domingo, 8 de março de 2009

Desabafo

Hoje falo de mim. Uma vez mais sento-me no café com o meu caderno preto. Olho as páginas em branco do meu caderno preto mas as palavras não vêm. São tantos os pensamentos baralhados com emoções que não consigo encontrar a ponta, o fio da meada, como o costumava fazer com a avó. Depois estendia-lhe os braços de menino e a lã acariciava-me os punhos porque tínhamos encontrado a ordem.

O caos chegou, instalou-se, não consigo ordená-lo, identificar o que sinto, expô-lo, e as páginas em branco do meu caderno preto recordam-me o que ainda tenho para dizer.

Queria ser capaz de escolher as palavras como a minha mãe me escolhe as melhores cerejas, arranjá-las como as castanhas que a minha mãe descasca e coloca com imenso amor no meu prato.

Queria ser um artesão de sentimentos para elevá-los à melhor arte, escolher a melhor matéria prima que tenho dentro de mim e transformar a pior em coisas belas; ser um oleiro de emoções, moldá-las e vê-las tomar forma e cozê-las no fogo lento que arde em mim.

Não consigo, não vejo mais além, assusto-me.

Neste baralhar dos pensamentos e nesta confusão das emoções o meu caderno preto tem ficado vazio. Pousado na mesa olha-me nos olhos e diz-me que tenho o trabalho de casa por fazer.

A melancolia instalou-se e cobre os sentimentos com um ténue manto de nevoeiro frio e húmido. Em casa sinto a companhia desta tristeza que ouço no silêncio, na rua sinto-me só, as palavras tornam-se rolhas que não querem sair pelo gargalo da minha garganta apertada.

Não sentia este aperto desde o Longo Inverno, o tempo sem futuro, o fim do caminho. Agora o caminho é incerto, sigo num comboio e não sei onde é o meu apeadeiro.

Tudo mudou, já nada é o mesmo. A paisagem torna-se turva e indecifrável com a estonteante velocidade. Os meus pilares vacilam e vacilando dois, vacilará o terceiro.

Uma semana e tudo será diferente, completamente diferente. Os comboios seguem sentidos contrários e não sei quando voltarão a encontrar-se no mesmo apeadeiro.

Há viagens que temos de fazer, não podia dizer não. Esse não sou eu mas mais instabilidade se instalou como se a viagem tivesse acelerado para lá do suportável.

Não sei se sou só eu. Acho que não mas é uma questão que pouco se discute, pouco exposta, íntima e ainda assim universal. Tudo está em constante mutação. Queremos sempre algo melhor. Colocamos a barreira cada vez mais alto e passamos a vida a preparar o salto só que nunca saltamos, ou se saltamos é porque nos estamos a preparar para o salto seguinte.

Se buscamos a perfeição absoluta e a felicidade eterna mas esta não existe, então porquê tanto esforço? Sou só eu quem quer que o mundo páre de rodar por uns instantes e me deixe ser em vez de estar? Porque este é o problema, estamos no mundo, não somos no mundo e enquanto estar significa continuidade finita o ser é um ponto infinito que abarca a origem e o fim e os une tornando a mudança numa caminhada estática que é e não está. A mudança cansa, esgota as energias que buscamos incansável e incessantemente.

Nascemos, vivemos, morremos.

Queremos, queremos? queremos ser imortais, pelo menos a ideia é-nos impregnada, vendida como o paraíso da felicidade eterna.

Ninguém nos conhece, ninguém sabe quem realmente somos. Somos passageiros na viagem que não conhecemos numa terra que não é redonda, o destino não é a partida, é a chegada, só a chegada, o fim.

Vêem-nos passar, outros passageiros noutros comboios, cruzamo-nos, vamos lado a lado, separamo-nos, chocamos, uma jornada que dura uma vida. Não nos lembramos quando embarcámos, não conhecemos o nosso apeadeiro. Sabemos que está mais adiante, sempre mais adiante. Muitos desejam uma viagem sem fim mas não entendem que uma viagem sem fim não faz sentido.

Porque há um fim, há uma razão para aproveitar a viagem, cada momento da viagem, apreender cada nova paisagem porque o que passou passou e o presente é passado e o futuro é passado.

