terça-feira, 21 de outubro de 2008

Dias bons

Já sei, já sei! Tenho andado ausente. Não há motivos especiais, há mesmo uma enorme preguiça.
Mas o que interessa, o que interessa mesmo, é que hoje recebi uma notícia que me deixou muito feliz. Já desconfiava, tive hoje a confirmação... e assim, assim de repente com uma chamada telefónica de alguém a uns milhares de quilómetros de distância, o mundo deixou de ser cinzento, a crise perdeu toda a importância, o futuro tornou-se mais promissor.

Conheci um verdadeiro momento de alegria, entusiasmo e energia. Fiquei feliz por ver um sonho realizado, um sonho que mais do que meu, era o sonho de quem me ligou.

Estranhamento, as notícias também me trouxeram medo e ansiedade, mas a esperança de que o sonho se concretize torna-se mais forte e mais perto.

Aqui estou a seguir lado a lado o desenrolar dos acontecimentos, feliz por mim, feliz por ti e acima de tudo com uma forte esperança no futuro. Esperando que tudo ocorra como desejado.



Chorus: Jauchzet, frohlocket - Boston Bach Ensemble

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O que vale a pena



Lido muito mal com os problemas da vida real. Não sei ser bom conselheiro, não sei confortar com palavras. Talvez isto seja tudo fruto da minha forma de lidar com os meus problemas. Calo-os. Enterro-os bem fundo em sítios da minha alma onde vou no silêncio da noite, só, tentar desatar os nós.

Não sou pessimista. Não sou, no entanto, optimista.

Ultimamente, quando olho à minha volta, vejo um mundo envolto numa bruma, vejo um céu plúmbeo com imensa carga eléctica pronta a disparar e a cair ao acaso.

À partida não há razões para sorrir, à partida. Não acredito que o passado não volta mais como diz a canção, mas não peço ao tempo para que volte para trás. Afinal, je ne regrette rien, como cantava Piaf.

Neste momento tenho amigos com problemas. Amigos que sofrem. Amigos que vêem amigos sofrer e partir, amigos que vêem dois adultos usar uma criança como moeda de troca, amigos com problemas financeiros, amigos em vias de perder o emprego, amigos em vias de perder a vida.

Quero ser capaz de vos dizer alguma coisa. Sinto que há sempre tanto por dizer...

A alma está cheia e pressiona o corpo que a tenta limitar. Como escape, abro o meu caderno de capa preta, com muitas linhas escritas e outras em branco, escritas na memória e que nunca tomaram forma no papel. O caderno preto impregna-se de mim. Guarda memórias e sentimentos. Guarda silêncios nas páginas deixadas em branco. Por tudo o que guarda, é parte de mim. Amigo de confidências, de sentimentos, de alegrias e de tristezas, de anseios e esperanças.

É mais fácil falar com um caderno que é só meu do que com uma pessoa. Ouve silenciosamente e está ali para mim a qualquer hora do dia e da noite e sem horários para cumprir.

Sempre fui reservado. Raras vezes exprimo sentimentos, os profundos, os que importam. Aqueles que nos tiram o sono ou que nos deixam sonhar. Os que são a essência de mim. Nunca fui bom com palavras, já o disse, penso muito antes de dizer algo e sinto que as palavras encerram e limitam os sentimentos que quero deixar fluir.

Quando um amigo precisa de mim, tento estar lá mas não sei reconfortar. As conversas sérias sobre emoções e sentimentos assustam-me. Sinto-me devassado na essência que é só minha. Mas estou lá, estou lá como o meu caderno preto está para mim. Ouço, guardo.

Ao passear pela blogosfera sinto que a crise chegou a um ponto sério. Talvez seja a altura de ouvir o silêncio. Felizmente (ou infelizmente), o mundo contagiou-me com a gripe severa que o afecta, por isso estou em casa, o que me deixa ouvir o silêncio. (Pena a solução de injectar dinheiro não funcione com a minha gripe e tenha de ficar-me por analgésicos e antipiréticos).

Ontem, quando me preparava para parodiar a crise com a Ivone Silva, chegou-me um mail da Cara Metade Mais Que Tudo com a música que afinal foi o meu post. A crise passou a segundo plano, a possível nacionalização do estaminé, a instabilidade do emprego, tudo perdeu interesse.

