sábado, 28 de junho de 2008

A Verdade

Há momentos na vida em que somos surpreendidos.

Há momentos que tememos e que depois de passados se traduzem em crescimento pessoal.

As últimas semana foram assim. Semanas de paragem forçada.

Estive três semanas sem trabalhar. Sim, agora que tudo passou, confesso e transformo em verdade a mentira que disse aos que de longe me seguem e que me atormentou durante as últimas semanas.

Fiz de tudo isto um segredo enorme. A primeira semana em casa porque não me sentia bem. As duas últimas semanas num hospital (Cilinha, agora que tudo está resolvido, tinha de contar).

Alguns dos meus amigos sentir-se-ão chocados, outros magoados, outros traídos, mas eu sou assim e fora a amiga que vive mais perto (que desconfiou) e nem uma mão cheia de outras pessoas que me acompanharam quase diariamente no messenger, calei.

Recuperei-me rapidamente e os dias tornaram-se longos. Levei livros comigo, não os li. Tinha acesso à internet e nem assim escrevi assiduamente ou comentei os cantinhos que leio diariamente. Não queria mentir. Omitir tornava-se mais fácil.

Tive muitas saudades daqueles que mais amo. Tanto tempo livre dá-nos para pensar. O pensamento voa e roça zonas inexploradas.

Passeava muito pelo hospital, chegava a sair e todos me olhavam com estranheza na rua. Claro, não é normal alguém entrar numa pastelaria com uma etiqueta de um hospital num braço e um cateter metido no outro, sentar-se e pedir um bolo e um café. Pior ainda, ir ao pub em frente com a Cilinha ver a bola.

Mas como dizia eu, passeava muito pelo hospital.

Ao fim de uns dias já me sentia fino como um alho e só voltava ao quarto na hora do tratamento.

Conheci muita gente. Entrava nos quartos dos outros pacientes e falávamos horas a fio. Passava a noite a falar com as enfermeiras de serviço.

Ontem, quando saí, deixei flores à Margaret e à Angie, duas senhoras inglesas completamente diferentes.

A Margaret, educadíssima, estava no quarto em frente ao meu. Muito doente, quase não saía da cama, mas sempre que me via sair do quarto chamava-me, sorria-me da sua cara amarela, o sorriso sincero dos velhos, com uma boca sem dentes que descansavam num copo sobre a mesinha de cabeceira. Uma mulher bravíssima que descobri ser minha vizinha. Do alto dos seus setenta anos cuida do marido que teve dois AVCs e do filho com paralisia cerebral. Quando me sorria, dizia-me um sincero “Take care!”.

A Angie. A Angie é um amor. Conheci-a um dia que, passeando lá fora, a fui encontrar a fumar uns charros. Desfez-se em explicaçoes e risadas sonoras. Acabou por ser a minha companheira dos tempos mortos. Ficávamos cá fora a falar até bem tarde, levava-me a conhecer o hospital onde já estivera internada oito vezes.

Começara a fumar charros aos quarenta e cinco anos quando sofria de um cancro do sistema linfático porque descobriu que aliviava as dores. Contou-me toda a vida. Desde a infância em que o pai batia na mãe quando chegava bêbado a casa, até que um dia o puseram fora de casa e se mudaram para Londres. O marido, que em tempos também bebia e batia nela, transformara-se num doce no dia em que ela lhe deu com o ferro de passar na cara e lhe partiu o nariz e os dentes. Agora, muitos anos passados, são eternos companheiros e felizes. A mãe, de noventa e dois anos, que vive só mas na casa ao lado e a quem tenciona levar em Setembro à Irlanda para o encontro de família, mais de duzentas pessoas. O trabalho que adora, numa lavandaria, um filho lixeiro que não fala com o pai porque não lhe perdoa ter maltratado a mãe no passado, e o grande orgulho num neto pouco mais novo do que eu e que conheci, que abriu a sua própria empresa de instalação de alarmes.

Contou-me muitos pormenores de uma vida extremamente difícil, num inglês cheio de erros e com muitos palavrões, mas sempre com uma risada sonora, mesmo para as coisas tristes da vida. Muito me ri com a Angie e o seu marido Sid quando este lhe ofereceu diante dos meus olhos incrédulos quatro rolos de papel higiénico “soft” em vez de um ramo de flores, porque teriam mais utilidade.

Com estas duas senhoras conheci um lado dos ingleses que não conhecia. Um lado humano que teimam em esconder e que os torna iguais a nós, talvez porque os hospitais tirem as máscaras e façam as pessoas mais genuínas. Reparei que os ingleses, afinal, são iguais a nós e que a nacionalidade não quer dizer absolutamente nada, só nos dá uma máscara diferente.