O passado é nosso, só nosso. O presente é uma invenção, é um ponto que quando olhamos já é passado e faz parte de nós. O futuro, porquê contar com ele? Se existe será passado ou o comboio não chega e é uma ilusão.

Somos o passado. Reconhecemo-nos pelo passado. O que fizémos, como nos comportámos, como aproveitámos cada momento da viagem. Não entendo porque o ignoramos, não digo que devemos viver no passado, devemos viver do passado porque somos o ontem e não o amanhã.

Quantas vezes ansiamos o futuro e esquecemo-nos do presente que passado somos nós.

Se a viagem não tem fim de que valemos? Valeria a pena viajar? Saber que o que não se atingiu hoje se pode atingir amanhã ou depois? Saber que quando quisermos podemos revisitar os lugares por onde passámos mas que não vimos?

Será a eternidade o paraíso da felicidade eterna ou será a razão de toda a mediocridade? Não sabemos como acaba a viagem. Não sabemos se o comboio pára calmamente para que desçamos, se haverá um violento acidente, se alguém nos expulsa da viagem ou se nos atiramos borda fora. E não saber assusta. Assusta ainda mais saber que vamos perder outras paisagens, que não podemos regressar, ver outros viajantes, apreender o seu passado. Este é o medo que nos faz olhar pela janela, ver a paisagem, pôr a cabeça fora da janela e sentir o vento e os cheiros. É este o medo que nos faz viver mesmo que não saibamos que está ali, presente, que faz com que cada ponto do nosso passado faça sentido, um conjunto infinito de pontos na duração da viagem porque cada momento é infinito e sempre divisível até chegar ao nada, afinal cada ponto presente não é nada mas todos juntos fazem a viagem. A viagem que faz sentido porque tem fim, sem fim viveríamos mortos, o fim faz-nos pulsar a cada ponto por onde passamos, os pontos infinitos do presente que juntos fazem o passado, nos constroem e nos tornam imortais. Imortais porque a viagem tem fim. Imortais na mortalidade.



Adagio for Strings - Samuel Barber

11 comentários:

pinguim disse...

Fabuloso texto sobre a Vida; faltam-me as palavras...
Apenas consigo dizer, que apesar dos medos, dos perigos, do desconhecimento das paragens nas estações e apeadeiros, a viagem vale a pena!!!
Um enorme abraço.

Gostava muito de te conhecer, um dia...

Boo disse...

Sinto isto tudo e mais um pouco do que o que deixaste de escrever...Eu vou no comboio e tenho medo que ao olhar para a janela, abri-la e cheirar os ventos, faca com que o condutor do comboio me expulse dele. E entao nao olho, nao cheiro, custa-me, tenho medo de ir a carruagem anterior por onde passei para chegar a esta. Podem nao me deixar entar para ver os outros passageiros e se me deixarem entrar, sera que nao me proibem de voltar a carruagem do presente??

A verdade e que estou impaciente para ir para a carruagem do futuro, mas com tanto medo de nao conseguir ir visitar as do passado, que fico sempre na mesma carruagem....

Does it make any sense?

geocrusoe disse...

Confesso que ao ler o post e ao ouvir o adágio, quando acabei sentia-me esmagado. julgo que o teu desabafo provém das incertezas em que te sentes mergulhado, a guilhotina e este mundo que não ajuda nada.
há muito que eu tenho uma postura perante a vida: "fazer como tudo dependesse de mim e esperar como tudo dependesse de Deus". Também tive um longo inverno e outro momento de desnorte, tudo se compôs quando levantei a cabeça e fui em frente, esperando que a luz havia de surgir no caminho. Lembra-te que ainda tens amor para dar e quem te ofereça amor.

Kapitão Kaus disse...

Olá:)

Fiquei um bocado perturbado com aquilo que escreves.

Sei, por notícias que nos vão chegando do UK, que as coisas não são muito favoráveis. Quero porém afirmar-te que, mesmo naqueles dias em que as nuvens negras parecem toldar-nos o horizonte deves ter sempre presente que, ainda que o não vejas, o Sol está lá e que haverá sempre uma janela para que ele entre!

Um abraço grande e ânimo!:)

Diabba disse...

