sábado, 30 de agosto de 2008

Tarde de Verão em Londres

...e assim se passa uma agradável tarde de Verão em Londres, ao longo de um dos meus caminhos preferidos e terminando no Regent’s park.
As fotografias, bem, são as possíveis.


sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Os talentos


Os meus textos preferidos da Bíblia, só superados pelo "Cântico dos Cânticos" e algumas cartas de São Paulo, são as parábolas.

Tive uma educação profundamente católica e uma relação muito próxima com a Igreja. Todos os Domingos, às dez da manhã tinha a missa das crianças e a missa era uma festa. A música era feita por nós e o coro formado pelos nossos pais. Uma missa em que as nossas flautas interpretavam pequenas peças de Bach ou Corelli e em que os cânticos eram acompanhados por uma orquestra Orff, toda a família das flautas de bisel, da soprano à baixo, a família dos xilofones, o metalofone, os jogos de sinos e um conjunto bastante completo de percussão.

As homilias eram conversas. O padre descia do altar e falava com as crianças. As crianças interpretavam a Bíblia de forma inocente o que resultava, de quando em vez, numa rotunda gargalhada de toda a assembleia. As homilias (ou conversas) mais interessantes seriam sobre as parábolas talvez porque estes textos tenham sentido absoluto nos tempos que correm.

Sempre gostei de imagens, metáforas, pequenos contos. Não consigo escrever uma história que não diga mais do que aquilo que as palavras desenham, talvez por isso a etiqueta dos meus contos do meu outro lado seja “vidas reais”. Ainda hoje gosto de falar por meias palavras porque a realidade não se encontra numa caixa hermeticamente fechada e expande-se, não se sabe para onde, como este Universo que habitamos.

Uma dessas parábolas é a dos talentos em que um senhor dá talentes aos seus criados segundo as suas capacidades enquanto sai de viagem. Dois fazem render os seus talentos mas o outro que só recebeu um, enterra-o.

Foi nessa mesma igreja onde escutava as parábolas que um dia me propuseram estudar música mais a sério. Tinha de aproveitar e fazer render os meus talentos e a vaga de órgãos de tubos novos na cidade do Porto, o restauro de mais uns quantos, pediam organistas formados. Assim, comecei a minha formação em música a nível superior. Estudei, entre várias coisas, órgão, piano, canto, composição e direcção de coro e orquestra. Concluí-o com louvor (porque a modéstia não é para aqui chamada) e excedi-me nas classes acima mencionadas.

Curso acabado, definitivamente no meu amado Porto, comecei a utilizar os meus talentos. Fundei um coro de câmara que ainda hoje vive, tocava regularmente nos grandes órgãos da cidade, dava as minhas aulas aos meus meninos pobres, entrei num programa da câmara municipal para dar aulas às crianças problemáticas nas piores escolas do concelho. Concertos, recitais, muito trabalho... até um dia. Até ao dia em que disse que não. Disse-o porque não me vendo e a cultura no Porto é dominada por um grupo sujo e perverso. Fui cobarde, não lutei, deixei.

Continuei com o meu coro, aulas aos meninos pobres da igreja e com o órgão, mas, mesmo na igreja, feita infelizmente por homens, hove invejas e calúnias, ataques pessoais quando eu só queria viver a minha vida que dava voltas e reviravoltas e se encontrava de pernas para o ar, a fazer o que mais gosto – música. Uma vez mais não me vendi mas não lutei. Fugi.

Seguiu-se Madrid onde, em dois meses, fazia o Requiem de Mozart transmitido em directo pela televisão espanhola a partir da Real Iglesia de Los Jerónimos. Dava técnica vocal ao coro, cotinuava a tocar órgão. Fui para Paris onde encontrei um velho amigo e professor que me realizou o sonho de tocar em Notre-Dame. Daí seguiu-se Londres e com Londres a morte da música.

Continuo a compôr, é verdade. Tenho uma gaveta cheia de escritos tontos. Canto com os amigos e para amigos. Os seus casamentos tem sido um fartote mas não me cansam. Gosto de cantar, entrego-me a cantar, dou-me e sou feliz.

Infelizmente deixei de tocar. Há três anos que não ponho os dedos num verdadeiro órgão de tubos.

Longe vão os tempos em que saía do polo do São João, atravessava o Porto até à Sé, com a enorme chave do templo perdida entre Bach e Messian, subia ao órgão e, sozinho, na escuridão da catedral, fazia aquela maravilha de instrumento ressoar no granito.

Hoje tenho medo, tenho medo de me sentar à frente de um órgão porque este talento, há tanto tempo enterrado, estará perdido... e tenho pena.



