domingo, 18 de janeiro de 2009

O instante infinito

Estamos no mês que não tem fim. Um mês longo em que o tempo se torna quase infinito.

É um mês de trinta e um dias como muitos outros, mas a ressaca da correria de dezembro, o retomar as rotinas, as poucas horas de sol, o tempo pouco convidativo e uma magra carteira fazem deste mês o mês mais longo do ano.

Apesar de ser um mês que se arrasta é um mês que me fascina. Tenho tempo de me sentar no sofá ou na mesa do café a devorar livros que esperavam pacientemente ser descobertos. Consigo ouvir discos parados na estante que me olham das suas caixas de plástico sem dizer que emoções guardam dentro. Posso embrulhar-me em sonhos e planos, estender a imaginação nas páginas ainda em branco do meu caderno preto e pintar as pautas ainda vazias com sons que se formam dentro de mim.

Penso nas pessoas com quem estive, com quem queria estar e naquelas com quem já não posso contar. Estudo o ano que passou e os anteriores, sorrio com as recordações boas, revolto-me com as injustas e aperto-me e encolho-me com as más.

Estamos no mês que não tem fim. Um mês longo em que o tempo se torna quase infinito.

Descubro-me.

Aponto-me os sonhos por cumprir e felicito-me pelos cumpridos.

É tempo de sonhar outra vez até que a rotina devore os sonhos e torne o tempo finito.

Mas o tempo é ainda infinito, como infinito é cada instante e quando um instante é infinito os sonhos são possíveis. Todos.

E o meu sonho, o meu grande e possível sonho é o fim definitivo do longo inverno, porque sim, porque estamos quase lá. É ver os meus meninos a correr no parque porque o inverno acabou e chegou a eterna primavera, porque estamos quase lá.

Depois do sonho possível, o provável. O amor, a vida a dois, a partilha das pequenas e das grandes coisas numa vida que renasce e se constrói a cada dia que passa.

Finalmente o sonho que é só sonho. O sonho da história que me chegou numa das recentes leituras e que amplio, que estendo e faço meu. O sonho da história de um país distante, o país onde os homens queriam ser mulheres e onde as mulheres queriam ser homens. O país onde os homens se transformavam em mulheres e as mulheres se transformavam em homens. E os homens que eram mulheres queriam ser mulheres e as mulheres que eram homens queriam ser homens. E os homens queriam ser mulheres que queriam ser homens que queriam ser mulheres...

O país onde os pretos queriam ser brancos e os brancos queriam ser pretos. O país onde os pretos se transformavam em brancos e os brancos se tranformavam em pretos. E os pretos que eram brancos queriam ser brancos e os brancos que eram pretos queriam ser pretos. E os pretos queriam ser brancos que queriam ser pretos que queriam ser brancos...

O país onde os cristãos queriam ser judeus, os judeus queriam ser muçulmanos e os muçulmanos queriam ser cristãos. O país onde os cristãos se transformavam em judeus, os judeus se transformavam em muçulmanos e os muçulmanos se transformavam em cristãos. E os judeus que eram cristãos queriam ser muçulmanos e os muçulmanos que eram judeus queriam ser cristãos e os cristãos que eram muçulmanos queriam ser judeus. E os cristãos queriam ser judeus que queriam ser muçulmanos que queriam ser cristãos que queriam ser judeus que queriam ser muçulmanos...

Nesse país distante deixou de haver homens e mulheres, pretos e brancos, cristãos, judeus e muçulmanos e passou a haver pessoas, só pessoas que se podiam amar em cada instante. E cada instante é infinito e assim os sonhos são possíveis.

Estamos no mês que não tem fim. Um mês longo em que o tempo se torna quase infinito, como infinito é cada instante e quando um instante é infinito todos os sonhos são possíveis.



Bibo no Aozora - Ryuichi Sakamoto

8 comentários:

pinguim disse...

Sim, tens razão; é um mês que convida à reflexão e é um mês em que "assentamos" nos diversos sentidos da palavra.

Passa pelo meu "buraco", pois há lá algo para ti...

Abração.

AnAndrade disse...

Espero que sim.
que todos os sonhos continuem a ser possíveis.
Às vezes, é difícil acreditar.
Um beijo.

Diabba disse...

... e queriam ser todos diferentes e únicos, embora iguais a todos os restantes que por sua vez queriam ser únicos e diferentes, almejando ser iguais a toda a gente!

beijo d'enxofre

Luís Galego disse...

um texto sábio, antes de mais....e, então que seja infinito enquanto dure...

um abraço

geocrusoe disse...

Bem... quanto ao mês, estou numa fase onde o mês presente é sempre mais rápido que o anterior e este janeiro não me parece ser diferente, falta-me tempo neste tempo para fazer muito mais do que gosto.
Quanto a esse país onde todos passaram a ser pessoas, eu bem queria passar por lá e lá certamente cada um passou a ter o tempo do tempo que necessitava para si e para se dar aos outros.
O texto está muito bonito e tem uma mensagem muito rica

AEnima disse...

foi a musica... eu sei que foi a musica... mas assim de repente vi-me nas montanhas geladas niponicas, vendo um mundo branco e preto, infindo... e de paz interior. Nao havia homens nem mulheres em cristaos nem muculmanos. Apenas arvores despidas.

Boo disse...

So te desejo o seguinte: que tenhas um caderno ENORME, e que ainda assim os teus sonhos nao consigam caber la! ;)

Mocho Falante disse...

De facto é um longo mês que também nos permite à introspecção

aquele abraço