Saí com o telefone cheio de contactos que talvez se percam com a rotina do dia-a-dia. O Libanês que aos trinta e cinco anos já sofreu dois enfartes, um deles enquanto conduzia a sua moto e que o levou ali; o Somali que sofria de cirrose porque bebia twenty four / seven e que dizia que infelizmente quando saísse iria voltar à mesma vida porque não se podia controlar e mesmo que lhe cortassem as mãos, usaria uma palha; a Filipina que ia levar os filhos à Eurodisney assim que tivesse alta, a marroquina, o paquistanês, o italiano, mesmo a enfermeira do Zimbabwe, preocupada com a situação do seu país e que vira a irmã morrer de Sida no início dos anos noventa e que por isso fizera voluntariado no seu país natal, mas acima de tudo, as inglesas.

E todos, todos preocupados com uma única coisa. Os amigos e a família. Todos para quem o valor essencial, acima da própria vida, é o amor.
PS – e no meio disto tudo, até me esqueci de mencionar que tenho trabalho confirmado com direito a promoção e tudo.

domingo, 22 de junho de 2008

¡Azul!

¡Sí! Mi blog está azul, el azul del mar, el azul del cielo. El color que, aun que digan que es frio, me deja feliz. Y todo esto porque me acuerdo que el amor puede ser tan infinito como el mar azul o el cielo que en él se ve reflejado.

Y aun que parezca cutre, aun que la música sea un pelín cutre, hiciste con que el azul sea el color de mi corazón.

Porque eres mi cara mitad, mi media naranja y porque en noches de borrachera me cantas esta música sin pretensiones, sin vergüenzas, y con un brillo especial en tu mirada que solo nosotros sabemos leer. Te echo de menos. Quiero tenerte aquí conmigo para hacer mis días todavía más azules, mi peque.

Y la música es para ti.

Azul - Cristian Castro

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Mentira



A mentira veste-se de muitas formas. Faz parte da nossa vida. Ouvimos mentiras todos os dias e, ainda que digamos que não e nos chamemos defensores da verdade, dizemos mentiras todos os dias. Mentiras brancas como são chamadas neste país. Porque quando alguém nos pergunta como estamos, dizemos “bem, obrigado!” porque nem a pessoa que faz a pergunta quer saber realmente a nossa vida nem nós queremos desfiar o nosso rosário.

Quando dizemos ao arrumador “dou quando vier”; “agora não tenho”;... mentimos. Mentimos todos os dias e mais do que uma vez ao dia.

Depois há outras mentiras. Mentiras mais sérias que nem todos praticamos. Nestas há três categorias.

- Há a mentira que protege – a mentira inocente, que oculta um facto que pode causar dor, desilusão ou transtorno e para o qual não há solução.
- Há a mentira que promove – uma mentira que, sem atacar, promove quem mente (como as mentiras dos CVs), lhe dá um estatuto que não tem, sucessos, o peixe de 5 metros pescado à linha.
- Há a mentira que ataca – mentira suja que atribui culpas a quem não as tem, mais uma vez como protecção do próprio mentiroso, ou por medo ou simplesmente maldade.

Tenho de confessar que para além das “white lies” utilizo bastante a primeira. Já utilizei a segunda. Sou avesso à terceira. E não me venham cá com coisas que acho que isto é normal. Todos mentimos.

Da terceira não vou falar porque é a que me pões os cabelos em pé. Não compreendo como se pode querer prejudicar alguém e ainda mais quando se faz com falsos testemunhos.

Em relação à segunda quero que me digam uma coisa. Nunca nenhum de vocês, numa entrevista de emprego, num CV, numa candidatura ao que quer que seja, “embelezou” a verdade. Não digo que tenha dito falsidades, mas tenha pelo menos exagerado em determinados pontos, ocultado pontos fracos, atribuido diferentes pesos aos critérios de avaliação. Adulterado a verdade que por já não a ser, passa a ser mentira. Pois, esta mentira faz parte das nossas vidas. Ajuda-nos a atingir objectivos sem prejudicar quem quer que seja. Apesar de tudo esta segunda mentira tem uma face que me incomoda. A mentira do status. A mentira que esconde origens, que pretende ser o que não se é. O egoísta que vai à missa todos os domingos e bate com a mão no peito e que julga as pessoas e as avalia não pelo que são mas pelas suas origens.