O Mensch, bewein dein Sunde gross BWV622 - Simon Preston

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Paixão

A minha paixão começou cedo. Diziam que era muito novo. Seria duro para mim. Fui desaconselhado mas depois de receber o convite, decidi dizer que sim.

Foi há mais de vinte anos. Um dos meus professores de música perguntou-me se queria ir. Vinha um coro, uma orquestra barroca e um grupo de solistas alemães. Era necessário alguém para entregar flores.

O evento era de primeira linha. O então presidente da República, Ramalho Eanes, estaria presente. Nós iríamos receber os VIPs vestidos com roupas da época. Eu era o mais novo.
A preparação foi uma risota. O fato de seda azul com rendas a branco e ouro, os collants e as cabeleiras brancos. De repente vivia num carnaval barroco e esse dia marcou o início da minha grande Paixão.

Porque é de Paixão que se trata. Paixão segundo São João (BWV 245), obra dura e longa, tensa e dramática, demasiado para uma criança com menos de dez anos, diziam-me.

Deram-nos um programa de luxo com a tradução e preparava-me para um concerto longo, demasiado longo para uma criança.

Entra a orquestra barroca e o coro. Estava fascinado com a luz, os sons, o ambiente do meu primeiro grande concerto. Sentia-me importante na minha fatiota de seda azul, metido nuns calções ridículos e estava nervoso como se fosse eu o principal solista.

Entram os solistas seguidos pelo maestro. Faz-se silêncio.

Começa a obra numa orgia de sons e dissonâncias, num ostinato de cordas em movimentos circulares, cantava-se a morte e ainda assim a música, o tema dos violinos, andava em círculos num hipnostismo que só pode querer dizer: Infinito.

Os movimentos circulares das cordas, o eternidade, a dissonância dos oboés, a dor e a perda. E no conjunto o mistério da vida explicado através de música.

O som cresce, as dissonâncias prolongam-se e resolvem-se em novas dissonâncias. Não o percebi na altura, gostei, senti-me cheio de não sei quê. Mas só com os anos percebi a grande abertura da Paixão. A melodia redonda e imparável e longos minutos de movimentos circulares, repetitivos mas nunca iguais, pintados pelos oboés. Mas a tensão cresce até ao grito desesperado do coro. A invocação: “Herr!” três vezes, o tríduo pascoal, a trindade.

Mas foi nesse dia, nesse primeiro dia em que ouvi o grande mestre, o meu amado e inultrapassável Johann Sebastian Bach que nasceu a minha verdadeira e grande paixão. Por música clássica, por música coral-sinfónica, por música sacra, pelo periodo barroco, por Bach.
E a Paixão, esta paixão de mais de duas horas, deixou uma semente cá dentro, semente que cresceu como e com a própria vida, a grande obra prima da música sacra tão bem pintada. A narração de uma das mais belas histórias de amor.

Estudei-a a fundo, cantei-a, ouvi as mais variadas interpretações, os grandes coros, as doces árias, toquei-a num órgão positivo no meu país e na Alemanha acompanhando o coro e a orquestra que em criança tinha ouvido trajando barroco.

E ainda assim, é uma obra que me traz paz, que me leva e me deixa cheio de sentimentos bons.
Um caminho longo, reflexões corais, leveza e alegria “Ich folgende dir gleichfalls”, traição “Ach, mein Sinn”, entrega “Es ist vollbracht”, morte “Mein teurer Heiland”, arrependimento “Zerfliesse, mein Herze”, paz “Rhut wohl” (que serviu de banda sonora aos meus dois posts anteriores) e finalmente esperança “Ach Herr” num coral tipicamente luterano, música vertical ao contrário da orgia sonora do primeiro coro, tonalidade maior para dar brilho, notas longas para terminar num aberto acorde maior (Mi bemol maior – a terceira nota da escala, armação de clave com três acidentes, frases de três compassos – o tríduo pascoal, a trindade) em que se ouve a palavra “eternamente” .

O mistério da vida tão bem pintado para crentes e não crentes. Pode ser ou não a vida de Deus, é com toda a certeza a mais bela história de amor.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Ainda o acidente de Barajas

De repente o acidente torna-se pessoal.

Dois amigos da Cara-Metade-Mais-Que-Tudo, dois companheiros de trabalho durante mais de um ano em que a Cara-Metade-Mais-Que-Tudo trabalhou nas Canárias, casados e com um filho de cinco anos iam nesse vôo.

A criança, vá lá saber-se porquê, voou na véspera.

