quinta-feira, 31 de julho de 2008

30 anos

Tenho andado apartado deste canto que tanto prezo.
Há muitos motivos mas nenhum motivo especial. Basicamente ando a aproveitar a vida, os dias longos de Sol e calor, são os espectáculos, o teatro, os concertos, as visitas da Cara-Metade-Mais-Que-Tudo e as visitas à Cara-Metade-Mais-Que-Tudo.

Depois de se perder três semanas de vida fechado (ou visto positivamente, depois de ganhar muitos anos de vida), as ideias organizaram-se e o que estava atrasado, nomeadamente a nível pessoal teve de ser recuperado.

Julho é um mês agri-doce. Não vou falar o porquê do agri porque o “Longo Inverno” já vai longe e o que lá vai, lá vai. Parece que as cambalhotas na minha vida se dão no Verão e se resolvem no Inverno.

Afinal as boas notícias tive-as quase todas durante o Inverno, enquanto o Verão me deu as más.... mas lá estou eu a ir por onde não quero. Não tivesse uma memória de elefante e não me haveria recordado que foi em Julho que começou o "Longo Inverno". E tudo isto porque nesse dia (ou noite) sonhei com ele, um pesadelo, coisa que não se passava há anos. Ao acordar tentei perceber porque é que sonhei com algo que havia passado há catorze anos, olhei para o relógio e vi que fazia exactamente catorze anos que o mundo desabara na minha cabeça... mas como disse, o que lá vai, lá vai e o que interessa é o aqui e hoje e o ali e amanhã.

Faz hoje três semanas, chegou a Cara-Metade-Mais-Que-Tudo. Foi musical, passeio no parque, concerto, museus, cinema (sim que fomos ver o Mamma Mia!), jantares românticos, bares, discoteca... enfim, um fim-de-semana alargado sem descanso e com muito carinho, o carinho de quem não se via há dois meses.

O fim-de-semana passado fui eu a Madrid. Razão especial. A Cara-Metade-Mais-Que-Tudo fazia trinta anos. Foi um fim-de-semana muito bem passado apesar do calor que se fazia sentir na capital espanhola, ainda assim, mais suportável do que o calor que se tem feito sentir na capital inglesa, não pelo valor que se lê nos termómetros da rua, mas pela humidade pegajosa e más condições que esta cidade tem quando as temperaturas andam pelos 30 graus centígrados.

O vôo roubou-nos mais de uma hora... que me venham falar dos atrasos da TAP, eu sofro mais com a British Airways ainda que esta esteja a jogar em casa (talvez por isso).

Cheguei e a Cara-Metade-Mais-Que-Tudo à minha espera. Diz o nome de uma rua desconhecida ao Táxi e vejo-me a percorrer o bairro de "San Bernardo", as ruas estreitas de "Noviciado", ali para os lados do "Conde Duque", bairro encaixado entre os famosos "Gran Via", "Tribunal", "Plaza de Espana" e o famoso "Barrio de Chueca".

Adoro Madrid. Cidade que me acolheu e me fez sentir em casa desde o primeiro dia, que conheço bem e que cada vez que lá vou me faz sentir em casa. E nestas ruelas impregnadas de gente e de vida, o Táxi pára à frente de um hotel pequenino (viria a descobrir que não tinha mais do que quinze quartos, todos com decoração diferente).

Entramos e somos recebidos com um sorriso caloroso pelo dono daquele pequeno hotel boutique metido no coração da capital espanhola. A Cara-Metade-Mais-Que-Tudo abre a porta e em vez do quarto, vejo um pátio interior. O Pátio da nossa suite superior e só nosso. Para lá do pátio o quarto gigante com uma decoração retro (branco e negro) e com um jacuzzi enterrado no solo de xisto preto preparado a borbulhar e com sais. Depois do calor sofrido em Londres, do atraso terrível num aeroporto sem condições (sim, o City Airport é mau para estar à espera) um jacuzzi preparado foi como um presente dos deuses... mas assim foi (e por aqui me deixo ficar neste primeiro dia).

No segundo dia, sábado e véspera do trigésimo aniversário da Cara-Metade-Mais-Que-Tudo passeámos por Madrid, fomos às compras, tentar marcar as férias ao Corte Ingles (mas sem sucesso), e sentávamo-nos cada meia hora num café para deixar os quarenta graus da rua e repôr os líquidos.

Como no ano anterior, fomos comprar roupa nova para usar no jantar e apesar de ser o aniversário da cara-Metade-Mais-Que-Tudo, fui eu que saí com dois pares de calças de presente porque a Cara-Metade-Mais-Que-Tudo se apressou no pagamento (Idiota!).

