca me tinha visto. Vou para casa.

Em casa está a empregada da limpeza. Não me apetece estar ali com ela. Mudo o fato e a camisa, completamente manchados de sangue sob o olhar incrédulo da Pérola que me limpa a casa. Pergunta-me, Vais sair? Estás com uma cara...

Não tenho côr mas não me apetece estar ali. Saio, apanho o metro e, felizmente, dão-me um lugar para sentar-me. Chego ao escritório de corpo a tremer, suores exagerados que me colam a camisa ao corpo, respondo aos e-mails (uns urgentes, outros nem tanto), ligo à Cila, conto-lhe o sucedido, recebo um telefonema do estaminé do Porto com terríveis novidades.

O estaminé do Porto vai fechar e o meu antigo chefe vai, em princípio, para a rua (não tenho pena dele, porque deve ir bem, pior é o futuro dos meus outros amigos do estaminé).

Regresso a casa. Deixo-me dormir no sofá. Acordo, vejo o Babel que comprei este fim de semana por causa da música do post anterior. Gosto.

Penso no dia que tive, olho os meus braços negros, vejo o meu rosto ainda pálido no espelho. Vejos as notícias de Burma, de Sichuan, do assassinato de ontem à noite em Oxford St, a dois passos de minha casa, e concluo que num dia como o de hoje, o único bom momento foi aquele em que não estive cá. Em que sentia que voava, ainda que esse vôo não fosse real.

I am a bird gerhl now
I've got my heart
Here in my hands now
I've been searching
For my wings some time
I'm gonna be born
Into soon the sky
'Cause I'm a bird gerhl
And the bird gerhls go to heaven
I'm a bird gerhl
And the bird gerhls can fly
Bird gerhls can fly


quinta-feira, 8 de maio de 2008

Bibo no Aozora

Lembro-me bem.

Foi em 1994 que conheci este compositor.

Fiquei fascinado pela qualidade da música, pela expressividade, pela alma profunda. Desde aí Sakamoto passou a ser um nome de referência na minha biblioteca musical. Fiz viagens para o ouvir, para ver o génio da música moderna. Abri os ouvidos a outros estilos, outras estéticas, construídos por quem sabe.

Apaixonei-me por esta música, utilizada mais tarde na banda sonora de Babel. Quanto ao título, não sei a que se refere, o que quer dizer.

Mas esta música tem um significado especial para mim.

É a minha luta, a luta do guerreiro que se estende num doce ostinato infinito do piano e das cordas, é o bater de um coração frágil e magoado e lá no meio, bem lá no meio, uma tentativa desesperada de revolta, de gritar: estou aqui! enquanto o coração continua a latir devagarinho no ostinato da vida que passa sem se dar conta de que nenhum dos que a compõem está sempre em sintonia com os sentimentos mudos e a alma apagada.

É o grito em que dizemos: Preciso de ti, dá-me a tua mão, leva-me contigo. Copiamos o ostinato do mundo, a ver se nele nos podemos rever ou sobreviver. Não conseguimos. Gritamos, lutamos, tomamos o caminho do lado, marcamos a nossa posição de indivíduos e por isso únicos. O mundo não se importa connosco. Desistimos. Regressamos ao nosso caminho, e então, de mansinho, somos levados por este mundo infinito, obstinado em não parar, com uma cor ali, outra acolá.

E, às vezes, damo-nos conta que este mundo toca a nossa melodia, aí deixamo-nos relaxar, extasiar, até que, quando mundo e indivíduo se encontram, acaba o ostinato, vai cedendo, cedendo, desaparecendo e aparecendo, até que tudo se desvanece.

Espero que gostem e apreciem uma que é, sem dúvida, uma das músicas da minha vida.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Verão


Quem olha pela janela, quem sai à rua, não acredita que há tão somente um mês nevava na grande metrópole.

O Verão chegou repentinamente, sem aviso.

O casaco deixado à porta, a cidade e os parques cheios de gente, as roupas ligeiras e frescas dos turistas são recordações de que é Verão lá fora.

Mas o Verão é uma estação de extremos, não é a histeria e alegria, não é a explosão de vida que é a Primavera.

Se houve alguém que percebeu a essência desta estação, foi Vivaldi no seu famosíssimo concerto em Sol menor, parte da sua obra mais popular, As Quatro Estações.
Confesso que não sou grande apreciador do barroco italiano, ou da música italiana pós renascença. Tornou-se unicamente estética, como o barroco em si, muita superfície, muito estilismo, pouco conteúdo, pouca alma.
Nisso, para mim, não há como os alemães que, por serem mais fechados, guardam em si os sentimentos que transpiram em cada passagem da música que faziam.
Por isso ouço Bach uma e outra vez, nas melhores gravações, nos melhores concertos, em assustadores toques polifónicos ou anúncios de mau gosto, mas a música sobrevive (continuo a achar que o Air da Suite Francesa em Ré maior é uma obra prima, apesar de ser tocada e abusada), ao contrário de Vivaldi, cuja Primavera me recorda ar condicionado e me deixa os cabelos em pé.
Tal não se passa com as outras estações, mas se há estação que Vivaldi realmente entendeu, foi o Verão. O Verão, o calor, esse calor infernal que ataca brutalmente o corpo e a alma. Uma estação dramática, tensa, de canícula, mesmo infernal.
Uma estação incendiada pelo Sol, em que o lânguido pastor sofre sob os céus ardentes e espera a chegada da tempestade estival para aliviar o seu sofrimento.
A estação que desejamos todo o ano, mas que nos leva a limites incomportáveis, porque somos seres de temperaturas amenas da Primavera ou do Outono que sabemos abrigar-nos no duro e frio Inverno, mas somos colocados perante a fragilidade cada vez mais real da nossa vida como humanidade perante a violência do Verão.
E é esta atitude de dureza, incêndio, vulnerabilidade que Vivaldi soube tão bem descrever, melhor pintura que o Soneto que o inspirou.
***
Sob a dura estação, pelo Sol incendiada,
Lânguidos homem e rebanho, arde o Pino;
Liberta o cuco a voz firme e intensa,
Canta a corruíra e o pintassilgo.
O Zéfiro doce expira, mas uma disputa
É improvisada por Borea com seus vizinhos;
E lamenta o pastor, porque suspeita,
Teme feroz borrasca: é seu destino [enfrentá-la].
Toma dos membros lassos o repouso
O temor dos relâmpagos e os feros trovões;
E de repente inicia-se o tumulto furioso!
Ah! No mais o seu temor foi verdadeiro:
Troa e fulmina o céu, e grandioso [o vendaval]
Ora quebra as espigas, ora desperdiça os grãos [de trigo].





Já agora, tentem identificar as passagens do concerto com o soneto

domingo, 4 de maio de 2008

Escolha

Há muito tempo que me digo que não me vou preocupar com o que não vale a pena.
Difícil é julgar correctamente o que vale a pena.