Continuaram a chegar más notícias dos mais diversos cantos, os problemas não se resolveram. Decidi não ler jornais, não ligar a televisão, decidi deixar-me no meu silêncio e pensar que por trás de tanta nuvem o Sol continua a brilhar, e por muitos raios que caiam, por chuvadas copiosas ou trombas de água que ocorram, por muita destruição que possa eventualmente acontecer, o Sol, lá detrás, continua a brilhar em silêncio mas disposto a aquecer todos.

E é por isto que as palavras não fazem sentido. Como podemos aconselhar e confortar quando a solução dos problemas que nos rodeiam não está nas nossas mãos? Valerá a pena perder o tempo com as palavras, ou ficar sentado em silêncio a olhar o negro do céu na ânsia de vislumbrar o raio de sol?

O meu chegou num email com uma música, e logo veio outro, porque amanhã, sim, amanhã estarei na cidade que me viu crescer e sábado haverá festa. Porque há gente que me pergunta se estou melhor, porque sinto o calor escondido detrás de tanto ruído.

Acima de tudo porque acredito. E acredito que acreditar, acreditar bem fundo e em silêncio, resolve muitos problemas, ou torna-os menos negros.

Por isso um dia já distante me disse: “Tudo é possível ainda que te digam que não” e foi possível.

Agora, se me permitem, continuarei em busca dos raios de sol.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Boig Per Tu


A la terra humida escric
nena estic boig per tu,
em passo els dies
esperant la nit.

Com et puc estimar
si de mi estàs tan lluny;
servil i acabat
boig per tu.

Sé molt bé que des d'aquest bar
jo no puc arribar on ets tu,
però dins la meva copa veig
reflexada la teva llum,
me la beuré;
servil i acabat,
boig per tu.

Quan no hi siguis al matí,
les llàgrimes es perdran
entre la pluja
que caurà avui.

Em quedaré atrapat
ebri d'aquesta llum
servil i acabat
boig per tu.

Sé molt bé que des d'aquest bar
jo no puc arribar on ets tu,
però dins la meva copa veig
reflexada la teva llum,
me la beuré;
servil i acabat
boig per tu.

boig per tu - sau

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

De regresso ao mundo real

...ou o mundo como os homens o fazem

Não costumo perder o meu tempo a falar das notícias dos jornais, dos acontecimentos que fazem História. Escreve-se muito e fala-se muito. Ouvem-se opiniões e não há muito a acrescentar. No entanto, quando abro os jornais, não consigo ignorar o mundo que me rodeia e decido-me a escrever humanidade com minúscula.

Durante as minhas férias recentes vi um mundo belo, quase perfeito, um mundo salvaguardado pela distância a qualquer centro de decisão ou grande metrópole.

Chegado a Londres, abro o jornal e dou graças por não ter filhos. Em consciência, não quero trazer ao mundo um ser inocente que terá de sobreviver na selvajaria dos tempos modernos.

O primeiro grande choque, tive-o em Lisboa. A velha e bela cidade está doente, muito doente. Passear por Lisboa não foi prazenteiro apesar do Sol e das temperaturas quentes para a altura do ano. No meio da famosa luz de Lisboa sobressaíam edifícios abandonados, degradados, ruas sujas. Não sei quantas vezes, em plena baixa numa tarde de domingo, fui abordado por gente que pedia, que vendia relógios sabe-se lá trazidos de onde, que vendia drogas, tudo isto sob o nariz dos inúmeros polícias que preferem passear-se numas máquinas ridículas e que quando são abordados (queixei-me do assédio na Rua Augusta e na Praça do Comércio) dizem que dá muito trabalho e seguem a passear-se nas ridículas maquinetas.

Pior é quando ao lado desta gente vejo a outra gente, gente que pretende ser o que não é, os chicos-espertos armados em gente fina, de carteiras falsas e um cosmopolitismo de trazer por casa.

Entristeceu-me esta cena da capital do meu país. Preferia a Lisboa dos pregões, da gente boa e genuina, a esta Lisboa vendida à imagem, povoada por pobres, os que pedem na rua, os que assediam e os outros, os pobres de espírito que pensam que a imagem de modernidade e liberalismo os fazem superiores aos demais.