E assim se passou o dia até à hora do jantar que eu tinha marcado num sítio que não conhecia mas imensamente criticado e aclamado. Estava marcado para as dez.

Às dez lá chegámos. Fomos a pé. O “restaurante” ficava numa ruelazita chamada “Travesía de San Mateo” no “Barrio de Chueca”.
A rua estava deserta e não se percebia um único restaurante na zona e aí é que estava o encanto. A Cara-Metade-Mais-Que-Tudo vê-me dirigir sem hesitações à porta de um antiquário que estava fechado. Toco à campaínha e somos levados por entre antiguidades orientais (algumas bem mais antigas do que a nacionalidade Portuguesa) até uma mesa ao lado de um fabuloso astrolábio, dois contadores e uma cama vietnamita (que custava a módica quantia de cem mil euros) que era um encanto.



Só sete mesas, nem mais, nem menos. Sete mesas é o que se encontra no restaurante "Asiana" de um self-made chefe com direito a estrela Michelin e que serve um único menu degustação de quinze pratos que misturam ingredientes espanhóis com sabores orientais. Confesso que foi o restaurante mais romântico onde já estive, um regalo para os sentidos. Todos! Até aqueles que não conheçemos. A comida soberba, bem apresentada, bem servida, no meio de um ambiente belíssimo, obras de arte de todos os tempos, dos dias de hoje até há dois milénios atrás. E ali, numa mesa escondida entre maravilhas, com uma selecção de pratos e de vinhos de bradar aos céus, passámos a meia-noite e celebrámos o aniversário da Cara-Metade-Mais-Que-Tudo. Uma refeição a dois que durou quatro horas mas que poderia ter durado outras quatro.

Por isso se um dia forem a Madrid com alguém especial já sabem. Desapertem os cordões à bolsa (não é nada barato) e dêem um banho aos sentidos porque é por coisas assim que vale a pena abrir os cordões à bolsa.

E a beleza do sítio, o aroma das especiarias misturado com o das madeiras antigas, a música suave, a textura e os sabores da comida ficarão gravados por muitos tempos.

E acima de tudo sei que a cara-Metade-Mais-Que-Tudo adorou e esteve feliz no dia em que entrou na sua terceira década. O brilho dos olhos não engana.


E eu feliz por ver a Cara-Metade-Mais-Que-Tudo assim feliz.

domingo, 20 de julho de 2008

Sempre o amor


Ao ler os comentários a este post da Excomungada dei comigo a discordar com um ou outro comentário.

O post aborda um tema, o casamento homossexual, com outro subentendido, a discriminação homossexual.

Já falei deste tema anteriormente (da discriminação) e todos sabem a minha posição.

Há, no entanto, dois temas mais polémicos que ainda não debati (ou expus) pelo menos abertamente. O tema do post - o casamento de pessoas do mesmo sexo, e um tema abordado na caixa de comentários - a adopção por casais homossexuais.

Em relação à discriminação não tenho nada a dizer. É um tema amplamente discutido e sem sentido. Discriminar, positiva ou negativamente, não entra no meu vocabulário e considero o acto de discriminar uma reminiscência da fase primária da evolução do Homem enquanto ser social, quando este condenava e destruía à partida o que não conhecia e por isso temia. Discriminar é retrógrado e só prova que a sociedade moderna vive, em parte, na Idade Média não utilizando o que a distingue dos animais, a razão.

O casamento. Em relação a este não tenho muito a dizer. Se duas pessoas se amam, se o querem pôr em papel e mostrá-lo assim ao mundo, se querem partilhar não só amor mas casa, se querem que o outro tenha os direitos consagrados na lei aos casados em relação a heranças ou simples visitas a hospitais, têm o direito de o fazer independentemente do sexo, da raça ou da religião. Casar é um acordo entre duas partes em que as duas dizem “Sim”. Acho, no mínimo, reprovável comentários que dizem que sim, são a favor, “Mas quanto ao resto,podem até casar com animais,são opções..”. Não, porque não é um acordo entre duas partes mas uma decisão unilateral que além de ser uma piada de muito mau gosto, mostra uma intolerância reprovável e, acima de tudo, discriminação.

Chegamos ao terceiro ponto. Sem dúvida o mais complexo já que os dois primeiros serão fáceis de entender usando a razão, não havendo discussão fundamentada que consiga provar o contrário.

