quinta-feira, 16 de abril de 2009

De volta à ilha

Estou de volta à ilha.
Como sempre foi uma semana cheia apesar de se ter alongado graças à nossa querida Portugália que decidiu dar-me mais um dia de férias.

Como todos os anos, procurámos uma esplanada para uma brilhante tarde de quinta-feira santa. Lá ficámos pelo Peter’s café que abriu na Ribeira, rendidos ao gin tónico enquanto chovia a cântaros lá fora.

Houve também os concertos de semana santa. Este ano, para comemorar os 2000 anos de São Paulo e os 200 anos do nascimento de Mendelssohn, tive o prazer de ouvir uma Oratória para mim desconhecida. Paulus. Das oratórias de Mendelssohn só conhecia a grande “Elias” mas “Paulus”, quase nunca feita em concerto na íntegra, é uma delícia de obra que subverte muitas vezes a tradicional forma de representar o narrador (normalmente tenor mas nesta obra a soprano) ou Deus (normalmente o baixo, mas nesta obra os naipes femininos do coro). O texto é a vida de São Paulo, o Santo correligionário que perseguia os cristãos (exemplo disso é o martírio de Santo Estevão) que conseguiu a redenção através da conversão e martírio. Como família recentemente convertida ao Cristianismo do Judaísmo, esta obra é para Mendelssohn (patrocinada pelo seu pai) uma autobiografia e muito pessoal recordando ainda assim a forma da Oratória barroca em que os textos bíblicos se alternam com reflexões corais (com melodias dos corais luteranos) e reflexões poéticas nas árias dos vários solistas.
Mas apesar de ser uma obra coral exaustiva (duas horas e meia de música em que o coro quase não tem descanso) não consigo deixar de referir a abertura, a única sem vozes. Às vezes basta ouvir uma abertura destas para sabermos que estamos perante uma obra única. Quando soube que Mendelssohn disse um dia que não sabia como fazer a abertura para a obra, que não sabia como acabá-la, perguntei-me como seria a obra se o compositor não tivesse tido essas dificuldades.
Em suma, uma obra grandiosa e espiritual como uma semana santa nos pede e na comemoração de um Santo que escreveu dos mais belos textos da bíblia.

Sábado, dia morto, foi um dia bem activo. À tarde fui a casa da diabba, à caverna do norte, era suposto pintar uma paredes mas acabei por montar quatro cadeiras e tomar um chá com folar de trás-os-montes. Depois de jantar com amigos que já tinham passado o dia a beber valentemente, rumei à baixa da minha cidade (e que baixa, carago) para ir tomar um copo com a Diabba (que não conseguia andar com os seus sapatos agulha na calçada portuguesa – só não percebo como o faz lá em baixo porque a calçada da capital, além de ser mais irregular é mais escorregadia, que isto de ser basalto e calcário e não granito tem muito que se lhe diga) e com a Aenima.

Domingo, rumo ao Marco de Canaveses, onde o cabrito (que pernoitara envolto em vinho, alho e louro numa bacia de plástico em casa dos meus pais) assava num forno de lenha enquanto deixava cair a gordurinha para o alguidar de barro onde ainda se faz o arroz. E como nos bons velhos tempos do avô, casa cheia. Bendita a hora em que o meu avô se lembrou de mandar fazer uma mesa corrrida na adega, ali entre tonéis e pipas, garrafas e lagar, salgadeira e cuba de vinho, com as mais estranhas coisas penduradas das vigas de madeira (as cabaças, as batedeiras manuais, as candeias de azeite, as canecas de porcelana para o vinho verde, ...) onde coubémos os mais de trinta, o respectivo cabrito e o arroz, os pães-de-ló (sim que eram muitos), o pão-podre, o bolo de amêndoa e os pudins de ovos mais o presunto que o meu tio cortava em fatias tão finas mas que tão bem combinavam com o pão-de-ló e o queijo da serra. À hora do compasso, a história de sempre: entra o padre que estudou no colégio com a minha mãe, atira-nos com a àgua benta, a minha mãe diz que não sentiu nada e ele diz: para esta pecadora é preciso muita àgua e lá vai meio balde.

