domingo, 26 de abril de 2009

Desabafo

Os dias estão mais longos, brilha o sol e as árvores recuperaram o verde da esperança. Inicia-se um novo ciclo, Primavera. As esplanadas da grande metrópole enchem-se de gente que vive desesperadamente em busca de um raio de sol.

Gostava de sentir o mesmo anseio, a primavera esgota-me. O cansaço abate-se sobre mim e a saúde estremece.

Sinto-me mais vazio, a distância aumenta a desilusão e a solidão aparece de mansinho para instalar-se dentro de mim que vejo no brilho do sol o escárnio de quem comanda a vida.

Fecho-me na minha toca, qual lobo solitário, e alimento-me de esperanças perdidas. Sei que há um mundo lá fora e anseio por ele, digo que sim, que o quero porque sei que me faz bem mas o lobo vence e sem razão aparente, não digo nada e deixo-me ficar fechado em casa entregue aos pensamentos. Ainda ontem o fiz e farei amanhã e depois, e quando o faço o aperto aumenta e a solidão torna-se infinita.

Os amigos não estão lá para sempre. Se não respondemos à chamada, marcam-nos falta até ao dia em que não passamos e deixamos de fazer parte da chamada.

É talvez a ressaca dos dias cheios de emoções, de ser com letra grande e de estar com aqueles que me amam. Sabê-los longe e perder contactos com a vida. Talvez seja a desilusão da traição de quem recebêmos em casa ou perder momentos únicos na vida da nossa vida.

Vem aí uma nova vida, espero ansioso a chamada e a espera lembra-me que não estou. Olho a casa em desalinho, reflexo do desalinho dos meus sentimentos. Quero chorar para aliviar a pressão mas as lágrimas, como eu, não respondem à chamada.

Cada manhã, nova luta. Não encontro motivos que me façam querer sair de casa e passo o dia à espera do toque de saída. No que resta dos dias agora mais longos, penso, penso, penso. É a distância, a nova vida, os que me esperam em vão, quem reclama a minha presença e os que me dizem: volta, precisamos de ti.

Mais do que triste, estou vazio. Preciso daquele empurrão para me fazer sair da letargia em que me encontro porque sei que quando saio, me encontro. Renasço, brinco, falo.

Digo-me desiludido com a grande metrópole, com quem me traiu. Iludo-me. Na verdade estou desiludido comigo porque não consigo deixar que a primavera entre em mim. Nesta desilusão fecho a porta, deito-me e adormeço porque enquanto durmo, o mundo que anseio e evito não existe.

8 comentários:

Claratje disse...

Já sigo o teu blog há algum tempo e gosto muito do que escreves, hoje decidi deixar um comentário maior...
Como te compreendo! Sentir o vazio dentro de nós, não ter vontade de nada! Saber que o mundo espreita lá fora mas só ter vontade de ficar dentro da concha! Saber que os amigos estão lá, incansáveis, se preocupam connosco, mas nós sem vontade de dar o feedback que eles merecem! Saber que a vida não espera, que não nos podemos deixar vencer pelo vazio mas não ter forças para lutar!
Ah mas o objectivo deste comment era dizer para fazeres um esforço e viver; olha eu tb já tive dias melhores e neste momento sinto como se tivesse um buraco negro dentro de mim mas penso que amanha será melhor e todos os dias me tento abrir mais um bocadinho ao mundo! Tento seguir os conselhos dos amigos e qd tenho vontade de chorar penso neles ou em algo bom... Eu acredito que um dia qd menos esperarmos o vazio desaparece...
E um beijinho de força

geocrusoe disse...