???

beijo d'enxofre

Tuxa disse...

nao compreendendo totalmente o contexto, sinto que vem das profundezas. Perante isso, apenas o meu silencio. Poderosas palavras.

caos disse...

Não te conheço, mas resolvi comentar este teu post, porque me tocou...
Sei que é difícil, por vezes, acreditar. E bem queria eu ter a sabedoria de viver somente o presente e de valorizar um pouco mais a vida. Estou a aprender. E por mais que eu seja desesperada, já sou hoje um pouco menos do que ontem. A paciência é uma das maiores virtudes que podemos ter.
Palavras de Eugénio de Andrade, especiais para mim:
"Sê paciente, espera/Que a palavra amadureça/E se desprenda como um fruto/Ao sabor do vento que a mereça."

Gostaria ainda de partilhar contigo um ponto de vista de Inês Pedrosa que também me diz muito, até porque o amor é tudo, é a força, a energia que nos une e nos move a todos:

«O amor é eterno como as estrelas. Não sabemos nada das estrelas, como nada sabemos do amor. Mas muitas vezes encontramos no brilho distante de uma estrela a coragem necessária para atravessar noites de excessiva treva. Sussurramos desejos às estrelas cadentes e confiamos as lágrimas à beleza de um céu estrelado. Precisamos da tristeza para aprender a olhar para o céu. Não falo do céu metafísico, do céu povoado de deuses vingadores, desse céu demasiado terreno que, ao longo dos séculos, tem construído uma história de horror e de guerra. Não falo do céu dos fiéis e infiéis, do céu que ergue fogueiras e cadafalsos, que inventa infernos e torturas, que se despenha em aviões sobre a humanidade. Falo do céu que existe sobre as nossas cabeças demasiado ocupadas a esgravatar a terra. Das estrelas que vivem e morrem sem que o saibamos, e que nos iluminam, se soubermos olhar para elas, como se fossem sempre a mesma, a estrela inicial. É assim a eternidade do amor - indiferente à vida e à morte, capaz de sobreviver à pequena cronologia da vida. Capaz, acima de tudo, de fazer da vidinha presunçosa em que tantas vezes nos enredamos, uma vida verdadeira, votada à única coisa que interessa - o amor. (...)»

AEnima disse...

Percebo as tuas palavras. Mas como sempre, acho que diz mais de ti a musica. Ainda ha dias revi o platoon so para a ouvir. EStou aqui ha meia hora, a aprecia-la pela terceira vez. Porque vivo e choro e sinto o desespero do vazio contigo. Sabes... nao eh por deixarmos partir que perdemos. As vezes eh assim que as ganhamos... porque lhes demos liberdade para serem e viverem como desejam.

Um abraco apertado.

Lua disse...

O teu texto faz-me lembrar a minha mortalidade. Não quero com isto dizer que desgosto, nada disso. Sinto-me muito triste ao ler estas tuas palavras mas estas são necessárias.

Eu nada sou sem o meu passado e o meu futuro nada é senão possibilidades dadas de mão dada pelo meu passado. O presente não existe para mim. Por isso tento com tanta força fotografá-lo.

Um abraço, grande grande. Espero que ainda tenhamos tempo para aquele café.

Anónimo disse...

A vida é mesmo assim uns dias maus outros melhores,mas podes ter a certeza que depois da tempestade, tudo é mais fácil,Estas crises servem para mostrar ao ser humano,
que ele não é uma máquina de fazer dinheiro, por vezes quando se ganha muito, somos menos felizes, quando afinal a felicidade e a paz de espirito está tão perto, apenas com poucos tostôes, um grande amor, paz, caridade, humildade, e dias de sol para aproveitar.Não estejas triste e põe as ideias em ordem.Tudo vai ficar bem, mas nunca como antes o ser humano tem que abrandar, trabahlar menos e viver mais. a familia, e o amor, um beijo da Fifi

Mae Frenética disse...

Há alturas em que o "não saber" nos assusta. Outras em que nos agrada essa ignorância.

Para mim, para o que tenho vivido, parece-me que o salto de que falas, para o qual nos preparamos a vida toda e nunca o realizamos, é mais simples se formos mesmo nóss a dá-lo e não se formos empurrados para ele.

A musica, bela como sempre. E acaba em paz.