Segunda-feira, deveria ser na Feira mas a família era a mesma e tinha uns assuntos a tratar – renovar o caducadíssimo BI – mas como eu, pensaram outros milhares, que a fila para a renovação saía pela porta fora e já não davam aquelas senhazitas (como as do talho) enquanto se “aguarda a vez”... à noite ainda fui tomar um copo com uns amigos porque um deles tinha consulta marcada. Pois é, ao que parece, o Lusitano faz cartas astrais grátis às segundas à noite aos clientes mas é necessário marcar. Mostraram-se tão impressionados e entusiasmados que lá me convenceram a marcar para daqui a duas semanas – claro está que duvido poder estar presente, afinal estou na ilha, assim que se alguém quiser aproveitar a vaga...

Terça-feira o meu pai parece preocupado. Pelos vistos há greve da Portugália – enfim, mais preocupado do que eu, se não for hoje vou amanhã e não haver voo é falta mais do que justificada. Obrigadinho Portugália, acertaste em cheio, mais um dia de férias veio mesmo a calhar. Era escusado era a viagem de duas ao aeroporto que esse já eu conheço demasiado bem.

Depois destes dias de reencontros com amigos e família, de comezainas físicas e espirituais, fica um apontamento breve ao sentido da semana. Desliguei-me dos problemas do dia-a-dia, não pensei em crise, mau ambiente de trabalho, protestos. Vivi para mim e para os meus. Sofri pelos meus amigos que sofrem (e infelizmente não são poucos). Alegrei-me pela alegria dos outros, principalmente da família. Preocupei-me seriamente com outros dois amigos que me esqueci dos que se fazem de amigos para benefício próprio.

Foi uma semana cheia de emoções boas e más, mas principalmente boas, em que senti mais perto os amigos e a família e em que pela primeira vez não queria regressar à ilha.



Paulus, Ouverture, Spering - Mendelssohn


9 comentários:

Afrika disse...

Welcome back ! Parece-me que depois de essas ferias um dia pra descansar das mesmas nao te faria mal :D

Quando dizes que nao querias regressar, entendo-te perfeitamente. Fico contente por teres-te sentido tao perto daqueles que tanto queres. :D

Beijinho

AnAndrade disse...

É o Puorto, carago!...

Mad disse...

:)))

Diabba disse...

Não podes ver nada, francamente...

Ao verificares que a micro-caverna se situa numa ilha, descobriste que tb vives numa... pffff imbejoiso!

enxofre

Daniel Silva (Lobinho) disse...

Escreves ao sabor da pena o registo dos dias. E como me move a partilha. :)

O B.I. já vai ser Cartao Unico ou nem por isso?

Gostei muito disto: "Desliguei-me dos problemas do dia-a-dia, não pensei em crise, mau ambiente de trabalho, protestos. Vivi para mim e para os meus. Sofri pelos meus amigos que sofrem (e infelizmente não são poucos). Alegrei-me pela alegria dos outros, principalmente da família."


Referias-te aos "dias de reencontros com amigos e família, de comezainas físicas e espirituais".

Sobre os concertos tens razão. "Às vezes basta ouvir uma abertura destas para sabermos que estamos perante uma obra única."


Grande abraço

Daniel

Claratje disse...

Custa sempre dizer adeus às coisas boas...

AEnima disse...

O lusitano anda cheio de actividades interessantes... hummmmm... tenho k la marcar uma coisa dessas! :D

E essa dos amigos que se fazem passar por amigos (pah... ainda estou de queixo caido com certas historias)... Eu ja comeco eh a ver a coisas ao contrario. Comeco a reparar que sou olhada de soslaio quando faco alguma coisa um pouco mais altruista: "esta gaja mal me conhece e oferece-se para ajudar?!?!". O mundo esta de uma forma em que ja desconfiamos da propria sombra e achamos isso a coisa mais normal do mundo.

Boo disse...

Isto e a tal conexao "umbilical" que nos temos ao nosso pais e quando la estamos e um "ufa" e quando voltamos e "ai ai que doi"!

E a ver se nao levam isto para a sacanagem!

Beijos

pinguim disse...

Amigo
embora em locais diferentes vivemos de certa forma estes dias de Páscoa: em comunhão familiar e com amigos.
Não tive que "regressar à Ilha, como tu, mas bem me agradaria voltar de novo a terras de Sua Majestade (a última vez foram 2 maravilhosas semanas com o Déjan em Londres).
Obrigado pelo teu mail e espero que a tua sobrinha nasça perto de 9 de Maio, eheheh...(vai ser touro, meu Deus!!!).
Abração.