Dói, sentado numa esplanada em pleno Rossio, ouvir os turistas comentar a imagem terceiro-mundista da cidade, velha, decrépita, em que os supostos ricos se exibem num novo-riquismo de trazer por casa (como as casas dos emigrantes lá da aldeia) e os pobres se multiplicam e incomodam sob o olhar ausente das autoridades.

Chegado a Londres as coisas não melhoram, não que a cidade tenha o comportamento provinciano da capital do meu país, longe disso. Em Londres são as notícias. A famosa crise criada pelos homens, pela ganância e pela imagem.

Hoje faz-se História. Os mercados financeiros colapsam por culpa de muitos. A culpa não é só daqueles que mandam. A culpa é também daqueles que se queixam que não querem pagar a factura.

Quando nos Estados Unidos o comum dos mortais diz que os seus impostos não devem tapar o buraco criado no mercado hipotecário, engana-se. O mundo capitalista tem vivido muito além das suas possibilidades, o comum dos mortais gastou o que não tinha, tudo por imagem, e o resultado é que a mão invisível que deveria equilibrar os mercados, tornou-se numa mão visível e muitas vezes calçada com uma luva branca.

Não fosse a ganância dos homens tão grande, não fosse a imagem tão importante, hoje não se escreveriam páginas negras da História universal.

Mas a crise vai bastante além da económica, vai até uma crise de valores e acima de tudo de julgamentos.

Quando vejo uma oração no senado Americano a ser feita para iluminar os senadores antes da votação, pergunto-me porque tem Deus que entrar na resolução dos problemas criados pelos homens. Quando a ganância levou à situação em que nos encontramos onde estava essa invocação a Deus, ou será Deus o antibiótico para as infecções causadas pela bactéria que é a humanidade, num mundo transformado pelos homens?

E onde está a razão dos homens quando perdem tempo a boicotar o filme “Blindness” baseado no fabuloso romance de Saramago “Ensaio sobre a Cegueira” porque dá uma imagem errada dos cegos?

Mais do que nunca, vejo esta parábola dos tempos modernos tomar forma e desenrolar-se diante dos meus olhos perplexos, como é com a mesma perplexidade que vejo o supremo tribunal de justiça do meu país a proibir um seropositivo de ser cozinheiro, quando todos sabemos (ou devíamos saber) como é difícil esta doença ser transmitida, como é improvável que o seja na cozinha de um restaurante.

Como diz a decisão, o vírus está nas secreções, sim, está, está no sangue e nas secreções sexuais que duvido interajam com os alimentos manipulados. Sei também que um eventual corte do dito cozinheiro exporá o vírus ao ar, quando este não é resistente ao oxigénio. Finalmente, se o vírus se encontrar noutras secreções como suor e lágrimas, a doença já estará tão avançada que o sujeito em causa estaria numa cama de um hospital. E tudo isto envergonha-me.

Tudo isto não passa de discriminação e isolamento, de imagem de país seguro, e mais uma vez me recordo do início do já referido romance de Saramago.

Da parte que me toca, prefiro um cozinheiro seropositivo a um com uma gripe ou com uma amigdalite. Mas este sou eu que não percebo nada de leis, sou eu que ainda hoje estive com os meus meninos a dar-lhes de comer, a limpar-lhes o suor das febres e a depositar beijos carinhosos nas testas transpiradas. E depois de retirar a maiúscula à humanidade, depois de decidir que não gostaria de trazer filhos a este mundo de vaidades, olho para as minhas mãos, olho para os meus meninos, fecho os olhos para me ver por dentro e desejo, desejo nunca me deixar vender a estes novos valores que são “desvalores”, desejo que a parte da Humanidade que não perdeu a maiúscula cresça, desejo que esta crise seja uma lição, que acabe com algumas perversões e que a alma volte a ser mais importante do que o corpo, desejo que a imagem dê lugar ao amor, desejo que o tal mundo descrito por Saramago dê lugar ao mundo original para que o “h” cresça, cresça tanto para que este mundo seja outra vez amigo e digno das crianças.