terça-feira, 25 de novembro de 2008

Carta

Pouco escrevo sobre ti. Não sei porquê, não é porque não sinto. Sinto e muito. Tenho por ti tamanhos respeito e admiração que se secam as palavras e ainda fico surpreendido a olhar para ti.

Contas-me o teu segredo? Vá, conta-me! Quando chegar à tua idade quero ser como tu. Quero saber viver cada momento e acreditar sempre.

O próximo dia um de Dezembro é o teu aniversário. Sessenta anos!... e ainda esse brilho no olhar que se vê nas crianças.

As imagens que guardo de ti são belas: ver-te chorar disfarçadamente quando vês as notícias diz-me que sentes, que és humano, que és bom; quando cada um de nós vê as notícias impávido e sereno, tu deixas-te chocar ainda com as imagens da fome em África ou com uma história com final feliz.

Nunca te ouvi dizer “não” a um pedido de ajuda. Gostas de dar, de ajudar.

Lembro-me de ver-te doente com febre na cama do hospital no dia em que a mãe foi operada. A preocupação transfigurara-te e quem entrava naquele quarto de hospital pensava que eras tu o paciente.

Recordo-me de ouvir as histórias de quando nasci. Assim pequenino, a mãe em coma, a minha irmã que te via chorar na igreja ao fundo da rua. Não lhe mudaste a roupa durante uma semana. Quando a mãe acordou, em vez de te sorrir, fez o reparo ao estado em que estava a vossa filha, a minha irmã.

Quando te ofereço roupa, mudas-te imediatamente e vais tomar café para mostrar a roupa nova. Ainda contas as prendas que recebes no Natal como as crianças pequenas.

Mas o que mais admiro em ti, pai, é seres essa criança grande sem ponta de maldade.

Já te vi zangado, nervoso, mas nunca rancoroso. Nunca te vi julgar fosse quem fosse, acreditas que todos temos um lado bom.

Nunca foste dado às convenções e nisso és o oposto da mãe. Para ti é um frete acompanhá-la aos jantares, às festas, participar nas conversas fúteis. Preferes o café com os amigos e, se as houver, as crianças.

Lembras-te da entrada no casamento da mana? Inchado de orgulho com os olhos pequeninos, nem quiseste ler, coisa que fazes tão bem. Sabias que seria demasiado. Depois, na festa, como sempre, deixaste os convivas e passaste grande parte da tarde a brincar com as crianças no jardim. E elas gostam de ti.

Só há uma coisa que te peço. Pensa um pouco em ti. Sei que para ti viver é viver para os outros, mas, e quem cuida de ti? Nunca te ouvi pedir ajuda, um favor, e tu mereces tanto... provavelmente é este o teu segredo, dar.

Sessenta anos, pai! Uma vida de entrega...
...quando durante mais de um ano fazias, diariamente, cem quilómetros para levar sangue ao avô que um dia esteve contra o teu casamento;
...quando cuidas diariamente do teu irmão doente para que não falte ao tratamento;
...quando cuidas todos os dias do teu pai e da tua tia;
... quando cuidas de todos os meus assuntos porque estou fora;
...quando vês que saio e te levantas para levar-me onde seja para que não apanhe um táxi.
Pensas que não reparo? Reparo e admiro, acima de tudo respeito e amo.

Pai!

Tenho tanta sorte, queria ser como tu, acreditar.

Tiveste a tua dose de coisas más, foste abusado por pessoas que se aproveitaram da tua bondade, pessoas houve que confundiram a graça da tua entrega com obrigação, não te queixas nunca, as dificuldades da vida não te amargaram nem sequer te tornaram mais frio.
Talvez por tudo isto, por não teres mal dentro de ti, sejas das poucas pessoas da tua idade que dorme a sono solto a noite inteira sem acordar. É a consciência do dever feito.

Quando penso em ti, neste preciso momento, quando recordo cada episódio, também os meus olhos se humedecem e sinto-o como um bocadinho de ti.

Pai, parabéns!

Obrigado, Pai!

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Silêncio

O silêncio não é ausência. Talvez a melhor música se faça ouvir nos silêncios com o tempo para respirar. Tempo para olhar à volta e tentar ver o mundo, belo e único.

Os tempos que correm são tempos de ruído e nós, facilmente, deixamo-nos envolver e tragar pelo descontentamento. Perdemos a noção de que não ouvimos o silêncio há muito tempo, e que, como bem pintou David Lynch no seu filme Mulholland Drive, tudo não passa de uma encenação exagerada.

Às vezes precisamos de pausas, como a ida ao Clube Silencio, para separar o trigo do joio e entender o que realmente somos e o que se passa. A vida ensinou-me que não devemos fazer planos. Ensinou-me que Deus, se existe, rir-se-á dos planos que fazemos. Mas ensinou-me a ouvir o sil^encio e nele discernir a verdade, a que interessa, e nessa calma tomar as decisões que se tornaram pontos charneira na minha vida.

Não vou dizer-vos o que me preocupa, não interessa e só o tempo pode resolver, também não interessa os probleminhas mundanos e há que saber fazer uma festa de um frigorífico que avaria com a arca cheia de comida. É que de repente o inconveniente torna-se num motivo para sorrir, numa festa não planeada e deixada ao acaso.

Há muitos anos só havia ruído, e sem silêncio não há música, já o disse. No meio de tanto ruído, fiz planos. Hoje, não sei se Deus se ri dos planos que fiz, eu rio-me. Na altura disse-me que não me deixaria levar por uma e para uma relação, e hoje faz quatro anos que um olhar trocado em silêncio cresceu e amadureceu. Hoje celebramos quatro anos em conjunto.

É a velha história da árvore que já usei no passado, aquela que diz que “uma árvore cai com um enorme estrondo enquanto milhares nascem em silêncio”. E quando não cai uma árvore, mas duas, ou três, ou quatro,... quando somos inundados por más notícias nos meios de comunicação, no trabalho, na rua, nas conversas com amigos, ensurdecemos e em vez de ouvir o silêncio, transformamo-nos no silêncio eterno e não na música que se pode tocar ou ouvir.

Assusto-me às vezes com o ruído mas felizmente passo-lhe a perna. Concentro-me nas coisas boas, nos quatro anos que celebramos hoje, no sonho futuro que corre bem, num mundo um bocadinho menos ganancioso e certamente menos racista.

Além dos quatro anos que celebro, descubro no meio de toda a confusão notícias de esperança. Esperança para as minhas crianças e para milhares de pessoas pelo mundo fora. E os meus dias bons, os quatro anos não planeados, um sonho que caminha, tornam-se em esperança. Porque no silêncio ainda consigo descobrir notícias como esta.

Afinal há sempre gente boa, há sempre coisas boas, um trabalho não é tão importante como uma relação, um salário não vale uma entrega, uma crise não vale uma cura, o ruído, aquele onde tudo é falso, onde tudo é fabricado não vale o silêncio do amor.

O que vale a pena é ouvir o silêncio e descobrir a nossa verdade.