A adopção por casais do mesmo sexo. Neste ponto há argumentos fortes contra a adopção.
Não concordo com os argumentos que defendem que estas crianças serão também homossexuais porque os seus pais são homossexuais. Na realidade, a maioria dos homossexuais são filhos de casais heterossexuais.

Não concordo com o argumento de que é um mau exemplo porque não é um mau exemplo. É uma orientação diferente da vigente que prova a diversidade que existe na natureza. Deixa assim de ser um mau exemplo e passa a ser um excelente exemplo dessa riquíssima diversidade que levará a uma maior aceitação e porconseguinte menor discriminação a pessoas do mesmo sexo que se amam e que querem amar.

O único argumento com alguma força será o argumento que defende que esta criança terá problemas quando confrontada com outras crianças que têm um pai e uma mãe e não dois pais ou duas mães. Acredito que esta criança será, no entanto, educada em casa de uma forma a entender a diversidade, relegando o problema às outras crianças. E é aqui que entramos num ciclo vicioso. As outras crianças atacam porque não conhecem e duas pessoas do mesmo sexo não podem adoptar porque o filho estará sujeito ao ataque das outras crianças. E esta “pescadinha de rabo na boca”, por incrível que pareça, tem de ser quebrada exactamente onde se pensa que não está o problema. Nas famílias monoparentais ou heterossexuais para que eduquem os filhos no conhecimento da diversidade. Porque se um rapaz educado só por um homem for educado a acreditar que a mulher é uma aberração, tratá-la­-á como tal e passará a atacá-la. Se for educado, como o é, a aceitar a mulher como outra forma de ser, aceitá-la-á sem problemas e sem questões. O mesmo se passará com famílias monoparentais, heterossexuais ou homossexuais.

Quanto às crianças, a estas desejo o melhor. Ter uma educação onde abunde o bem estar, a tolerância e o respeito, mas, acima de tudo, e qualquer que seja a forma, onde abunde o amor.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Porque a vida se leva a rir


ou histórias de um hospital


Ao fim de quatro dias encerrado no hospital (fora as escapadelas para comprar chocolates na loja da frente) faço uma grande escapadela até a casa (que fica a dez minutos a pé do hospital).

Cobri o meu lindo cateter com uma gaze e lá fui para levar roupa suja, deixar o pagamento à empregada e trazer roupa lavadinha.

Ao sair de casa, toca o telemóvel. Atendo. Era a enfermeira que estava de serviço nesse dia. “ - Onde estás? Estão aqui para te levar a fazer os dopplers às carótidas.”

Estou cá em baixo, já subo. Ora como estou perto de casa. Desato a correr em direcção ao hospital. Chego lá e só um elevador está a funcionar. Subo a correr até ao quinto andar. Quando entro estou mais vermelho e mais ofegante do que uma mulher em trabalho de parto.

À minha espera está um enfermeiro com uma cadeira de rodas. “Ah, és tu! Senta-te que te levo.”
Digo-lhe que posso andar. Ele olha para mim com cara de espanto. E porque os dopplers normalmente se fazem a pessoas que tiveram ataques cardíacos, porque estava mais vermelho do que um tomate e porque estava tão ofegante que não conseguia articular uma palavra, o sujeito olha para mim e diz-me: “Senta-te! Não me parece que estejas em muito boa forma e além disso não quero responsabilidades!”

Calei-me e sentei-me. E de repente vejo que há um enfermeiro manco a empurrar-me pelo hospital. Coitado, andava pior do que eu e mal sabia que tinha acabado de fazer um sprint de mais de um quilómetro e terminado com a escalada de cinco andares de uns três metros de pé directo cada.

Pelo caminho lá lhe dizia. “Sinto-me tão mal aqui sentado… eu posso andar” ao que ele respondia que tinha de levar a cadeira para o outro lado.

Chegámos a outros elevadores com muita gente à espera. Esperamos, esperamos, e a hora do exame a passar (mas porque carga de água não me avisaram que tinha o exame e teria poupado tantas correrias?)

Como os elevadores daquele hospital pareciam ter deixado de funcionar, o enfermeiro olha para mim e diz-me “Podes mesmo andar? Podes fazer esforços?” e eu com um olhar furioso digo “Claro, Já disse que sim... ando aqui a fazer de estúpido, sentado numa cadeira de rodas e a ser passeado pelo hospital.”

Leva-me na cadeira até às escadas mais próximas e diz-me: “Então vamos!” e para espanto dos presentes, levanto-me da cadeira de rodas e começo a descer as escadas a correr, seguido por um enfermeiro manco que tinha dificuldade em seguir o meu passo.