Jantámos e ainda os ajudei a fazer o orçamento para 2007 quando estive por essas terras.

...e por agora o saldo pessoal é uma criança orfã, a Cara-Metade-Mais-Que-Tudo destroçada e eu de coração encolhido.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Não sei...

Não sei se é porque já fiz esse mesmo vôo,
Não sei se é por passar constantemente pelo terminal 4 de Barajas,
Não sei se é porque em Madrid me sinto em casa,
Não sei se é por ter um coração que bate em Espanhol,
Não sei se é porque as Canárias, em tempos, me criaram medos e saudades,
Não sei se é por ter estado nas Canárias para estar com quem me diz muito.
Talvez seja porque me sinto, em parte, espanhol.
É porque há gente inocente que morreu.
Sinto-me chocado com as notícias de hoje.
Não me sentiria mais chocado se o acidente de hoje tivesse ocorrido em Portugal.
Não sei porquê.
Mas sei que sinto...

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

O país em que “vivemos”

O nosso país parece um folhetim. Um folhetim daqueles da pior espécie.
Chegou-se ao ponto de transmitir em directo uma operação policial de alto risco (que me recuso a comentar).

Os jornais dão notícias de crimes, de processos morosos, de corrupção, de sequestros, roubos, violações...

... mas entretanto e silenciosamente (porque não choca e não vende jornais) o meu país sobe no ranking dos países mais pacíficos no mundo. E não porque os outros pioraram mas porque Portugal melhorou sendo a criminalidade uma das variáveis utilizadas para calcular este índice.

Fica aqui o link para o sítio. Vejam que vale a pena. Mais do que uma actuação hollywoodesca da polícia portuguesa, são estas notícias que me fazem acreditar no cantinho onde nasci.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Oito de Agosto


Mãe, uma vez mais este texto é para ti.

É um dia difícil, de memórias de gente ida. Esta altura do ano não tem sido meiga connosco e não o foi contigo.

Fez ontem cinco anos que morreu a avó M., de repente, sem aviso, com um golpe de calor. Passaste o teu aniversário numa cerimónia que queremos evitar. Era um dia para seres feliz, deverias ser o centro do mundo. Do meu mundo. Mas dedicaste esse dia ao pai que dava o último adeus à mãe.

Acredito que abriu feridas, as feridas daquele Verão de 94 (já faz amanhã catorze anos, quem diria) em que o teu pai se despedia de ti nos teus braços.

Lembro-me de receber o telegrama poucas horas depois da hora a que nasceste. Saí da casa e caminhei lentamente pelo aldeamento. Olhava as estrelas. Senti-te comigo. Não chorei a primeira grande perda da minha vida. Uma das minhas referências. Senti a mão do avô pousada no meu ombro e uma paz interior inexplicável como se o mundo tivesse parado por uns segundos a sua louca correria. Sabia-te esmagada de dor e ainda assim estava invadido por uma serenidade vinda não sei bem de onde. Eu era parte do mundo, deste e do outro caso exista.

Pediste-me que fosse neste dia. Estive muito tempo sem ir a casa. Queria ir antes. Como não sabes porque estive ausente, não imaginas a vontade que tinha de abraçar-te, abraçar o pai... mas não sabias o quanto precisava de vos ver. Por isso pediste-me para adiar a ida umas 3 semanas para estar no dia do teu aniversário. Percebi-te. Sou teu filho e leio-te nas entrelinhas.

Por isso amanhã estarei aí. Sei que vais chegar ao aeroporto muito antes do avião aterrar e quando sair vais rasgar o teu sorriso e os teus olhos vão brilhar. É o teu aniversário mas vais ter a casa cheia de mimos para mim, farás um dos meus pratos favoritos com muito carinho. Terás o frigorífico cheio com os meus iogurtes, o meu queijo e as minhas águas favoritas. Terás morangos e uma taça cheia de caramelos, enquanto a outra tacinha sobre o aparador estará cheia daqueles caramelos de infância que ainda consegues arranjar. Haverá uma surpresa em cima da cama e enquanto entro no quarto e a abro, tu e o pai espreitam da porta com um sorriso aberto. Mas é o teu aniversário, mãe! tu deverias receber os mimos. Todos os mimos do mundo.

Deverias deixar de lado essa sombra e celebrar a vida de um homem que é o meu maior exemplo. Que te deu a sapiência para que me incutisses os valores que são meus, celebrar a tua vida que é tua e não minha. Deverias pensar em ti, só em ti. Ser egoista por um dia.

Mas sei que é a mim que vais encher de mimos, como sei que esse é o maior mimo que te posso dar.


Et incarnatus est - Bach