Resta-me a primeira. A mentira que protege. Não sou advogado do diabo, mas há mentiras que são aceitáveis e até exigíveis, quando a realidade é cruel e magoa e não há solução.

Lembro-me da minha avó, eterna enamorada do meu avô que sofria de uma gravíssima aplasia medular. Ela desenvolvia Alzheimer a uma velocidade estonteante porque talvez o stress de ver o meu avô tão doente acelerasse o processo. Quando o avô morreu, a avó ainda tinha alguns momentos de lucidez. Decidimos não dizer. Iria sofrer muito, iria piorar o seu estado de saúde.

Eu, há uns anos, caí gravemente doente. Necessitava de internamento urgente. Os meus pais sempre lidaram mal com as minhas maleitas e nunca foram grande ajuda. Não davam o apoio necessário, pelo contrário, e eu preocupava-me com eles. Aquando dos primeiros sintomas, da origem da doença, nasceu a mentira que cresceu, cresceu, cresceu como uma bola de neve que desce a mais alta das montanhas a uma velocidade alucinante. Quando as coisas estavam no limite, quando a minha fraqueza me obrigou a confiar e a partilhar o peso da minha cruz com alguns amigos, menti uma vez mais. Disse que ia de férias e fui para um tratamento sério, longo e delicado. Correu bem e a mentira evitou o sofrimento daqueles que mais amo.

Incluo nestas mentiras as mentiras de índole pessoal de alguém vive numa sociedade que não o aceita. Ainda não sei se faz bem ou mal porque se exclui e não ajuda à aceitação rápida, mas compreendo o ponto de vista do visado e defendo a posição que queira tomar, quer seja pela verdade ou pela mentira. Falo por exemplo de diferentes tendências sexuais, do gay que está no armário, falo de doenças discriminatórias como a infecção pelo HIV. Falo das condições e não das escolhas porque cada um tem de saber enfrentar de frente as suas escolhas, mas pode proteger-se numa sociedade que não aceita as suas condições, nem que para isso tenha de mentir.

O único problema é quando a mentira se descobre (se se descobre) e magoamos aqueles que queremos proteger porque não lhes confiàmos os nossos problemas ou as nossas dores.

E é aqui que o balanço é difícil. Correr o risco de desiludir os que queremos por lhes mentirmos ou fazê-los sofrer com alguma situação para a qual não têm solução. É saber lidar com a mentira e ter estômago para mantê-la e coragem para enfrentá-la.

É, acima de tudo, sermos sempre verdadeiros connosco e fiéis aos nossos princípios.

sábado, 7 de junho de 2008

Fim de semana


Podia ser um fim de semana como outro qualquer. Sem planos, sentado no sofá a ler um livro, ver um bom filme acompanhado por uma chávena de chá, passear no parque e tomar uma bebida numa das muitas esplanadas desta magnífica cidade, ouvir a melhor música e com ela despertar emoções boas vindas não se sabe bem de onde. Podia ser assim. Um fim de semana como outro qualquer. Devia ser assim.

Mas a vida corre imparável. Acelera violentamente abalando os hábitos adquiridos, aqueles que são as fundações da comodidae, ou, quem sabe, da rotina que tenta apagar-nos e nos confunde e desvanece no meio da humanidade.

Os abalos vêm e arrasam as fundações, as erupções sucedem-se numa força que desperta, que move montanhas e altera caminhos.

Apesar de tudo, quando visto do espaço, este planeta continua azul e belo. Igual a si mesmo.
Não é um fim de semana como outro qualquer.

Esta tarde, destinada ao ócio, será ocupada por uma tarefa que não quero. Preparar a minha candidatura a um lugar que era meu. Rever os meus nove anos nesta casa, pô-los em papel. Recordar os bons projectos, os sucessos e os fracassos, definir o que tenho de bom, as minhas capacidades. Resumir uma carreira que se desenvolveu por si mesma numa ridícula folha de papel.

E isto tudo perde importância quando sei que amanhã a família se reúne. Encontra-se e eu não estou lá. Celebra a primeira comunhão da prima meloa. A menina que pergunta por mim todos os dias. A criança tímida, de feitio difícil, que me desarma constantemente com um sorriso aberto e honesto. Que me enche o coração quando diz aos quatro ventos que o melhor amigo é o Melão grande. Toda a família estará à volta da mesa em comunhão com a minha princesa e eu não estarei lá. Ficará triste e não tenho como explicá-lo porque o trabalho não o justifica. Nunca o fará.

