terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Um Natal Português

Está oficialmente declarada aberta a quadra natalícia.

É hora de guardar na caixinha das memórias, metida no centro do peito, as emoções de mais um ano.

É hora de deixar os medos de lado. É hora de esquecer a crise, a instabilidade no trabalho, de aceitar que o mundo não é perfeito, mas ainda assim, é belo.

A minha casa, não esta onde passo a maioria dos meus dias, a outra, a casa onde cresci, está à minha espera, a pouco mais de um dia de distância.

É hora de abrir o sorriso para aqueles que o merecem, de encher o mundo de música e de esperança.

Esperam-me a família, os amigos, o calor de um lar nos dias frios de Inverno.

Ouvir concertos com músicas de Natal, recordar concertos idos sem tristeza, ver que no meu país (e onde quer que seja) o Natal é belo.

Por isso deixo-vos aqui quatro andamentos de uma peça que me é muito querida. Chama-se “Um Natal Português”.

Cruza melodias do nosso cancioneiro popular com a erudição de quem tem amor à música sem nostalgias nem constrangimentos. E sexta-feira lá estarei eu sentado na primeira fila para ouvir ao vivo, não os quatro andamentos mas todos... porque em Portugal também se escreve e faz boa música.

Vou deixar mimar-me pelas letras deliciosas, pela linguagem ora crua ora subtil, mas sempre festiva e maravilhada, pelo calor das vozes, pela efusão da orquestra e pelas recordações de um Natal que foi mas que ainda é.

Gosto do Natal, faz-me sentir bem, com alegria e esperança. Porque como dizem os compositores desta obra “o menino é a eterna promessa do novo, da utopia: enquanto um menino nascer, há lugar para toda a esperança.”




Natal Portugues

sábado, 13 de dezembro de 2008

Porque ainda se morre de amor

Hoje fico em casa. Deveria sair, meter-me na confusão da grande metrópole sob a copiosa chuva, o vento desagradável, o frio, fazer as compras de Natal, enfrentar os grandes armazéns cheios de gente, mas fico em casa.

Hoje estou como o tempo, cinzento, chuvoso, porque não sei lidar com o que não consigo entender.

Ontem vi morrer uma criança. Nunca tinha visto morrer ninguém mas não esperava ver morrer uma criança.

Chamou pela mãe que não estava. Depois chamou por mim que não estava. Mas eu, ao contrário da mãe, estava na mesma cidade e não noutro continente.

Já falara antes aqui do meu menino. O único que não estava terminalmente doente e que ficara sem mãe devido à burocracia estúpida e à lei cega e insensível que pensa defender a civilização ocidental mas a despe da boa moral, da alegria e do amor.

Não foi a doença que matou o meu menino, foram as leis. Desde que a mãe teve de tomar a decisão, fazer a impossível escolha, pior do que a de Sofia e bem mais real, que o menino deixou de comer e quando o fazia, rejeitava, e nesta rejeição não só dizia que não à comida mas também ao tratamento. Com os meses o brilho dos olhos definhava, o olhar tornava-se perdido e ver este olhar numa criança, dói.

Quando me via, sorria e abraçava-me. Pedia-me para não desaparecer como a mãe havia feito.
Ontem quando me ligaram, saí do escritório e fui ao hospital.

Desta vez não me pediram que me desinfectasse ou vestisse a bata azul ou que cobrisse os sapatos. Disseram-me: “Entra, só chama pela mãe e por ti. Achamos que não passa desta noite.”

Sorri-lhe como pude. Sorriu-me e pediu-me um beijo. Estive ali três horas a olhar para o meu menino, o meu preferido, a sorrir-lhe e a passar-lhe a mão pelo cabelo encarapinhado. No silêncio cortado pelo “bip” das máquinas.

Adormeceu mas eu fiquei ali a olhar para ele de coração partido e alma desfeita. Estremeceu, abriu os olhos, olhou para mim e sorriu. Aqueles olhos enormes naquele rosto tão magro.

E num minuto o "bip" tornou-se infinito, entraram as enfermeiras, o médico enquanto eu assistia a tudo como se fosse um filme em câmara lenta e só via aqueles olhos grandes fixados em mim.

A cidade calou-se à minha volta e a paz reinava. Fui até a casa e sentei-me às escuras no silêncio. Ignorei o telefone quando tocou, fugi dos compromissos que tinha, vira morrer uma pessoa, uma criança, o meu menino.

Já tarde, quando as pessoas que haviam saído já dormiam, saí, caminhei lentamente sob a chuva da madrugada que me lavava a alma e acalmava a revolta.

Entrei em casa ensopado, já o céu clareava. Dormi profundamente e quando acordei ainda chovia.

Ainda vejo aqueles olhos grandes e negros fixados em mim.

Para muitos, para as estatísticas, foi mais uma criança que morreu de sida.

Para mim foi uma criança que morreu por amor.





Requiem Lacrimosa - Mozart

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Ilusão


Sentado no avião, olho pela janela. Após centenas de vôos ainda gosto de olhar pela janela. Vejo a minha cidade tornar-se pequena, reconheço os espaços tão bem marcados pelas luzes da noite.

A cidade encolhe e ganha um véu que a torna misteriosa quando as nuvens se começam a cruzar. Os contornos perdem a definição e as luzes só se vêem aqui e ali. A cidade torna-se menos reconhecível e mais distante, como as memórias, até desaparecer.

Já só se vê a lua e as estrelas mas sob o manto negro ainda se esconde a cidade cheia de memórias, de histórias e de amores.

Pergunto-me o que faz cada um daqueles que desenham a minha história. Sinto-os longe como distantes estão as estrelas que me seguem. E é aí que o coração salta, se contorce e se ata num nó profundo de saudade.

É duro voltar a casa, ver mais rugas nas pessoas que amamos, ver as crianças crescidas, ouvir os relatos de vida que não presenciamos e sentir uma inveja, saudável mas ainda assim inveja, por perdermos parte de uma vida que um dia foi nossa.

O coração aperta-se tanto que se esvazia e ainda assim parece querer ocupar todo o peito e expandir-se para lá do tórax, enquanto as costelas o seguram com dificuldade no lugar.

Pergunto-me qual o sentido de estar num lugar, noutro e não pertencer a lugar algum. Entendo o que me levou a partir, o que me transformou num lobo das estepes mas não consigo entender o que me leva a ficar.

Deixo-me enganar, lucidamente deixo-me enganar, rumo ao nada, como o céu negro que o avião teima em atravessar. Sei que o engano se transformará em ansiedade que dará lugar à amargura. Que a busca da redenção é quixotesca com a desvantagem de não conhecer os moinhos de vento que devo combater.

Tenho medo de não voltar a ver certas pessoas. Sinto pela velha senhora que passou horas comigo, mãos nas mãos a confidenciar, a senhora que sempre foi dura e aparentemente fria, a segurar-me as mãos, olhando-me nos olhos com os olhos húmidos desgastados pela idade. Apetece-me dizer que ainda nos veremos muitas vezes e por muitos anos, mas não consigo. Se o tempo é implacável comigo, como não o será com quem conta mais sessenta anos do que eu?

Outras mudam, e apesar de ocuparem lugar no nosso coração, não são iguais. Os valores crescem em sentidos divergentes ao ponto de calarem as conversas.

E o meu mundo, assim como as estrelas do céu, é uma ilusão.