"Se não respondemos à chamada, marcam-nos falta até ao dia em que não passamos e deixamos de fazer parte da chamada." foi isto que aconteceu no pós sismo de 98... depois de um período de intensa actividade e de trabalho pela comunidade passei a sentir-me como tu... a fechar-me em casa e a temer sair. Com um diferença cada vez descobri mais coisas, cada vez comecei a sentir-me acompanhado pela música que gostava, pelos livros que lia, pelos filmes que via, pelas flores que cultivara, pelo produtos que semeara e creceu-me um prazer imenso de viver.
Ainda não recuperei totalmente dessa letargia, estou melhor, mas ainda não curado. o procurar as coisas boas de qualquer momento tem-me ajudado muito. Espero que superes isso, mas nunca esperes que o mundo à tua volta esteja perfeito ou minimamente justo e não vale apena desanimar, apenas ter a consciência traquila.

Wask disse...

Os amigos nao marcam falta nem te riscam da lista. Nem exigem desculpas porque nao estavas em dia sim. Os amigos vao buscar-te a casa da proxima vez. Porque se preocupam contigo. Porque pensam sempre o pior quando nao apareces. Porque acima de tudo gostamos imenso de estar contigo.

Mocho Falante disse...

E quando a tristeza aperta, há que abrir a janela e gritar bem alto, EU MEREÇO E QUERO SER FELIZ,porque só assim faz sentido viver...

Espero que essa tristeza rapidamente se dilua num sorriso, num abraço de um amigo

Um grande abraço

Daniel Silva (Lobinho) disse...

Olha nem sei que escrever. Todo o teu texto é um hino. E és um ser humano maravilhoso pelo que demonstras e partilhas. Acredita que te daria maior abraço, se estivesses cá por Portugal. Assim, só posso agradecer ser quem és.

Fico preocupado porque ja te li antes e agora escreves "a saúde estremece". Que estremaç só e seja temporario. May the force be with you, como no Star wars. E foi quando esteve doente que o realizador do Star wars inventou os personagens e a historia... a força de que ele se havia de curar. E daí veio toda ahistoria...

É natural que a solidão e o vazio aumentem devido à distãncia, mas sê forte. E ser forte é chorar, ouvir musica alegre, olhgar para o ceu, escrever no blogue, contactar pessoas para desabafar ainda que pela net... Mas se te fechas na toca, como dizes, é pior. Acostumas-te a ver o escuro e depois nao queres o sol. Eu também sou como tu. Fico um lobo solitario a olhar as minhas feridas. Mas sei que nao devo.

Concordo muito quanto ao que dizes sobre os amigos. Não têm culpa: nós é que nao respondemos à chamada. Compreendo-te tao bem.

Quando dizes nao encontrar motivos para sair de casa, eu diria que estas a entrar numa depressao ou em stress (os sintomas sao muito identicos, porque stress nao é a ideianque temos de correr de um aldo para o outro. A solidão, a desvalorização, a desmotivação... também causam stress..,. e este se for continuado é que pode levar á depressao. Que pode ser leve mas tem de ser combatida, Amigo. Tá? (Acho que não sei o teu nome, whatever).

Quando dizes que precisas daquele empurrão, sou igualinho e nao é a distancia que me causa essa desmotivaçao.

E terminas com o sono: o meu refugio.

Afinal temos muito em comum. Mas por isso te digo: tenta erguer-te à luz e encontra motivos dentro de ti, DENTRO DE TI, por menos que aches que os tenhas.

Por mim, estarei aqui.

Sente-te acompanhado :=)

Lua disse...

O Wask disse tudo.

E até te agarramos na mão para atravessar a estrada, ok?

Beijinhos e um abraço apertado!

pinguim disse...

Quem não desabafa, "rebenta"...
Percebo-te e sei o que sentes; ainda há pouco um amigo meu aqui dos blogs dizia quase o mesmo que tu e grande parte da causa é a mesma: estar longe!
Não é fácil...
Gostei muito dos dois primeiros comentários, pois mostram quão bem te conhecem; não são ocos nas palavras que deixam...
Abraço fraterno.

pinguim disse...

Perdão, queria dizer "três primeiros comentários"...