Mas mesmo isto perde importância quando penso no filho do careca. Amigo de infância, de adolescência, de juventude. Amigo de hoje. O filho do careca, das festas que faz na casa de praia, da viagem empreendedora que fez à Roménia quando eu lá vivia. Dos imensos concertos em conjunto. Porque o careca morreu ontem. De repente. Sentado no seu automóvel, vítima de um AVC. O careca... apresentava-se assim e queria ser chamado assim. Completamente careca, sem pestanas, sobrancelhas, sem um único pêlo. É como sempre o conheci, careca e bem humorado.

Levava-nos para a sua oficina onde passava os seus tempos livres montando e desmontando carros e motores. Um hobby que me fascinava e surpreendia. Mas o careca morreu. Com ele morreu uma parte feliz da minha infância. A alegria, as festas na casa de praia, o hobby excêntrico de montar e desmontar carros naquela oficina cheia de carros antigos. E não estou ali para dar um abraço ao filho do careca e um beijo à mãe do filho do careca.

Um fim de semana em que devo um abraço a um amigo. Um fim de semana em que devo um beijo e um sorriso rasgado a uma amiga. Porque tudo acontece ao mesmo tempo e um papel, um estúpido papel, se intromete naquilo que realmente importa.

Podia ser um fim de semana como qualquer outro, mas cada um é singular. Quem me vê aqui, sentado à mesa do café a escrever no meu caderno de capa preta, quem me costuma ver aqui todos os sábados, pensa que é um fim de semana como qualquer outro.

Porque apesar de tudo, quando visto do espaço, este planeta continua azul e belo. Igual a si mesmo.


Ihr habt nun Traurigkeit - Ich will euch tr?ten - San Francisco Symphony - Blomstedt

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Que Futuro?

Voltei, pois voltei.

Às vezes penso (como agora) antes não tivesse voltado.

As coisas estão pretas, pretas mesmo… eu eu que tão bem estava no meu cantinho , num quarto de hotel de onde via a serra de Sintra e ouvia os pássaros, sem ver carros, estradas ou sinais do bulício da vida moderna.

Tempo ameno, comida boa.

Chego a Londres e vejo que as minhas esperanças, as minhas oportunidades, se desvanecem. Não se perdem. Desvanecem-se porque deixam de lá estar.

E, de repente, depois de me dizerem que tenho de ir a Oslo fechar um negócio, que há outro a caminho, recebo o que esperava mas não esperava.

Tenho que me candidatar ao meu trabalho. Depois de nove anos de casa, de muito trabalho feito, de muito dinheirinho ganho para os bolsos dos accionistas.

E isto porque alguém sem dimensão se lembrou de comprar o que não podia. Comprou sem ter dimensão ou capacidade. Comprou por um orgulho idiota. Comprou para ter de descontinuar o que dava valor ao estaminé porque não o comprende.

Os meus amigos de Espanha com quem trabalhei 4 anos (aqui e ali) desvaneceram-se no ar. Aos de Portugal, certamente acontecerá o mesmo. E aos de França, e aos da Holanda.

E claro, agora, só, nesta casa que já não consigo sentir como minha, pedem-me que me candidate a um emprego que é meu. Uma equipa que mantive, uma carteira que construí. Porque como está não pode estar, porque não sabem nem entendem.

E o mais estranho de tudo é que não me vejo minimamente preocupado. Já não acredito neste projecto e ninguém morre de fome por perder um emprego, mas morre-se de frustação por fazer o que não se quer.

Se o meu futuro está aqui, não o sei. Se não está, é porque não tem de estar. Um problema resolverá outros. Talvez seja o momento de regresar a casa, ou ao país do lado, juntar-me à minha metade.

Só me preocupam os meus meninos e outros projectos que salvam vidas que, eventualmente, terei de deixar por aqui.

E apesar dos resultados do teste anterior, hoje estou apático. Amanhã ver-se-á.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Este sou eu!

Não acredito muito em testes, mas faço-os sempre.
Talvez seja o meu lado existencialista que me quer conhecer e desvendar, bem como descobrir o sentido de estar por aqui.

E, realmente, revejo-me neste teste. Este sou eu. Uma bela lição para os que me acham triste e cinzento. Procuro a felicidade, a minha e a dos outros, busco um sentido para a vida e acções, “the greatest good for de greatest number”.

E tu o que és?




What philosophy do you follow? (v1.03)
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Hedonism


95%

Utilitarianism


90%

Existentialism


90%

Justice (Fairness)


65%

Divine Command


60%

Kantianism


55%

Strong Egoism


45%

Nihilism


10%

Apathy


5%